Notas iniciais
Editado em: 17/04/2013

– Tio, Mário, o senhor não me viu competindo!

— Seu tio Mário se perdeu por aí, me desculpa. Em que posição você ficou?

— Fiquei em último lugar, mas...

Ele chegou no meu ouvido:

— Eu nadei mais devagar pra deixar a Camilla ganhar.

Olhei pra ele surpreso:

— Ah, é? Parabéns! Desse jeito você vai ficar impossível quando crescer.

Fabrícia me olhava interrogativamente, mas eu não disse nada.

Daniela veio descendo em minha direção e eu fiquei apavorado. Coloquei o menino no chão e me despedi de Daniel e Fabrícia rapidamente. Fui direto para meu carro que estava do outro lado da rua, quando ouvi a voz do Marinho gritando atrás de mim. Olhei-o e presenciei uma daquelas cenas de filme de ação com música acelerada e câmera lenta: Marinho, com a minha máquina na mão, atravessou a rua correndo sem olhar, Fabrícia e Daniel apareceram no portão correndo atrás dele e no mesmo segundo o menino foi atirado longe por um corola prata.

Olhei para Fabrícia e ela cambaleou desmaiando no colo de Daniel.
O carro parou e eu fui até o menino, enquanto isso Daniel tirou o celular do bolso com uma frieza impressionante. Deve ter ligado para uma ambulância pois ela apareceu pouquíssimos minutos depois.

Marinho estava consciente e chamava pela mãe. Soluçava, fungava, mas não chorava.

Havia sangue para todo lado, alguns cacos de vidro entraram na cabeça dele, nas orelhas dele e eu me coloquei sobre si de modo que ele visse somente a mim e não aquela poça vermelha que se formava à sua volta:

— Santo Deus, que bom que você está consciente... — eu quase chorei.

— Tio Mário, 'tá doendo muito, minha cabeça, meus braços...

— Vai ficar tudo bem, meu anjo, eu te prometo. Você é forte, vai ver...

— Cadê a minha mãe?

— Já vem, querido, já vem... Enquanto ela não vem eu vou ficar aqui com você.

Nesse ínterim, os paramédicos o imobilizaram e também pegaram uma maca para Fabrícia. Daniel veio até mim:

— Você os acompanha? Eu tenho uma reunião com o ministro da fazenda em uma hora e não posso faltar. Você vai e eu aviso a família dela. Assim que tiver tempo, vou ao hospital.

— Certo. — E entrei na ambulância.

Os paramédicos trabalhavam e Marinho olhava tudo muito assustado. Em dois minutos percebi que ele estava querendo fechar os olhos.

— Marinho, ei, ei!

— Eu tô com muito sono, tio Mário...

Os enfermeiros me olharam pedindo-me para que não o deixasse dormir.

— Marinho, olha pra mim, olha pra mim! Não dorme.

— Mas eu tô com muito sono... — E os olhos tornavam a querer se fechar.

— Marinho! — gritei e ele me olhou — Conta pra mim, o que você fez com a bola que eu te dei?

— Eu... Desculpa, tio... ela... ela furou... ontem... Eu estava brincando... com... o cachorro e ela... e ele... mordeu ela com força...

— Marinho, pelo amor de Deus, conversa comigo!

— O que foi, tio?...

— Eu ainda não sei qual é a sua comida preferida.

— Eu adoooro sanduíche, tio, de queijo, igual... igual ao... daqueles...

— Marinho!!!

— Oi, tio... Cadê a minha mãe...

— Você não pode mexer o pescoço, mas ela está do meu lado. Olha pra mim, Marinho!

— Eu estou com muito medo, tio Mário, muito medo...

— Você confia em mim?

— Sim...

— Confia mesmo? Jura que confia?

— Ahan, eu juro.

— Então presta atenção, vai ficar tudo bem, eu te prometo, eu vou estar aqui e vou para o seu lado assim que eles me deixarem.

A ambulância chegou ao pronto-socorro, as portas se abriram e eles levaram as duas macas para dentro. Fui para a recepção mexer com a papelada. Estava um caco de ser humano. Quis com todas as minhas forças que tudo tivesse acontecido comigo e não com ele... E ele nem chorara um minuto sequer... Minhas vistas embaçaram: meu filho não merecia passar por aquilo...