Café, Ciúmes e os Acasos do Amor
2 Vou te mostrar a cidade
Notas iniciais
– Ele não é mulher. – Damien resmungou contrariado. Seus olhos percorreram rapidamente o rapaz à sua frente. Bem, ele não era mulher e certamente não tinha cara de médico.
Carl arregalou os olhos, e Damien teve certeza de que ele ficou doido para dar um peteleco na sua cabeça.
– Eu nunca disse que ele era! – Carl disse após um riso nervoso. – Desculpe por isso, Taylor. Ele acordou agora e ainda está mais idiota do que o normal.
Damien cruzou os braços sobre o peito com uma vontade doida de dizer que ele havia sido enganado, isso sim!
Taylor ergueu uma sobrancelha e sorriu de lado. Certo, não era assim tão raro as pessoas confundirem seu nome com o de uma mulher. Em realidade ele achava até mesmo divertidas as reações delas quando descobriam a verdade. Mas, nesse caso, aquele Damien parecia muito mais infeliz do que o normal. Taylor se perguntou se ele realmente esperava ‘se dar bem’ com a nova médica da cidade. Que pena para ele, pensou com ironia.
– Não tem problema... Muito prazer, Damien. – Se adiantou estendendo a mão. – Espero não incomodar ao ficar na sua casa. Obrigado por oferecer pouso a um estranho. – Mesmo que você achasse que era uma estranha, completou em pensamentos, tentando manter o sorriso agradável.
Damien continuou com os braços cruzados, observando aquele sorriso forçado do médico. Ele não tinha muita intenção de retribuir o cumprimento, mas o olhar de Carl foi do tipo “Ou você é gentil com ele, ou eu digo para minha mãe não te dar comida por um mês!”. Não que ele fosse incapaz na cozinha ou algo do tipo, mas não tinha como passar um mês sem a comida da tia Camille.
– O prazer é meu. – Ele resmungou enquanto apertava a mão do médico. Havia alguns calos, mas ainda assim era surpreendentemente macia para a mão de um homem. – A casa é grande. – Deu de ombros. – E certamente vai ser por pouco tempo. – Fuzilou Carl ao dizer isso já que foi ele quem saiu oferecendo hospedagem sem consultar o dono da casa antes. – Não interferindo na minha rotina está tudo bem.
Carl deu uma cotovelada nas costelas de Damien, mas não fez nem cócegas.
– Que rotina, seu idiota? – O rapaz resmungou irritado. – Comer e dormir não é rotina.
Ele continuaria falando, mas o celular começou a tocar interrompendo o discurso.
– Oi? Ah, sim, sim, amor. – Carl disse rapidamente. – Eu sei. O quê? ELE FEZ O QUÊ? Peraí! Não. Eu já vou pra casa. Tem certeza que ele ‘tá bem? Não deixa ninguém mais subir na porcaria da árvore! Eu já ‘tô indo!
– O que foi? – Damien perguntou e agora estava realmente preocupado. Era difícil ver Carl perdendo a calma e isso só acontecia quando algum dos filhos aprontava alguma.
– Phil achou que seria divertido se pendurar nos galhos da árvore do quintal. Subiu e não consegue mais descer. – Carl passou a mão pelos cabelos pretos. – Sério. Esses meninos vão me deixar com cabelos brancos antes dos quarenta! – Ele se virou para Taylor com uma expressão de culpa no rosto. – Não vou poder te mostrar a cidade. Mas tenho certeza que o Damien vai ser um bom guia.
– Eu? – Damien fez careta. – Só se for guia do caminho até a cama.
Taylor deu graças a Deus por ser homem, ou aquela frase poderia ter soado muito mal.
– Você realmente precisa pensar em outra coisa que não seja dormir. – Carl disse desgostoso.
Taylor abriu e fechou a boca. Céus, ele não queria que aquele homem antipático e preguiçoso fosse lhe apresentar a cidade com aquela cara de quem apenas quer matar alguém só para poder voltar a dormir.
– E-Eu acho que alguém pode me apresentar a cidade em outro momento. – Taylor interpelou, coçando um dos braços. Depois olhou para Damien e não conseguiu suprimir a ironia em seu tom ao dizer: – Damien parece ter algum compromisso sério com a cama agora. – Sorriu como alguma criança traquinas que havia cometido uma má-criação.
É, ele não conseguia se controlar perto de gente rica e folgada.
Damien estreitou os olhos enquanto encarava o médico. Pelo menos tinha de admitir que o homem tinha coragem, ao já ir de cara assim o desafiando. Bem, agora ele ia mostrar a cidade. Por pura birra!
– Nhay, subitamente minha vontade de voltar pra cama passou. – Ele balançou os ombros de forma displicente. – Só uma loira com peitões pra me fazer voltar lá agora.
– Credo. – Carl resmungou irritado. – Decididamente, Taylor, eu vou fazer o pessoal das obras se apressarem pra terminar a reforma. Parece que os neurônios desse idiota pifaram de vez e ele só pensa em peitos e dormir.
– Eu penso em outras coisas também, mas você está indo para um ambiente lotado de crianças, então vou me abster de qualquer comentário já que é melhor você manter os pensamentos puros. Aliás, como você e a Dakota fazem para...
– Tá, chega, Damien, eu realmente não vou começar a discutir minha vida sexual com você agora e na frente da visita! Não seja mal educado e o leve mais tarde no restaurante para apresentá-lo para a nossa família! – Carl exclamou antes de sair batendo a porta.
– Então, vamos conhecer a cidade? Não é como se tivesse realmente muita coisa para ver...
Taylor estava com a mandíbula contraída. Para completar, aquele Damien era alguma espécie de tarado que pensava em mulheres e peitos a todo o momento, e ainda deixava isso claro para todos que quisessem ouvi-lo. Qual era o problema desse cara? Taylor bem que queria recusar o convite, mas agora que Damien havia se oferecido... Como poderia negar-se, quando ficaria de pouso na casa dele? Ah, era uma pena que Carl não pudesse lhe mostrar a cidade. Ele era tão mais simpático.
– Eu preciso buscar minhas malas no carro. – Taylor falou apressado e seguiu o mesmo caminho que Carl havia tomado. Talvez estivesse evitando ficar sozinho num lugar fechado com aquele cara por muito tempo. Era desagradável. Como havia se metido em uma fria assim tão rápido?
Damien colocou as mãos atrás da cabeça e seguiu o hóspede. O observou abrir o bagageiro do carro e lutar para tirar uma senhora mala que estava lá dentro. Será que o cara havia trazido a mudança toda de uma vez?
– Eu pego. – Damien se aproximou para ajudar. Não ia deixar o médico simplesmente lá morrendo enquanto tentava puxar a mala. Taylor parecia ser magrinho e Damien imaginava que ele provavelmente só vivia pra os estudos. Academia nem pensar. Ele podia não gostar de médicos, mas reconhecia o esforço deles quando o assunto era estudar.
Sem esperar autorização, já foi pegando a mala e o treco realmente estava muito pesado.
– O que diabos você colocou aqui dentro? O prédio em que você vivia?
Taylor morreu de vergonha por não conseguir carregar sua própria mala. Ao escutar o comentário de Damien, ele apertou os lábios como se houvesse chupado um limão azedo. Babaca! Pensou, irritado.
– Meus livros de medicina. – Respondeu, invejando a forma como Damien conseguiu tirar com relativa facilidade a mala do porta-malas. Só então Taylor reparou em como os bíceps dele eram grandes, o que o levou a arregalar um tanto os olhos. Subindo o olhar, ele notou também que Damien tinha os cabelos e a barba por fazer num tom ruivo escuro. Seus lábios se entreabriram e ele teve certeza de que ficou com uma cara de idiota encarando-o.
– Só podia ser. Já vi uns livros desses na livraria e são mais grossos que qualquer outra coisa que eu já tenha tentado ler. – Damien colocou a mala no chão. – Vai chegar um caminhão com as suas coisas ou algo do tipo? Ou você já trouxe tudo que precisava? Eu tenho uns móveis encostados em um dos quartos, se você precisar.
Damien percebeu que estava tagarelando e Taylor olhando para ele com os lábios entreabertos.
– Oi? – Ele balançou a mão na frente do rosto do médico. – Tá me ouvindo? Você tem certeza que quer conhecer a cidade agora? Acho que a viagem longa te deixou meio grogue.
Taylor piscou os olhos e, com horror, percebeu que estivera encarando demais. Por sorte sua pele era cor de cacau, ou Damien notaria a forma como ficou com as bochechas quentes. Contrariado, ele pegou duas das malas mais leves e se encaminhou de volta para a casa.
– Eu já trouxe tudo comigo. Eu alugava um apartamento decorado, então não tenho meus próprios móveis. – Se apressou em falar, tentando não parecer tão mortificado quanto se sentia. – E não estou grogue. Se não quer mostrar a cidade, apenas fale! Eu posso ir conhecê-la sozinho.
Assim que passou a porta de entrada, percebeu que não tinha ideia de para onde levaria aquelas malas. Aquela casa era gigantesca e ele provavelmente se perderia ali se não tivesse alguma ajuda.
– Eu já disse que vou mostrar a cidade. – Damien teimou.
Ele fez um sinal para que Taylor o seguisse. Muitos dos quartos estavam fechados e empoeirados. Os únicos disponíveis eram o seu próprio quarto e o quarto ao lado do seu que geralmente era ocupado por Carl e a família quando eles pernoitavam por lá.
– Você pode ficar com esse quarto. O meu fica aqui do lado. O banheiro fica no meu quarto. – Disse indicando a porta que estava fechada. – Vou tomar um banho e aí saímos. E, sim, eu vou mostrar a cidade. Não vou deixar o médico novato andando perdido por aí. O que vão falar de mim se eu fizer isso? Já não falam bem... Me classificam como “playboy mimado e preguiçoso”. Não quero deixar essa fama aumentar. – Falou antes que Taylor tentasse dizer que ele não precisava fazer aquilo. – Aproveitamos e jantamos no restaurante da mãe do Carl.
Taylor resolveu não contrariar. Damien parecia determinado a lhe mostrar a cidade. Mas claro, ele deveria ter suspeitado que não era por pura gentileza, e sim para não ficar com uma imagem ruim para os moradores da cidade. Playboy mimado e preguiçoso? É, Taylor bem que não discordava da opinião geral de Canmore. Um riso quis nascer em sua garganta frente ao pensamento, mas ele o suprimiu e entrou no quarto indicado.
– Terei de dividir um banheiro com você? Nessa casa enorme só tem o banheiro do seu quarto? – A pergunta escapuliu antes que pudesse segurá-la. Taylor apreciava demais sua privacidade para dividir banheiros, ainda mais com um desconhecido que bem poderia ser meio relaxado, considerando o jeito preguiçoso dele e o fato de vários cômodos da casa estarem abandonados e empoeirados. – Digo, obrigado pelo quarto... – Se retratou rapidamente com um novo sorriso forçado e largou as malas em cima da cama.
– Sim, nós vamos dividir o banheiro por alguns dias. Pelo menos até eu dar um jeito no outro. Os gêmeos, filhos do Carl, entupiram a privada com alguma coisa não identificada. – Damien respondeu em um tom blasé. – Eu adoro aqueles pestinhas, mas eles têm o dom de destruir a minha casa. – Disse, mas seu tom não era de aborrecimento. – De qualquer forma, não é como se você nunca tivesse dividido o banheiro com alguém ou tivesse algo aí que me interesse para esconder. E não se preocupe que eu não vou pedir pra você esfregar minhas costas nem nada. – Acrescentou com ar debochado de riso.
Era divertido ver o médico tentar esconder a indignação quando ele ouvia algo que não gostava. Eles se conheciam há menos de meia hora, mas Damien já não gostava daquele sorriso forçado que Taylor exibia desde que ele o vira parado no meio da sala. Desde então esteve tentando fazê-lo perder aquela postura.
– Que sorte a minha. – Taylor murmurou um tanto desconcertado com a brincadeira do ruivo. Ele resolveu que era melhor ir buscar o resto das malas e novamente se sentiu pessoalmente ofendido quando Damien carregou três vezes mais peso do que ele, fazendo-os finalizar aquela tarefa bem rápido.
Depois disso, Damien foi tomar banho e Taylor resolveu explorar. Não iria muito longe, queria apenas dar uma olhada geral na casa, mesmo que Damien não houvesse lhe dado permissão para isso. Foi andando pelos corredores e olhando para alguns retratos na parede. Era mesmo um casarão de gente rica e fina, pelo que ele via nas fotografias. Como sempre parava para observar com calma as pessoas nas fotos, acabou gastando os minutos do banho de Damien naquilo.
Parou quando encontrou uma de uma mulher abraçando uma criança de cerca de três ou quatro anos, ambos sorrindo na foto de uma forma tão meiga que chegou a lhe causar um apertozinho no coração pela saudade da própria mãe. Tocou na foto, deslizando os dedos pelas feições da mulher e da criança.
Ambos eram ruivos... Sua ficha acabou caindo rapidinho.
Depois do banho, Damien se sentiu mais revigorado. Vestiu uma calça e uma camisa com mangas, pois em Canmore naquela época do ano era comum que a temperatura caísse depois das seis e certamente eles não retornariam para casa antes disso. Pegou um casaco e deixou o cômodo. Bateu de leve na porta do quarto em que Taylor ficaria para avisar que o banheiro já estava livre, mas o médico não respondeu. Damien abriu devagar a porta e logo percebeu que o hóspede não estava por ali.
O ruivo fechou a porta e avançou pelo corredor tentando imaginar aonde o médico havia se metido, mas não foi preciso procurar muito já que ele estava no corredor que concentrava a maior parte de fotografias da sua família. Damien quase nunca olhava para aqueles retratos e sabia que já deveria tê-los tirado dali, mas não conseguia se livrar definitivamente deles.
– O banheiro está livre. – Ele disse às costas de Taylor e percebeu-o estremecer de susto. – Desculpe. Pensei que você tinha escutado eu me aproximar. – Não fez questão de soar exatamente simpático já que não esperava encontrar Taylor "fuçando" nas fotos de sua família. Ok, as fotos estavam expostas para qualquer um ver, mas mesmo assim Damien não gostou de encontrá-lo ali as observando.
– Ah... – Taylor se virou, desejando não parecer tão pálido após o susto que levou. Damien parecia insatisfeito, e o médico se perguntou se ele conseguia ainda sorrir de maneira tão doce quanto naquela foto. Provavelmente não. – Não preciso usar o banheiro. Tomarei um banho quando voltarmos. Então... Aonde irá me levar primeiro?
Certo, isso havia parecido a pergunta que se faz a alguém com quem se vai a um encontro.
– Eu acho que se me mostrar os pontos básicos da cidade hoje já está bom... Os pontos turísticos podemos ver outro dia. Quero dizer... Eu posso ver outro dia. – Taylor começou a se enrolar. Droga, ele não era bom com essa coisa de passear e interagir com desconhecidos como Damien.
Carl definitivamente seria muito mais fácil.
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