Notas iniciais
Capítulo editado em: 06/05/2012

Ao sair da delegacia esmurrei a parede da entrada. Se Daniela não estivesse comigo, teria saído por aí chutando tudo. Provavelmente seria preso por vandalismo, ainda bem que me controlei.

Daniela tocou no meu ombro mais uma vez, e confesso que imaginei sua mão deslizando por outros lugares... Entreguei-me ao meu sonho por uns segundos, até que me deparei com seus olhos de céu me encarando:

– Mário, vamos?

Pisquei umas duas vezes e passei a mão pela testa. Poucos segundos suficientes para me fazer suar...Calderón, Calderón... Controle-se em público...

Fiquei inquieto, batendo as mãos no vazio.

Ela, gentilmente, se ofereceu para me levar para casa, e eu, maliciosamente, aceitei de muito bom grado.

Entrei para o carro e fomos escutando um jazz até chegar em casa. Ela não disse nada em cumplicidade comigo e aquele foi o gesto mais bonito que recebi de uma mulher. Essa não me podia escapar.

Cheguei mais tranquilo a casa. Ela me acenou em despedida e eu estaria completamente louco se aceitasse aquilo:

– De maneira nenhuma. Não a deixo ir sem tomar uma taça de vinho comigo. Só sob meu cadáver você sai assim.

Ela sorriu, com certa malícia — como meus olhos estavam acostumados em enxergar essas coisas! — mordeu o lábio inferior e disse, ainda sorrindo:

– Bom, uma taça de vinho não vai me fazer mal nenhum, hã?

– Absolutamente não!

Entramos. Enquanto eu pegava o vinho na geladeira, vi que ela perseguia com os olhos o meu apartamento: contemplou minha coleção de cds do Cole Porter, alguns quadros originais na parede... Adiantei-me um pouco a seu olhar e percebi que na poltrona estavam meus livros sobre sabedoria chinesa a respeito da leitura da face, das mãos, dentre outros assuntos, muito úteis para se impressionar uma mulher... Peguei correndo o vinho e tive tempo de escondê-los. Creio que não tenha dado tempo de ela ver...

Daniela veio até mim, sentou-se no sofá e comentou sobre a organização do meu apartamento. Eu tinha uma faxineira que trabalhava uma vez por semana, mas essas coisas não precisam ser reveladas, uma vez que dizer que a gente mesmo zela pelo nosso "lar" é muito mais proveitoso. Disse, descaradamente, que adorava arrumar a minha casa, que era uma espécie de terapia. Ela se riu mais uma vez e disse haver sido essa a mentira mais bonitinha que ela escutara, mas iria fingir acreditar em mim para que eu não ficasse sem graça. Sorri:

– Ok, ok, você descobriu o meu segredo. Minha terapia é escrever poemas de amor.

Ela riu mais uma vez, mas terminei por prometer que ainda lhe escreveria alguma coisa para lhe comprovar.

Enquanto falávamos de assuntos desse nível de superficialidade e compartilhávamos algumas experiências, a primeira garrafa de vinho se acabou, a segunda... Estávamos no meio da terceira e eu já estava contando sobre algumas aventuras minhas e do Armando, e ela falava das gafes da sua primeira noite e disse ser sorte haver só uma primeira vez, porque não aguentaria outra. Rimos do comentário, e ela se levantou na tentativa de ir embora, mas o fez muito rápido e titubeou. Tentei ampará-la, mas, visto estar do mesmo modo, caí também com ela por cima de mim no tapete. Não haveria quem descolasse nós dois naquele momento. Beijei-a. No começo calmamente, mas fui perdendo o controle e fui tomando da sua boca como um alcoólatra em busca do seu gole depois de muito tempo sem beber. Ela, habilidosamente, foi se livrando de minhas roupas, me tocando, e sabia exatamente como fazê-lo. Quisera eu retribuir-lhe da mesma forma, e tive de me controlar para não rasgar sua roupa e deixá-la nua no primeiro instante.

Fiz amor com ela como nunca fiz com nenhuma outra e nenhuma outra sobre exatamente o que fazer como ela. Num determinado momento, perdi o controle do espaço, do tempo e da minha dimensão.

Quando retornei a mim, ela estava deitada com a cabeça no meu peito completamente suada, quase uma pintura renascentista. Mais do que nunca eu quis dormir e me entregar, mas Mário Calderón não se entrega jamais... Adormeci neste pensamento, no tapete da sala mesmo...

Acordei com um telefone tocando. O aparelho parecia conter em si o som de um edifício em obras na minha cabeça. Desvencilhei-me dela delicadamente e fui meio atordoado em direção ao som. Atendi. Nem me atentei ao fato de que se tratava do celular de Daniela...

Uma voz feminina do outro lado começou a gritar:

– Daniela, pelo amor de Deus, onde você está?!? Estamos desesperados!!! Você saiu ontem da festa pra tomar um ar e não deu notícias! Se você fizer isso...

Aquilo era o som de vinte furadeiras no meu ouvido, tive de interromper:

– Ei, ei, calma, vou passar pra ela que vocês se entendam e ...

A voz lá do outro lado disse:

– ... Mário? Mário Calderón?

Quase deixei o telefone cair, de susto:

– Quem...? Quem é?

E a pessoa do outro lado desligou o telefone.