Calderón e o Cupido
34 Capítulo 34
Notas iniciais
Preenchi a ficha dos dois com os dados que sabia o mais rapidamente possível, questão de dois minutos no máximo, e fui atrás de notícias. Um dos enfermeiros que estava na ambulância veio até mim, dizendo que era para eu acompanhar o menino porque ele estava muito nervoso.
Entrei no consultório e, assim que Marinho me viu, duas lágrimas caíram no seu rosto... Acho que duas lágrimas caíram no meu também... Mas ambos não tivemos coragem de chorar. Fui até ele:
— Vai ficar tudo bem.
— Eles disseram que vão dar ponto no meu braço e no meu pé... Eu não quero!
— Ei, ei, olha aqui pra mim... É necessário, certo?
— Mas vai doer muito!
— Não vai porque eu não vou deixar, você disse que confiava em mim.
— E eu confio — disse fungando.
— Então eu vou ficar aqui do seu lado e você vai ficar olhando pra mim o tempo todo.
— Tá...
— Então me dá sua mão aqui.
Já enquanto eu conversava com ele e o distraía, os enfermeiros limparam os machucados dele e se prepararam para dar a anestesia. Ele sentiu, porque apertou forte a minha mão, gritou, tentou se desvencilhar de nós, mas, ainda assim, não chorou. Que raio de criança era aquela que não chorava e não esperneava e não colocava tudo para fora? Aquilo me deixou irritado... Não sei... Fiquei mais triste ainda... porque era um traço de maturidade de crianças de sete anos não são maduras, são só crianças...
O mais terrível foi ver os enfermeiros limpando a cabeça dele. Nessa hora Marinho ficou insuportável, cerrou os dentes e não deixava os médicos colocarem a mão nele. Eu não tive forças pra segurá-lo, mas também não tinha forças para sair dali e deixá-lo. Porém aquela cena estava me causando náuseas.
Eles terminaram, fizeram uns curativos e disseram que em pouco tempo o menino teria alta. Marinho mais uma vez perguntou pela mãe e eu disse que iria atrás dela.
Achei-a na sala de espera, sentada, quieta. Fiquei impressionado. Quando ela me viu, veio até mim e passou os braços em volta do meu pescoço suavemente. Apertei-a nos meus braços. Ela disse chorando:
— Eu só não fiquei absolutamente desesperada porque quando perguntei pelo meu filho, me disseram que ele estava acompanhado e me descreveram você... Também, não iria aguentar ficar com meu filho todo machucado sem ficar louca e traumatizá-lo. Então resolvi esperar... Como ele está, Mário?
Ela se afastou, secou as lágrimas e acompanhei-a até o sofá. Enquanto ela se sentava fui até o filtro e peguei um pouco de água para ela. Entreguei-lhe o copo, ajoelhando-me à sua frente:
— Toma, Fabrícia.
Ela passou a mão pelo meu rosto:
— Você estava chorando também.
Ergui as sobrancelhas e dei um sorriso cansado, não estava com cabeça para inventar qualquer desculpa que fosse:
— Só o Marinho mesmo para fazer isso comigo, não? Eu sei como você se sente porque me sinto parecido... Se eu pudesse trocava de lugar com ele sem hesitar...
Ela passou a mão pelo meu cabelo. Continuei:
— Mas, olha, o Marinho está bem. Por um milagre ele ficou o tempo todo consciente e, uma coisa que me deixou estarrecido: ele não chorou nenhum minuto.
Fabrícia tampou o rosto com as mãos e desatou a chorar de novo:
— Está vendo, Mário, que péssima mãe eu sou? Mesmo fazendo tudo o que eu faço... Quando ele tinha uns cinco anos, caiu de uma mureta e ele chorava demais. Eu o vi estirado no chão e fiquei desesperada, não sabia nem o que fazer... Ele ficou tão traumatizado com isso que parou de chorar na mesma hora só para dizer que eu não precisava chorar porque não estava mais machucado... Acho que nunca mais o vi chorar depois daquilo...
— Ei, isso só mostra o tamanho do amor dele por você...
— Mas, Mário, eu afeto ele com minha estupidez...
— Não é assim, Fabrícia, e você é só um ser humano...
Passei a mão pelo rosto dela de modo a secar-lhe as lágrimas...:
— Ele quer te ver, perguntou por você o tempo todo, vamos?
Ela respirou fundo novamente e se levantou.
— E o Daniel, Mário?
— Daniel? Disse que tinha um compromisso inadiável.
Ela abaixou a cabeça, suspirou, mas não me disse nada. Talvez depois disso ela perceba com quem está se envolvendo...
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