Calderón e o Cupido
33 Capítulo 33
Notas iniciais
– Tio, Mário, o senhor não me viu competindo!
— Seu tio Mário se perdeu por aí, me desculpa. Em que posição você ficou?
— Fiquei em último lugar, mas...
Ele chegou no meu ouvido:
— Eu nadei mais devagar pra deixar a Camilla ganhar.
Olhei pra ele surpreso:
— Ah, é? Parabéns! Desse jeito você vai ficar impossível quando crescer.
Fabrícia me olhava interrogativamente, mas eu não disse nada.
Daniela veio descendo em minha direção e eu fiquei apavorado. Coloquei o menino no chão e me despedi de Daniel e Fabrícia rapidamente. Fui direto para meu carro que estava do outro lado da rua, quando ouvi a voz do Marinho gritando atrás de mim. Olhei-o e presenciei uma daquelas cenas de filme de ação com música acelerada e câmera lenta: Marinho, com a minha máquina na mão, atravessou a rua correndo sem olhar, Fabrícia e Daniel apareceram no portão correndo atrás dele e no mesmo segundo o menino foi atirado longe por um corola prata.
Olhei para Fabrícia e ela cambaleou desmaiando no colo de Daniel.
O carro parou e eu fui até o menino, enquanto isso Daniel tirou o celular do bolso com uma frieza impressionante. Deve ter ligado para uma ambulância pois ela apareceu pouquíssimos minutos depois.
Marinho estava consciente e chamava pela mãe. Soluçava, fungava, mas não chorava.
Havia sangue para todo lado, alguns cacos de vidro entraram na cabeça dele, nas orelhas dele e eu me coloquei sobre si de modo que ele visse somente a mim e não aquela poça vermelha que se formava à sua volta:
— Santo Deus, que bom que você está consciente... — eu quase chorei.
— Tio Mário, 'tá doendo muito, minha cabeça, meus braços...
— Vai ficar tudo bem, meu anjo, eu te prometo. Você é forte, vai ver...
— Cadê a minha mãe?
— Já vem, querido, já vem... Enquanto ela não vem eu vou ficar aqui com você.
Nesse ínterim, os paramédicos o imobilizaram e também pegaram uma maca para Fabrícia. Daniel veio até mim:
— Você os acompanha? Eu tenho uma reunião com o ministro da fazenda em uma hora e não posso faltar. Você vai e eu aviso a família dela. Assim que tiver tempo, vou ao hospital.
— Certo. — E entrei na ambulância.
Os paramédicos trabalhavam e Marinho olhava tudo muito assustado. Em dois minutos percebi que ele estava querendo fechar os olhos.
— Marinho, ei, ei!
— Eu tô com muito sono, tio Mário...
Os enfermeiros me olharam pedindo-me para que não o deixasse dormir.
— Marinho, olha pra mim, olha pra mim! Não dorme.
— Mas eu tô com muito sono... — E os olhos tornavam a querer se fechar.
— Marinho! — gritei e ele me olhou — Conta pra mim, o que você fez com a bola que eu te dei?
— Eu... Desculpa, tio... ela... ela furou... ontem... Eu estava brincando... com... o cachorro e ela... e ele... mordeu ela com força...
— Marinho, pelo amor de Deus, conversa comigo!
— O que foi, tio?...
— Eu ainda não sei qual é a sua comida preferida.
— Eu adoooro sanduíche, tio, de queijo, igual... igual ao... daqueles...
— Marinho!!!
— Oi, tio... Cadê a minha mãe...
— Você não pode mexer o pescoço, mas ela está do meu lado. Olha pra mim, Marinho!
— Eu estou com muito medo, tio Mário, muito medo...
— Você confia em mim?
— Sim...
— Confia mesmo? Jura que confia?
— Ahan, eu juro.
— Então presta atenção, vai ficar tudo bem, eu te prometo, eu vou estar aqui e vou para o seu lado assim que eles me deixarem.
A ambulância chegou ao pronto-socorro, as portas se abriram e eles levaram as duas macas para dentro. Fui para a recepção mexer com a papelada. Estava um caco de ser humano. Quis com todas as minhas forças que tudo tivesse acontecido comigo e não com ele... E ele nem chorara um minuto sequer... Minhas vistas embaçaram: meu filho não merecia passar por aquilo...
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