Calderón e o Cupido
22 Capítulo 22
Notas iniciais
— Você pensa que ainda faz muita diferença na minha vida, não, é, Calderón? Mas o mundo não gira em torno de você... Daniel e eu estamos muito bem... A gente se encontra, conversa... — ela disse, do nada.
— E por que ele não está aqui agora? — provoquei.
— Porque ele é uma pessoa ocupada.
Respirei fundo:
— Lá vem...
— Não vou falar nada, pode ficar tranquilo...
— Seria ótimo eu conversar com a Fabrícia que encontrei no parque de diversões àquele dia.
Ela sorriu:
— O Mário daquele dia também não estava nada mal...
— Agora estou começando a gostar da conversa.
— Falar nisso, tem desenhado?
— Não, por quê?
— É que eu coloquei seu desenho numa moldura lá em casa. Uns amigos me perguntaram quem o tinha feito.
— E o que você disse?
— Disse que tinha sido um artista amigo meu.
— Acho que eu estou subindo de nível no seu conceito.
Ela sorriu novamente e comecei a pegar gosto por fazer isso, fazê-la sorrir máximo de tempo que eu conseguisse...
— Digamos que não tem caído, e isso já é uma coisa muito boa.
— Ah, vou ficar satisfeito com isso, por enquanto... Mas ainda vou te mostrar que não sou como você pinta.
— Vou ficar feliz em ser refutada nesse sentido. Marinho adora você e é como se você fosse um exemplo para ele. Provando que é uma pessoa de caráter, já ajuda muito.
— Gosto muito do Marinho, não vou desapontá-lo...
Olhei para ela e ela me devolvia o olhar de sobrancelhas erguidas. Mas não disse nenhuma palavra. Fiquei constrangido pelo que dissera.
Ficamos um tempo assim. Tive a impressão de que ela queria me falar algo, mas Armando chegou com o casalzinho.
Todos se sentaram, menos o Marinho. Armando olhava para o menino como uma criança ciumenta. Eu só me divertia.
— Como foi o passeio? — perguntei, mais para caçoar de Armando que qualquer outra coisa.
— Ah, foi muito legal, tio Mário. A gente andou o lago inteeeeeeeeeiro
— É, e eu fiz todo o esforço — Armando comentou.
Camilla foi para os braços do pai, que fez questão de trazê-la o máximo possível para perto de si.Marinho ainda estava de pé:
— Mãe, eu posso te pedir uma coisa?
— Claro, meu anjo.
— Então vem cá — chamou-a, levando-a para longe dali.
— Tem certeza de que você não voltou com a Fabrícia, Calderón? — Armando caçoou de mim em resposta.
— Lógico que não, Armando. Só para você saber, ela está de caso com o Daniel Valência, pode uma coisa dessa?
— Com o Daniel? — ele perguntou, assustado.
— Sim, ainda por cima, me encontrei com ele um dia e ele teve a cara de pau de me dizer que não queria nada sério com ela. E hoje ela vem me dizer que está muito bem com ele... Coitada, minha amiga... Fico com pena...
— Sua amiga, Calderón? E desde quando você é amigo de mulher?
— Ora, desde... desde... Sei lá!
— Acho que você está se apaixonando por ela e não quer admitir.
Pulei de onde estava:
— Ficou louco!? Lembra o custo que foi tirá-la do meu pé! Agora você quer colocá-la de novo?
— Eu? Não... Você mesmo quem está fazendo isso...
— Chuta que é macumba.
— Só te digo uma coisa, meu amigo, se é que te posso dar algum conselho: não acreditar que as pessoas mudam, é ser mesquinho.
Ergui as sobrancelhas:
— E desde quando o senhor é tão filosófico, senhor Mendoza?
Ele fez uma careta:
— E desde quando você é tão chato..?
Fabrícia voltou com o menino que estava com uma flor na mão. Armando olhou-o de sobrancelhas erguidas:
— Presumo que isso seja para a Camilla.
O menino era todo inocência:
— Sim, senhor Armando, uma flor para a minha amiga Camilla.
Ela recebeu a flor sorrindo:
— Obrigada — ela respondeu, tímida.
Fabrícia me olhou e sorrimos juntos. Armando continuava com as sobrancelhas erguidas:
— Sim, muito bem, Marinho, amigo... Qualquer outra coisa que você escutar, tipo, namorada essas coisas, é bom você esperar um tempo... Uns trinta anos, quem sabe...
Marinho coçou a cabeça. Apostava todas as fichas que ele não entendera nada. Olhou pra mim.
— Senta aqui, Marinho. Armando está com dor de cotovelo. Ninguém mandou ele ter uma filha, agora que aguente.
— Aguente o que, tio?
— Aguente nada, Marinho, vamos comer, senão as formigas vão levar nossa comida — acabei dizendo, trazendo a cesta de comida para o centro da toalha.
Fabrícia só olhava tudo. Estava abafando o riso.
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