Notas iniciais
Capítulo editado em 11/05/2012

Joguei o telefone no sofá, olhei para a janela e percebi que o sol já ia alto. Quase milagre um dia de sol assim. Vesti-me rapidamente com um traje informal, tomei uma aspirina e acordei Daniela com um beijo. Que linda visão dela nua estirada no tapete... Estava tão à vontade como se estivesse sozinha em sua própria casa. Agradeci a Deus pelo fato de terem me convencido a colocar um aquecedor na casa.

Ela esfregou os olhos e os abriu calmamente, até que me viu. Em seguida encolheu-se e se pegou com o pedaço de pano mais próximo, que, aliás, era seu próprio vestido:

– Nossa, Mário, dormi bem mais do que devia...

– Deve ter dormido mal, minha linda... Que péssimo anfitrão eu sou, deixar você dormir aqui no tapete... (Era um tapete melhor que muitos colchões, mas ainda assim, um tapete).

Ela me interrompeu:

– Não, não se preocupe, eu nem senti nada. O efeito do vinho e da nossa noite foram suficientes para me nocautar — e sorriu.

Beijei a testa dela:

– Vou te deixar se vestir tranquilamente. Enquanto isso, providenciarei o nosso desjejum. Tem alguma preferência?

– Na verdade, um café bem forte e uma aspirina.

– Aspirina tenho aqui — tirei do bolso da calça — e trago café rapidinho.

Ia saindo, quando me lembrei:

– Ah, a propósito, ligaram para você no seu celular e, acredite, acabei atendendo sem querer.

Ela deu um salto, se levantando:

– Ai, meu Deus, devia ser a Fabrícia, eu saí da festa ontem dizendo que seria por uns momentos e olha onde estou!

Fiquei sem ação, petrificado de surpresa, como se meu cérebro estivesse sob efeito de algum feitiço paralisante. Com um esforço sobrehumano consegui articular:

– Fabrícia?...Watson?...A modelo?

– Sim, sim — disse isso se vestindo na minha frente.

Em seguida ela tomou a aspirina, sem água, e se despediu mandando um beijo de longe:

– A gente se fala!

Essa cena se passou à minha frente como se estivéssemos submersos. Durou horas, e só me livrei do tal feitiço quando ela fechou a porta detrás de si.

Lembrei-me de que não era por nenhuma coluna que conhecia o nome Watson, mas sim de dentro da própria Ecomoda. Fabrícia Watson foi a mulher que mais me deu dor de cabeça na minha vida, e fiquei feliz quando parei de atender suas ligações e mais feliz ainda quando parei de ouvir seu nome gravado na minha caixa postal. Já fazia sete anos que não tinha sequer uma notícia dela, por isso nem me lembrava mais do seu nome. Mas, se me podia servir de consolo, sentei-me no sofá com a esperaça de que depois da tempestade viria a calmaria, já que eu e Daniela não havíamos trocado telefones, nem feito nenhum plano que seja para o próximo fim de semana.

Liguei para uma cafeteria próxima, pedi um café da manhã que chegou raídamente, e enquanto planejava a noite do dia entre arepitas de milho*, um chocolate** e huevos pericos***, senti um celular tocar embaixo de mim, aquele mesmo barulho irritante da música que escutei hoje de manhã, e me lembrei de ter jogado o celular de Daniela no sofá.

Atendi o telefone. Era a própria:

– Ai, que bom que me celular não está perdido! Mário, você se importaria de trazê-lo aqui pra mim? Preciso muito dele e não posso sair daqui! Faz isso por mim, por favor!

– Você está aonde?

– Na casa dos meus pais — gelei — mas você nem precisa entrar, eu te espero na portaria! É que eu realmente estou precisando muito e o pessoal não me deixa sair!

Se era na portaria eu poderia passar anônimo... Não haveria mal algum:

– Tudo bem, eu vou tomar café, vou pra aí e depois passo no parque para ver se jogaram minha carteira por lá.

– Muito obrigada! Beijo!

Pior do que uma Watson me dando dor de cabeça, só poderiam ser duas mesmo...


Notas finais
* Comidas típicas colombianas.