Café, Ciúmes e os Acasos do Amor
3 O novo médico
– Vamos dar uma volta de carro. Vou te dar uma noção geral de onde ficam as coisas e onde você pode comer. O restaurante da tia Camille abre no almoço e fica aberto até tarde da noite. Eu costumo ir jantar lá... Ah, ela é a mãe do Carl. Ele deve ter comentado sobre o restaurante. – Damien disse enquanto tirava a chave do carro do bolso da calça e começava a girá-la em uma das mãos. Ele tentou não olhar para a foto que Taylor estivera encarando tão atentamente antes, mas falhou miseravelmente. Ele não queria pensar na mãe naquele momento. Mesmo depois de tantos anos após perdê-la, ainda era dolorido. Principalmente considerando tudo que ele havia passado após a morte dela.
– Tudo bem... Hm... Você nasceu aqui em Canmore? – Taylor perguntou, porque tinha horror àqueles silêncios que pareciam um vácuo sem fim. – Carl é seu primo?
– Sim, eu nasci aqui. – Os dois começaram a se dirigir até a saída da casa. Damien trancou a porta e fez um sinal para que Taylor o acompanhasse até a garagem. Sua Land Rover estava um pouco empoeirada porque ele quase nunca a usava. Morava perto de tudo e raramente viajava. Mas dos carros que estavam na garagem, aquele era o mais limpo, então iriam nele mesmo. – E não somos primos. – Disse enquanto abria a porta do carro e esperava que Taylor entrasse. Depois deu a volta e entrou do lado do motorista. – Eu morei com a família dele por um tempo. – Respondeu de uma forma meio evasiva, sem realmente querer entrar em detalhes sobre o assunto. – Os considero como minha família, mas não temos o mesmo sangue.
Taylor estava mortificado. Ele havia chegado com seu Fiat Uno econômico, e Damien tinha uma Land Rover, que custava no mínimo uns 300 mil dólares, na garagem em meio a outros carros que pareciam caríssimos, apesar da poeira. Qual era dessa mania dos ricaços de gastar tanta grana em carros que nem usavam?! Por que não usavam o dinheiro para coisas mais úteis, como... ajudar instituições carentes, ou algo assim?
– Oh... – Taylor amarrou a cara e cruzou os braços, já acomodado no banco do carona. – Eu acho isso legal em cidades pequenas... A maneira como todo mundo se conhece e se considera família. – Comentou, olhando para a rua enquanto o carro dava partida. – Passa uma sensação boa... – Acabou abrindo um sorriso leve sem perceber.
– Nem tudo são flores numa cidade pequena. Todo mundo sabe da vida de todo mundo. – Damien disse enquanto dirigia.
Bem, mas até que ele estava fazendo um bom trabalho em esconder no que andava trabalhando nos últimos quatro anos. Ele sempre deixou passar a impressão de que era um desocupado que não estava nem aí para nada. Isso era bom para manter a atenção dos outros longe, já que eles acreditavam que sabiam tudo sobre sua vida.
– Mas ao mesmo tempo todo mundo é gentil e está disposto a ajudar. Bem diferente da cidade grande onde ninguém liga se você está vivo ou morto. Aliás, de onde é que você veio? E por que resolveu vir morar aqui? Não é exatamente perto dos grandes centros...
A pergunta atingiu Taylor em cheio. Ele deveria estar preparado, é claro que essa seria uma das primeiras perguntas que lhe fariam, mas ele não havia pensado em nenhuma desculpa muito boa. Acabou falando a primeira coisa que lhe veio à cabeça.
– Quis buscar um lugar mais tranquilo para morar. Comecei a me sentir sufocado na capital. – Falou e deixou o assunto morrer. Aquilo poderia ficar perigoso.
Aquela resposta foi nitidamente evasiva, Damien percebeu. O ruivo mais do que ninguém conhecia evasivas. Ele era especialista em formulá-las.
Eles deram algumas voltas pela cidade. Damien mostrou onde ficavam os restaurantes, os bairros, os parques, a prefeitura, o museu, o correio e outros lugares úteis. Às vezes Taylor pedia para descer para dar uma olhada rápida. Chegou a comprar uma escova de dentes, um sabonete e um gilete na farmácia. Estava sem alguns acessórios básicos, mas aqueles eram o mínimo de que precisava, por hora.
– Essa cidade é tão bonitinha... – Começou depois das várias voltas. – Podemos descer aqui na praça e caminhar um pouco? Estou cansado de ficar dentro de um carro...
– Claro. – Damien disse e encostou o carro.
Algumas crianças corriam pela praça, e Damien estreitou os olhos ao reconhecer uma delas.
– Hey, hey, hey...! – Ele segurou o menino pelo capuz.
– Padrinho! – O menino gritou e pulou nas pernas dele.
– Que padrinho, o quê! – Damien exclamou aborrecido. – O que está fazendo aqui? Sua mãe ligou para o seu pai dizendo que você estava pendurado em uma árvore!
– Eu estava. Meu pai me ajudou a descer. – Phil disse em um tom inocente.
– Tenho certeza que você não recebeu autorização para estar na praça depois de aprontar uma dessas!
– Bom... – O menino chutou uma pedrinha.
– Você fugiu. – Damien disse após um suspiro profundo.
– Assim... – Phil chutou outra pedrinha.
– Tá, nem continua. – Damien resmungou. – Taylor! – Ele chamou o médico que estava um pouco afastado dos dois. – Vamos. Vou levar esse encrenqueiro em casa. Ele é o Phillipe, filho do Carl. Phil, ele é o Taylor. Vai ser o médico lá da clinica.
– Só me dê um minuto! – Taylor exclamou. Ele havia se afastado ao perceber que uma menina havia tropeçado e caído de joelhos no chão. Ela estava ainda caída e segurando o choro. Taylor se ajoelhou perto dela e sorriu simpático. – Olá, pequeninha. Parece que esse chão malvado lhe derrubou! – Exclamou fazendo uma expressão de surpresa. A menina o encarou confusa, ainda com os olhos lacrimejando enquanto segurava os joelhos. – Posso ver onde dói?
A pequena concordou com um bico e ergueu os canos das calças até os joelhos. Ao ver a pequena meia-calça que usava para se proteger do frio rasgada, ela começou a soluçar, pronta para cair em prantos.
– Olhe só isso! – Taylor exclamou e pegou uma das perninhas. – Você é muito corajosa por estar resistindo até agora. Sua meia-calça não teve a mesma sorte que você! É uma ótima meia-calça por ter se machucado no seu lugar. Será que nós não deveríamos agradecê-la? – Sugeriu.
A menina engoliu o choro e passou a mão pelo joelho, parecendo em dúvida.
– B-Bigada, meia-alça. – Ela balbuciou num tom adorável. Taylor sorriu e passou os dedos sobre os joelhos da menina, avaliando se estava tudo bem.
– Dói, florzinha? – Perguntou. – Ou será... Que você tem cosquinhas no joelho? – Apertou as laterais do joelho da menina, sorrindo em tom de brincadeira, numa espécie de cócegas.
A menina riu e pareceu esquecer o choro. Foi quando a mãe dela, que observava a cena, se aproximou e a pegou no colo.
– Oh, Céus! Você é ótimo com crianças! – Ela disse encantada, e Taylor se levantou também, coçando atrás da cabeça.
– Sempre fui doido por elas. – Admitiu e fez um carinho rápido na bochecha da menina, piscando-lhe de maneira brincalhona. Ela riu de novo e escondeu o rosto no pescoço da mãe. – Prazer, sou Taylor, o novo médico da cidade. – Estendeu a mão.
– Novo médico! Que maravilha! – Ela apertou-lhe de volta a mão. – Que bom que encontraram alguém. E tão jovem! Devemos ter a mesma idade. Prazer, eu sou Alicia.
– Não fale isso, você deve ter acabado de sair da adolescência. – Taylor falou, educado e simpático.
A moça riu com o galanteio.
Damien observou a cena de longe. De alguma forma, o sorriso simpático de Taylor continuava o irritando, ainda mais quando ele estava flertando com aquela mãe solteira, mas ele tinha que admitir que o cara levava jeito com crianças. Porém, ainda assim isso não queria dizer que ele seria um bom médico, como a moça havia dito: era jovem demais. Damien nunca gostou de médicos e provavelmente não era um sorriso simpático de meia pataca que mudaria isso.
– Eu tenho um kit de primeiros socorros no carro. – Ele disse ao se aproximar dos três.
Phil havia escapulido e estava brincando de pega-pega com os outros meninos pelo parque.
– Está tudo bem. Os joelhos estão intactos, não é mocinha? Não é um piso fracote desses que vai te ralar tanto assim. – Taylor falou para menina, que assentiu com um “sim!” empolgado.
– O que você está fazendo aqui, Damien? – Alicia olhou com desgosto para o rapaz. – Não deveria estar dormindo em casa, ou quebrando o coração de alguma mocinha jovem e iludida? – Ela alfinetou sem dó nem piedade.
– Já quebrei minha cota de corações esse mês, Alicia.
– Mama, coiação québa? – A menininha perguntou confusa. – Como o coiação québa?
Alicia abriu e fechou a boca, sem saber o que responder.
– Corações são coisas muitos sensíveis, pequena. – Taylor se meteu para ajudar à moça. – Por isso, cuide bem do seu e da sua mamãe, ok?
A menina entreabriu os lábios e concordou apenas com a cabeça, parecendo muito surpresa com aquela informação.
– Damien está me mostrando a cidade... Ficarei na casa dele por alguns dias. – Taylor explicou e pegou o braço de Damien por reflexo. – Agora temos de levar o Phil de volta para o Carl. – Começou a puxar Damien consigo, antes que aqueles dois iniciassem uma discussão.
– Phil?! Ah, aquele menino nunca para quieto! Boa sorte, Taylor, prazer em conhecê-lo! – Ela exclamou e abanou mas, antes de se virar, lançou um olhar azedo para Damien.
– É, você realmente tem uma ótima fama. – Taylor comentou e, assim que percebeu que ainda segurava o braço do ruivo, o largou rapidamente.
– Eu disse que cidades pequenas têm inconvenientes. Às vezes algumas histórias se tornam bolas de neve e acabam se transformando algo que não chega nem perto da verdade. E se você tem um segredo, dificilmente conseguirá guardá-lo. Você vai ver como vai ter meia dúzia de pessoas inventando doenças só pra conversar com você e tentar arrancar alguma informação. – Damien comentou após Taylor se afastar como se houvesse levado um choque elétrico.
O ruivo estranhou o toque. Geralmente só as pessoas da família de Phil eram próximas o suficiente dele para tocá-lo daquela forma. Damien não era lá muito dado a pessoas que tocavam demais para conversar, ou coisas do tipo, mas o calor das mãos de Taylor em seu braço não o irritou.
O sorriso de meia pataca irritava bem mais.
– De qualquer forma, eu agradeço. Alicia teve uma queda por mim quando estávamos na escola e eu a dispensei. Até hoje ela guarda rancor. – No meio do caminho até o carro, ele pegou Phil, que ainda corria desenfreado, e o jogou sobre o ombro.
– Padrinho!!! Me põe no chão! – Phil exclamou emburrado.
– Lembra o jogo pra o videogame que você me pediu? – Damien perguntou enquanto abria a porta do carro e colocava Phil no banco de trás, prendendo o cinto de segurança antes que ele tentasse escapar de novo.
– Lembro! Você comprou?! – O menino retrucou animado.
– Você definitivamente não está merecendo.
– Mas, padrinho!!! – Phil fez bico.
– Seja educado e cumprimente o Taylor.
– Oi, doutor. – Phil disse rapidamente. – Padrinho, me dá o jogo! – Teimou.
Damien bufou e fechou a porta do carro.
Taylor estava rindo do lado de fora do carro.
– Você parece meio impaciente com crianças. – Cantarolou. Era engraçado ver o ruivo se segurando para não perder a paciência.
– Não sou eu que sou impaciente. Ele que só faz o que quer e só presta atenção quando o assunto lhe interessa. Quero ver você conseguir a atenção desse pestinha por mais de cinco segundos! – Damien disse entredentes, visivelmente irritado.
Taylor ergueu uma sobrancelha.
– Isso é um desafio? – Provocou. – Pois bem, vamos lá então, Sr. Ruivo esquentadinho. – Ele se encaminhou para o lado do carona e entrou no carro. Phil parecia bastante emburrado no banco de trás, enquanto Damien entrava no carro igualmente emburrado. Duas crianças, Taylor pensou.
Ele então sorriu e se virou de lado no banco, olhando para Phil.
– Então, Phil... Posso supor que você gosta de truques de mágica, não é? – Perguntou com um sorriso de lado.
Phil ergueu os olhos, desconfiado, e balançou lentamente a cabeça para afirmar.
– Quando a gente vai nas festas dos nossos amigos da escola, o Ollie fica olhando o palhaço, mas eu gosto mais do mágico. E a Charlie fica brincando de boneca. Ela é uma boba.
– Ollie é o Oliver, é o irmão gêmeo dele. – Damien sussurrou. – Charlie é a Charlote, que é a irmãzinha mais nova. Ele tem ciúme dela... – Abaixou ainda mais o tom de voz para que Phil não o escutasse.
Taylor sorriu e assentiu.
– Pois bem, eu bem que percebi que você é do tipo que aprecia as habilidades de um mágico. – Taylor tirou uma moeda do bolso e, de uma maneira incrivelmente natural e rápida, começou a rolá-la entre os dedos. A moeda parecia deslizar, para depois passar por baixo da mão e voltar a rolar pelos dedos. – Está vendo essa moeda, Phil? – Perguntou, movendo a mão para chamar mais atenção. Os olhos do menino seguiram a moeda como que hipnotizados.
Taylor então iniciou a ‘mágica’.
– Irei fechá-la aqui em minha mão. – Ele colocou a moeda sobre a mão aberta, mostrando que não havia nada de errado ali. Depois fechou os dedos. – Consegue imaginar o que vou fazer com essa moeda?
– Vai fazer ela sumir? – Phil perguntou meio desconfiado, sem desgrudar o olhar da mão do médico.
– Quase isso. – Taylor sorriu. – Preste bastante atenção. – Ele virou a mão fechada para baixo com certo gingado e passou a mão aberta por cima algumas vezes, fazendo firulas. – Fique bem atento. Essa moeda vai surgir em outro lugar. – Relevou num sussurro conspiratório.
Phil arregalou os olhos e tentou se concentrar ao máximo.
– Irei dar umas esfregadas aqui primeiro. – Taylor falou esfregando a mão aberta sobre o dorso da mão fechada. – Agora alguns pulos! – Ele balançou a mão para cima algumas vezes, deixando o garoto ainda mais ansioso. Depois, rapidamente completou. – E mais uma esfregada e voilà! – Ele afastou a mão e, sobre o dorso da mão antes fechada, agora estava a moeda.
Phil soltou uma exclamação de surpresa.
– Como!? – Ele perguntou.
– É tudo uma questão de... – Taylor moveu mais as mãos, fazendo o menino tentar segui-la com os olhos, mas de repente a moeda desapareceu bem na sua frente! – Mágica! – Taylor finalizou, tirando a moeda de trás da orelha de Phil.
– Uou! – O menino exclamou abismado e pegou a moeda que Taylor lhe ofereceu, olhando-a em cima e embaixo, tentando procurar alguma coisa suspeita sobre ela.
– Pode ficar para você. Compre algumas balas depois. – Taylor piscou cúmplice para Phil, e depois lançou um olharzinho arrogante para Damien. – Acho que isso valeu mais do que cinco segundos. – Se gabou num sussurro, enquanto Phil ainda se distraía com a moeda.
– Tsk! Exibido! – Damien tentou disfarçar o ciúme que sentiu. Phil gostava dele, claro, mas nunca havia o olhado com aquela expressão de admiração. E era meio ridículo ficar com ciúme naquela situação. Primeiro, porque Phil era uma criança e em meia hora ele já teria esquecido a tal mágica. Segundo, o médico havia recém-chegado. Não ia conquistar todo mundo tão fácil assim. Ele esperava realmente que o sorriso do médico não enganasse todo mundo.
“A mim não engana!”, pensou emburrado.
Antes que ele desse a partida no carro, seu celular começou a tocar.
– Phil sumiu! – Carl exclamou do outro lado da linha antes mesmo que Damien pudesse dizer “alô”.
– Eu o encontrei no parque.
– Sério? – Carl disse e se notava pelo tom dele o quanto ficou aliviado. – Nós demos uma bronca tão grande nele. Mas parece que entrou por um ouvido e saiu pelo outro.
– Até parece que você não conhece o seu filho. – Damien disse em um tom seco.
– Aconteceu alguma coisa?
– Nada. Por quê?
– Você parece irritado. Não está sendo idiota com o Taylor não, né?
– Não estou sendo idiota com ele. – Damien suspirou e olhou de canto de olho para o médico, que havia iniciado algum novo papo com Phil. – Estava mostrando a cidade para ele e aí topamos com o Phil no parque. Já vou levá-lo para casa.
– Não. Vão para o restaurante. Nos encontramos lá. A mãe tá doida pra conhecer o Taylor.
– Você já andou fazendo propaganda?
– Ela perguntou... – Carl disse naquele tom de “como eu poderia ficar calado?”.
– Tá, tá. Estamos indo para lá. – Damien encerrou a ligação ainda mais mal-humorado. – Mudança de planos. Vamos para o restaurante. Carl fez fofoca e a tia Camille tá doida pra te conhecer.
– Ótimo! Também quero muito conhecê-la. – Taylor comentou empolgado. – Já estou louco para experimentar a comida dela, você deve ter uma avó cozinheira de mão cheia, hein sortudo? – Pegou o nariz de Phil e o apertou em um gracejo, fazendo o menino cingir os olhos.
Damien ouviu Phil começar a tagarelar sobre todos os doces que a avó fazia e ele adorava. Pelo canto de olho, percebeu que Taylor ouvia tudo com genuíno interesse. Bem, mais um ponto pra ele. O médico anterior não era lá muito atencioso. As pessoas viviam reclamando que iam lá, falavam o que estavam sentido, mas o médico apenas passava um remédio qualquer e encerrava consulta.
Parecia que não teriam esse problema com Taylor.
O restaurante não ficava muito distante e, mal ele estacionou o carro, Phil desceu correndo falando que ia procurar Ollie para contar o quanto o médico novo era legal.
– Você realmente roubou o amor do meu afilhado. – Damien fez drama. – Só não vá roubar os outros dois também.
– Não seja bobo. – Taylor acabou rindo de verdade do desgosto do ruivo, achando bonitinho o ciúmes dele para com os afilhados. – É claro que os outros dois também vão me amar. – Sorriu torto apenas para implicar, mas assim que Carl e Camille saíram do restaurante, ele sorriu genuinamente e avançou para cumprimentá-los, sequer esperando alguma apresentação por parte de Damien.
– Querido, que bom vê-lo! – Camille cumprimentou em um tom amável e, ignorando a mão estendida de Taylor, o abraçou. – Vamos, vamos. Entre. Você deve estar exausto. Só esses dois para inventar de te fazer zanzar pela cidade depois de uma viagem dessas.
– Hey, a ideia foi do seu filho! – Damien se defendeu. – Eu estava bonitinho na minha cama sonhando com...
– Eu realmente não quero saber o que você estava sonhando, Damien. – Camille o cortou, já que conhecia bem a figura.
– Aposto que era com pei... – Carl começou a dizer, mas a mãe prontamente lhe deu um tapa no braço.
– Estamos cercados de crianças. Veja lá o que você vai falar.
– Enfim, a ideia foi dele! – Damien concluiu.
– Você e essa sua mania de sempre jogar a culpa nos outros, Damien! – Camille ralhou desgostosa. – Não ligue para eles, Taylor. Eu acabei de tirar o Poutine do fogo.
Taylor já adorou Camille. Mas também, com um filho como Carl, como a mãe não seria também simpática e energética?
– Ah, deixa eu me apresentar, já que o marmanjo do meu marido parece não servir nem para isso! – A bela moça que segurava uma menina no colo se aproximou e pegou a mão de Taylor. – Sou Dakota, esposa do Carl. E essa é nossa filha, Charlote.
Charlote, muito mais tímida que os irmãos, abraçou a mãe, não querendo interação.
– Ela é sempre muito tímida. – Dakota explicou o óbvio. – Charlote, não precisa ter vergonha, meu amor.
– Eu sei muito bem o que fazer com meninas tímidas. – Taylor falou conspiratório, atraindo a atenção de Charlie, que espiou o rapaz pelo canto do olho. – Ouvi dizer que elas adoram usar laços. – Ele disse, tirando um de seus cabelos rastafári. – Porém, esse laço tem um encanto. Quando ele prende numa mexa de seus cabelos, irá te proteger e espantar todos os seus temores. – Explicou, criando um lacinho bonitinho e o prendendo perto da orelha da menina.
Ela tocou o laço, parecendo admirada.
– De verdade? – Ela perguntou.
– Claro, basta a gente acreditar, não é? – Taylor sussurrou com ares de segredo. Charlie assentiu e sorriu tímida, antes de voltar a abraçar a mãe parecendo mais alegre.
Pronto, Taylor havia conquistado mais um deles.
– Agradeça o doutor, Charlie!
– Obrigada... – Charlie murmurou baixinho, ainda um pouco envergonhada, mas já bem menos fechada.
Damien resmungou ainda mais contrariado, então estendeu os braços para Charlote e prontamente a menina foi para o colo do padrinho.
O ruivo deu um sorrisinho presunçoso para Taylor, que revirou os olhos discretamente.
Naquele meio tempo, já dentro do restaurante, os gêmeos apareceram correndo em direção do grupo.
– O cabelo dele é engraçado! – Ollie disse ao irmão, sem se preocupar em falar baixo.
– Oliver, não seja mal educado! – Carl exclamou exasperado.
– É de verdade? – Ollie pendeu a cabeça para o lado ainda olhando intrigado para o cabelo de Taylor.
Taylor se agachou para o menino.
– Por que você não checa por você mesmo? – Taylor sugeriu. Só não esperava que, pestinha como era, Oliver pegasse um dos dreads e o puxasse forte demais. Ele soltou um gemido de dor, enquanto Oliver corria para fugir do sermão de Carl.
Damien quase riu quando Oliver puxou o cabelo do Taylor, mas se conteve e apenas deu um sorriso cheio de dentes para o médico que pareceu surpreso por um segundo com a traquinagem do garoto. Taylor se levantou e, ao ver o sorriso satisfeito de Damien, revirou novamente os olhos enquanto Dakota pedia desculpas pela atitude do filho.
– Não tem problema não. Já passei por coisas piores com crianças. – Taylor dispensou educadamente a preocupação de Dakota, que já estava gritando a plenos pulmões, chamando Oliver para que ele se desculpasse. – Realmente não é necessário. – Taylor tentou dizer, erguendo as mãos com constrangimento.
– Ora, depois eu e aquele menino teremos uma conversinha. Eles só podem ter puxado esse gênio do Carl! – Dakota reclamou, erguendo as mãos para o alto. – Carl era igualzinho quando era um garoto. Não era, Camille?
– Oh, talvez fosse ainda pior. – Camille colocou as mãos na linha do quadril.
– Hei! – Carl reclamou.
– Bem, pelo menos vocês podem ficar tranquilas se os garotos crescerem como o pai. – Taylor tentou ser gentil, mas não estava falando apenas por gentileza. Carl parecia um cara legal.
– Isso é verdade. – Dakota sorriu como a verdadeira esposa apaixonada ao enlaçar um braço no do marido.
Damien desistiu, pelo menos por enquanto, de tentar provocar o médico. Ele sempre dava um jeito de puxar o saco e ganhar a atenção de todo mundo.
– Carl só aquietou o facho depois que casou... – Ele lembrou.
O restaurante ainda estava com pouco movimento então eles puderam escolher uma mesa em um canto para conversar com mais calma. Camille avisou que iria até a cozinha verificar algumas coisas, mas que logo voltaria para conversar um pouquinho com eles antes que o restaurante abrisse.
Damien sentou e acomodou Charlote em seu colo. Completamente alheia à conversa dos adultos, a menina começou a brincar com a boneca que carregava.
– Como está indo na escola, Charlie? – Damien perguntou para a menina. Ela sorriu com os olhos de mel brilhando e começou a contar que tinha iniciado aula de balé e que, segundo a professora, ela estava indo muito bem! – Nossa, deve ser muito difícil! Mas a professora te elogiou?! Estou orgulhoso! Você vai me ensinar a dançar? – Damien perguntou.
– Você vai cair, padrinho! Suas pernas são muito grandes.
– Se você me ensinar, tenho certeza que eu consigo! – Ele teimou.
– Balé é coisa de menina, padrinho! – Phil ocupou a cadeira que estava vaga ao lado do ruivo e deu pitaco na conversa.
– Hoje em dia não existe mais “isso é de menino, isso é de menina”, Phil. Há muitos homens que dançam balé, assim como há muitas garotas que jogam futebol e coisas assim. – Damien explicou.
Taylor, que estivera prestando atenção em algo que Carl e Dakota falavam, espichou as orelhas ao escutar o comentário. Realmente não esperava isso de alguém como Damien.
– É chato. – Phil bufou.
– É não! – Os lábios de Charlie começaram a tremer e, desesperado, Damien percebeu que se ele não fizesse nada logo ela começaria a chorar.
Ele olhou para Phil e, movendo apenas os lábios, disse: “Lembre-se do jogo!”. E funcionou, já que imediatamente o menino adquiriu um incrível interesse pelos guardanapos em cima da mesa, que logo começaram a se transformar aviõezinhos.
– Me conta mais, Charlie. – Damien a incentivou e a menina, apesar dos olhos ainda úmidos, perdeu o ar de choro iminente quando voltou a contar sobre os passos que havia aprendido.
Camille logo retornou e se sentou ao lado de Taylor. Ela observou Damien e Charlie conversando por um momento, enquanto o ruivo prometia dar a ela uma boneca bailarina.
A dona do restaurante suspirou antes de puxar assunto com o novo médico:
– Damien vai acabar estragando esses meninos. – Ela sussurrou. – Já falei mil vezes para ele parar de enchê-los de presentes, mas ele acha que é normal fazer isso para demonstrar o que sente. – Acrescentou ainda em um tom preocupado. – Mas não quero enchê-lo com as minhas preocupações de avó. – Ela sorriu. – O que está achando da cidade? Sei que você chegou hoje, mas o Damien o levou para um tour, não é? Aliás, o Carl me disse que você vai passar uns dias na casa do Damien. Se ele fizer algo que sair um dedinho da linha você pode vir me contar que eu vou colocá-lo nos eixos! – Afirmou enfaticamente.
Taylor riu de leve do jeito da mulher. Ele bem que iria gostar de ver um homem do tamanho de Damien sendo colocá-lo nos eixos por uma mulher baixinha com seus talvez cinquenta e poucos anos de idade. Camille, no entanto, ainda parecia bastante jovial. É, ela certamente conseguiria dar uns puxões de orelha em quem merecesse.
– Não se preocupe. Damien foi... Bastante gentil comigo até agora. – Forçou o sorriso. Oh, Deus, tudo bem que Damien era um rico folgado, mas não o havia destratado até agora, somente o ajudara. E ainda parecia gostar muito daquela família. – Tenho certeza que nos daremos bem. – Ele espiou Damien pelo canto do olho e teve de admitir para si mesmo: ele duvidava que fossem realmente se dar bem.
– Eu conheço esse menino desde pequeno. Sei como o gênio dele pode ser difícil às vezes. – Ela suspirou. – Espero que ele realmente se comporte porque todos nós estamos muito felizes com a sua chegada. Estávamos sem médico há tempos e era sempre difícil conseguir alguma consulta, uma receita, um remédio... Confesso que você é um pouco... Diferente do que eu esperava. Mas não sou de julgar o livro pela capa e quero ver você no consultório atendendo para tirar as minhas conclusões – Camille disse em sua habitual sinceridade que costumava desconcertar a todos da cidade.
– Mãe! – Carl gemeu e afundou um pouco na cadeira ao ouvir o que ela dizia. – Desculpe a minha mãe, Taylor. Parece que às vezes não tem filtro entre o cérebro e a boca.
– Bobagem! – Camille balançou a mão em um sinal de impaciência. – Tenho certeza que Taylor prefere pessoas sinceras.
Taylor ficou ligeiramente desconfortável, mas não chateado. Ele estava acostumado com o pré-conceito, não só por sua cor, mas por seu estilo e... Tantas outras coisas! Ninguém como ele estava livre de ser julgado pela capa. Desde pequeno, ele havia aprendido a lidar com esses pequenos percalços da vida. Mas, nesse caso, ele entendia. Ninguém esperava um médico novo, negro, com rastafári e estilo grunge. Ao imaginar um médico, a maioria das pessoas fantasiava com um homem branco, de uns sessenta anos, com barba, uma barriga proeminente pela idade e olhos bondosos.
– Não há problema. Eu espero poder ajudar da melhor forma possível. – Disse, mas sentiu algo engasgar na garganta. De repente, sentiu-se inseguro como nunca antes havia se sentido, mais do que quando fez seu primeiro plantão em uma emergência após formado. – Com licença, preciso pegar um ar. – Disse se levantando, sentindo que começaria a hiperventilar se não afastasse certas lembranças da cabeça.
Caminhou para a varanda atrás do restaurante, que tinha uma bela vista para três montanhas que ficavam nos arredores da cidade. Respirou fundo e levou uma mão à testa, tentando se controlar. Principalmente, evitando algumas lágrimas de caírem.
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