Cafés quentes não aquecem corações frios
1 Capítulo 1
O Nobre Café era, desde 1871, referência em barismo naquele pequeno vilarejo de Londres, localizado no Largo Grimmauld. Em suas mesas, nomes socialmente elevados reuniam-se para discutir detrás da fumaça espessa de charutos, política, empreendedorismo e arte, elevando a pompa do lugar e destacando o negócio familiar nas primeiras páginas de jornais elitistas.
O problema era que, tão antigo era o lugar, que seu público pareceu envelhecer junto dele. Em dias de inverno, anciões que pareciam ter saído das catacumbas, reuniam-se e discutiam agora, de forma antiquada, o que a modernidade havia feito de suas vidas vazias. Vezes por outra, um cliente com menos de trinta anos atravessava as portas do Café, adentrando o ambiente de luz bruxuleante e olhos moribundos os seguiam como se fosse a chegada do apocalipse. Cochichavam sem pudores sobre as curvas das mulheres, mesmo que, para eles, nenhuma parecia ter valor suficiente, além de belos seios fartos que eles nunca poderiam tocar.
Anos de pioneirismo tornavam-se anos de puro tédio, principalmente para os meninos mais jovens da família Black.
As mulheres trabalhavam em casa. Pertencia a elas as receitas de tortas, doces e salgadas, que ninguém nunca pedia. Seus maridos eram escalados para a administração — de gastos, de cardápios, de possíveis adaptações. Os filhos cresciam ali, para que assim aprendessem as artes milenares da Mui Antiga e Nobre Família Black e, futuramente, gerenciarem o estabelecimento, passado de geração para geração.
Bem, nem todos no entanto.
Como era o caso de Sirius Black.
Sirius era o completo oposto dos demais. Nunca escondeu o quanto achava antiquado o negócio que havia parado no tempo e, sabendo que até mesmo a velhice se modernizava, apostava na falência próxima do lugar. Ninguém sabia o que exatamente havia de errado na educação do rapaz, nem como seus pensamentos se haviam tornado tão libertinos, mas, para evitar novas frustrações, dedicavam-se a educar o irmão mais novo com o dobro de rigidez exigida para uma família tradicional.
Regulus era criado em rédeas curtas. Por mais injusto que era com um garoto de quinze anos, ele tinha que ser o exemplo. Sempre se esforçava mais do que era possível e era tão exaustivo que não havia uma noite sequer que ele não questionasse a própria existência. Porque nunca parecia ser o suficiente.
Mas sempre estava lá, no dia seguinte, servindo mesas anciãs ao lado do irmão que era o seu completo oposto.
Por mais que fosse o mas novo dos atendentes, os clientes preferiam a Regulus. Ele era sempre muito educado, não fazia perguntas e não abanava a fumaça dos charutos fedorentos que impregnava em suas vestes. Para evitar aborrecimentos, ele quase sempre os atendia, automaticamente.
Naquele dia, caía uma torrente d’água do céu quando a sineta da porta tocou. Uma, duas, três vezes. Por conta da chuva, o Café estava vazio naquele início de tarde. Como de costume, Regulus apanhou alguns cardápios, endireitando a postura e fazendo menção de sair de trás do balcão para o atendimento quando Sirius tocou em seu ombro.
— Deixa que eu vou — anunciou, pegando os cardápios e saindo detrás do balcão.
Os dois já haviam conversado sobre aquilo. Não por iniciativa de Regulus, ele não era de levantar questionamentos com muita frequência. Sirius não achava justo que ele fizesse mais do que deveria, então o trato entre os dois era tentar manter um equilíbrio quanto ao atendimento dos clientes. Não era sempre que funcionava. Não era sempre também que Sirius fazia questão de se colocar a frente, porque era injusto também que trabalhassem e tivessem tão poucos benefícios.
Mas daquela vez Sirius parecia disposto.
Em passos lentos Regulus se aproximou do balcão, tomando cuidado para não se debruçar demais sobre ele e parecer antiprofissional. Observou o irmão mais velho cumprimentar os três rapazes que haviam chegado. Um aperto de mão e um abraço. Pareciam ter a mesma idade que ele. Era antiético, mas dificilmente Sirius se encaixava numa perspectiva ética.
Demorou a entender que se conheciam.
A conversa, que não conseguia compreender dali de onde estava, era observada com julgamento pelos homens mais velhos. Regulus sentiu o rosto esquentar quando Sirius demorou mais do que o normal para regressar ao seu posto, sabendo tão logo que os outros clientes iriam resmungar acerca do episódio, mas o que poderia fazer? O Café era um estabelecimento aberto, mesmo quando havia aquele paradigma pré estabelecido pelos frequentadores mais antigos.
Quando Sirius retornou com o bloco sem anotações de pedidos, Regulus recuou. Permaneceu em silêncio enquanto o irmão moía os grãos de café, servindo até a metade de quatro xícaras. Como se para confirmar, Regulus voltou os olhos para os rapazes. Eles eram três. Voltou-se ao irmão e às xícaras, completadas com uma dose generosa de uísque. Não eram jovens demais para bebidas alcoólicas?
Curiosamente, o que comumente era conhecido como Irish Coffee, no Nobre Café, tinha o nome de uma estrela. Todos eles tinham, assim como os nomes que perpetuavam as gerações da família Black. Aquela era uma mudança recente ali, ideia do tio Alphard que Regulus sempre achou que não batia muito bem da cabeça e surpreendia-o como tal ideia havia sido aprovada no final das contas. O Irish Coffee, naquela nova contextualização, chamava-se Sirius.
Regulus achou um tanto irônico.
— Você os conhece? — Tomou coragem para questionar então.
— Ah, são amigos do colégio — explicou com um sorriso que dificilmente era visto no rosto de Sirius enquanto trabalhava — Ei, Regs. Você me cobre um pouco? Eu prometo que, se as coisas apertarem, eu volto para cá.
Quatro xícaras, pensou. Claro.
Quis dizer não. Não era justo, mesmo num dia quase sem movimento, ficar sozinho atrás no balcão, mas antes que pudesse argumentar, viu-se dando de ombros. E, assim que Sirius o deixava ali, voltava a observar o grupo.
Sirius era, de longe, mais expansivo. Mesmo metido em roupas de trabalho — uma camisa social branca e um avental verde-musgo lhe cobrindo parte da calça social preta — mesmo com os cabelos, o seu grande orgulho, presos num rabo de cavalo, ele era ainda o mais chamativo de todos eles. Regulus chegou a pensar por um momento se aquelas pessoas eram responsáveis pelo desvio de conduta do irmão mas, observando um pouco mais, poderia apostar no contrário.
Como se todo o grupo precisasse de um líder, Regulus tentou identificar dentre eles qual seria. Seria natural se fosse Sirius, afinal, certo ou errado, ainda era um Black, mas seus olhos reca´ra sobre o garoto com olhos miúdos ao lado de seu irmão. Porque comprimia tantos os olhos. Vasculhou um pouco mais e encontrou o par de óculos embaçado na mesa. Assim concluiu que o vapor do café muito provavelmente inviabilizava o objeto. E mesmo que fosse ridícula a forma como forçava a vista e a forma como se aproximava demais dos amigos para conversar, ele parecia também muito proativo. Os outros, inclusive, paravam de falar quando ele estava com a palavra.
E fora ele, antes de tomar o primeiro gole, quem propusera um brinde.
Se fosse possível dividir uma liderança, Regulus apostaria no próprio irmão e no garoto sem os óculos. Mas nunca vira coisa parecida, então, apostou em alguém que não fosse de sua própria família, apenas para variar.
Além deles, haviam os outros dois.
Um deles quase não era visto, tão menor que era. Não porque era pequeno, de fato, mas porque parecia estar encolhido ao lado dos amigos. Talvez pelo frio e por ter a roupa encharcada de chuva, mas era de se esperar que um café quente regado a uísque ajudasse a lhe aquecer. Não era só isso. O garoto, com dentes de ratazana, olhava de um amigo para o outro quando falava alguma coisa, como se esperasse alguma aprovação. Quando não a tinha, baixava os olhos. Pequeno. Desinteressante.
O último, no entanto, destoava dos demais de uma forma, no mínimo, curiosa.
Quando ria não chamava tanta atenção, como se risse para dentro, mas os olhos pareciam sempre brilhar de alguma forma. Parecia quieto também. Enquanto os dois primeiro brigavam pelo pódio da graça e o terceiro praticamente implorava por atenção, ele se mantinha quieto, com o sorriso aberto que fazia os caninos quase encostarem no lábio inferior. Os dedos dele batucavam um livro vermelho, de capa dura. Regulus estranhou. Era férias e não costumava ver o irmão ou mesmo as primas com livros embaixo do braço em períodos como aquele. Ele mesmo se limitava a ler em seu quarto, quando não estava cansado demais depois do expediente. Chegou, naquele momento, a questionar se o livro não havia molhado com o temporal que caía do lado de fora. Quanta irresponsabilidade com um livro.
Deveria esperar uma coisa como aquela. Afinal, era amigo de Sirius, e só poderia esperar aquilo dos amigos de seus irmãos. Menores que pediam cafés regados a álcool e molhavam livros na chuva. Mesmo quando via o rapaz empurrar discretamente a xícara para a frente, enquanto os outros três ainda estavam no começo de seus Irish-Sirius-Coffee, de modo improvável que tivesse mesmo terminado ou bebido a metade do café ali, deveria ser igualmente irresponsável, feito os outros.
Mesmo quando, depois de bastante tempo sentado com uma postura quase impecável, entre conversas ininteligíveis, os três se levantassem em retirada e Regulus percebia o livro sendo escondido embaixo do tecido grosso da roupa do outro, para que não molhasse, não…
Impossível um amigo de Sirius ser diferente do ser desagradável que o irmão mais velho havia se tornado aos seus olhos.
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