Café, Ciúmes e os Acasos do Amor
8 Encontro de reconciliação?
Notas iniciais
A janta na noite anterior foi um tanta estranha.
Taylor e Damien pareciam não saber direito o que conversar um com o outro e agiram mais formais do que o normal em meio ao clima ainda um pouco tenso, devido à briga recente. Era como se ambos tivessem medo de tocar no assunto sobre médicos, falta de sentimentos e julgamentos errados outra vez, mas não conseguissem disfarçar muito bem tanto esse receio, quanto as marcas que a briga havia deixado no relacionamento ainda frágil.
Por isso, ao acordar no sábado pela manhã, Taylor estava nervoso. Não sabia se havia sido uma boa ideia aceitar o convite de passear com Damien. E se o clima continuasse péssimo? Talvez apenas piorasse as coisas. E talvez o melhor tivesse sido sair daquela casa de vez. Porém, a ideia de cortar relações com o ruivo de maneira tão abrupta era desconfortável, por isso havia continuado ali, mesmo após ter dito que iria procurar pouso no hotel da cidade.
Bem, nada disso mudava o fato que, ao ir escovar os dentes no lavabo (para não precisar entrar no quarto do ruivo), seu coração estava ligeiramente acelerado e suas orelhas mais quentes que o normal, efeitos comuns sobre seu corpo nos momentos em que ficava ansioso, ou nervoso. “É só um passeio”, disse à sua imagem no espelho. Não era como se precisasse se preocupar com o que iria dizer ou como iria agir. Ele não era um adolescente, e aquele não era um encontro com um pretendente a alguns amassos.
– Eu estou precisando mesmo relaxar. – Taylor murmurou após terminar de escovar os dentes, e jogou água sobre seu rosto, esfregando-o.
Depois disso foi para a cozinha preparar um café e alguma coisa para comerem. Já havia percebido que Damien geralmente acordava sem fome, porém o café da manhã era a refeição mais importante do dia e, ao menos enquanto morasse ali, Damien teria que se acostumar a comer direito naquele horário. E, por falar nisso, Taylor não tinha ideia de que horas o ruivo acordaria, visto que não haviam combinado na noite anterior se sairiam já pela manhã.
– Se depender da hora que ele for acordar... Sairemos às quatro da tarde. – Murmurou preparando umas torradas e umas frutas com cereais, enquanto a água para o café esquentava.
Damien havia passado metade da noite elétrico, escrevendo que nem um louco o episódio do seriado. Nele, os personagens principais iriam a um encontro. Seria o primeiro. Eles viviam em idas e vindas e nunca tinham ido a um encontro antes.
Não que isso de alguma forma estivesse ligado à vida real do ruivo, porque definitivamente aquele passeio com Taylor não era um encontro. Bem, mas se não era um encontro então por que Damien se sentia tão nervoso? As mãos suavam e ele sentia um frio no estômago de dar inveja no Polo Sul. Nem queria imaginar quando fosse um encontro de verdade!
“Argh! E quem disse que vai ter encontro de verdade?!”, o ruivo pensou exasperado antes de começar a bater nas teclas do teclado com mais força do que realmente precisava.
No final das contas ele acabou indo dormir quase com o dia clareando, como já era o seu costume, mas colocou o despertador para tocar às 8h e, quando o treco irritante tocou, ele quase caiu da cama por causa do susto que levou.
Resmungando, Damien foi até a cozinha coçando a cabeça e bocejando. Ele observou Taylor por um momento antes de falar para anunciar a sua presença. Realmente Sam devia ter um parafuso a menos para acreditar que o médico fosse gay. Ele não tinha nada de gay.
– Dia… – Cumprimentou ainda meio zumbi, enquanto ocupava um dos lugares vagos da mesa. – Café. – Resmungou.
Taylor se virou comendo um morango. Ele tinha paixão por morangos. Também adorava mamão, melão, maçã e uvas. Por isso havia picado morangos, mamão e melão e feito uma espécie de salada de frutas com cereais, além das torradas. E, claro, o café, do contrário, era possível que o ruivo o chutasse de casa se não tivesse para tomar ao acordar.
– Um morto-vivo é mais atraente do que você no momento. – Taylor falou sem nenhum eufemismo ao se aproximar e servir uma xícara generosa de café ao ruivo. – Sério, o que você faz à noite, se não dorme?
Damien piscou seguidamente e esfregou os olhos para ver se o Taylor à sua frente iria evaporar porque, sério, aquilo TINHA que ser um sonho. Quando ele percebeu que aquilo não era nenhum fruto de sua imaginação, seus olhos se fixaram nos lábios cheios do médico que comiam o maldito morango de uma forma que Damien classificaria como despudorada. Ele se me mexeu na cadeira, incomodado pelo que sentiu formigando entre as pernas.
Só para piorar, quando ele foi pegar a xícara seus dedos roçaram nos de Taylor e ele jurou sentir uma eletricidade percorrendo o ar. “Eu estou assistindo muito seriado... E a culpa de eu ficar pensando essas besteiras é do Sam! Eu não via o Taylor dessa forma!”, o ruivo pensou exasperado ignorando que, mesmo antes de Sam falar sobre a sua suspeita, ele já vinha pensando no médico de uma forma diferente.
– Só não vou até aí para te mostrar que eu sou muito mais vivo e animado do que um morto-vivo, porque estou com um bafo de dragão e acho que você não gostaria de ganhar um beijo de um dragão. – Disse sem qualquer filtro na boca, provocando sem nem pensar nas consequências da brincadeira.
Taylor se engasgou com o morango e começou a tossir sem parar. Aquele realmente não era o tipo de coisa que ele esperaria escutar de Damien logo cedo pela manhã. Ou melhor, não era o que ele esperava escutar de Damien em nenhum momento do dia. E ainda bem que sua pele era escura, do contrário, o ruivo teria percebido a maneira como enrubesceu. Bem, ele também poderia culpar o acesso de tosse.
– Mortos vivos costumam ter bafo. – Taylor conseguiu entrar na brincadeira ao recuperar o ar. De jeito nenhum ele deixaria o ruivo sair por cima dessa, tirando com a sua cara e o deixando todo corado. Pegou as duas tigelas em que havia feito a salada de frutas com cereais e colocou uma na frente de Damien. – Coma após tomar o seu café. E fiz torradas também, se quiser. E nem tente abrir a boca para negar! Se vai continuar dormindo mal, ao menos vou fazer você comer bem. Você queria um bom médico, não é? Contente-se com um agora. – Alfinetou e sentou-se à mesa para comer e tomar seu próprio café.
– Tudo bem, papai. – Resmungou enquanto pegava uma das frutas sem lá muito entusiasmo. Taylor torceu o nariz, mas o importante era que o ruivo havia obedecido. – Por falar em pai… Você nunca comentou nada sobre a sua família. Eles continuam morando em Ottawa? – Damien não queria que o assunto fosse para o lado “médico bom e médico ruim”. Ele ainda não estava nem um pouco pronto para se arriscar nesse assunto, e uma briga quando eles estavam engatinhando para uma reconciliação era o que ele menos queria.
Quando a palavra “reconciliação” surgiu na mente de Damien, ele se inclinou e bateu a cabeça na mesa. Eles não eram um casal para ter uma reconciliação!
Taylor olhou para o ruivo como se ele fosse louco. Não era exatamente normal alguém bater a testa contra a mesa sem motivo algum, era?
– Você está bem? – Perguntou e colocou a mão sobre a testa do ruivo, checando uma possível febre acompanhada de alterações de comportamento. – Ou é apenas sono?
Damien segurou a mão de Taylor e a afastou da sua testa rapidamente. Ele tinha certeza de que estava vermelho até as orelhas. Precisava se controlar antes que o médico começasse a pensar que ele realmente estava louco.
– Eu pensei uma coisa e quis tirá-la da mente. – Disse sem jeito, enquanto soltava a mão dele.
– Ahnn, certo. – Taylor afastou a mão e, olhando de esguelha para Damien, como se duvidasse da sanidade mental dele, deu uma colherada em sua salada de frutas. – Minha família continua em Ottawa. Bem, ao menos meu irmão e meu pai. Minha mãe fugiu com outro homem quando eu e Timothy éramos crianças. Há também meus avós paternos, uma tia e um primo. Não somos uma família muito grande. – Encolheu os ombros, mas depois chegou a abrir a boca para perguntar sobre a família de Damien.
No entanto hesitou e preferiu deixar ele falar primeiro.
– Engraçado. Nunca pensei que tivéssemos algo em comum. Pelo menos não algo tão desagradável. – Damien comentou enquanto brincava com as frutas da salada, mantendo os olhos baixos para não encará-lo nos olhos. – Meu pai fugiu depois que a minha mãe engravidou. Não sei nem o nome dele ou se ele ainda está vivo. Já a minha mãe era filha única então não tenho tios, tias ou primos. Quando meus avós faleceram, fiquei sem nenhum parente e fui “adotado” pela tia Camille.
Damien queria manter o assunto em um terreno seguro, mas acabou voltando para outro campo minado. Falar da sua família nunca foi fácil.
– Acho melhor a gente terminar logo esse café senão vai ficar tarde. – Disse enquanto voltava a comer, não querendo mais insistir naquele assunto.
Taylor observou Damien comer. Havia percebido a maneira sutil dele de encerrar o assunto, mas, mesmo que o algo em comum entre eles fosse algo ruim, sentiu-se mais próximo ao ruivo por terem compartilhado daquele mesmo tipo de sofrimento. A rejeição de um dos pais. Porém, Taylor ainda tinha o pai, já Damien não tinha mais ninguém, além de Camille, Carl, Dakota e os sobrinhos. Uma família emprestada.
Mas eles eram tão bons quanto uma família de sangue, talvez até melhores, o que deixava Taylor mais tranquilizado.
– Sabe, no primeiro dia eu achei que te acharia um idiota completo, daqueles riquinhos mimados e folgados. – Taylor deixou escapar sem pensar. – Achei que não nos aguentaríamos nem por dois dias. Bem... Você é meio folgado, mas é bom estar errado quanto ao resto. – Sorriu divertido. – Espero que realmente não se importe de eu continuar aqui até a reforma acabar. Os caras que estão reformando conseguiram estragar o encanamento e falaram que vão atrasar em mais duas semanas do previsto!
– Eu não sei se fico feliz ou ofendido com isso. Mas que bom que a sua primeira impressão foi quase totalmente errada. Confesso que minha impressão de você foi de “Ele não é mulher. Carl me enganou. Vou voltar a dormir!”. – Damien sorriu enquanto balançava a cabeça de leve. – E sobre a reforma… Que chato. Eles vieram me falar que precisariam de mais alguns dias... – Disse com a cara mais limpa do mundo. Talvez devesse largar o emprego de escritor e se tornar ator.
Taylor riu.
– Meu nome unissex já causou alguns desentendimentos antes.
O médico começou a contar algumas das situações em que havia sido confundido com uma garota. Damien ficou meio surpreso quando Taylor relatou que era mais... feminino quando mais novo.
– As pessoas não sabiam dizer se eu era menino ou menina. Isso aconteceu até um pouco antes dos meus treze anos. Depois disso, a puberdade me atingiu de vez e não tive mais esse problema. Só com o nome. – Relevou, parecendo aliviado com o fato. Se levantou ao terminar de comer e largou as coisas na pia.
Depois que eles terminaram de tomar café, cada um foi para o quarto para se vestir. Estava frio então Damien recomendou que o médico se agasalhasse bem. Taylor quis saber aonde eles iriam, mas o ruivo retrucou que não teria graça se ele entregasse o ouro assim de lambuja.
Enquanto esperava por Taylor, Damien levou duas bicicletas até o seu Hyundai Tucson e as acomodou no bagageiro. Depois foi até a cozinha, pegou uma cesta e jogou lá dentro todas as frutas que ainda estavam na geladeira e o que parecia comestível e na validade. Quando voltou para a garagem, Taylor já estava lhe esperando.
Damien dirigiu sem pressa, indicando alguns lugares que não tinha mostrado para o médico na primeira vez em que fizeram um tour pela cidade. Agora seguiam para a área mais tomada pela natureza do município, longe do centro. Taylor olhava tudo admirado. As montanhas tomadas pelos pinheiros, os animais soltos pela floresta que andava junto à estrada.
Passaram pela placa indicando o nome do lugar ao qual se dirigiam: Canmore Nordic Centre Provincial Park. Damien então estacionou o carro no local reservado como estacionamento.
– Bem, daqui vamos de bicicleta e lá no nosso destino alugamos os nossos patins. – Damien disse animado.
– P-Patins? – Taylor perguntou inseguro. Ele nunca havia andado de patins, nem de roller, ou skate, ou qualquer dessas coisas que exigissem equilíbrio. Nem mesmo na bicicleta ele se garantia completamente. Fazia anos que não andava em uma, talvez uns oito.
– Vamos. Você vai entender quando chegarmos lá. – Damien ofereceu uma das bicicletas. O ruivo percebeu que Taylor estava hesitante, mas não iria desistir da ideia de levá-lo até o lugar planejado. – Não seja medroso. – Provocou.
– Não é medo! – Taylor mentiu. Já estava com vergonha só de se imaginar levando o senhor tombo na frente de Damien. Ele pegou a bicicleta e montou nela. – Teve uma vez que um paciente entrou em choque bem na minha frente. Eu era só um acadêmico no meu nono período e não havia nenhum médico por perto. Aquele sim foi o momento mais assustador da minha vida. Uma bicicleta? – Riu forçado. – Isso não é nada.
Taylor deu as primeiras pedaladas e surpreendeu até a si mesmo ao conseguir manter o equilíbrio.
– Rá! Eu não disse?! – Perguntou por cima do ombro, avançando pela trilha e deixando Damien para trás. – Isso é moleza! – Falou. “Não caia, não caia, não caia.” Pensava por dentro.
Damien riu da postura tensa e nervosa de Taylor enquanto o acompanhava um pouco mais atrás.
– Andar de bicicleta é que nem fazer sexo. Pode passar o tempo que for, mas você não esquece como é. – Disse com um ar de diversão. – Você pode continuar pedalando reto nessa trilha. Nosso destino não está muito distante. E não se preocupe. Estou bem atrás de você. Só não grite se topar com um urso. – Acrescentou rindo.
– Urso?!? – Taylor exclamou e tentou olhar para trás para ver se Damien estava brincando ou falando sério, apesar das risadas. Mas isso o desequilibrou e ele teve que se aprumar rapidinho antes que fosse ao chão. – Não fique me assustando numa hora crucial como essa! – Reclamou e resmungou um idiota em tom baixo, para que o ruivo não o escutasse. – Se um urso aparecer, eu juro que disparo pedalando e te deixo para o almoço.
– Que maldade com o seu anfitrião. – Damien zombou. – Você tem que ser um bom hóspede e turista e servir de sobremesa.
O ruivo realmente não queria pensar em como estava provocando o médico com aquelas frases de duplo sentido que de alguma forma remetiam ou falavam diretamente sobre sexo. De onde ele estava, podia ver a forma que o bumbum de Taylor adquiria quando ele empinava um pouco para frente, e a visão não era nada desagradável. Pelo contrário, ela o fazia gemer baixinho e se recriminar a todo segundo.
– Nos seus sonhos, cabeça de cenoura! – Taylor retrucou, mas o ruivo sequer se importou com o apelido porque estava mais interessado em olhar para o traseiro do médico.
Por que Sam tinha que falar do maldito gaydar? Damien estava muito bem sem essa informação. Agora ele não conseguia parar de ficar observando o médico para tentar captar “sinais gays”. O problema era que quanto mais ele observava, menos gay Taylor parecia.
Depois de alguns minutos de pedalada, chegaram ao lago congelado. Algumas pessoas já se divertiam andando (e caindo) lá no centro. Damien olhou para Taylor esperando pela reação dele.
Taylor deu um passo para trás após descer da bicicleta.
– É, isso não vai dar certo. – Ele tentou mudar a bicicleta de direção e voltar a subir nela, para escapar dali rapidinho.
– Hey, hey, hey! – Damien segurou a bicicleta do médico pela garupa impedindo que ele fugisse. – Lá vai você tentando escapar de novo. O que de mal pode acontecer? Até a Charlie anda de patins nesse lago!
– O que só prova que meninas são muito mais desenvolvidas que nós homens. – Taylor disse, suspirando ao não conseguir escapar. Virou-se para o ruivo. – E eu não estava fugindo. – Mentiu. – Só... Queria apreciar mais a vista de lá. – Apontou para um ponto bem distante do lago.
– Vamos lá. – Damien caprichou na cara de cachorro que caiu da mudança que aprendeu especialmente com os gêmeos. – Só uma volta. Prometo que sirvo de almofada se você se espatifar no chão.
Taylor abriu e fechou a boca, mas não conseguiu encontrar palavras.
– Isso é injusto! Não faça essa cara! – Bufou, mas soltou um suspiro de derrota. – Ok, mesmo sabendo que você só está falando isso para me convencer, ainda terei a garantia de exigir que você pague pelo meu tratamento caso eu caia e quebre algum osso. Amigos ricos são para essas coisas.
Damien abriu um sorrisão satisfeito por ter conseguido convencê-lo e, lá no fundo, ficou feliz em saber que Taylor não conseguia resistir a sua cara de cachorro que caiu da mudança.
Eles encostaram as bicicletas nas árvores e foram até a casinha onde ficava a pessoa que alugava os patins.
O ruivo foi o primeiro a entrar no lago e estendeu a mão para ajudar um desequilibrado Taylor.
– Uma aranha com patins faria melhor. – Damien riu, mas logo parou com o olhar de “Calado!” que recebeu. – Não é difícil. Desliza um pé e depois o outro. – Instruiu. – Outro dia eu trouxe as crianças aqui. Elas quase me enlouqueceram. Não ficavam quietas de jeito nenhum.
Enquanto falava, Damien arriscou soltar Taylor e em um primeiro momento ele conseguiu se equilibrar sozinho, mas não foi muito longe, logo se desequilibrou e teria caído de cara no chão se Damien não tivesse entrado na frente e amortecido a queda. Os dois foram de encontro ao chão, com Taylor por cima de Damien.
– Eu disse... Almofada – Damien disse sem ar.
Taylor olhou para Damien, seus lábios entreabertos.
– Ai meu Deus, você ‘tá bem?! – Pegou a cabeça dele e a moveu para o lado, a fim de verificar se não havia nenhum sangue no gelo. Suspirou de alívio ao ver que não, mas então seu olhar se encontrou com o do ruivo e, aos poucos, ele se tocou da posição em que se encontravam. Algumas pessoas já olhavam para a cena.
Taylor se empurrou para trás e caiu desajeitado no gelo ao lado do ruivo. Seu corpo todo parecia ter esquentado uns trinta graus pela vergonha.
– Desculpe. – Murmurou. – Eu sabia que não ia dar certo.
– Você vai desistir na primeira queda? – Damien perguntou enquanto sentava. Ele tentou ignorar a forma como seu coração batia que nem um maluco e ele tinha certeza de que não foi pelo susto. – A Charlie cai e levanta, cai e levanta, cai e levanta. Não importa quantas vezes seja. Ela sempre levanta. Pensei que você fosse do mesmo jeito… Mesmo com todas as dificuldades e todas as idiotices que já ouviu por causa da sua aparência. – “E dos caras idiotas que falam sem pensar, como eu”, acrescentou mentalmente. – Pensei que você caísse e levantasse. – Com certeza ele começou falando de quedas por causa do desequilíbrio nos patins, mas não terminou falando sobre isso.
As sobrancelhas de Taylor ergueram lentamente. Aquilo mexeu com ele de uma forma que ele nem conseguiu explicar. Chegou a se sentir sem ar por uns segundos e os batimentos cardíacos aceleraram. Acabou rindo alto, com um sentimento bom no peito, enquanto tapava o rosto com a mão.
– Tem razão. – Confirmou e, com novo ânimo, se levantou. – Eu estou acostumado a cair e levantar.
Tentou avançar lentamente de novo, sofrendo alguns desequilíbrios. Damien parou ao seu lado, parecendo quase se exibir ao fazer aquilo parecer tão fácil, e Taylor aproveitou e tentou empurrá-lo. O ruivo se desequilibrou e o médico soltou uma gargalhada, mas isso o fez perder o equilíbrio também e ele levou uns bons segundos balançando os braços e inclinando o corpo de um lado para o outro tentando recuperá-lo. No fim, era Damien quem estava rindo de sua cara. Taylor estreitou os olhos e tentou alcançá-lo.
Damien fugiu como um coelho que foge de uma tartaruga: sem pressa nenhuma. Taylor acabou tropeçando para frente e colocou as mãos nos ombros de Damien, que estava de costas para si, para não cair. O ruivo continuou deslizando pelo gelo e o mais velho deslizou de carona.
– Até que assim não é tão ruim. – Taylor falou, e o vapor que saiu por entre seus lábios bateu contra a nuca de Damien, que se desequilibrou e quase caiu levando o médico junto, mas girou rápido, segurando Taylor habilmente pela cintura fazendo com que seus corpos ficassem colados. O ruivo estava totalmente arrepiado. Ele aumentou a força com a qual segurava o corpo do médico junto ao seu e abriu a boca para dizer algo, mas sua voz havia se perdido. Sua mente estava confusa com mil pensamentos correndo descontrolados.
Taylor retribuiu o olhar, parecendo igualmente sem palavras e com o corpo totalmente maleável contra o seu. Damien reparou que as sobrancelhas dele eram mais longas e seus olhos escuros pareciam ainda mais hipnotizantes assim de perto.
Ficaram assim até que o ruivo percebeu que uma das pessoas responsáveis pelo controle do tempo de aluguel dos patins estava fazendo um sinal para eles voltassem para a borda, pois o limite deles havia estourado.
– Nós… Nós temos que sair. – Disse com a voz rouca, mas não conseguia soltá-lo.
Sentindo todo seu corpo explodir em calor, Taylor piscou os olhos algumas vezes, parecendo acordar de um devaneio. Por que diabos Damien estava o apertando tão forte contra o corpo dele? Meu Deus, seus rostos estavam tão perto que conseguia sentir a respiração quente dele acariciando sua pele. “Ele só está cuidando para que eu não dê de bunda no chão de novo”, se convenceu tentando ignorar a forma como seu coração parecia prestes a entrar em uma taquicardia ventricular. Ok, não era um bom momento para ficar pensando em termos médicos.
– Ok. – Conseguiu dizer fracamente e se afastou dele, tentando fingir que tudo estava absolutamente normal. Porque estava, certo? Damien é que devia estar achando muito ruim abraçar um cara para que ele não caísse no chão. – Eu acho que consigo chegar até a beira. – Disse e, de maneira muito lenta, atrapalhada e, se fosse sincero, ridícula, foi se equilibrando aos trancos e barrancos até a borda do lago.
Sua cabeça girava e Taylor mandou seu corpo parar de formigar.
– Você tem uma regra, Taylor. Nada de se interessar por heterossexuais. – Murmurou baixinho o suficiente para que ninguém o escutasse.
Damien era somente o cara que lhe dava teto enquanto esperava a reforma da clínica terminar. Só. Era bom que seu corpo entendesse isso e não lhe pregasse mais nenhuma gracinha.
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