Café Preto Mentolado

1 Capítulo 0 - Introdução do futuro escritor.


Notas iniciais
Esse capitulo foi planejado para ser uma One-shot, mas bem... Eu gostei do personagem, do vidente e daquele ser desavisado que aparece na vida de ambos... Então decidi levar a história adiante. Pra quem conhece minha escrita... Isso está bem diferente, e um pouco mais amargo, mas veja... Eu prefiro assim...

Existem três coisas importantes a serem destacadas antes de a história começar de maneira própria e adequada. E essas coisas são importantes e devem vir antes da história por três motivos igualmente importantes e adequados. O primeiro motivo são as pessoas que vão ler, e que dificilmente vão entender o que estão lendo. Isso é em parte uma reclamação e em parte um fato, mas isso não vem ao caso tão cedo. O segundo motivo é o interesse das mesmas, já que ele é escasso e vai fazer elas largarem tudo antes de chegarem ao final. Isso é importante porque é um péssimo costume, nada adequado e não muito elegante. O terceiro motivo é que a coisa toda, logo em seu começo, é extremamente pessoal e odiaria que virasse publico. Não por mim, já que eu nunca liguei muito para mim, mas por ele.

Quem é ele? Bem, isso já é um pouco mais complicado, mas tudo bem... Eu vou falar dele, juro, bastante e de forma bem eloquente... Mas só durante a história, uma vez que eu jamais teria coragem de dizer isso a qualquer pessoa que fosse. Isso nos leva as três coisas importantes a serem destacas.

A primeira delas é que isso tudo que está escrito aqui não tem, sob nenhuma circunstancia, um motivo para estar escrito aqui. São palavras jogadas, uma depois da outra, na tentativa vã e tola de fazer algum sentido. Meu concelho seria: não leia. Mas ai teríamos um problema, já que você já começou a ler. Nesse caso meu conselho seria: não me obedeça. Os dois concelhos são ótimos e aprovados pelo conselho geral de saúde de cento e quarenta e sete países, portanto fique a vontade para seguir qualquer um deles. E não, você não deve pesquisar sobre isso na internet. Eu sou legal. E inteligente. Você pode confiar em mim.

A segunda coisa a ser destacada é o fato de essa história ter um gay. Esse sou eu. E eu apareço bastante nela, porque seguindo eu enorme clichê eu gosto bastante de aparecer. Embora raramente faça de proposito, mas sabe como é... Não dá para ser Glitter sem brilhar. O Que nos leva a um fator que será chave em nossa história: Se você não gosta de mim porque eu sou gay, você provavelmente também não vai gostar da minha história. Isso, é claro, é uma enorme crueldade para comigo, mas veja... No momento eu não estou diante de você, e já não me importo mais com o que vai achar de mim. Devo estar dormindo ou brilhando, já que essas são as minhas duas atividades favoritas. Sendo assim, você poderia parar de ler. Não é sua obrigação gostar de gays, e é provável que eles nem gostem de você, então... Por que se dar ao trabalho? Deixe a história de lado, rasgue-a ou jogue fogo em seu monitor imaculado se isso te incomoda tanto... Eu realmente não vou me sentir ofendido. Já faz parte do que sou não me ofender facilmente.

A ultima coisa importante que tenho a dizer antes da história começar é: Ela é relativamente banal. Não espere uma moral, um drama ou uma comedia romântica que justifiquem o fato de ter um gay narrando a história. Ainda assim, de certa forma, eu a acho muito interessante. E foi por isso que a escrevi e a coloquei a sua disposição para que tivesse acesso a ela.

Resumindo as coisas para quem não quis ler toda a explicação: Não leia, não leia, e leia. Avisos e motivos dados, já podemos começar o enredo.

Eu gostaria de dizer que essa história aconteceu em uma linda cidade, rodeada pela neve, onde lindas criancinhas sorriam umas para as outras, a maldade não existia e todos tinham motivos para serem felizes e nunca reclamar. Mesmo. Mas seria mentira, e eu prometi a ele que não mentiria se um dia fosse contar a nossa história. É por isso que passarei a vocês o cenário verdadeiro de nosso conto, que está um pouco distante daqueles que são considerados de fadas.

O dia era quente. Os termômetros térmicos de mercúrio já ameaçavam explodir, como naqueles desenhos animados, quando se tem febre demais. As ruas estavam sujas, como sempre, e ele deve ter visto pelo menos três ou quatro mendigos em seu habitual e normal caminho para o trabalho. Não era nem de longe uma pessoa ruim, mas não tinha muito dinheiro em seus bolsos, e o que tinha estava reservado a funções básicas de sobrevivência. Café, almoço, cigarro e transporte.

Passou na minha loja, como sempre. Veja, a loja não era exatamente minha, mas eu trabalhava nela, fazia os cafés e vendia os cigarros. Talvez seja a força de expressão, ou talvez seja o costume de dizer que a loja é minha... Não sei bem, acho que só gosto de como soa.

De qualquer forma, ele comprou o mesmo café de sempre. Um mokaccino grande e com bastante açúcar, um daqueles cigarros mentolados que tem uma bolinha no filtro e um pequeno bolinho. Estava especialmente encantador aquele dia, apesar de sua roupa ser extremamente simples e comum. Sorriu, agradeceu, pegou seu pedido e foi embora.

E nunca mais nos vimos.

Ou ao menos essa é a versão oficial. A que ele contou no trabalho, para a família e para as prováveis futuras namoradas. E eu gostaria de deixar bem claro que eu jamais vou desdizer ou contradizer sua versão, e nem tenho qualquer magoa. Se me deixa triste? Bem, sim. Creio que isso seja natural... Mas eu juro, não tenho magoa. Só tristeza. Agora que vocês já sabem disso, acho que posso lhes dizer o que realmente aconteceu.

Ele sorriu. Eu devolvi o sorriso quase que instintivamente. Não por estar dando em cima dele, não por pensar que aquele sorriso para mim era de qualquer forma especial... Só senti uma enorme vontade de sorrir quando ele entrou porta adentro e sorriu para mim.

- Café preto, por favor. – Ele pediu piscando, se sentando ao balcão logo na sequencia.

Isso era um código nosso. Quando havia conhecidos dele, por alguma razão, ele não pedia seu Mokaccino. Talvez por não gostar que as pessoas soubessem que alguém tão serio gostava de algo quase infantil, talvez por... Bem, eu não sei dizer. Havíamos combinado isso a muito tempo, em uma de nossas conversas, e eu gostava de seguir meus tratos a risca. Minha mãe é quem sempre dizia: Gay ou não, palavra é palavra.

Embora eu não ache que isso faça qualquer sentido, de qualquer forma.

Eu trouxe sua bebida. Ele a pegou e a assoprou três vezes antes de a levar a boca. Depois sorriu.

- Está ótimo. – Riu. – Obrigado.

- É sempre um prazer. – Respondi, me retirando.

Ele, por algum motivo, me impediu. Parecia triste. Não especialmente naquele dia, mas em todos os dias antes daquele, e por isso decidi conversar com ele. Contra todas as regras que vieram antes e depois, é claro.

- Como você está? – Ele perguntou. Parecia esperançoso de conseguir começar uma conversa com alguém novo.

- Bem, e você? – Respondi.

- Bem também. – E sorriu.

Entre essa que acabei de escrever e a próxima fala se passaram cerca de dois minutos, assustadoramente longos. Por algum motivo, o momento de silencio só foi quebrado quando eu ia finalmente dar as costas e continuar meu trabalho. A Louça me esperava, as contas no caixa me esperavam e... Bem, resumidamente eu tinha mais o que fazer.

- Você acha legal trabalhar num restaurante onde ninguém vem? – Ele perguntou. O único cliente além dele havia acabado de sair.

Não tenho certeza se essa foi uma pergunta rude, e bem... Não sei dizer se eu sou uma pessoa ruim por ter ficado ofendido. Mas eu fiquei. Gostava do meu restaurante, de fazer o café, de vender os cigarros... Mesmo que nada daquilo fosse meu.

- Tanto quanto você gosta de puxar assunto com as perguntas erradas. – Ri. – Não é legal a principio, mas com o tempo você se acostuma. Além disso, tem suas vantagens.

- Mesmo? – Ele pareceu estranhamente interessado.

- Claro. – Ri. – Por exemplo, eu posso cantar os clientes. Não existem testemunhas disso, logo, se ele não gostar... Nunca aconteceu.

- Hum... – Ele exclamou. Não parecia encarar isso como uma vantagem.

- Também posso tomar quanto café eu quiser. – Sorri novamente. – E bem... Ninguém realmente vai se importar com quase nada que eu fizer. É um bom emprego.

- E você nunca pensou em trabalhar em outra coisa?

- Não... Eu acho. – Respondi. – Trabalho num lugar interessante, onde conheço pessoas interessantes, e ganho o bastante para pagar minhas contas... Não parece ruim.

- Mas existe mais na vida do que apenas contas pagas e cafeterias vazias. – Ele retrucou, dando mais um gole no café. – Dinheiro, diversão, mulheres...

Eu gargalhei.

- Dinheiro eu tenho o bastante... – Ri. – Diversão vem de pessoas interessantes como você... E a ultima coisa realmente não me desperta interesse.

- Você é... – Ele fez uma cara de espanto, que me chocou bastante.

- Sim. – Ri.

- Mesmo? – Perguntou ele, me chocando mais ainda. A maior parte das pessoas adivinhava minha sexualidade olhando para mim por trinta e sete segundos.

- O que você quer? – Perguntei se aproximando mais do que o protocolo normal permitiria. – Uma prova?

Ele me olhou, levemente assustado, levemente corado. Ele finalmente havia entendido a parte das cantadas e não sei dizer se considerou aquilo bom ou ruim, não sei ler mentes ou coisas do tipo. Tenho um amigo que faz essas coisas, ele é legal. Tem uma loja de artigos exotéricos, lê cartas, mão e energia. Talvez um dia eu ainda conte a história dele. Provavelmente vai ser melhor do que a minha. Tem magia, mistério e nenhum gay. Provavelmente seria mais agradável ao publico.

- Muito obrigado pelo café. – Disse. – Um maço de cigarros, por favor.

Eu sorri, vitorioso.

- Mentolado, certo? – Perguntei, me virando para pegar a caixa de cigarros atrás de mim.

- Sim. – Disse levantando. – Um azul.

- Não sei qual a graça dele... Qual o gosto que tem mesmo? – Perguntei me virando.

E ganhei um beijo. Um simples. Os lábios mal se tocaram, e o corpo se afastou quase que imediatamente após o contato.

- Esse é o gosto. – Ele gargalhou.

- Parece ótimo. – Disse lhe entregando o cigarro. – Seria muito deselegante te convidar para sair?

Me dei alguns pontos por não ter saído do controle, ou por não ter me deixado levar. Foi difícil. Merecia no mínimo cinco pontos.

- Não, não seria. – Ele sorriu. – Mas isso seria novo pra mim... Pra onde iriamos?

- Cinema. – Gargalhei. – Gosto de filmes e lugares escuros como qualquer pessoa normal.

- Que horas devo passar para te buscar?

- As oito. – Sorri. – Em ponto. Sem atrasos.

- Temos um trato. – Ele disse, pagando a conta e saindo.

E eu nunca mais o vi, desde que decidi escrever isso.

Sem truques dessa vez.

É claro, ele ainda passa na frente da loja as vezes, evitando sua entrada. E pensar que eu o esperei por três horas... Bem, acho que faz parte da vida.

Prometi que não haveria nenhuma lição nessa história, e veja, realmente não existe. Ele era hétero, me achou bonitinho, me beijou, e seguimos em frente. Banal, certo?

Meu amigo vidente disse que eu realmente mexi com ele, e disse também que um dia ele vai voltar para me levar ao cinema, como prometido. Eu não acredito nisso. Apesar de ser extremamente verdadeiro como vidente, meu amigo é muito bondoso no que diz respeito a mim, e isso já fez ele mentir pra mim algumas vezes antes.

Quanto ao cliente... Bem, eu nunca soube nem seu nome.

Talvez, e só talvez, eu tenha escrito isso para pedir que ele volte a minha humilde loja, para tomar mais um café e talvez fumar outro cigarro... Mas eu vou negar isso, tão rápido quanto qualquer um de vocês me fizer essa pergunta.

No demais, tudo continua o mesmo.

Por enquanto.

Notas finais
Bem, apesar de tudo você realmente leu até o final. Parabéns.
Se puder deixar um recado após o sinal, ele com toda a certeza será lido e apreciado.
Obrigado.