Calderón e o Cupido
21 Capítulo 21
Notas iniciais
Cheguei receoso de encontrar o Daniel com eles, afinal, ele estava se tornando a pedra no meu sapato. Mas vi Fabrícia somente, brincando com o filho. A toalha já estava posta e havia várias guloseimas espalhadas. Era quase uma visão de filme hollywoodiano, fácil de deixar ser levado por ela, e eu confesso que fraquejei por um raio de segundo, mas só por um raio de segundo porque eu não queria bancar o trouxa.
Marinho me viu e veio correndo:
— Tio Mariooooooooooooooooooooooo!!! "Mais" legal o senhor ter vindo aqui no piquenique com a gente!
Abaixei-me e ele me abraçou.
— Dá pra notar que você gosta dessas coisas, né, xará.
— Gosto, e vou te contar uma coisa — chegou até no meu ouvido — a Camilla vem.
— Ah, que bom!
— E eu vou apanhar uma flor do parque para ela.
— Aprende rápido, hein, mocinho. Daqui a pouco vira o terror das menininhas.
Ele riu:
— E o senhor é assim?
Espantei-me:
— Por que a pergunta? — disse em um tom amigável.
— Porque eu quero ser como o senhor quando crescer, e se o senhor é o terror das menininhas, eu quero ser também.
Acabei rindo do comentário e fiquei lisonjeado com aquilo. Estava mesmo gostando do menino.
Levantei as costas e peguei-o pela mão:
— Vamos lá ver sua mãe.
Fabrícia nos observava de longe. Tive a impressão de que estava comovida, mas foi só uma impressão...
Beijei-lhe as duas bochechas e ela me convidou a sentar. Marinho não sentou conosco, estava entretido perseguindo alguns insetos na grama:
— Pelo visto, passo metade da minha vida te pedindo desculpas — ela disse, entre um meio sorriso.
— Está dizendo isso por ontem?...
Ela acenou em afirmativa.
— Bom, eu espero realmente que você me compense.
Ela sorriu inteiramente:
— Talvez eu possa fazer isso, posso conversar com a Daniela e juntar vocês de novo.
Aquele comentário me desanimou um pouco, claro... Balancei a cabeça mas não respondi nada.
Fabrícia continuou:
— Parece que houve um mal-entendido. Ontem eu não saí contigo porque precisava falar com ela. Ela me disse que você estava frio, diferente.
— Eu? Ela é quem vive brincando comigo. Em um dia, eu sou o centro da vida dela, no outro, nem existo.
— Está gostando de tomar se próprio veneno?
— Ah, não, Fabrícia, não vem comparar essas coisas, não, porque as situações são diferentes.
— Claro que não são diferentes, Mário! Você pensa assim porque você é a vítima agora.
— Não, não, não, pode parar por aí. Nunca dei esperanças a ninguém de nada.
— Nossa, você tinha que se escutar falando! Você ACHA que nunca deu esperanças a ninguém, mas o modo como você agia dava toda esperança do mundo! Eu sofri isso na pele, Mário, você passava mais de uma semana sem dar as caras e eu enlouquecia, perdia o equilíbrio, e depois, você aparecia como se nada tivesse acontecido, me tratava como se eu fosse a única pessoa do mundo para você e isso me desabava totalmente, esquecia tudo o que acontecera! Bem-vindo ao clube, estamos do mesmo lado agora.
— Ah, então é isso...
— É o que?
— Essa conversa toda: um pretexto pra você desabafar.
Ela ficou vermelha. Não sei se de raiva ou de vergonha, mas fomos interrompidos pelos Armando:
— Oi para vocês dois. Estou interrompendo algo?
— Não, irmão, sente-se conosco, Fabrícia e eu estávamos só... comentando algumas coisas do passado.
Ela respirou fundo:
— A Betty não veio? — perguntou, tentando quebrar aquele clima que se havia instalado entre nós.
— Quando você disse a ela que o Calderón viria ela desistiu, mas deixou que eu trouxesse a Camilla porque já tinha prometido a ela.
— Ah, manda um abraço para ela então, diga-lhe que ela fez falta.
— Manda um abraço meu também — eu disse, debochado.
Armando soltou um meio sorriso:
— Se eu disser isso, acho que durmo no sofá uma semana inteira.
Camilla veio correndo e pulou no pai:
— Pai, eu e o Marinho queremos andar de pedalinho no lago, deixa por favor! Vamos com a gente!
Armando franziu as sobrancelhas, esboçando uma expressão de tédio:
— Vamos.
Acenei positivamente para o Marinho. Armando viu e arregalou os olhos, entendo minha mensagem e se colocando no meio dos dois. Eu comecei a rir, até me lembrar de que estava só com a Fabrícia.
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