Notas iniciais
Oi, gente! Me perdoem o atraso! Como alguns de vocês devem saber, passou um tornado por Porto Alegre, e eu fiquei o final de semana inteiro sem luz e internet! Foi o caos na cidade! Agora estou aqui extremamente apressada postando o capítulo, pois tenho mil coisas da faculdade ainda para fazer! Dessa vez não vou colar o nome de cada um que comentou, mas saibam que eu e a Bia amamos o feedback de vocês e agradecemos sempre o carinho! De coração! Boa leitura!

Taylor, Tim e Sam recém haviam almoçado juntos no Three Sisters.

Os dois andavam para cima e para baixo desde que Tim havia aparecido, e Sam muitas vezes os acompanhava. A relação entre os irmãos era muito estreita e, em pouco tempo, Tim também foi "adotado" por muitos moradores da cidade, principalmente por ter um jeitinho tão meigo e um pouco tímido de agir.

O mais novo da família Hastings era formado em História e possuía mestrado em História da Antiguidade. Pretendia começar o doutorado em breve, mas, enquanto morava em Canmore, estava dando algumas aulas particulares e trabalhando como professor substituto na escola municipal, pois o professor de história havia pedido um afastamento temporário por motivos de saúde.

O pai dos rapazes, chamado Max, viria visitar em breve. Ele estava enrolado com a transferência no emprego e só conseguiria uma folga no final do mês. No entanto, ele e Taylor já haviam conversado bastante por celular. Max quase já tinha planos de se mudar de Toronto e aproveitar o resto da vida numa cidadezinha tranquila como Canmore.

Taylor o xingara falando que ele tinha apenas sessenta anos e muita vida ainda pela frente para ficar falando como um velho nos seus oitenta e tantos.

É, havia toda essa parte feliz na vida de Taylor. Ele estava contente por ter se acertado com o irmão. Ele e Tim haviam conversado muito naquelas semanas sobre o acidente e sobre seus sentimentos quanto ao ocorrido. Também era ótimo entrar em contato com o pai novamente e saber que ele apareceria para visitar.

No entanto, outro lado de Taylor sofria calado pela falta de morar junto com o ruivo. Ele sentia que bastava Damien bater em sua porta com intenções de conversar que já se jogaria nos braços dele e falaria para que esquecessem aquela briga.

Ainda assim, Taylor esperava que Damien fosse a pessoa a dar o primeiro passo. Ele havia agido por suas costas, se intrometido em questões pessoais muito complicadas, e ainda lhe chamado, por tabela, de covarde, ao afirmar que nunca conseguiria resolver aquilo sem sua interferência. A intenção podia ser boa, mas Taylor nunca, em toda sua vida, aceitara pacificamente que alguém se metesse daquela forma em seus problemas pessoais. Tampouco era alguém de ficar na fossa, então continuava trabalhando, comendo e dormindo. Não tinha opção quanto a isso, de qualquer forma.

Só precisava ignorar os incontáveis sonhos que tinha com o ruivo.

— Você e Damien... Vai me contar por que brigaram? — Sam perguntou quando entrou na clínica junto com Taylor após o almoço. — Tem relação com o Tim ter aparecido aqui em Canmore? Você nunca tinha comentado sobre sua família antes, mas sua relação com Tim é ótima...

Taylor sabia que não demoraria para aquela pergunta aparecer. Na verdade, Sam até que havia se segurado bastante.

— É complicado... — Suspirou, retirando o casaco e o pendurando no cabide.

— AI MEU DEUS, QUE CHATO! — Sam berrou dando um susto no médico. — Eu não aguento essa frase! É a frase mais chata que alguém pode dar! Que raiva sua e do Damien. Aquele insuportável está me ignorando por três semanas. TRÊS SEMANAS! E agora você me vem com "é complicado"! É claro que eu sei que é complicado, por isso estou preocupado e quero saber o que está acontecendo antes que eu enlouqueça! — O loiro agitou os braços e depois olhou irritado para o amigo.

Taylor, de olhos arregalados, limpou a garganta após o susto inicial. Ele sentia que poderia apanhar de Sam caso não falasse nada.

— Nós brigamos... Ele ligou para o meu irmão e falou com ele sem minha permissão. Eu e Tim estávamos... Com algumas pendências. Eu vim para Canmore sem avisar minha família. — Taylor passou uma mão pelo rosto e se sentou no sofá. — Damien descobriu o que aconteceu que me trouxe para cá e, sem me consultar, se intrometeu nos meus assuntos pessoais. Quando Tim apareceu, eu fiquei tão furioso com Damien... Descontei tudo que estava sentindo nele. Sei que poderia ter conversado de maneira mais civilizada, ter escutado o que ele tinha para dizer, mas ele falava como se estivesse 100% certo em ter se intrometido e eu explodi... Na verdade agora, estou apenas esperando que ele apareça para conversar... Sei que ele não tinha uma intenção ruim...

Sam agradeceu aos céus por finalmente receber uma luz. Ele se sentou ao lado de Taylor.

— Damien é teimoso como uma mula. Ele nunca admite quando está errado. Uma vez o prefeito chamou o Damien para dar um discurso sobre as raízes de Canmore, já que os Van Persen foram uma das famílias fundadoras da cidade. Ele simplesmente se esqueceu totalmente e ficou dormindo até o outro dia! A cidade inteira ficou esperando ele aparecer e o prefeito lá com cara de tacho! Mas não houve alma que o convencesse de que ele havia feito algo errado. Segundo ele, dormir era muito mais importante do que falar um monte de abobrinhas para um bando de velhos desocupados e nostálgicos. – Bufou.

Taylor riu da forma do loiro contar a história.

— Eu não sei o que fazer... — Taylor deixou os ombros caírem, mostrando enfim todo o cansaço que sentia.

— Mas eu sei! — Sam falou animado e deu uma volta ao redor de si mesmo, fazendo uma mesura ao fim. Ele estendeu a mão ao médico. — Me daria a honra de me acompanhar até o orfanato amanhã?

Taylor ergueu uma sobrancelha.

— Damien estará lá, não é?

— Não! — Sam riu em falsete. — É só que ir encontrar aquelas crianças lindas vai te fazer super bem. Você vai ver outro lado da vida.

Taylor franziu a testa, cético.

— Tudo bem. — Aceitou.

Ele tinha certeza de que Damien também iria. Não sabia se era certo aparecer lá junto com Sam, mas, por Deus, ele queria muito ver o ruivo de novo.

XxxX

Na manhã seguinte Damien acordou cedo.

Ele não andava conseguindo dormir muito ultimamente. Ia dormir tarde e acordava por volta das sete. Levantou, cambaleando um pouco, e foi tomar uma ducha. Fez a barba e aparou um pouco do cabelo que estava caindo no rosto. Se não fossem pelas olheiras, estaria quase totalmente apresentável, mas as crianças não iriam notá-las de qualquer forma por causa da maquiagem preta que iria colocar em volta dos olhos para ficar mais parecido com o Batman de Christian Bale.

Colocou uma regata e uma bermuda, já que só trocaria de roupa no orfanato. Com certeza chamaria muita atenção se andasse por aí vestido de Batman, e Damien meio que estava querendo passar despercebido pelos vizinhos.

Depois foi até a cozinha e, enquanto comia um pouco de cereal, supervisionou Fubá comendo a ração. O filhote havia crescido um pouco e estava meio gordinho. O ruivo fez uma anotação mental de levá-lo ao pet shop para uma consulta. Talvez ele estivesse dando comida demais e Fubá estivesse acima do peso.

— Eu estou indo no orfanato e volto perto da hora do almoço. – Damien disse ao filhote que o seguia até a porta. – Não vá deixar nenhum presente pela casa. Você sabe onde é o seu canto de fazer essas coisas! – O repreendeu no tom de briga, mas Fubá só latiu todo feliz e começou a esfregar a cabeça na perna do dono querendo carinho. – Se você se comportar eu te levo para um volta pelo jardim.

Ele pegou o cachorrinho, fez um carinho na cabeça peluda e depois o levou até a caminha. Fubá ficou dando voltas em si mesmo antes de deitar para tirar uma soneca.

Quando Damien chegou ao orfanato, as crianças estavam tomando café. Como queria fazer uma surpresa, o ruivo passou direto por elas, sem deixar que elas percebessem a presença dele, e foi trocar de roupa no banheiro perto da sala de John. Deu um trabalho doido vestir aquela fantasia e o ruivo quase desistiu no processo.

Mas, finalmente vestido ele foi até a sala e John.

Bateu e esperou autorização para entrar.

John estava com o rosto quase grudado na tela do computador analisando alguns relatórios quando o “Batman” entrou na sala. O moreno ergueu a sobrancelha ao vê-lo, se encostou melhor na cadeira e cruzou os braços. Ele havia chegado cedo ao orfanato naquele dia e trouxera Davi com ele. Segundo o menino, Sam iria aparecer por lá para visitar as crianças e o garoto queria vê-lo. Davi, que estava brincando de montar quebra-cabeças, sentado no chão perto da mesa do pai, arregalou os olhos ao ver o “Batman”.

— Nossa! É o Batman do filme! – Davi exclamou impressionado. Era a primeira vez que o menino estava por lá e Damien vinha fantasiado ao orfanato, então Davi não sabia que era o ruivo. A máscara cobria o rosto, deixando só a boca e o queixo de fora.

Damien estufou o peito todo orgulhoso. Ele havia pedido para que sua roupa fosse feita idêntica à roupa do último filme do Batman e realmente estava bem parecido. Só pinicava um pouco, mas isso ele teria que ignorar por algumas horas.

— A que devo a honra de ter o “Batman” na minha sala? – John perguntou em tom de ironia, azedando o humor de Damien. O ruivo se perguntou por que mesmo havia ido pedir ajuda ao idiota sabendo que mal conseguia aguentá-lo.

Ah sim, porque se eu bater nele de verdade por acidente não vou me sentir culpado”, Damien pensou irritado.

Ele olhou para Davi e depois para John sem querer entregar sua identidade para o menino que o olhava como se ele realmente fosse o super-herói.

— Davi, vá procurar a Amélia e diga para reunir as crianças no campinho. Diga que elas vão ter uma surpresa daqui a pouco, mas não conte o que é. – John pediu ao filho.

— Tá, papai! – Davi disse animado enquanto levantava e corria até a porta. Ele parou no meio do caminho para dar uma melhor olhada no Batman, sorriu e saiu da sala empolgado para ver o morcego em ação.

— E então, Damien? O que você quer? – John levantou e encostou-se à mesa. Naquela roupa, o ruivo parecia ter o dobro do tamanho, mas o moreno não se deixaria intimidar por isso.

— Você pode ser o meu inimigo? – Damien perguntou sem rodeios.

John ergueu as sobrancelhas e mordeu a língua para dizer que tecnicamente eles já eram inimigos por causa de Sam.

Bufou de leve e virou o rosto.

Ele parecia uma criança birrenta e ciumenta com esse tipo de pensamento.

— Eu quero fazer um showzinho para as crianças, mas preciso de alguém pra fingir que está brigando comigo. – Damien explicou. – Não posso pedir para uma das funcionárias nem para o Sam. Vai que eu acerto um soco de verdade sem querer...

— E bater em mim não tem problema. – John resmungou. – Eu não vou me fantasiar.

— Não precisa. Você vai ser o inimigo disfarçado de John, idiota!

John girou os olhos enquanto balançava a cabeça.

— Pelas crianças. – Damien apelou. – Você viu como o seu filho ficou todo empolgado só em me ver.

Aquilo era golpe baixo. John faria qualquer coisa para ver as crianças felizes e aquele imbecil desocupado sabia disso.

O moreno acabou concordando. Damien sorriu enquanto entregava uma máscara de Coringa para o administrador.

Damien foi à frente e foi aquela algazarra quando ele apareceu. Primeiro as crianças arregalaram os olhos, depois correram até e começaram a pular ao redor dele enquanto falavam todas ao mesmo tempo. Naquele meio tempo, John deu a volta e pegou uma das crianças menorzinhas no colo. A criança gritou atraindo a atenção de todos.

— Crianças, o Coringa está disfarçado e tentando levar a Rebeca! – Damien exclamou fingindo surpresa.

— Salva ela, Batman! – As crianças exclamaram.

John colocou Rebeca no chão e a menina correu para trás de Damien.

— Fique com os seus amigos. Eu vou expulsar o Coringa daqui. – Disse para a menina.

Depois ele avançou até John e os dois iniciaram a briga de mentira para o delírio da criançada.

XxxX

Tim resolveu acompanhar o irmão e Sam até o orfanato.

Havia um garoto de 14 anos que gostaria de ajudar em história, pois as notas dele na escola andavam baixas. Ele morava no orfanato e seria uma boa oportunidade de conversar com o menino.

Os três conversavam quando chegaram ao pátio do lugar e se depararam com aquele fuzuê.

— Aquele é o Damien e o John?! – Taylor perguntou perplexo.

— John está fantasiado fingindo brigar com Damien...? – Sam perguntou mais para si mesmo. – Vamos embora, são alienígenas que raptaram os de verdade, nós precisamos avisar as autoridades locais! – Sam tentou dar meia-volta, mas Taylor e Tim o impediram, segurando-o pelos braços.

— Vamos assistir mais de perto. – Taylor falou, sentindo o coração começar a bater mais rápido por ver o ruivo depois de tanto tempo.

Damien estava concentrado em não acertar John, mas percebeu, pelo canto do olho, a chegada de Taylor. Isso o fez perder a concentração e acabar acertando um soco de verdade na boca do administrador do orfanato. John levou uma das mãos à boca e, por ter parado de revidar, as crianças acharam que era seguro brigar com ele também e saltaram em cima do “Coringa” para expulsá-lo.

Resultado: John foi soterrado e praticamente sufocando.

— Hey, hey... Nós já vencemos! – Damien tentou fazê-las parar, mas elas não o obedeceram.

Sam começou a gargalhar da cena, mas quando ele percebeu que John não estava na melhor das situações, ele se intrometeu entre as crianças e foi puxando algumas orelhas de leve pelo caminho, principalmente dos meninos que estavam empolgados demais com a brincadeira.

— Parem com isso! Violência nunca é justificável! Apenas os caras fantasiados podem bater em outros caras fantasiados malvados! – Ele falou e conseguiu fazer as crianças se afastarem. – O que estão olhando? Vão querer encarar? – Perguntou colocando as mãos na cintura.

É... As crianças queriam. Em poucos segundos elas pularam em cima de Sam, e o loiro começou a brincar de cócegas, lutinha e pega-pega com elas. Taylor aproveitou a confusão para se aproximar de Damien, mordendo o lábio inferior pelo nervosismo. Era uma péssima mania. Seus lábios já eram naturalmente carnudos, mordê-los deixava-os inchados e ainda mais salientes.

— Você parece mais magro... – Disse. A fantasia disfarçava, mas Taylor tinha um olhar bastante observador. Coisa de médico. – Anda se alimentando direito?

O coração de Damien falhou uma batida quando Taylor parou ao lado dele. O ruivo não pôde deixar de olhar para a boca do médico desejando poder puxá-lo pela cintura e beijá-lo. Ele estava em abstinência desde a briga. Nem com a sua mão andava brincando. E foi só Taylor chegar perto para que seu corpo começasse a pegar fogo.

Mas Damien estava magoado e o ruivo magoado nunca media as palavras antes de falar. Taylor parecia bem e estava com o irmão a tiracolo, provando que os dois realmente haviam feito as pazes graças à intervenção dele!

— Como se você se importasse com isso. – Disse bruscamente e se afastou antes que fizesse alguma bobagem como agarrá-lo no meio do orfanato.

Taylor ficou lá parado com cara de tacho. Ele sentiu o peito doer, mas se controlou, engolindo a bola de amargura que emperrou em sua garganta, fazendo a saliva descer espessa quando tentou engoli-la. Em que momento ele não havia se preocupado com o ruivo? Mesmo quando recém haviam se conhecido, empurrava comida para ele e tentava melhorar aqueles hábitos de vida horríveis dele.

— Você encontrou o menino que queria ajudar? – Perguntou para Tim para se distrair do que estava sentindo.

— Não. Acho que ele não está por aqui. – Tim respondeu, mas não estava realmente procurando. Havia percebido quando o irmão foi falar com o ruivo. Não ouviu o que eles disseram, mas os ombros de Taylor caíram após eles trocarem aquelas poucas palavras. – Mano, você e o ruivo brigaram por minha causa, não foi?

Tim havia se segurado durante todas aquelas semanas. Ele viu como o irmão estava feliz quando chegou e, depois, não havia mais aquele brilho nos olhos dele.

— Não se preocupe com isso, Tim. – Taylor forçou um sorriso. – Eu trouxe algumas coisas para fazer uma avaliação geral nas crianças. Vou entrar e procurar alguma das moças que trabalham aqui para me ajudar. – Murmurou e caminhou para dentro do orfanato.

Nesse meio tempo, Davi pegou Sam pela mão e o puxou com ele, tirando-o do meio da criançada.

— Sam! – Falou. – Papai precisa de ajuda.

— O que foi?

— Vem! – Pediu, continuando a puxá-lo para dentro do orfanato também. Levou o loiro até um dos banheiros do lugar, onde John lavava o rosto para limpar o filete de sangue no canto dos lábios que surgira após o soco de Damien.

— John... Você está bem? – Sam perguntou hesitante, à porta do banheiro. – Davi falou que precisava de ajuda.

— Você tem que dar beijo para sarar, Sam! Funcionou com o Taylor uma vez! – Davi puxou a camisa do loiro com insistência, enquanto Sam arregalava os olhos perante o pedido.

John olhou para o filho enquanto apertava a mão sobre o corte. Aquele menino estava saindo pior do que a encomenda. Era bem lógico que ele não tinha mais idade para acreditar naquela história de beijo para sarar, mas estava tentando bancar o casamenteiro.

— Está tudo bem, Davi. Não machucou muito. – Ele garantiu ao filho. – O Sam tem um namorado que não ia gostar de saber que ele usou a boca para curar outra pessoa.

— Sam não tem namorado! – Davi exclamou contrafeito. Ele olhou para o loiro com os olhinhos lacrimejantes. Outra técnica bem aprendida com Charlie. – Você tem? De verdade?

Sam continuava de olhos arregalados. Ele abriu e fechou a boca, tentando encontrar uma maneira de mentir, mas, frente aquele rostinho angelical e chateado do mais novo, ele simplesmente não conseguiu. Que John se danasse, não precisava explicar nada para ele de qualquer forma.

— Não, eu não tenho namorado. – Falou, corando e virando o rosto para o lado contrário de John. – Nunca tive.

John ergueu as sobrancelhas e encarou o loiro com uma vontade louca de dizer: “Como assim não? E aquela cena que eu vi na cozinha do restaurante? Era tudo mentira?”, mas se conteve. Primeiro, porque ele não era namorado para pedir explicações. Segundo, porque Davi estava ali e o moreno não queria começar uma briga com o filho observando tudo. No entanto, por mais que não quisesse, John não pôde deixar de se sentir muito feliz com aquela informação.

Ainda havia alguma chance... Só faltava ele conseguir parar de agir como um ogro perto do loiro.

— Davi, por que você não vai brincar com o Batman? – John perguntou após um suspiro.

— Eu só vou depois que o Sam der o beijo para sarar! – Davi teimou.

Pela primeira vez, Sam quis puxar uma das orelhas de Davi como havia feito com alguns dos pestes lá fora. Com um suspiro e um olhar de “você vai se ver comigo mais tarde, fedelho!” para o mais novo, Sam se aproximou de John. Não deu tempo para que John tivesse alguma daquelas reações de trasgo dele, apenas lhe segurou o rosto e pressionou os lábios no canto da boca do moreno.

Davi abriu um sorrisinho arteiro e satisfeito ao ver a cena. Talvez papai quisesse namorar Sam agora!

O primeiro impulso de John foi puxar Sam pela cintura para impedi-lo de se afastar, mas logo ele o soltou ao lembrar que Davi ainda estava por ali assistindo tudo. O moreno suspirou e encarou o filho que olhava a cena com os olhos brilhando.

— Nós vamos para o rancho semana que vem. – John avisou. – Davi quer que você vá.

— Sim! Sam, sim! Você disse não nas outras vezes, mas agora tem que ir! – Davi segurou a manga da blusa do loiro e o encarou com expectativa.

— Ele não se divertiu nada nas últimas vezes em que fomos porque disse que sem você não tem graça. – John contou para forçá-lo a aceitar. Talvez no rancho, longe de tudo e de todos, ele conseguisse ser menos idiota com o loiro.

— Davi... – Sam suspirou passando a mão pelos cabelos longos. – Eu acho que... – Ia negar, mas ao ver o mais novo encolher os ombros, já triste esperando por outro “não”, não teve outra escolha. Culpa de seu maldito coração mole! – Tudo bem, eu irei.

— Sério!? – Davi abriu um sorriso enorme, e Sam sorriu-lhe de volta e apertou uma das bochechas coradas do menino.

— É sério. Agora, chispa daqui e vá brincar. Eu já vou. – Falou num tom falsamente mandão. Davi pulou e correu dali, parecendo mais animado do que nunca. Depois que ele saiu de vista, Sam olhou para John trincando os dentes. – Você poderia ser um pai menos mole e falar que me convidar era impossível! – Ralhou. – Conviver com você por um final de semana inteiro será um inferno. – Soltou e virou-se para sair dali também.

A noite no galpão ainda lhe abespinhava o peito, e Sam queria, mais do que nunca, distância do moreno. No entanto, a recíproca não era verdadeira, e John o segurou pela cintura e o abraçou de leve por trás. Sabia que era um risco, que estavam dentro do orfanato e poderiam ser surpreendidos, mas não conseguia se controlar.

— Talvez eu não tenha dito “não” para ele porque também quero que você vá. – Sussurrou perto da orelha do loiro. – E fique sabendo que vai ter troco por você ter mentido para mim sobre o seu relacionamento com aquele desocupado. – Alertou antes de soltá-lo e deu-lhe as costas, voltando para seu escritório como se nada tivesse acontecido.

O queixo de Sam caiu. Ele se virou pronto para xingar o moreno de tudo que era coisa, mas John já estava longe quando teve alguma reação. Seu coração batia freneticamente e seu corpo estava todo arrepiado. Como ele odiava aquele moreno por deixá-lo naquele estado! Quem ele achava que era?! Troco?! Quem iria dar o troco era Sam, tamanha a vontade que sentia de bater naquele miserável.

— Idiota... – Murmurou com as bochechas queimando. Depois foi atrás de Davi e das outras crianças para continuar a brincadeira. Ainda queria puxar as orelhas de Damien mais tarde, também. – Outro idiota... Só há idiotas na minha vida! – Reclamou pelo caminho.

XxxX

No pátio, Damien estava cercado de pirralhos que faziam todos os tipos de perguntas para o “Batman”. Do tipo: “Como é Gotham?” até “Como você faz xixi com essa roupa?”. Ele respondia a tudo de forma paciente, mas sempre olhando com o canto do olho para Taylor que estava fazendo um check-up nos pequenos. Damien subitamente se sentiu cansado e desejou poder ir para casa, mas não poderia largar as crianças daquela forma.

Taylor avaliava um por um. Verificava boca, garganta, ouvidos, machucados e escutava o que uma das cuidadoras do orfanato tinha para falar. Como ela convivia com aquela garotada todos os dias, sabia muito sobre os problemas de saúde de cada uma delas. Estavam fazendo isso no pátio, depois de montar um lugar improvisado, pois a maioria dos mais novos queria ficar perto do Batman o maior tempo possível.

O médico admirava muito Damien e Sam por, sempre que podiam, virem ali proporcionar alguma alegria para aquelas crianças. Era uma atitude linda. Taylor queria ir abraçar Damien apenas por isso. Mas, bem, depois do fora que havia recebido mais cedo, sabia que um abraço não seria muito bem-vindo.

— Ela está com otite... – Taylor falou após avaliar uma das orelhas da menina, que realmente se queixava de dor no local. – Vou deixar um antibiótico e umas gotinhas que vão ajudar com a dor. – Falou para a moça que o ajudava e depois começou a explicar como era o tratamento.

Foi quando ele viu um homem loiro, alto e de porte atlético se aproximando do pátio do orfanato. Ele conhecia aquele homem... Os olhos de Taylor foram arregalando aos poucos conforme o loiro de cabelos curtos se aproximava com todo aquele ar de galã de cinema. Porque, bem... Era justamente isso que ele era.

Tim saía do orfanato naquele momento. Havia encontrado o menino e conversado um pouco com ele, mas este se recusara a receber aulas particulares. Porém, Tim conseguira convencê-lo a se esforçar mais na escola e isso era um bom começo.

Taylor agarrou o irmão pelo braço quando ele se aproximou.

— Você está vendo o que eu estou vendo? – Perguntou em um sussurro perplexo.

O mais novo olhou de um lado para o outro sem conseguir ver nada de extraordinário para que o irmão estivesse tão embasbacado. Será que seus óculos estavam com o grau vencido?

— Não. O quê?

— Como assim o quê?! – Taylor exclamou. Suas mãos tremiam e seus olhos viraram pires quando Devon Moreau parou bem em frente aos dois irmãos.

— Estou procurando o criador e roteirista do seriado “A Man’s Death”. – Informou aos dois, com um ar relaxado. – Falaram que eu poderia encontrá-lo aqui... A agente dele finalmente revelou o nome dele. – Riu para algo que apenas ele entendia. – Damien Van Persen.

Bem, restou ao queixo de Taylor despencar e se despedaçar no chão.

Tim olhou do homem para o irmão sem entender bulhufas.

— Desculpe, mas... Quem é você? – O rapaz perguntou com ar de quem está boiando completamente no assunto.

Devon parou um segundo e voltou sua atenção para o rapaz negro e baixinho, pensando como diabos ele não era reconhecido. Quando isso havia acontecido? Ok, antes de iniciar sua carreira no cinema tudo bem, mas depois? Não havia viva alma que não soubesse seu nome! Talvez tribos sem televisão e internet pelo mundo, mas isso era outra história.

— Como diabos você não me conhece? Sou eu! Devon Moreau! – Estufou o peito ao falar aquilo, muito orgulhoso de si mesmo para se conter. Mas quando o rapaz não mostrou nenhum reconhecimento, seu queixo quase caiu. – Você nunca ouviu falar de mim? – Perguntou deixando os ombros caírem.

Nesse meio tempo, Taylor se afastou e caminhou até Damien. Puxou-o pelo braço, retirando a atenção dele das crianças.

— Então você se acha no direito de futricar na minha vida, mas esconde a sua por completo? É isso que você ficava fazendo acordado durante a noite, não é? Escrevendo o seriado, o seriado que eu disse que era o meu favorito... Mentiu pra mim quando perguntei o que você fazia durante a noite. – Taylor riu sem nenhum humor e, sem falar mais nada, se afastou de novo.

Ele pegou seus materiais e disse que voltaria outro dia para examinar o resto das crianças.

— Vamos embora, Tim. – Pediu. Em outro momento teria quase pulado em cima de Devon, pedido autógrafo e foto, mas seu humor havia despencado e ele deixaria essa passar.

Damien ficou confuso com aquele furacão vindo pra cima dele e depois se afastando sem nem ao menos deixá-lo entender o que raios estava acontecendo. Seu queixo caiu quando ele viu Devon parado no meio do pátio.

Merda, merda, merda! Eu vou MATAR esse idiota!”, pensou furioso.

Mas primeiro tinha que falar com Taylor. Ele segurou o médico pelo braço e o puxou para um canto. Ao passar por Devon, resmungou para ele:

— Fique aí. Eu vou te matar daqui a pouco, seu idiota!

Depois largou o braço de Taylor e o encarou. A cena deveria ser no mínimo curiosa. Taylor com os braços cruzados, aquele olhar de fúria e o Batman sem saber o que fazer.

O ruivo suspirou e teria passado a mão nos cabelos se não fosse a máscara que cobria a sua cabeça.

— E você acreditaria? – Retrucou em um tom seco. – Ninguém sabe disso. Esse idiota não deveria estar aqui! Só a minha agente sabe quem eu sou e onde eu moro.

— E por que eu não acreditaria?! Obviamente eu ficaria surpreso, mas é claro que eu confiaria na sua palavra! Bem, ao menos antes eu confiaria. Não agora que eu sei que você prefere mentir até mesmo para seus amigos mais próximos sobre a sua vida. – Taylor torceu os lábios com desprezo. – Agora, eu sinto que não conheço mesmo nada sobre você.

Damien preferiria que Taylor tivesse dado um soco nele. Porque iria doer menos. Querer sua privacidade era um pecado? Ele sempre teve medo que alguém descobrisse, o negócio se alastrasse e ele não tivesse mais paz. E não contou para Taylor porque queria que ele gostasse dele por quem ele era e não por ser o autor do seriado ou algo do tipo.

Mas não falaria nada disso para o médico. De que adiantaria dizer?

— Sim, ninguém sabe nada sobre mim. – Ele se esforçou para que a sua voz saísse firme, mas achou que havia falhado miseravelmente. – Eu sou uma pessoa horrível. Que bom que você descobriu isso logo. – Disse amargo antes de dar as costas para ele e ir falar com aquele ator imbecil.

Taylor sentiu seus olhos se encherem de lágrimas. Ele quis falar que Damien não era uma pessoa horrível, mas não o fez. Simplesmente pegou suas coisas e saiu dali. Estava mais magoado do que antes e percebeu que, muito provavelmente, Damien não queria conversar e não se importava que eles não estivessem mais sob o mesmo teto, que estivessem separados...

— Vem, Tim. – Pegou o irmão pelo braço e o levou embora com ele.

Devon deu um passo para trás ao ver o Batman parar à sua frente com toda aquela expressão de cólera.

— Hei... – Ergueu as mãos para cima em sinal de paz. – Você é o Damien?

— Não! Ele é o Batman! – Uma das crianças exclamou.

Damien se virou para os pequenos e se esforçou para sorrir.

— O Batman vai vir visitar vocês outro dia, certo? Agora eu tenho que ir com esse cara pegar uns bandidos. Cuidem bem do orfanato e me avisem se o Coringa voltar. – Disse amistosamente.

As crianças reclamaram, mas acabaram deixando-o ir. Damien segurou Devon pelo braço e o puxou pela rua até que saíssem das vistas das crianças.

— O que diabos você está fazendo aqui? Não. Melhor. Foi a Gabrielle que disse onde me encontrar? – Perguntou furioso.

— Er... Talvez eu tenha embebedado ela e a seduzido para fazê-la falar...? – Devon comentou sorrindo culpado. – Mas, cara, eu sou seu fã! Eu queria muito conversar sobre meu personagem com você. É tipo um sonho se tornando realidade, qual é. Não fique tão brabo... – O loiro sorriu charmoso tentando acalmar o ruivo.

Damien trincou os dentes e não pensou duas vezes antes de acertar o punho no queixo de Devon. Ele já estava doido para quebrar alguma coisa e, já que o queixo daquele imbecil estava disponível, o ruivo não se fez de rogado.

— VOLTE PRA PORRA DA SUA CIDADE, IDIOTA! E SABE O QUE EU VOU FAZER COM O PERSONAGEM? VOU MATÁ-LO! – E saiu pisando duro deixando todo mundo que estava passando perplexo pela cena.

Devon segurou o queixo e ficou boquiaberto. Ele havia acabado de apanhar do Batman no meio da rua ou era impressão sua?

— Porra. – Murmurou. Ele dependia de seu rosto para brilhar nas telas de TV e do cinema. – Eu tenho uma gravação em dois dias. Hei, moça! Sabe me dizer onde posso encontrar uma farm-

— AI MEU DEUS, É DEVON MOREAU! – Gritou a mulher.

De repente Devon estava cercado por dezenas de mulheres e homens de todas as idades pedindo autógrafos e perguntando por que ele estava ali, o que havia acontecido com seu rosto, entre outras mil e tantas perguntas. Alguns que haviam visto a cena diziam que Damien (de alguma forma sabiam que Damien era o fantasiado) era um monstro canalha por ter-lhe agredido.

Eu deveria ter aparecido disfarçado, talvez de Robin, quem sabe assim o Batman gostasse mais de mim”, Devon pensou cansaço, enquanto forçava um sorriso e distribuía autógrafos e fotos.

XxxX

Damien chegou em casa, bateu a porta com força e caiu de joelhos no meio da sala. Estava exausto e nem força para tirar aquela droga de fantasia tinha. Fubá se aproximou, desconfiado, cheirou-o um pouquinho e, quando percebeu que era o dono, começou a latir e balançar o rabinho.

— Oi, bola de pelo... Eu acho que você é único que fica tão feliz assim ao me ver. – Ele murmurou. Ok, estava sendo dramático. As crianças ficaram super felizes, tia Camille ficaria feliz também, e Carl e as crianças, mas Damien não queria saber de ninguém além de Taylor. – Eu acabei com tudo, Fubá. – Disse com a voz embargada. – Acabei com tudo.

Fubá soltou um chorinho, como se entendesse, e esfregou a cabeça na mão que Damien mantinha ao lado do corpo.

Notas finais
Amamos vocês! Beijos, até sábado!!!