Notas iniciais
Editado em: 18/04/2013

Antes, porém, nem preciso dizer que Daniela tentou me ligar a semana toda e eu ignorei todas as chamadas. Depois daquela declaração e de tudo o que houve, ela era a última das mulheres que eu queria ver...

Cheguei à Ecomoda e era como se o tempo não passasse dentro daquela empresa.

Entrei e Aura Maria continuava na recepção, maravilhosa como sempre, com todos aqueles contornos e suas saias sempre curtas.Ela me abriu um grande sorriso quando me viu:

— Olá, Doutor, está de volta da sua licença?

Pigarreei:

— Não, Aura Maria, só vim mesmo conversar com o Armando, ele está ocupado?

— Vou verificar.

E se mexeu toda para pegar o telefone e discar o ramal da presidência. Só virei a cabeça levemente de lado para poder visualizá-la melhor:

— O doutor Armando está ocupado? É que o doutor Calderón está na recepção... Ah, sim, sim, obrigada.

Desligou o telefone e me olhou maliciosa:

— Pode ir, o doutor Mendoza está te esperando.

Cheguei bem perto dela:

— Obrigado.

No entanto, me desvencilhei logo e entrei para o elevador.

Armando estava só na presidência, entrei e fechei a porta:

— Olá, mano, onde está Betty?

— Foi levar a Camilla no oculista e em seguida para escola. Estou de saída para o almoço e hoje almoço sozinho, quer me fazer companhia?

— Sim, com todo o prazer desse mundo, meu doutor.

Armando sorriu fazendo uma careta:

— Vamos, então.

Ele pegou seu paletó e saímos.

Todas as secretárias me olharam na entrada e na saída como se eu fosse algum ser de outro planeta. Sim, havia anos que eu não pisava na Ecomoda, mas a situação com Betty ficava mais insuportável a cada dia. Foi então que decidi tirar essa licença... Indeterminada... Já fazia anos que eu nem sequer ligava para as secretárias para ter qualquer notícia da empresa...

Chegamos ao Lenoir, a mesma coisa de sempre também, me senti vários anos mais jovem, como se tivesse desembarcado no passado, tal e qual.

Fizemos os pedidos e Armando abaixou o menu olhando para mim:

— Qual é o próximo capítulo da sua novela, Calderón?... Deixa eu adivinhar, o senhor pisou na bola e ela te tocou pra fora de casa.

— O que Betty andou lhe contando?

— A mim, nada, Fabrícia mesmo o fez. Uma coisa eu te digo, Calderón, ela pode estar se fazendo de equilibrada perto de você, mas não mudou muito, não... Chegou histérica lá em casa esses dias, dizendo que você era o maior canalha de todos os tempos... — e foi fazendo gestos circulares com a mão...

Respirei fundo afrouxando a gola da camisa:

— Ah, irmão, não fiz nada de mais, tive um momento de fraqueza...

— Só me faça um favor antes... Me conta desde o começo porque eu não tive muita paciência para escutar Fabrícia naquele bla bla bla e chorando e contando detalhes e reclamando da vida...não mesmo.

— Sim, com prazer, afinal, o senhor precisa saber da minha versão da história...

Ele sorriu:

— Eu sempre conheço as versões das suas histórias, Calderón.

— Tá, tá, tá, mas deixa eu contar: tudo começou naquele dia em que o Marinho foi atropelado. Antes, na competição, Daniela ficou me provocando e eu não sou de ferro, o que posso fazer...

— Você ficou com a Daniela no clube?

— Você não conhece as táticas daquela mulher, é impressionante... Ela sabe todos os meus pontos fracos... Se tivesse me pedido em casamento ali, eu tinha aceitado.

Armando riu:

— Calderón, Calderón, isso me dá saudade dos velhos tempos... Assim, eu sou extremamente feliz hoje, mas, só me deu saudade de quando fazíamos tudo isso... Parece que foi há tanto tempo...

— Não, Armando, mas vou te fazer a confissão mais constrangedora da minha vida... Tenho me visto cansado dessas coisas... Desde que passei a estar novamente com Fabrícia, esse tipo de coisa não tem me interessado mais como antes... Isso que está me estressando tanto... Acredita que esses dias saí com Helena...

— Helena Navarro? Aquela beldade? Você ainda a vê?

— Via... Mas, espera... Saí com ela, bebi feito um louco, não consegui conversar com ela direito. Só sei que levei-a a um motel e... Eu quase não funcionei, Armando... Daí o álcool me subiu à cabeça e eu vi Fabrícia, aí foi um santo remédio... Mas o pior mesmo foi no dia seguinte: senti tanto asco dela que não consegui nem levá-la pra casa... Eu simplesmente não me senti bem com o que eu fiz...

O nosso almoço chegou, o garçom serviu os pratos. Armando pegava os talheres:

— Eu sei exatamente pelo que o senhor está passando e tenho um remédio.

Fiquei desperto no mesmo momento:

— Fala logo, então!

— Casamento, Calderón. Casamento...

Fiquei olhando para ele, meio distante, até que ele sacudiu a mão em frente aos meus olhos:

— O que houve?

— Por que a cada dia que passa eu acho essa ideia menos absurda?

Armando explodiu em risadas.