Notas iniciais
Editado em: 16/04/2013

Tão logo Camilla se deu por satisfeita, Armando se levantou chamando a menina para ir embora.

— Mas, já, papai?

— Sim, senhorita, senão sua mãe me esgana!

A menina fez cara amuada.

— Não, faz isso, monstrica, eu prometo que depois a gente faz outro.

— E posso chamar o Marinho, e a mãe dele e o tio dele?

— Todo mundo que você quiser...

— Oba! Então está combinado!

Marinho levantou-se e estendeu a mão para ela:

— Então, tchau, Camilla, a gente se encontra na escola.

Armando acenou a cabeça positivamente:

— Muito bem, Marinho. Se você for só estender a mão para ela a vida inteira, eu aprovo o namoro de vocês dois.

O casalzinho virou as costas um para o outro no mesmo instante:

— Ele não é meu namorado!

— Ela não é a minha namorada!

Disseram juntos e eu e Fabrícia caímos na risada:

— Para de pegar no pé do menino, Armando, meu anjinho só tem sete anos.

— Mas é bom a gente prevenir... Eu conheço muitos homens aproveitadores que só se aproximam de mulheres você-sabe-pra-que... — ele disse isso com os olhos fixo em mim.

— Ei, 'pera lá, vocês não têm mais nada o que fazer a não ser me aborrecerem, não? Armando, se eu sou o primeiro da lista, você vem bem colado em segundo lugar.

— Não venho colado com homem em lugar nenhum.

Não aguentei e ri disso.

— Você pode até tentar esquecer o passado, mas o passado não te esquece, mano... Vai com Deus, e vai pela sombra... — eu dei o ultimato, fechando a discussão.

Fabrícia só ria:

— Tchau, Armando — ela se despediu dele e deu um abraço na Camilla.

— Vem dar um abraço no tio Mário também, Camilla — brinquei.

Armando segurou a mão dela.

— Nem louca você abraça esse camarada. Vamos, filha, gente esquisita é que não falta no mundo... Até mais ver, Calderón — ele disse, sorrindo.

— Tchau, mano...

Estávamos a sós de novo. Marinho se distraíra com uma borboleta e a estava perseguindo parque afora.

Passou um vendedor e veio até nós:

— Que tal um ursinho para a esposa e uma bola para o filho?

Fabrícia ficou vermelha.

— E você acha que eu vou agradá-la com esse ursinho? — respondi ao vendedor.

— Bom, tem esses grandes também, se te interessar...

— Quero o maior. E a bola azul para o menino.

Dei-lhe o dinheiro e pedi que entregasse a bola para o Marinho que logo se distraiu com ela também um pouco distante da gente, mas não longe de nossas vistas.

Fabrícia continuava vermelha e eu estava me divertindo somente, embora devo confessar que a menção das palavras "esposa" e "filho" tivesse rompido com alguma coisa na minha cabeça, afinal, nunca estivera tão envolvido com algo como com aquele passeio...

Ela interrompeu meu raciocínio:

— O senhor anda me presenteando muito ultimamente, senhor Calderón.

Virei-me para ela:

— Bugiganga de parques... Que péssimo presenteador você arrumou, querida.

Ela encolheu-se e daí percebi o que tinha falado... Tarde demais.

— Talvez eu goste disso... Talvez saiba que o presente verdadeiro seja a intenção... Se bem que, se fosse pensar nisso, poderia jogar os seus fora, não?

— Ia jogar até meu desenho fora? O único que eu fiz e vou fazer a vida inteira?

— 'Tá brincando que você não vai desenhar mais.

— Não estou, não. Não pego mais em caneta para rabiscar uma curva que seja. Foi só aquele, para você, e pronto.

— Nossa, que honra...

— Ainda vai jogar ele fora?

Ela balançou a cabeça negativamente:

— Retiro completamente o que disse...

— Então, está certo.

— Obrigada mesmo, Mário, de verdade. Representou muita coisa esse presente... Algo do tipo: conhecer você como eu nunca conheci...

— Nem tinha ideia disso. É só um desenho, Fabrícia.

— É uma coisa que, pelo que eu entendi, você nunca mostrou pra ninguém...

— Sim, isso é verdade. Fazia mais de vinte anos que eu não pegava em uma caneta para desenhar.

— Viu, que maravilha! Mais uma vez, obrigada de coração...

— Não me custou nada.

Ela estava sorrindo:

— E você adivinhou o presente do Marinho, ele ama bola, já furou um monte que eu dei de tanto brincar.

— Isso é ótimo, é uma criança ativa... e... — respirei fundo, era agora ou nunca... — e o pai do Marinho?

Todo o brilho do rosto dela se foi:

— Eu... não gosto de falar sobre isso, Calderón. Só sei que foi uma pessoa que se foi sem que eu a conhecesse...

Dito isso, ela ficou olhando para mim profundamente. Se eu estivesse de pé, meus joelhos estariam tremendo... Fabrícia continuou:

— A única coisa que eu não entendo é: por que a gente tem que aprender e amadurecer em certas ocasiões à custa de preços altos? Algumas coisas simplesmente não se justificam...

E os seus olhos se encheram de lágrimas:

— Prometa-me uma coisa, Calderón: você não vai fazer ninguém amadurecer, nem aprender assim, principalmente o Marinho. Sabe, não importa tudo o que tenha havido entré nós, não o decepcione...

Ela encolheu as pernas e colocou a cabeça entre os braços.

Acheguei-me a ela:

— Ei, ei, ei... Não vou desapontar nenhum de vocês dois...

Segurei seu rosto e ela voltou a abaixar a cabeça. Levantei-o o puxei para mim, calmamente, como se ela fosse uma boneca de porcelana e eu não a quisesse quebrar.

Beijamo-nos. Um beijo sutil, um pouco desajeitado, mas com o peso de uma solidão que eu não conhecia...