Notas iniciais
Editado em: 17/04/2013

Armando se divertia:

— Não pensei que fosse viver para viver isso, Calderón...

Ajeitei a postura, me recompondo:

— Ei, ei, ei, não disse que estou apaixonado. Envolvido, talvez, mas não apaixonado. Ainda vou sair disso tão ileso quanto eu entrei. Deixa-me só passar mais tempo com ela que logo me canso, vai ver.

— Já pensei tudo o que você pensou, Calderón. Também me propus o mesmo, e olha onde estou hoje...

Levantei a mão pedindo para ele parar:

— Já disse para não me rogar praga, Armando.

Ele sorriu de novo, tomou seu último gole, e se levantou:

— No fundo, no fundo, Mário, eu sei que você não está achando a ideia tão má... Amanhã você vai na competição dos meninos?

— Vou, sim.

— Camilla também vai competir, a gente se vê lá, se Betty me deixar conversar com você.

— E você ainda diz que casamento é ótimo.

— Se a parte ruim do meu casamento for a privação de conversar contigo, nem me afeta — disse debochado.

Sorri:

— É... Você sabe que a gente magoa as pessoas que mais ama, não é? Mas eu te perdoo...

— Até mais, Calderón.

— Que Deus te ilumine, irmão.

E ele saiu.

Eu passei o resto da tarde querendo ligar para alguma de minhas amigas, mas pensar no meu último encontro me desanimava por completo. À noite, andando para lá e para cá feito um idiota em volta do celular, disquei um número maquinalmente. Ouvi a voz de Fabrícia:

— Oi?

Aí me dei conta do que tinha feito. Remexi-me na cadeira, incomodado:

— Oi, Fabrícia, desculpa incomodar, só liguei pra... te desejar boa noite.

— Ah, obrigada, Mário. Boa noite pra você também. Amanhã você vai à escola do Marinho, não é?

— Sim, senhora.

— Leva sua máquina fotográfica, por favor! Não sei o que Daniela fez com a minha! Ela não liga!

— Fica tranquila. Eu levo pra você. Boa noite.

— Boa noite, e obrigada por ligar.

— Um beijo.

— Outro.

Envolvido podia até estar, mas apaixonado, não podia ser...