Notas iniciais
Editado em: 16/04/2013

— Você pensa que ainda faz muita diferença na minha vida, não, é, Calderón? Mas o mundo não gira em torno de você... Daniel e eu estamos muito bem... A gente se encontra, conversa... — ela disse, do nada.

— E por que ele não está aqui agora? — provoquei.

— Porque ele é uma pessoa ocupada.

Respirei fundo:

— Lá vem...

— Não vou falar nada, pode ficar tranquilo...

— Seria ótimo eu conversar com a Fabrícia que encontrei no parque de diversões àquele dia.

Ela sorriu:

— O Mário daquele dia também não estava nada mal...

— Agora estou começando a gostar da conversa.

— Falar nisso, tem desenhado?

— Não, por quê?

— É que eu coloquei seu desenho numa moldura lá em casa. Uns amigos me perguntaram quem o tinha feito.

— E o que você disse?

— Disse que tinha sido um artista amigo meu.

— Acho que eu estou subindo de nível no seu conceito.

Ela sorriu novamente e comecei a pegar gosto por fazer isso, fazê-la sorrir máximo de tempo que eu conseguisse...

— Digamos que não tem caído, e isso já é uma coisa muito boa.

— Ah, vou ficar satisfeito com isso, por enquanto... Mas ainda vou te mostrar que não sou como você pinta.

— Vou ficar feliz em ser refutada nesse sentido. Marinho adora você e é como se você fosse um exemplo para ele. Provando que é uma pessoa de caráter, já ajuda muito.

— Gosto muito do Marinho, não vou desapontá-lo...

Olhei para ela e ela me devolvia o olhar de sobrancelhas erguidas. Mas não disse nenhuma palavra. Fiquei constrangido pelo que dissera.

Ficamos um tempo assim. Tive a impressão de que ela queria me falar algo, mas Armando chegou com o casalzinho.

Todos se sentaram, menos o Marinho. Armando olhava para o menino como uma criança ciumenta. Eu só me divertia.

— Como foi o passeio? — perguntei, mais para caçoar de Armando que qualquer outra coisa.

— Ah, foi muito legal, tio Mário. A gente andou o lago inteeeeeeeeeiro

— É, e eu fiz todo o esforço — Armando comentou.

Camilla foi para os braços do pai, que fez questão de trazê-la o máximo possível para perto de si.Marinho ainda estava de pé:

— Mãe, eu posso te pedir uma coisa?

— Claro, meu anjo.

— Então vem cá — chamou-a, levando-a para longe dali.

— Tem certeza de que você não voltou com a Fabrícia, Calderón? — Armando caçoou de mim em resposta.

— Lógico que não, Armando. Só para você saber, ela está de caso com o Daniel Valência, pode uma coisa dessa?

— Com o Daniel? — ele perguntou, assustado.

— Sim, ainda por cima, me encontrei com ele um dia e ele teve a cara de pau de me dizer que não queria nada sério com ela. E hoje ela vem me dizer que está muito bem com ele... Coitada, minha amiga... Fico com pena...

— Sua amiga, Calderón? E desde quando você é amigo de mulher?

— Ora, desde... desde... Sei lá!

— Acho que você está se apaixonando por ela e não quer admitir.

Pulei de onde estava:

— Ficou louco!? Lembra o custo que foi tirá-la do meu pé! Agora você quer colocá-la de novo?

— Eu? Não... Você mesmo quem está fazendo isso...

— Chuta que é macumba.

— Só te digo uma coisa, meu amigo, se é que te posso dar algum conselho: não acreditar que as pessoas mudam, é ser mesquinho.

Ergui as sobrancelhas:

— E desde quando o senhor é tão filosófico, senhor Mendoza?

Ele fez uma careta:

— E desde quando você é tão chato..?

Fabrícia voltou com o menino que estava com uma flor na mão. Armando olhou-o de sobrancelhas erguidas:

— Presumo que isso seja para a Camilla.

O menino era todo inocência:

— Sim, senhor Armando, uma flor para a minha amiga Camilla.

Ela recebeu a flor sorrindo:

— Obrigada — ela respondeu, tímida.

Fabrícia me olhou e sorrimos juntos. Armando continuava com as sobrancelhas erguidas:

— Sim, muito bem, Marinho, amigo... Qualquer outra coisa que você escutar, tipo, namorada essas coisas, é bom você esperar um tempo... Uns trinta anos, quem sabe...

Marinho coçou a cabeça. Apostava todas as fichas que ele não entendera nada. Olhou pra mim.

— Senta aqui, Marinho. Armando está com dor de cotovelo. Ninguém mandou ele ter uma filha, agora que aguente.

— Aguente o que, tio?

— Aguente nada, Marinho, vamos comer, senão as formigas vão levar nossa comida — acabei dizendo, trazendo a cesta de comida para o centro da toalha.

Fabrícia só olhava tudo. Estava abafando o riso.