Café Preto Mentolado

2 Capítulo 1 - Tal pai, tal filho.


Notas iniciais
Nexo? Desenvolvimento da estória? Dos personagens? pff... Por favor, isso é pros fracos.

Muita coisa aconteceu desde que eu escrevi pela ultima vez.

Realmente muita coisa.

Pra começar, teríamos que voltar no tempo uns dois meses. Isso não é realmente possível, mas veja, eu tenho um amigo que mexe com tecnologia e jura que vai ser possível dentro de pelo menos três anos. Eu não acredito nele, de verdade, mas ele entende bastante do assunto, então achei uma boa ideia destacar a opinião dele, só para dar a esse texto que não tem nenhum nexo um ar cientifico e aceitável.

Apesar de ter quase certeza de que eu não consegui e de ter serias desconfianças de que passar tanto tempo trancada num quarto só com amigos virtuais não está fazendo bem pra ele.

De qualquer forma, o mais importante é que meu restaurante fechou. Novamente, não era bem meu restaurante, mas eu gostava muito dele, e ver aquele lugar fechando as portas foi um tanto quanto desagradável para mim. Eu chorei. Só duas lagrimas, que ninguém realmente notou, mas ainda assim, foi triste.

E ficar desempregado não é a coisa mais agradável do mundo, então procurei outro. Uma amiga minha trabalha no RH de uma grande empresa de software de computadores, então eu quase comecei a trabalhar lá. Fui excluído, logo no primeiro teste admissional, porque perguntei onde ficava o botão de ligar meu mini computador enquanto apontava para um relógio de mesa touch que tinha umas trezentas funções internas embutidas. A parte injusta é que ninguém sabia como ligar aquilo, nem mesmo o cara que aplicava o teste. A parte divertida é que fiquei amigo dele e ele me deu o relógio, junto com um contato. Saímos umas duas vezes, foi divertido, mas isso não vem ao caso e não faz parte da história.

Mas para minha sorte, e para a diversão de vocês, arrumei um emprego muito interessante. Lembram do meu amigo cartomante? Bem, o nome dele é Tiago. Ou Yago. Alguma coisa com “go” no final. Bem, ele me disse que nem é o verdadeiro nome dele de qualquer maneira, então não creio que isso seja muito importante. O fato é que ele tinha uma pequena loja, e havia conseguido uma loja muito maior. Uma que serviria café para os clientes que estavam esperando para descobrir sobre a vida, o universo e tudo mais. Ou sobre quem estava traindo o galã bonitinho da novela das nove... Enfim, ele precisava de alguém com experiência no assunto, de confiança e pronto para muito trabalho.

Eu tinha isso.

Ele chamou isso de destino. Eu chamei de acaso. Uma senhora na rua me chamou de viado. E foi mais ou menos o que aconteceu.

Estou trabalhando lá há exatas duas semanas. E foram semanas extremamente divertidas. Tiago, ou Yago, lê a sorte das pessoas através de diversos métodos, que são escolhidos de acordo com o que a pessoa pede para beber enquanto espera. Todas as escolhas desencadeiam em coisas simples, tarô, leitura de runas, aura ou a boa e velha bola de cristal. Só uma realmente define que o dia será especial, que a conta vai ser cara e que o trabalho vai ser grande.

- Um café preto mentolado. – Pediu a cliente. Tirou em seguida a franja loira do olho verde com a mão quase infantil e sorriu. Ela parecia ter quinze anos no máximo.

- Ok, só um momento, você vai ser a próxima a ser atendida, fique a vontade para beber ele lá dentro. – Sorri de volta. Não demonstrei nem por um segundo, mas a mera visão daquela garota me dava arrepios. Eu não sabia o que ela era, mas definitivamente não comia coisa de gente, e parecia mal alimentada. – Sabor do sache?

-Vermelho sangue. – Eu engasguei. Ela gargalhou. – Pra que tanto medo? Eu não mordo. – Seus pequenos caninos cresceram uns dois centímetros enquanto ela sorria. – Só se você pedir.

-Maus ai, nem curto garotinhas que ainda cheiram a leite. – Lhe entreguei o café. Ela o pegou de imediato e sentiu seu aroma. Tomou um gole grande.

-Isso é... – Ela parecia realmente admirada com o que ia dizer. – É Absurdamente delicioso. O que tem no sache vermelho?

-Veneno de rato. – Respondi calmamente. Numa dose pequena. Serve para humanos que bebam isso sejam levados para casa quando desmaiam, e não lembrem bem onde estavam.

- Cruel. – Ela mostrou a língua. Então tomou mais um gole. – Se eu te apresentar minha mãe vocês podem por favor se casar?

Tiago havia me avisado sobre coisas assim. Existia duas chances dentro do que poderia estar acontecendo. Numa delas ela era uma vampira, nesse caso ela estava sendo sincera e eu poderia responder o que eu quisesse desde que arcasse com as consequências. Na outra ela era um demônio. Nesse caso, independentemente do quão disposto eu estivesse a aceitar sua proposta eu deveria dizer não. Felizmente, eu não era fã de mamães de qualquer forma.

-Porque você me faria uma proposta tão estranha?

-Adoraria tomar algo assim pra sempre. – Ela riu. – E você é bonitinho...

-Acho que em algum momento você me compreendeu errado. – Gargalhei. – Sua proposta seria mais válida se você tivesse um irmão.

-Eu tenho. – Seus olhos brilharam. – Você definitivamente é o tipo dele.

A luz sobre a bancada acendeu em vermelho. Ótimo, salvo pelo gongo.

- É sua vez. A porta é aquela ali. – Eu apontei. – Pode levar seu café, te faço outro na saída.

Ela levantou, seu pequeno vestido balançou com graciosidade até a porta e sua bolsa levitou, a seguindo do balcão até sua delicada mão.

Ela colocou a mão na maçaneta e se virou para mim, me olhando com muita seriedade.

-E quanto ao meu irmão? – Ela realmente parecia uma criança. Uma daquelas que te fazem perguntas que você não consegue deixar de responder, mesmo não conhecendo a resposta.

-Me apresente ele na próxima vez que vier aqui. – Ri. – Sou solteiro, candidatos são sempre bem vindos.

Ela abriu o maior sorriso que já vi na boca de uma criança.

-Você é muito estranho, moço. – Ela riu. – Se você continuar sendo tão bonzinho com todos os monstros que encontrar pelo caminho você vai morrer muito rápido. Espero que você não goste do meu irmão.

-Vou fazer um esforço. – Sorri.

E esse foi meu último sorriso verdadeiro por cerca de duas semanas.

Sem drama.

Acontece que monstros, vampiros, aberrações, demônios ou até a Madonna tem problemas de verdade. Não importa o quão ruim você realmente é, ou quão poderoso, tem coisas que fogem completamente de nosso controle. Isso também vale para imortais. Ou para pessoas assustadoramente velhas.

Quando um monstro de verdade pede um café preto mentolado em nossa pequena grande loja... A coisa nunca é legal. Essa não foi uma exceção.

Ela saiu da sala de Tiago cerca de quarenta minutos depois. Não sorria, brincava ou me provocava. Ela agora sabia de algo tão terrivelmente assustador que nem mesmo seu instinto natural de imortalidade lhe dava forças. Ela levou o café que eu preparei pra ela, sem agradecimentos ou palavras, e saiu da área do café. Depois da loja. Talvez, em pouco tempo, saísse da própria terra.

A loja fechou suas portas assim que servi meu último cupcake. Foi então que Tiago me chamou para explicar melhor o que estava acontecendo com a pobre garota.

-Entre. – Ele convidou. Eu detestava aquela sala, e francamente tinha meus motivos para isso. Meus segredos mais bem guardados pareciam virar quadros bem grandes em cada parede, cada palavra parecia dita lá parecia ressoar em direção ao infinito, num ato de exposição incalculável e maquiavélica.

Apesar de tudo isso, sempre que era convidado acabava adentrando a sala. E futuramente, me arrependendo disso.

-Sente-se. – Tiago sorriu.

-Eu não sou um maldito cliente. – Reclamei, encostando numa parede.

Ele gargalhou. Por algum motivo, que a muito tempo me escapava, ele adorava me irritar usando esse tipo de coisa.

-O que está acontecendo com a garota? – Perguntei. – O que ela é?

-Uma imortal. Antiga. – Ele sorriu. – Uma das primeiras vampiras. Alguns dizem que é a primeira filha de Lilith, deusa dos demônios.

-Você ainda não respondeu a primeira pergunta.

-Porque você já sabe a resposta. – Ele riu.

-Ela está morrendo. – Afirmei cabisbaixo.

Ele assentiu com a cabeça, compartilhando por alguns instantes o mesmo pesar.

-Vai doer? – Perguntei.

-Provavelmente. – Ele afirmou.

-E você não pode fazer nada?

-Ela não pode pagar o que eu cobro. – Ele acendeu um cigarro. – Acho que nesse caso, em especial, ninguém pode.

-Porque parece que você omitiu um “mas...” do final da sua frase? – Perguntei levantando levemente uma sobrancelha.

-Sente-se.

E eu obedeci.

Existem pequenos atos, mentirosos ou não, que acabam com toda a sua percepção de realidade e universo. Sentar ali e ouvir o que ele tinha para me pedir era uma dessas coisas. Ter criado empatia por uma vampira era outra. Pensar seriamente em namorar o irmão dela era mais uma. Nenhuma das três, no entanto, é importante para nossa história.

Ele me encarou por alguns segundos. Foi o bastante.

-Tá de zoeira. – Eu ri. – Você é completamente retardado.

-Não, eu sou um mago. – Ele sorriu. – Só acontece de serem duas coisas assustadoramente parecidas.

-Você pode me olhar para sempre. Eu não posso ajudar ela. Não como você. – Eu olhei para baixo. – Você sabe que eu não sei controlar direito essas coisas. Vivo com o que dá, quando dá. Ondas de empatia pra cá, ondas de animo pra lá... É assim que eu sobrevivo.

-As cartas me disseram que você é melhor que isso. – Ele me encarou. – Ela pode pagar muito bem. Realmente muito bem. Considere um extra. Uma renda a mais.

-Não dá pra comprar uma segunda vida. – Eu desdenhei. – Além disso, desde que me fez meu pai nunca se deu ao trabalho de ver se eu estava vivo.

-Reis não podem simplesmente sair de seus tronos e deixar seus países em guerra para procurar e encher filhos não oficiais de amor. – Tiago riu. – E veja, você diz que não dá pra comprar porque eu ainda não te dei o endereço da loja.

-Quando ela vai morrer?

-Tudo depende.

-De?

-O que você pretende fazer a respeito?

Busquei uma resposta em meu coração. Ele não tinha nenhuma.

-Ganhar algum dinheiro a mais, eu acho.

Ele gargalhou.

-Perfeito. Comece visitando seu pai, a porta está logo atrás de mim. – Tiago parecia sério. – Mas não passe tempo demais lá. Você tem cinco minutos.

-Porque raios você tem um portal para o inferno numa porta atrás da sua mesa de jogo? – perguntei, já com a mão na maçaneta.

Ele não respondeu. Não naquela hora. Talvez porque soubesse que eu não escutaria, mesmo que ele gritasse com todas as suas forças, talvez porque não fizesse diferença alguma. Não sei bem. Mas enquanto entrava naquele lugar minha mente, assim como meu corpo, maquinava mil formas de correr caso algo desse errado.

E algo daria errado, com toda a certeza.

No demais tudo continua como antes, o mesmo céu e a mesma terra.

Ao menos por enquanto.

Notas finais
E é isso. De quem ele é filho? Não faço a minima ideia... Mas vamos descobrir juntos?
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.