Café, Ciúmes e os Acasos do Amor
9 O pervertido é você
Notas iniciais
John era um homem um pouco metódico.
Com certeza era algo herdado do pai e da rígida criação que ele deu a John, que cresceu em um rancho que ficava ao sul de Canmore. Ele acordava todos os dias no mesmo horário, antes do sol começar a nascer, e saía para uma corrida pelo quarteirão. Voltava e preparava o café para os dois filhos, para depois levá-los para a escola. Suas próximas horas eram gastas no orfanato, onde trabalhava como administrador há alguns anos.
Nos sábados, John também corria e depois tomava café da manhã com os filhos antes de ir trabalhar. Voltava à tarde e fazia algum programa familiar com os meninos. Ele gostava de passar os finais de semana com Teodore e Davi, seus dois filhos do fracassado casamento que tivera com Adele.
Teo tinha oito anos e Davi seis.
A mãe dos meninos havia deixado a guarda deles para John depois da separação. Ela alegou que precisava se mudar por causa do trabalho e era melhor para os meninos que continuassem na cidade onde haviam nascido e vivido seus primeiros anos. John não reclamou, não negou e também não jogou na cara dela que aquilo era apenas uma desculpa para iniciar uma nova família com um homem rico que ela conhecera em uma viagem de negócios aos EUA. Ele amava os filhos e de maneira alguma desejava se separar dos dois. Às vezes era difícil, mas John continuava lutando para ser um bom pai, suprir a falta da mãe e dar o melhor para os seus meninos.
Naquela manhã de sábado, ele acordou e recebeu a notícia de um imprevisto. Isso já fez com que ele perdesse um pouco da paciência. A babá dos meninos, a Sra. Hudson, havia recebido uma ligação urgente da irmã que morava em uma cidade vizinha e havia viajado às pressas para vê-la. John não podia deixar de ir até o orfanato, já que tinha de analisar alguns balancetes de doações que o lugar havia recebido recentemente, e por isso precisou levar os garotos com ele para o trabalho.
Ele olhou pelo retrovisor e viu que Teo estava entretido lendo um gibi e Davi estava com a cabeça encostada no vidro observando a paisagem que passava pela janela.
– Desculpem por isso, garotos. – John falou atraindo a atenção dos dois. – Eu não queria obrigá-los a passar uma manhã de sábado lá, mas a Sra. Hudson avisou muito em cima da hora e eu não tinha como procurar ninguém para ficar com vocês.
– Não tem problema, pai. – Teo respondeu e voltou os olhos para o gibi.
Davi continuou quieto.
John estava começando a realmente se preocupar com o filho mais novo. Davi sempre havia sido tímido e quietinho, mas desde a separação ele estava ainda mais fechado e calado. Dificilmente conversava ou sorria. Apenas ficava observando tudo com olhinhos apagados e não demonstrava muito interesse em interagir.
Quando chegaram, John foi prontamente atacado por várias crianças. As pequenas pularam nas suas pernas e as maiores ficaram pulando ao redor.
– Como vocês conseguem tanta energia tão cedo? – Perguntou admirado. As crianças riram e começaram a falar de uma vez só, contando as novidades que haviam acontecido de um dia para o outro. E elas sempre tinham muitas novidades. – Eu trouxe o Teo e o Davi para brincar com vocês. – Indicou os filhos que haviam ficado um pouco para trás.
– Vamos jogar bola, Sr. Reynard! – Um dos meninos pediu enquanto jogava a bola em direção a ele.
John habilmente a segurou.
– Eu tenho trabalho, crianças. – Ele disse em um tom de “sinto muito”, mas um coro de “por favor!” acabou por vencê-lo. Ele adorava cada uma daquelas crianças e fazia o que estava ao seu alcance para vê-las ao menos um pouco felizes, já que cada uma delas tinha sua dose de histórias tristes. – Tudo bem! Mas só um pouco.
As crianças começaram a pular animadas e se dirigiram até o campinho que ficava nos fundos do lugar. Naquele tempo em que estava administrando o orfanato, John conseguiu triplicar o número de doações e, com elas, pôde construir o campinho, melhorar as instalações do prédio, construir uma sala de música, uma enfermaria e contratar mais funcionários. Sua próxima ideia era construir um parquinho e uma biblioteca.
Eles decidiram jogar queimada. Os maiores queriam jogar futebol, mas os pequenos não conseguiram acompanhar, então John os convenceu a jogar algo de que todos pudessem participar.
– Moderem na força para atirar a bola. Não queremos ninguém machucado! – Alertou enquanto as crianças se dividiam em dois grupos.
John se aproximou de Davi e perguntou se ele gostaria de ficar na sua equipe, mas o menino balançou a cabeça e foi sentar em um banquinho para assistir, não parecendo muito animado.
Com um suspiro, John pensou em insistir, mas desistiu ao ver a expressão tristonha do filho. Conversaria com ele mais tarde, em casa e com mais calma.
Logo os gritos tomaram conta do lugar e John ria enquanto fugia das boladas que as crianças tentavam acertar-lhe. De propósito, ele errava todas as vezes em que tentava atingir algumas delas. Todos riam, apontavam e gritavam dizendo que ele era terrível naquele jogo.
Foi no meio da brincadeira que ele chegou... John estava escapando de mais uma bolada quando todas as crianças gritaram um sonoro “Sam!” e correram em direção do loiro que se aproximava. John cerrou as mãos em punhos e seu sorriso imediatamente desapareceu.
Sam estivera observando aquela cena durante uns minutos antes de algumas das crianças notá-lo. O loiro simplesmente amava ver John interagindo com aquelas crianças. Ele transbordava calor e carinho, e seu jeito protetor com os pequenos era visível. Sam gostaria de vê-lo daquela maneira mais espontânea e sincera em outros momentos. Mas isso era apenas parte de seus devaneios. Ele deveria ter dado meia volta e retornado em outra hora, quando John estivesse envolvido com os assuntos burocráticos do orfanato.
O que havia acontecido há dois anos não iria se repetir. Não quando John o olhava com toda aquela raiva acumulada. Doía um pouco, mas Sam apenas sorriu para o mais velho. A diferença de idade entre eles era de dez anos, às vezes Sam desejava que fosse mais. Que ele também fosse uma criança e assim recebesse aquele olhar amoroso de John. “Que ridículo você é, Sam”, pensou com um sorriso amargo.
No entanto, seu sorriso se tornou verdadeiro ao se ajoelhar para receber o abraço de algumas das crianças.
– Você não está fantasiado hoje! – Disse uma delas, chamada Lisa. Ela mexeu em seus cabelos longos e lisos, que havia se esquecido de prender. – Eu queria me fantasiar de fada!
– Pra que se fantasiar, se você já é uma fadinha linda? – Sam perguntou, fazendo a menina sorrir acanhada. – E então vocês conseguiram convencer o Sr. Carrasco a brincar com vocês? – Perguntou se levantando. Era o apelido que havia dado ao John na frente das crianças. Isso havia acontecido após Sam criar uma bagunça dentro do orfanato ao brincar de pega-pega com a meninada e receber um sermão de John junto com elas.
O apelido as fazia rir. Já John parecia odiá-lo sempre um pouquinho mais quando o usava. Bem, não era como se Sam já não estivesse acostumado a ser odiado pelo moreno de cabelos castanho-claros e barba por fazer.
– Ele não queria, mas a gente conseguiu convencer!
– E quem vai entrar no meu time da alegria pra vencer do Sr. Carrasco?! – Sam perguntou, e algumas das crianças gritaram esticando as mãos para o alto. John observava tudo com uma expressão insatisfeita, mas Sam sabia que ele não reclamaria na frente das crianças. Ele odiava deixá-las tristes. – Acho que vocês podem vir pro meu time, mas eu quero mais alguém.
Sam apontou para o menino sentado cabisbaixo ali perto. Davi ergueu o olhar e arregalou os olhos, pego de surpresa pela súbita intimação. Ele negou rapidamente com a cabeça, parecendo ficar vermelho com a quantidade de olhares que se concentrou nele de uma só vez.
O loiro colocou uma mão na cintura, numa postura um tanto teatral.
– Não vamos conseguir sem sua ajuda. – Sam disse e se aproximou do garoto, que abaixou a cabeça. Ajoelhando-se de novo, ele falou em um tom baixo, para que apenas Davi o escutasse. – Eu sei como é ter medo. Esse medo de não ser aceito... Eu já senti ele. Às vezes eu ainda o sinto.
Davi o olhou com uma expressão em branco por uns segundos.
– Mas são os pequenos passos que nos ajudam a superá-lo. Que tal dar um passinho hoje e se divertir com a gente? – Estendeu a mão para o menino, sorrindo encorajador. Davi hesitou por vários segundos, mas, após respirar fundo, acabou aceitando a mão de Sam, que se levantou levando-o junto para o centro do campinho. – Bem, agora meu time está completo. Preparado, John? Crianças? – Perguntou a ele, para implicar, e às crianças para animá-las, mantendo o ar de diversão.
John estava absolutamente incrédulo pelo que Sam havia feito. Ele não só havia conversado com o seu filho mais novo, como conseguira arrancá-lo daquele banquinho. Algo que John não havia conseguido fazer em várias tentativas, em casa, ou outros lugares. Ele cerrou as mãos em punhos e atravessou o campo.
– A brincadeira acabou. – Falou, tentando não ser grosseiro demais por causa das crianças, e segurou a mão de Davi puxando-o para longe daquele homem. – Vamos, Teo.
– Mas, pai... – O menino tentou argumentar, mas se calou diante da expressão de poucos amigos de John. Teo conhecia aquela expressão e sabia que não deveria contrariar o pai nesses momentos. John não era um homem violento, nunca havia batido em nenhum dos filhos qualquer que fosse a situação, mas ele sabia dar broncas como ninguém e Teo realmente preferia evitar ficar com os ouvidos latejando por desobedecer.
– Você pode ler os seus gibis lá na minha sala e o Davi pode desenhar. Tenho pilhas e pilhas de papel de rascunho que ele pode usar. – John disse enquanto puxava o filho mais novo pela mão. As crianças não tentaram persuadi-lo a ficar. Elas também conheciam aquela expressão do administrador e preferiram evitar problemas.
Enquanto andava com o pai, Davi olhou para trás e ergueu a mão para dar um tchau para Sam, mas foi prontamente interrompido por John.
– Não fale com ele! – O censurou. – Fique longe dele, Davi! E você também, Teo.
– Ele não parece ser uma má pessoa... – Teo encolheu os ombros.
– Não faça me repetir, Teo! – John exclamou nervoso.
– Tá, tá. Eu já entendi. Que saco! – Teo falou emburrado e foi até a sala do pai ouvindo um discurso sobre controlar a linguagem.
Sam não se abalou. Não depois de dois anos sendo tratado daquela forma, como se carregasse uma doença contagiosa que também lhe deixasse com uma aparência horrenda. Ele havia aprendido a não chorar, ou não demonstrar seus reais sentimentos. Ele viera ali pelas crianças de qualquer forma, não por John. Encontrar com John fora uma obra do destino, que tinha seu lado bom e seu lado ruim. O lado bom era poder ver o moreno. O lado ruim era ele o ver.
Mas o que preocupava Sam de verdade era o filho mais novo de John. Ele se via ali, no menino, quando mais novo.
Da mesma forma, Sam havia lidado toda a infância com um pai homofóbico. A mãe era submissa e nunca ia contra as palavras do marido. O pai havia morrido de câncer de intestino há sete anos. A mãe ia bem, obrigado, morava na cidade e Sam vivia na casa dela. Agora sem o pai, ela finalmente lhe dava suporte e demonstrava toda sua aceitação, colocando o amor pelo filho em primeiro lugar.
É, tudo que Sam precisou para ser e agir como quem realmente era foi receber o apoio de alguém importante. Foi nessa época, com quinze anos, que saiu do armário para todos. Não havia mentido sobre às vezes o medo estar ali, ainda, como se seu pai pudesse voltar do túmulo para apontar-lhe o dedo. Talvez fosse alguma espécie de carma ter-se apaixonado por um homofóbico, como se precisasse continuar sofrendo por sua orientação, de uma forma ou de outra.
É, Taylor tinha razão em seu conselho, ele apenas errara no motivo por que Sam vivia provocando o moreno.
– Parece que o Sr. Carrasco acordou de mau humor hoje! Isso não impede a gente de brincar, não é? – Perguntou às crianças, colocando alegria em seu tom para distraí-las da cena que John havia feito. Elas concordaram animadas e, mudando de brincadeira, Sam correu e tocou no ombro de um dos meninos. – ‘Tá com você! – Gritou e, de repente, todo mundo soltou gritos elétricos e começou a correr para todos os lados.
John deixou os meninos na sala e saiu com a desculpa de que precisava pegar uns papéis que estavam em outro lugar. Mas a verdade era que precisava ficar sozinho um pouco para se acalmar. Ele foi andando pelo corredor lentamente e ouviu os gritos vindos lá de fora. Parou em uma das janelas e ficou observando Sam correr e rir com as crianças.
Dois anos.
Dois malditos anos nos quais ele não conseguia ter paz, nos quais não conseguia dormir sem ter pesadelos perturbadores sobre a noite na qual ele deslizou as mãos pelo corpo de Sam enquanto ele se contorcia sob o seu toque e gemia o seu nome baixinho, pedindo por um mais que John não se privou em dar. O moreno não sabia como começou. Ele estava bebendo e alguém chegou provocando-o, o chamando-o de corno e ele, meio bêbado, partiu para cima do idiota. Sam chegou, de alguma forma conseguiu apartar a briga e o ajudou a ir para o carro. E quando ele se deu conta já estavam se agarrando no banco de trás da sua picape.
“Foi culpa da bebida! Da bebida e dele que me seduziu!”, era o mantra que John repetia há dois anos, mas se ele fosse honesto consigo mesmo diria que a bebida só o deixou mais desinibido e com mais coragem para fazer algo que vinha desejando fazer desde que colocou os olhos naquele loiro pela primeira vez em uma das visitas que ele fez ao orfanato.
No dia seguinte, John acordou com uma puta dor cabeça e quase caiu da cama ao lembrar o que havia feito. E o pior: sua mente repetia e repetia as cenas quentes, a forma como Sam empinava o quadril tornando a penetração mais profunda...
John grunhiu e desviou o olhar ao perceber que estava pensando outra vez naquela noite e ficando excitado com isso. Aquela não era hora e muito menos o lugar para isso.
Depois daquela noite, ele começou a tratar Sam pior. John nunca havia sido um poço de educação com o loiro, mas também não o destratava. O administrador considerava Sam culpado por tudo, por ele ter saído do caminho e ter feito aquelas coisas tão estúpidas. Ele era um homem e gostava de mulheres! Por isso, Sam era o culpado. De alguma forma ele o contagiou com aquela coisa. Gostar de outro homem era anormal.
Além disso, o loiro já estava de caso com o idiota que não fazia nada. Eles viviam juntos, para cima e para baixo... E o idiota ainda o defendera com os punhos naquela noite no bar. Era claro como água que os dois tinham alguma coisa. E pensar nisso deixava John com vontade de socar alguma coisa. Mas ele não era um homem violento e muito menos se tornaria um por causa do loiro.
Com um suspiro, John voltou a andar. Iria até o banheiro lavar o rosto e depois começaria a trabalhar. Era o que vinha fazendo naqueles dois anos para evitar que a sua mente divagasse por caminhos errados. Cuidar dos filhos e se concentrar no trabalho. Somente isso manteria sua mente sã.
Naquele meio tempo em que o pai estava fora, Davi escapou da sala. Teo estava distraído lendo o gibi e nem notou quando o irmão saiu. Davi voltou até o campinho e ficou observando as crianças brincarem de pega-pega com o loiro. O menino queria ir até lá e brincar também, mas não queria contrariar o pai e também tinha vergonha de se aproximar. Ele ficou pertinho da porta, olhando o loiro com curiosidade e um pouco de admiração.
De pega-pega, a brincadeira mudou para esconde-esconde. As crianças correram para dentro do orfanato, se escondendo por todos os cantos. Muitas passaram por Davi às pressas, quase fazendo o menino tropeçar, mas quando Sam passou por ele, pegou-o pela mão, rindo e lhe piscando um olho, e o levou consigo para um esconderijo dentro de um armário num dos quartos. Davi o seguiu acelerando os passinhos e, muito sutilmente, um sorriso quis surgir em seus lábios.
Sam colocou um dedo sobre os lábios, pedindo por silêncio, até que eles finalmente se esconderam. O loiro estava ofegante e risonho, e Davi o observou em silêncio, como se o mais velho fosse algo muito curioso e impressionante. Assim que Sam conseguiu regular a respiração, ele prestou atenção melhor no menino franzino sentado à sua frente.
– Você não precisa se preocupar. Eu não vou contar para o seu pai que está aqui comigo. – Sam garantiu para deixá-lo tranquilo.
– Ele... não gosta de você. – Davi murmurou, abaixando o olhar. – Por quê? – Sussurrou.
– Porque ele aprendeu algumas coisas erradas dos pais dele, imagino eu. – Sam encolheu os ombros. – Até os adultos podem agir de uma maneira não muita certa, às vezes.
– Não entendo. – Davi balançou a cabeça. – Você é legal.
O loiro sorriu.
– Obrigado. Você também é, Davi.
– Não sou... – Davi continuou a sussurrar e abraçou suas pernas. – Eu não sei ser legal que nem você.
Sam riu.
– Você não precisa ser legal como eu! Você já é legal sendo apenas você. – Explicou.
– Acho que meu pai não vai gostar de mim também. – Davi disse tão baixinho após um tempo de silêncio que Sam teve de se esforçar para entender as palavras cochichadas.
Aquilo realmente lhe doeu o coração. Não queria deixar aquele menino passar pelo mesmo que havia passado quando era criança. Sam sempre soube, desde criança, que era diferente. Era algo que o pinicava e, quando o pai fazia comentários homofóbicos, esses comentários o atingiam diretamente, mesmo que não entendesse tudo aquilo muito bem na época.
Sam havia tido apenas uma desconfiança quanto ao filho mais novo de John, pois, em cidade pequena, todo mundo conhecia todo mundo e ele vira aquele menino crescer, mesmo que de longe. E aquela retração, timidez e tristeza dele pareciam ter um motivo específico, que o loiro entendia muito bem.
Pegando a mão do mais novo entre as suas, Sam a apertou de leve.
– Ele será muito burro se não gostar. – Falou. – Mas pode ter certeza que sempre haverá pessoas que vão gostar de você. Eu serei uma delas, ok? É uma promessa. – Sam soltou a mão de Davi e ergueu seu dedo minguinho.
Davi olhou para o dedo erguido com dúvida, mas, com certa lentidão, ele ergueu o seu, entrelaçando-o ao de Sam e aceitando a promessa.
– Ok. – Murmurou.
A porta do armário foi aberta de súbito.
– Achei! Achei o Sam e o Davi no armário da sala de música! – Cecile, um dos garotos, gritou a plenos pulmões ao encontrá-los.
John estava voltando para a sala quando ouviu Cecile gritar. Ele arregalou os olhos e foi conferir se seus ouvidos não estavam pregando-lhe uma peça. E realmente não estavam. Dentro do armário, Sam e Davi riam por terem sido descobertos pela outra criança. John respirou fundo, tentando não surtar... Ele não conseguia nem lembrar quando fora a última vez que vira Davi rir daquele jeito. Só por isso ele se controlou para não brigar.
– Davi! – Chamou-o em um tom firme. O menino prontamente parou de rir e encarou o pai com os olhos assustados. – O que eu falei para você entrou por um ouvido e saiu pelo outro? – As crianças que estavam na sala saíram correndo assim que ele entrou e Davi, mordendo o lábio com força, saiu do armário e, em passos lentos, começou a caminhar até o pai.
Sam saiu do armário também e seu olhar encontrou com o de John, que pareceu culpá-lo como se ele fosse o próprio Hitler e houvesse matado todas aquelas pessoas durante a segunda guerra mundial. Ele esperou John sair dali com Davi, porém depois de alguns minutos, ele foi atrás de John.
Bateu à porta do escritório dele e abriu a porta, não se importando em parecer muito educado.
– Precisamos conversar. Queira você, ou não. Em algum momento, eu farei você me ouvir, então que seja agora. – Falou o mais sério do que se lembrava em vários meses, olhando diretamente para o moreno.
John estava abrindo um arquivo no computador para começar a analisar quando o loiro entrou em sua sala parecendo um furacão.
– Teo, leve o seu irmão para o refeitório. Daqui a pouco vão servir o lanche. – John falou ao filho, porém não tirou os olhos de Sam.
O menino mais velho segurou a mão do irmãozinho e o puxou para fora da sala. Entretanto, Davi fitou o pai, parecendo implorar com os olhos para que ele não brigasse com o loiro.
Assim que os meninos saíram, John levantou, deu a volta na mesa e cruzou braços enquanto encostava-se à mesa.
– Você deveria parar de vir ao orfanato – John disse em um tom seco.
– Por quê? – Sam perguntou, mas ele mesmo respondeu. – Porque você fica incomodado com a minha presença? Me poupe do seu egoísmo. Eu venho aqui pelas crianças, para brincar com elas e poder fazer o dia delas um pouquinho mais alegre. Não venho por você. – Rosnou, aproximando-se alguns passos, sem desviar o olhar dos orbes azul-chumbo de John.
John deu um sorriso sarcástico.
– É claro que vem aqui unicamente por causa delas. – Retrucou com a voz carregada de ironia. – Eu não fico incomodado com a sua presença. Como alguém que não é nada poderia me incomodar? Não quero que venha porque a sua presença não faz bem a elas.
Sam queria gritar. Não, ele queria mesmo era dar um bom soco nas fuças de John. Uma avalanche de lava pareceu correr por seu corpo quando algo dentro de seu peito explodiu como um vulcão. Mas se John queria ser estúpido e sarcástico, Sam iria devolver na mesma moeda. Ou melhor, ele devolveria de uma forma que deixaria o homem com ainda mais raiva.
Um sorriso igualmente mordaz brotou em seus lábios finos, e ele se aproximou um pouquinho mais de John, apenas o suficiente para invadir de leve o espaço pessoal dele e deixá-lo desconfortável.
– E por que minha presença não faz bem a elas, John? – Ao pronunciar o nome dele, usou um tom de como se fossem íntimos. Ele sabia a resposta para sua pergunta, e sabia que doeria ouvi-la, mas algumas coisas precisavam ser ditas para que pudessem ser rebatidas.
John tentou não se mostrar abalado pela aproximação e manteve os braços cruzados, pois só assim conseguiria se impedir de segurar aquele loiro pelos ombros e jogá-lo naquela mesa. Pensar em como queria beijá-lo, fazê-lo gemer e gritar seu nome deixava John ainda mais fora de si e com mais compulsão para dizer coisas que fariam Sam odiá-lo. Ele precisava que o loiro o odiasse, já que somente assim conseguiria mantê-lo afastado. Ele não podia repetir o erro de dois anos atrás.
– O que você tem é contagioso. – John disse em um tom neutro apesar de toda a confusão que passava pelo seu corpo e pela sua mente naquele momento. – Não quero um pervertido perto das crianças e muito menos perto dos meus filhos.
Sam riu da idiotice que havia acabado de escutar, mas era um riso cheio de escárnio e, escondida, uma boa dose de dor. Aproximou-se mais um passo e passou os dedos de leve pelo colarinho da camisa social de John, de maneira lenta e provocante. O sorriso petulante continuava a enfeitar seu rosto.
– Para ter tanta certeza dessa afirmação, John, deve ser porque você foi contagiado? – Deixou um ar de sugestão em sua fala. – Ou será que alguma outra pessoa te contaminou antes? Porque, pelo que eu me lembro, não fui eu dois anos atrás que te agarrei, te joguei dentro daquele carro e arranquei suas roupas. Você nem se preocupou com eu ser virgem, apesar de eu avisar isso para você naquela hora. Você se afundou em mim de qualquer maneira, com pressa, como se não pudesse esperar... – Falou de modo casual, num tom baixo e provocativo, e aproximou os lábios do ouvido do mais velho, ficando na ponta dos pés para isso. – Acho que o pervertido aqui é você, John. – Sussurrou.
Agora John não conseguiu se controlar. Ele agarrou Sam pelos ombros e girou o corpo, fazendo com que Sam ficasse deitado sobre a mesa. O moreno segurou os pulsos de Sam no alto enquanto seu corpo se inclinava sobre o do loiro, seus rostos perigosamente perto.
Ele não precisava ser lembrado sobre isso. Não precisava se lembrar de como se sentiu um monstro no dia seguinte, com um gosto estranho na boca enquanto lembrava os pedidos de Sam para ir com calma porque ele era virgem, os gemidos de dor dele no início, e a forma como simplesmente não conseguira se controlar. Ele sequer lembrava direito dos fatos, naquela noite sua mente era um completo furacão; um trem desgovernado.
– Você me provocou. Você causou aquilo. – John acusou. – Eu estava bêbado e não estava pensando direito. Você se aproveitou disso! Você diz que era virgem... – Ele riu enquanto sua expressão se tornava jocosa. – Nunca acreditei nisso.
Ele nunca acreditou, mas lá no fundo, por mais que não quisesse admitir, queria que fosse verdade. John queria ter sido o primeiro. Queria ter sido o único. Era tão errado pensar isso que John imediatamente reprimia tais pensamentos e se sentia sujo.
Sam ofegou com toda aquela proximidade. Seu corpo ficou quente de novo, mas dessa vez não era apenas pela raiva. Ele havia provocado John, mas não achava que acabaria prensado contra a mesa daquela forma. Seu coração parecia prestes a explodir no peito e suas bochechas avermelharam, enquanto ficava excitado pela pegada forte.
Mas, apesar de todo o impacto daquela aproximação sobre seu corpo, Sam deu um jeito de soltar uma das mãos e dar um tapa no rosto do moreno, fazendo-o virar a face e diminuir o aperto. Rapidamente, Sam escapou de cima daquela mesa antes que perdesse a sanidade e a razão por que havia vindo falar com John em primeiro lugar.
– Você é ridículo, John. Eu não ligo pro que você acredita! – Mentiu. Estava se esforçando para não acabar chorando bem na frente dele. – Eu vim aqui falar com você porque me preocupo com o seu filho. Aparentemente, me preocupo mais do que você se preocupa com ele! – Exclamou. – Se você continuar agindo como um escroto homofóbico na frente dele... Você irá perdê-lo. Ele tem medo de fazer algo que te desagrade, e por isso se fecha. Mas, no futuro, ele vai perder esse medo e, se você não mudar, ele irá te odiar. E quer saber? – Olhou-o com desgosto. Infelizmente, não conseguiu se controlar totalmente e seus olhos lacrimejaram. – Você bem que merece.
Deu-lhe as costas e praticamente correu para a porta.
John levou uma das mãos ao rosto e ficou observando Sam correr da sala sem fazer nada para impedi-lo. Sua mente estava confusa demais para que ele conseguisse processar o que o loiro havia dito sobre Davi. A única coisa que John conseguia pensar era que se Sam não tivesse saído correndo, ele acabaria sendo agarrado em cima daquela mesa.
– É assim que você me seduz... – John murmurou baixinho, ficando vermelho, quente e assustado.
Era assim que ele o seduzia completamente.
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