Cafés quentes não aquecem corações frios
2 Capítulo 2
Eles voltaram outros dias. Sentavam-se sempre no mesmo lugar, naquela mesma mesa escondida no fundo do café, no canto mais escuro, o que seria bom para manter o ambiente pacífico se eles mesmos não fossem os próprios holofotes. Os mais velhos, cliente assíduos, tinham sempre uma expressão carrancuda na presença dos três e, eventualmente, quatro baderneiros, quando Sirius se juntava a eles.
— Porque os traz aqui? — Regulus questionou uma tarde, com impaciência.
— Ora, somos os melhores da cidade, não? — Sirius lhe dava uma piscadela.
Regulus também não ostentava o melhor humor. Imaginava se não era proposital. Afinal, eles sempre estavam rindo como hienas, e nada no mundo parecia lhes incomodar. Não era bem verdade, mas demorou um tempo para que ele entendesse, o que só, em termos, o irritava mais.
Aconteceu o seguinte: esqueceu-se, propositalmente, de completar uma das xícaras de Irish Coffee com o uísque necessário. Acompanhou de longe, com atenção, a trajetória da xícara até que parasse diante do garoto de óculos — James Potter, como havia descoberto. Tomou um primeiro gole. No segundo, fez careta e resmungou algo incompreensível e então iniciava-se um rodízio da xícara entre os quatro. Até mesmo Sirius tomava um gole e, assim, os olhos seguiam pesados diretamente para o balcão onde Regulus estava. Comprimindo os lábios para conter o riso, o garoto baixava os olhos.
Voltou a erguê-los somente quando um riso distante se fez presente. Ninguém mais achava graça naquilo além do rapaz sentado no canto da mesa, com o livro escondido por um dos braços. Disse qualquer coisa que fez com que os demais resmungassem em represália, dedos apontados, cabeças balançando de forma negativa. E, então, voltavam a rir. Regulus, que há um tempo os estava observando, constatara que aquele era o membro mais quieto dentre os outros, e era no mínimo curioso que achasse graça de algo que fizera, não para ser engraçado, mas para causar alguma discórdia. Curioso e irritante.
Quando Sirius retornava ao seu posto com as xícaras vazias, bufava para Regulus.
— Você fez de propósito, não?! — Questionou.
Eu não sou o empregado de vocês, pensou em responder, mas engoliu essa e outras respostas ofensivas que se passavam em sua cabeça. Limitou-se, assim, a encolher os ombros, respondendo com brandura forçada na voz.
— Eu não tenho costume de preparar este café — improvisou, erguendo os olhos para o mais velho e, antes que percebesse, alfinetava ao final — Principalmente para menores.
Percebeu o rosto de Sirius adquirir uma coloração avermelhada, o punho cerrado. Mas logo, rangendo os dentes, relaxou.
— Você não vai contar. Vai?
Vendo ali uma oportunidade, uma mínima oportunidade de ter Sirius em suas mãos, ele sorriu apenas. Armando-se novamente, Sirius deu de ombros.
— Conte, se quiser.
Noutra vez que voltaram, Sirius estava em seu horário de almoço. Faziam pausas estratégicas, já que eram os dois únicos atendentes na maioria dos dias. Enquanto Regulus preferia comer qualquer coisa atrás do balcão, longe dos olhos dos demais, Sirius se camuflava entre as mesas e não seria mesmo diferente com os amigos lá. Regulus chegou a cogitar se aquele não fora um horário proposital.
De trás do balcão, observou quando o irmão mais velho ergueu a mão direita para lhe chamar. Precisou conter a careta. Contou até dez e apanhou o bloco de anotações, passando as mãos pelo avental verde musgo e se aprumando antes de seguir na direção dos quatro. No caminho, xingou mentalmente e, quando diante da mesa, nem mesmo tentou sorrir, desejando em silêncio que se apressassem no pedido. Afinal, era sempre um Irish-Sirius-Coffee, não?
— O de sempre! — Sirius pediu, como se fosse cliente ali.
— Não, não. Pads quer instalar uma ditadura aqui. — James, o único que sabia o nome porque sempre era citado, ajeitou os óculos para ler o cardápio.
— Eu não posso fazer muita coisa se “sou” o mais gostoso — riu-se, voltando-se ao garoto quieto no canto. — Moony concorda.
Moony? Que tipo de nome era aquele?
De qualquer forma, o rosto de Moony atingiu uma coloração vermelho vivo. Ninguém, além dos irmãos, pareceu notar.
— Regie. — James voltou-se a ele e Regulus precisou conter o sobressalto ao ouvi-lo. Afinal, quem havia lhe dado o direito de lhe chamar daquele jeito? — O que me diz sobre Bellatrix?
Uma psicopata em potencial, pensou primeiro na própria prima, mas voltou, em seguida, o foco ao café. Geralmente os cardápios traziam uma breve descrição de seus produtos e, para Regulus, se aquilo não fosse alguma espécie de provocação certamente ele era burro demais, sem qualquer senso de interpretação textual. As duas hipóteses pareciam ter sentido. Pensou no café e o descreveu mentalmente, já que havia decorado cada um ali: uma dose de café misturada a uma bebida alcoólica, que não o uísque. O Coretto Coffee. Nenhum pouco original.
— Igual a Sirius. Sem graça — resmungou a última frase, recebendo do irmão uma cotovelada.
James voltou-se novamente ao cardápio. Os outros fizeram o mesmo e Regulus sentiu o estômago embrulhar de nervosismo, mas pacientemente esperou. Ouviu tocar a sineta e, de rabo de olho, observou dois senhores adentrando o local tão lentamente que fez o tempo que estava ali parado parecer ainda maior do que verdadeiramente era. Mas precisava ser paciente.
— Andrômeda.
Mocha. Finalmente alguma coisa sem teor alcoólico. Quando anotava no papel, ouvia novamente a voz de James:
— Tem como colocar uísque nesse? — O olhava por cima dos óculos.
Riscou o pedido, ignorando as regras sobre sempre agradar o cliente e negando uma vez.
— Sinto muito — não sentia.
— Andem, o rapaz precisa trabalhar — Moony interveio, o que Regulus quase agradeceu até se dar conta: já estava tão inquieto que os outros haviam percebido?
Encarou os pés, tratando de fincá-los no chão e, uma vez mais, consertar a postura. Os quatro à sua frente respiraram quase em uníssono, se entreolhando por um momento até que James decidisse por eles.
— Sirius então.
— YAS! — O irmão cantou vitória.
— Não pra mim — Moony contradisse.
— Não é hora do chá da tarde, Remus — o garoto com cara de rato que, até então havia mantido o silêncio, disse em meio a risos, mas no momento aquilo não lhe importou.
Remus!
Aquele era o nome.
— Eu quero um tradicional.
— Certo — Regulus anotou os quatro pedidos com tanta rapidez que a própria letra parecia um borrão incompreensível no bloco. — Algo mais? — Por favor, não, desejou.
— Não. — Remus não deu tempo para a resposta dos demais.
E assim, Regulus bateu em retirada.
Não costumava ficar nervoso ao atender, final, estava ali há mais tempo do que se lembrava, mas percebia-se desconcentrado enquanto seguia para a mesa dos dois últimos clientes que haviam adentrado o Café, sentados numa mesa distante do quarteto.
Os pensamentos por um momento se embaralharam. Faltava muito para o fim das férias? Imaginava se, depois daquele período, as coisas voltariam a ser como antes.
Regulus nem mesmo prestava atenção em quem estava atendendo. Se prestasse, certamente se lembraria das suas teorias fantasiosas acerca daqueles dois clientes que pelo menos duas vezes na semana estavam ali, sempre juntos. Prestaria atenção na proximidade dos dois e tentaria comprovar, mais uma vez, que eram um casal.
— Está tudo bem, meu filho? — Questionou o velho mais velho dos velhos.
— Claro — improvisou, confirmando o pedido. — Dois cortados. Certo.
Voltou para trás do balcão.
Enquanto moía o café, ouvia as vozes juvenis distantes. Já podia reconhecer cada uma delas: a comicidade arrogante na do irmão mais velho, a de James que era sempre alta demais, a do outro que parecia, como ele, a de um rato esganiçado e a de Remus. A última era a que menos ouvia, no entanto, mesmo quando se esforçava para fazê-lo. Mas agora tinha o eco dela muito vívido em sua mente.
Serviu as três primeiras xícaras. Sirius ao cubo. Qual era mesmo o pedido do outro? Tentou identificar a própria caligrafia, lembrando-se da entonação grave de sua voz. “Eu quero um tradicional”, ele dissera e, só então, ele pode identificar o que escrevera na caderneta.
Remus havia pedido um Regulus.
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