Notas iniciais
Editado em: 17/04/2013

Armando atendeu e me disse que podíamos nos encontrar. Ele apenas teria de buscar Camilla na escola e depois disso estava tranquilo, porque não voltava mais para a Ecomoda:

— Aconteceu alguma coisa grave? — ele perguntou, tendo em conta a a surpresa da minha ligação.

— Nada, só quero me lembrar de quando saíamos para beber.

— Tudo bem, Calderón, a gente se encontra às sete naquele bar de sempre — eu o conhecia e ele parecia não ter acreditado muito em minha resposta.

— Tranquilo.

Desliguei o telefone e fui a uma papelaria comprar material de desenho. Eu sei, estava à beira da loucura para ter feito uma coisa desse tipo, mas foi a única coisa que me passou pela cabeça no momento.

Comprei os materiais e joguei-os por sobre a cama, não tive coragem de usar nada. Em seguida fui para o banho e depois fui para o local onde combinara com Armando.Ele já estava lá, um copo de uísque na mão.

— Fala, Calderón.

Sentei-me:

— Qual foi a desculpa de hoje? — perguntei a ele, em provocação.

— Nenhuma. Fabrícia está lá em casa... E se você está aqui, exatamente no mesmo momento, talvez o assunto seja o mesmo.

Pedi um uísque também:

— Por que seria?

— Não sei... Será porque tenho visto vocês dois muito juntos ultimamente? Será porque eu tenho visto muito a Fabrícia de segredinhos com a Betty?... — Armando era todo ironia.

— Ah, é? E você sabe o que ela tem falado?

Ele me olhou de cenho fechado:

— Maldito seja, Mário! Você acha que eu vou ficar me metendo em conversa de mulher?

Levantei as mãos:

— Vai ver você escutou sem querer, só fiquei curioso.

— Não iria ficar curioso à toa, pode contar o que houve.

Levei o copo à boca:

— Agentesebeijou... — disse, tomando um gole imediatamente.

— O quê?

Fiz uma careta:

— Não houve nada de mais, só nos beijamos, foi isso.

Armando começou a rir. Não achei a mínima graça.

— E se isso está te preocupando é porque aí tem coisa...

— Foi ela que pulou no meu pescoço, eu não tenho nada com isso. Também não sou de ferro, não vou recusar.

— E como foi?

— Foi... Como eu posso dizer... Foi sutil... Foi, assim...

— Doce?

Olhei para ele de sobrancelhas erguidas. Era essa a palavra exata:

— Não, foi estranho. E a conversa acabou aqui.

Armando tomou outro gole:

— E descobriu mais alguma coisa sobre o menino?

— Não, por quê?

— Andei rondando-a sobre isso... Ela é muito vaga... Não sei, mas se o pai do menino não fosse você, ela falaria logo sobre ele...

Virei o copo que estava na minha mão.

— Por mais que seja uma suspeita bastante forte, Calderón, não é uma certeza, mas, já pensou na real possibilidade de você ser o pai do menino?

— Já... — a frase pulou da minha boca — quer dizer, não... Mas eu sou um camarada que assume os próprios erros, Armando, não vou fugir...

— Já começou errado. Diga isso à Fabrícia e nunca mais a verá de novo.

— Como assim?

— Vai dizer que o filho dela é um erro, Calderón?

— Eu não disse isso!

Ele fez uma careta:

— Cuidado com o que você diz, então, ou tudo pode ficar muito perigoso...

Pedimos mais uma rodada.

— Mas, Calderón, fala pra mim que sou seu amigo: está ou não apaixonado pela Fabrícia? Nunca te vi tão perto de uma mulher quanto está dela.

Eu quis dizer "não", mas ele ficou entalado na garganta e me engasguei com ele.