Calderón e o Cupido
23 Capítulo 23
Notas iniciais
Tão logo Camilla se deu por satisfeita, Armando se levantou chamando a menina para ir embora.
— Mas, já, papai?
— Sim, senhorita, senão sua mãe me esgana!
A menina fez cara amuada.
— Não, faz isso, monstrica, eu prometo que depois a gente faz outro.
— E posso chamar o Marinho, e a mãe dele e o tio dele?
— Todo mundo que você quiser...
— Oba! Então está combinado!
Marinho levantou-se e estendeu a mão para ela:
— Então, tchau, Camilla, a gente se encontra na escola.
Armando acenou a cabeça positivamente:
— Muito bem, Marinho. Se você for só estender a mão para ela a vida inteira, eu aprovo o namoro de vocês dois.
O casalzinho virou as costas um para o outro no mesmo instante:
— Ele não é meu namorado!
— Ela não é a minha namorada!
Disseram juntos e eu e Fabrícia caímos na risada:
— Para de pegar no pé do menino, Armando, meu anjinho só tem sete anos.
— Mas é bom a gente prevenir... Eu conheço muitos homens aproveitadores que só se aproximam de mulheres você-sabe-pra-que... — ele disse isso com os olhos fixo em mim.
— Ei, 'pera lá, vocês não têm mais nada o que fazer a não ser me aborrecerem, não? Armando, se eu sou o primeiro da lista, você vem bem colado em segundo lugar.
— Não venho colado com homem em lugar nenhum.
Não aguentei e ri disso.
— Você pode até tentar esquecer o passado, mas o passado não te esquece, mano... Vai com Deus, e vai pela sombra... — eu dei o ultimato, fechando a discussão.
Fabrícia só ria:
— Tchau, Armando — ela se despediu dele e deu um abraço na Camilla.
— Vem dar um abraço no tio Mário também, Camilla — brinquei.
Armando segurou a mão dela.
— Nem louca você abraça esse camarada. Vamos, filha, gente esquisita é que não falta no mundo... Até mais ver, Calderón — ele disse, sorrindo.
— Tchau, mano...
Estávamos a sós de novo. Marinho se distraíra com uma borboleta e a estava perseguindo parque afora.
Passou um vendedor e veio até nós:
— Que tal um ursinho para a esposa e uma bola para o filho?
Fabrícia ficou vermelha.
— E você acha que eu vou agradá-la com esse ursinho? — respondi ao vendedor.
— Bom, tem esses grandes também, se te interessar...
— Quero o maior. E a bola azul para o menino.
Dei-lhe o dinheiro e pedi que entregasse a bola para o Marinho que logo se distraiu com ela também um pouco distante da gente, mas não longe de nossas vistas.
Fabrícia continuava vermelha e eu estava me divertindo somente, embora devo confessar que a menção das palavras "esposa" e "filho" tivesse rompido com alguma coisa na minha cabeça, afinal, nunca estivera tão envolvido com algo como com aquele passeio...
Ela interrompeu meu raciocínio:
— O senhor anda me presenteando muito ultimamente, senhor Calderón.
Virei-me para ela:
— Bugiganga de parques... Que péssimo presenteador você arrumou, querida.
Ela encolheu-se e daí percebi o que tinha falado... Tarde demais.
— Talvez eu goste disso... Talvez saiba que o presente verdadeiro seja a intenção... Se bem que, se fosse pensar nisso, poderia jogar os seus fora, não?
— Ia jogar até meu desenho fora? O único que eu fiz e vou fazer a vida inteira?
— 'Tá brincando que você não vai desenhar mais.
— Não estou, não. Não pego mais em caneta para rabiscar uma curva que seja. Foi só aquele, para você, e pronto.
— Nossa, que honra...
— Ainda vai jogar ele fora?
Ela balançou a cabeça negativamente:
— Retiro completamente o que disse...
— Então, está certo.
— Obrigada mesmo, Mário, de verdade. Representou muita coisa esse presente... Algo do tipo: conhecer você como eu nunca conheci...
— Nem tinha ideia disso. É só um desenho, Fabrícia.
— É uma coisa que, pelo que eu entendi, você nunca mostrou pra ninguém...
— Sim, isso é verdade. Fazia mais de vinte anos que eu não pegava em uma caneta para desenhar.
— Viu, que maravilha! Mais uma vez, obrigada de coração...
— Não me custou nada.
Ela estava sorrindo:
— E você adivinhou o presente do Marinho, ele ama bola, já furou um monte que eu dei de tanto brincar.
— Isso é ótimo, é uma criança ativa... e... — respirei fundo, era agora ou nunca... — e o pai do Marinho?
Todo o brilho do rosto dela se foi:
— Eu... não gosto de falar sobre isso, Calderón. Só sei que foi uma pessoa que se foi sem que eu a conhecesse...
Dito isso, ela ficou olhando para mim profundamente. Se eu estivesse de pé, meus joelhos estariam tremendo... Fabrícia continuou:
— A única coisa que eu não entendo é: por que a gente tem que aprender e amadurecer em certas ocasiões à custa de preços altos? Algumas coisas simplesmente não se justificam...
E os seus olhos se encheram de lágrimas:
— Prometa-me uma coisa, Calderón: você não vai fazer ninguém amadurecer, nem aprender assim, principalmente o Marinho. Sabe, não importa tudo o que tenha havido entré nós, não o decepcione...
Ela encolheu as pernas e colocou a cabeça entre os braços.
Acheguei-me a ela:
— Ei, ei, ei... Não vou desapontar nenhum de vocês dois...
Segurei seu rosto e ela voltou a abaixar a cabeça. Levantei-o o puxei para mim, calmamente, como se ela fosse uma boneca de porcelana e eu não a quisesse quebrar.
Beijamo-nos. Um beijo sutil, um pouco desajeitado, mas com o peso de uma solidão que eu não conhecia...
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