Notas iniciais
Olá, meu povo! Curtindo o carnaval? Eu estou aqui sendo mãe de primeira viagem hauhauahauh Ganhei um Fubá! Na verdade, é uma Fubá já que é uma menina hauhauhuauha Coloquei uma foto dela lá no twitter toda babona. O fato é que dá muito trabalho, mas é tão fofo quando ela começa a fazer filhotices... ahahauauauhhaahuhauhua Enfim, vamos ao cap. ^^ Muito obrigada DCC, lucy, paozinhois, Wildest Dreams, LuOrtensi, Mary Kiss, Yuna, viviaalencar, Laura Jessy, Mapa, Ruth Echelon, Shiro Yukiio, Kaline Bogard, DanyRock Chan, Bella Hanes, LunaBiju, Naine, j2rugila, Miyu, Lohaynne masamune, Lola, kihchi, Sayori, MilaScorpions, imouto kawaii, MaruChan, Mariana Lótus, Agridoce, Lolita e Vêh Kant pelas reviews fofas e lindas!

A semana passou se arrastando.

Na segunda, Damien começou a se sentir mal, mas não deu muita atenção. Achou que fosse apenas um resfriado e que logo iria passar. Na terça, começou a tossir e espirrar sem parar. Na quarta, estava tão cansado que mal conseguia levantar da cama. Na quinta, a febre o atacou de vez e o deixou tremendo de frio embaixo das cobertas.

Damien não queria Fubá por perto enquanto ele estava doente, mas não podia pedir para Carl cuidar dele, pois Charlie ficaria louca pelo cachorro e com certeza seria uma luta para que ela o devolvesse, então o jeito foi ligar para Sam e pedir que ele viesse até a sua casa. No entanto, não falou o que queria para evitar levar um “não” pelo telefone caso o loiro não quisesse cuidar de Fubá naquele final de semana.

— Oi. – O ruivo disse assim que abriu a porta e viu um Sam emburrado, com as mãos na cintura, o encarando. – Eu preciso de um favor. – Falou quase sem voz.

Sam estava pronto para xingar o ruivo por ignorá-lo aquele tempo todo e ter fugido do orfanato antes que tivessem tempo de conversar, dias atrás. Porém, ao ver o estado do amigo, arregalou os olhos e foi entrando, puxando Damien com ele.

— Damien, meu deus! – Colocou a mão na testa do amigo. – Você está ardendo em febre!!!

— É só um resfriado. Vou ficar bom logo. – Damien fez pouco caso, mas na verdade ele estava se sentindo bem mal. – Bom, eu te chamei aqui porque... Bem... Eu comprei um cachorro para o Taylor, mas nós brigamos e ele nem sabe disso. Acabei ficando com o filhote. – Ele apontou a caminha onde o cachorrinho dormia de barriga para cima e as patinhas no ar em uma posição fofa e engraçada. Damien esperava que isso ajudasse a amolecer o coração de Sam. – Mas não estou em condições de cuidar dele, aí queria saber se você poderia ficar com ele nesse final de semana.

— AI QUE FOFINHO! – Sam quase teve um surto e correu até o cachorrinho, pegando-o no colo e se esquecendo totalmente da febre do ruivo. – Esse final de semana... Eu vou com John e os filhos dele pro rancho deles. Posso levar esse cãozinho lindo comigo. Mas não posso ir sabendo que você vai ficar aqui sozinho nesse estado! – Sam determinou enquanto recebia lambidas na bochecha do Fubá. – Vou dizer ao Taylor para vir cuidar de você.

Damien arregalou os olhos e levantou de um salto do sofá, mas se sentiu zonzo e caiu sentado de novo.

— Não! Eu não quero o Taylor aqui! Eu posso me cuidar sozinho.

— É claro que não pode! – Sam falou enfezado. – Olhe seu estado! Está um caco! É evidente que está se alimentando mal, dormindo mal e não tomando nada para melhorar a febre e seu estado. Estou cansaço de ver você aqui na fossa, e o Taylor lá na clínica parecendo um zumbi infeliz. Estou levando o cachorro. E é bom que você deixe o Taylor passar o final de semana aqui, ou vou fazer tia Camille, Carl, Dakota e toda a tropa vir cuidar de você. E não vai ser bonito! – Ameaçou apontando um dedo para o ruivo.

Damien engoliu em seco imaginando a cena e encarou o chão enquanto fechava as mãos em punhos.

— Você não entende, Sam... – Disse em um murmúrio. – Não entende como é doloroso estar perto dele.

— Só é doloroso porque o casal de antas resolveu tornar as coisas dolorosas. Sinceramente, parem de drama e se resolvam logo. Eu quero os dois juntos, felizes e, se bobear, até casados quanto eu voltar à Canmore. Chega de cansarem minha beleza com essas brigas. – Sam jogou os cabelos. – Para começar, pare de ser tão teimoso e peça desculpas por ter se intrometido na vida dele. É tão difícil? – Bufou exasperado e começou a caminhar em direção à porta, levando Fubá e a caminha dele junto. – Você deveria me agradecer por ser um amigo tão zeloso e prestativo! – Gritou antes de bater a porta, deixando o ruivo sozinho.

Damien bufou e deitou encolhido no sofá tremendo de frio. Já estava sentindo falta da bola de pelo, que pelo menos era alguém para conversar.

“Duvido muito que o Taylor venha”, pensou e acabou adormecendo daquele jeito no sofá.

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Sam deixou o cachorro em casa e depois foi até a clínica. Era sexta, porém, como era feriado, o lugar estava fechado. Sam bateu e Taylor desceu, com cara de sono. “Outro babaca dormindo mal”, Sam pensou exasperado, mas colocou em seu rosto sua melhor expressão de choro e pânico.

— Taylor! – Exclamou dramático e colocou as mãos no peito dele. – Eu fui ver o Damien mais cedo...! Ele está doente! Está muito mal! Mal consegue se mexer! Você precisa cuidar dele!

Taylor arregalou os olhos.

— O que ele tem? – Perguntou preocupado.

— E eu vou saber? Você é o médico, vá você lá ver, ué. – Sam se aprumou e olhou as unhas das mãos. Depois lembrou que precisava ser dramático e se agitou, sacudindo os braços. – Eu vou estar fora esse final de semana. Damien não pode ficar sozinho naquela casa. Ele pode morrer se não tiver ninguém lá para cuidar dele. Taylor, você tem que passar o final de semana lá! – Olhou para cima e ergueu os braços aos céus, como se pedisse piedade ao Senhor todo poderoso.

Taylor franziu a testa com certa descrença naquele papo todo, mas seu lado médico jamais deixaria de passar lá para checar o ruivo.

— Eu posso passar lá, mas duvido que ele vá querer que eu passe o final de semana... – Taylor começou a falar.

— Ah, ele já concordou. – Sam disse com descaso, abanando uma mão. – Será bom para ele, Taylor. Imagine, se ele piorar e morrer, quem será o culpado? Será você.

Os lábios de Taylor se entreabriram e foi inevitável pensar em Emily... “Ela morreu, e quem é o culpado? É você.”, uma vozinha maldosa falou em sua mente. O médico engoliu em seco e apenas anuiu com um movimento de cabeça.

— S-Se ele concordou, tudo bem... E-Eu passo o final de semana lá. – Taylor murmurou, incapaz de discordar.

Sam sorriu.

— Ótimo! Até segunda então, bonitinho. Cuide bem daquele ruivo teimoso. – Apertou uma das bochechas de Taylor, piscou e saiu caminhando pela rua assobiando. John passaria dali a pouco em frente à sua casa para pegá-lo e irem ao rancho.

Taylor suspirou quando Sam se afastou e entrou novamente. Ficou um tempo ainda hesitando, mas acabou fazendo uma mochila e depois saindo para ir ver como Damien estava.

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John estacionou o carro em frente à casa de Sam e buzinou para avisar que já estava esperando, mas não viu nenhum movimento que indicasse que o loiro iria sair. Ele havia passado a semana ansioso, pensando em como falar com Sam, no que sentia pelo loiro. Talvez tivesse alguma chance no rancho para tirá-lo do seu sistema. Sim, porque o que sentia não era amor. Era só atração, isso talvez passasse depois de algumas noites na cama com o loiro. Quem sabe pudessem ser amigos com benefícios? Sam provavelmente ficaria feliz se John conseguisse não ser rude.

— Ele não deve demorar. – Falou para os meninos. Davi olhava ansiosamente para a porta da casa e Teo estava emburrado.

— Não sei por que aquele loiro chato tem que ir com a gente. Olha o tanto que ele tá demorando! – O menino mais velho reclamava.

— Ele não é chato! – Davi exclamou. – Olha, é ele ali! – Apontou ao ver o loiro descendo a rua na direção deles.

Sam apressou ao passo ao ver a caminhonete de John.

— Só um pouquinho, já venho! – Ele disse e correu para dentro de casa.

Logo já saía com uma mala numa mão e Fubá na outra, aninhado contra seu peito. Quando subiu na caminhonete, Davi ficou todo feliz ao ver o bichinho.

— Fubá! – Ele exclamou contente recebendo o cãozinho no colo.

— Peguei com Damien. Ele pediu para cuidar durante o final de semana. – Comentou e colocou Davi em seu colo, para não deixá-los tão apertados. – Sério, John, você podia ter comprado algo melhor que essa lata velha.

John deu partida no carro enquanto tentava controlar a língua. Lá se ia o seu plano de não ser chato com aquele irritante. Mas era Sam quem pedia por isso!

— Você não disse que não estava namorando? Então por que já estão fazendo guarda compartilhada das “crias”? – Perguntou azedo sem se importar se Davi ia se magoar com aquilo ou não.

— Como se eu tivesse que te dar explicações sobre a minha vida. – Sam falou entre os dentes.

— Papai. – Davi falou em um tom de choro e fez com que o homem desistisse de rebater.

— Tudo bem. Vamos para o rancho logo. Essa coisinha que você trouxe vai ter muito espaço para correr lá.

— Pai, nós vamos andar a cavalo? – Teo perguntou animado.

— Não sei, Teo. O moço da cidade aí pode se assustar. Talvez seja melhor fazermos programas menos “perigosos” – John respondeu.

Teo amarrou a cara e fuzilou Sam com os olhos.

— Vocês podem ir andar a cavalo sem mim. – Sam revirou os olhos. – Uma donzela como eu prefere evitar atividades perigosas. – Disse irônico, piscando um olho para o Davi.

— Não, você tem que andar também! – Davi o abraçou, e o loiro bagunçou-lhe os cabelos.

— Você vai me ensinar? – Perguntou ao mais novo.

— Sim! – Davi falou empolgado.

— Ele mal sabe andar. – Teo retrucou entediado.

— Quando chegarmos lá nós decidimos isso. Se ele resolver nos acompanhar eu peço para o Sabastian separar a Pintadinha para ele. – John disse concentrado na estrada.

— Pintadinha é a égua mais mansa do rancho. – Davi explicou. – Ela é marrom com manchinhas brancas aí eu dei o nome dela. – Disse orgulhoso.

— Que legal! Já quero conhecer a pintadinha. – Sam falou ao pequeno.

— Então se a gente não for andar a cavalo, podemos ir até o lago nadar? – Teo perguntou animado.

— O moço da cidade não vai gostar de ter que andar na trilha até lá. – John falou e, de novo, Teo quis empurrar Sam para fora do carro.

Já Sam quis atirar alguma coisa em John por ele ficar falando como se fosse de cristal.

— Pare de falar como se me conhecesse, homem do mato. – Sam rebateu para John.

John quase riu, divertido, com o bico que Sam fazia.

— Eu te conheço, moço da cidade, te conheço bem até demais. – O moreno disse com a voz rouca e voltou a fixar os olhos na estrada. Se pudesse diria o quanto o conhecia, mas com duas crianças ouvindo tudo atentamente não poderia.

Sam bufou e ignorou John o resto da viagem, se concentrando em conversar e brincar com Davi e Fubá. Havia sido uma péssima ideia aceitar ir junto com eles naquele rancho! Sam ainda iria quebrar um vaso na cabeça de John naquele final de semana.

“Babaca, imbecil, trouxa, arrogante, convencido, idiota...” murmurava mentalmente durante a viagem.

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Taylor respirou profundamente quando parou em frente à porta da casa de Damien. Ele pegou a chave no bolso. Era uma cópia que havia ganhado do ruivo logo depois de começar a morar ali. Como saíra intempestivamente da casa dele depois de Tim aparecer, ainda não havia tido uma chance de devolver. Bem, se fosse sincero, não encontrara vontade de ir devolver.

Ter aquela chave era manter as esperanças de que voltariam a morar juntos.

“Entro, não entro, entro, não entro” Pensava enquanto trocava o peso do corpo de uma perna para a outra, já começando a achar que Damien não estava doente coisa nenhuma e tudo aquilo fora algum plano louco de Sam para reaproximar ele e o ruivo. “Ah, que seja! Se ele estiver bem, eu apenas vou embora!” decidiu e colocou a chave na fechadura, abrindo e então entrando com certo cuidado.

Também não queria ser espalhafatoso, principalmente ao perceber o quanto a casa estava escurecida. Mas não demorou para que notasse o ruivo dormindo no sofá, encolhido numa posição desconfortável. Taylor se ajoelhou perto dele, mordendo o lábio, e colocou uma mão sobre a testa do mais novo ao perceber que ele tremia de frio.

“Febre.” Concluiu. “Sam estava falando a verdade então...”

— Damien... – Sussurrou, sacudindo-o de leve. Como ele não demonstrou sinais de acordar, Taylor parou para admirá-lo por um momento. Estava emagrecido e com um aspecto cansado que o deixou preocupado. Não resistindo, o médico acariciou os fios rubro-escuros, desejando ser um pouquinho mais forte para que pudesse carregá-lo no colo como Damien o havia carregado tantas vezes.

Damien acordou com o carinho que Taylor fazia em seus cabelos. Ele piscou algumas vezes e sorriu achando que era uma alucinação por causa da febre. O verdadeiro não iria vir para cuidar dele depois do que o ruivo havia dito e feito no orfanato.

— Taylor... – Sussurrou com a voz fraca.

— Hei... – Taylor sorriu de leve, mas recolheu a mão. Não sabia se Damien aceitaria esse tipo de carinho na situação em que estavam e quase se sentiu abusando de um paciente ao tocá-lo daquela forma enquanto ele dormia. – Você está queimando em febre. Deveria tomar um banho e depois deitar na cama, embaixo das cobertas. Vou te dar um antitérmico e depois preparar algo leve para você comer.

O ruivo franziu a testa ao ouvir as recomendações e percebeu que, se aquele Taylor fosse mesmo apenas uma fantasia da sua cabeça, ele o estaria abraçando, dizendo que o amava e que não iriam mais brigar por bobagens. Mas ao invés disso, era o real com os cuidados médicos que Damien não desejava. Sam havia cumprido a palavra e havia chamado Taylor para que ele passasse o final de semana ali.

— Não quero. – Damien colocou a mão sobre o ombro dele e o empurrou de leve para tirá-lo do seu caminho. – Eu não preciso de um médico! Sempre fiquei doente e consegui me curar sozinho! – Murmurou cambaleando pela sala, sentindo dores fortes dos músculos enquanto tentava de ir para o quarto. – Os médicos não conseguiram salvá-la... Não preciso de médicos. Eles deixaram que ela morresse... Eles não a ajudaram... Não podem me ajudar também.

Taylor se levantou se sentindo completamente confuso. É, ele deveria ter imaginado que Sam estava mentindo ao menos em parte da história. Mesmo sem entender do que Damien estava falando, Taylor foi atrás dele e o impediu de continuar cambaleando daquela forma. Passou um braço dele por seus ombros para ampará-lo.

— Se não vai deixar eu cuidar de você como médico, vai deixar como... amigo. Não vou te deixar sozinho nesse estado, não importa o quanto você resmungue. – Disse resoluto, segurando-o firme pela cintura.

Damien quis rebater, mas se sentiu muito nauseado, com uma vontade maluca de vomitar, mas não tinha nada no estômago para colocar para fora. Ele se amparou ainda mais a Taylor.

— Amigo... Eu não consigo ser seu amigo. – Murmurou. Ele não conseguiria ficar perto dele e ser só amigo. Não era isso que queria.

O ruivo acabou vomitando no meio da sala e sentiu como se seu esôfago estivesse queimando enquanto colocava suco gástrico e bile para fora.

— Damien...! – Taylor ficou realmente preocupado. Vômitos geralmente eram um sinal de gravidade, mas ele duvidava que o ruivo aceitasse ir a um hospital. A febre deveria estar nas alturas e precisava baixar aquilo. Só esperava que fosse mesmo apenas uma gripe, e que ele não estivesse desenvolvendo meningite ou coisa pior. – Você precisa se alimentar e ingerir mais líquidos. E de um banho para tirar todo esse suor. Estou falando sério. Eu quero ver você bem. – Falou angustiado, guiando-o até o quarto.

Quando enfim chegaram lá, Taylor ajudou Damien a se sentar na cama.

O ruivo ficou observando enquanto o médico pegava uma toalha e roupas limpas. Resmungou e tentou fugir, mas não conseguiu evitar ser arrastado até o banheiro para tomar banho.

— Eu não tomo banho há três dias. Posso dizer ao Phil que estabeleci um novo recorde! – Damien falou como se isso fosse algo a se orgulhar. A febre estava fazendo com que ele falasse besteiras. – Você vai tomar banho comigo? – Com alguma luta ele, conseguiu se livrar da calça do pijama.

Taylor corou e pensou em negar, mas Damien parecia tão fraco que era capaz de ele escorregar no boxe e bater de cabeça.

— Eu vou te ajudar. – Acabou decidindo, ainda que meio nervoso. Tirou seu casaco e camiseta, depois dobrou as calças até a metade das panturrilhas e se livrou dos sapatos. Ele se aproximou do ruivo, mordeu os lábios e começou a ajudá-lo a se livrar das roupas de cima. – Ergue os braços. – Pediu baixinho, mirando-o nos olhos.

Damien fez o que o médico pediu e logo estava completamente nu diante dele.

Taylor o empurrou para debaixo do chuveiro e o ruivo resmungou que a água estava fria.

— Por que você está me ajudando? – O mais novo perguntou enquanto sentia as mãos de Taylor ensaboando as suas costas.

Infelizmente ele estava muito grogue e mal para ficar animado com aqueles toques. Fosse outra circunstância, ele teria mandado tudo para o inferno, prensado Taylor na parede e feito com que o médico esquecesse a briga idiota e ficasse viciado nele. Damien sabia que estava sendo convencido, mas ele achava que Taylor não iria esquecê-lo se fizesse isso. Ainda mais depois que andara pesquisando sobre sexo gay (mesmo sem acreditar que, depois da briga, faria isso na prática algum dia).

— Sam disse que ia te chamar, mas eu não achei que você viria. – Murmurou.

— É claro que eu viria... Apesar de o Sam ter afirmado que você tinha concordado com isso. Ficou óbvio que não quando tentou fugir de mim. – Taylor riu de leve, mas depois ficou sério. Lembrou-se das palavras do ruivo: “eles a deixaram morrer... Não a ajudaram...”. Era irônico que Damien carregasse algum ressentimento por médicos por eles terem deixado alguém morrer. E Taylor fosse um médico que deixou alguém morrer. O medo de Taylor era que Tim guardasse o mesmo ressentimento, por isso fugira, se escondera covardemente. Mas agora a pessoa por quem havia se apaixonado guardava justamente esses sentimentos. – Damien... Quem eles deixaram morrer?

Damien apoiou a mão na parede e esperou que Taylor terminasse de ensaboar as suas costas. Depois o ruivo cuidou da higiene na parte da frente e encerrou o banho sem maiores problemas. Ele enrolou a toalha em volta da cintura e voltou para o quarto, se enxugou um pouco antes de se largar nu embaixo das cobertas. Ele se sentiu quentinho e melhor, mas sua alegria não durou muito, pois Taylor disse que aquela roupa de cama estava porca e o fez levantar para trocar por uma limpa.

Quando estava de novo se sentindo um pouco mais aquecido, o ruivo resolveu responder à pergunta.

— Minha mãe... – Ele disse deitado de costas para o médico. – Ela era saudável, mas um dia começou a perder peso, demonstrava fraqueza, tinha enjoos frequentes e perda de apetite. Ela foi ao hospital algumas vezes, mas sempre voltava para casa e dizia estar bem. Uma vez ela foi porque ficou com os olhos e a pele amarelados. – Enquanto falava, imagens da mãe vinham-lhe à mente. Ele era pequeno, mas lembrava com nitidez do sorriso dela. – Os médicos não fizeram nada. Ela definhou e eles não fizeram nada. – Disse amargurado.

Taylor suspirou. Apenas pelo pequeno relato do ruivo, ele já tinha uma ideia do que poderia ter acontecido com a mãe dele. Sem perceber, acabou voltando a acariciar os fios do ruivo.

— É por isso que quero cuidar de ti, Damien. Não aguentaria a ideia de você aqui doente, e eu longe de você. – Disse, mas se levantou rápido antes que o ruivo pudesse retrucar. – Vou buscar o remédio e depois fazer algo para o almoço, já estava esquecendo. – Falou e saiu momentaneamente do quarto.

Damien fechou os olhos e agarrou um travesseiro. Ele não conseguia entender todos aqueles sentimentos. Aquela dor e revolta que carregava há tanto tempo se misturavam com o amor e o carinho que tinha por Taylor, fazendo-o querer se esquecer da raiva que desenvolvera por médicos e superar tudo aquilo. Porém o ruivo sentia que ao fazer isso estaria esquecendo a mãe, ao mesmo tempo em que sabia que, se continuasse com aqueles sentimentos negativos, acabaria expulsando Taylor de vez da sua vida.

— Droga, Taylor. – Murmurou enquanto apertava o travesseiro com mais força desejando que fosse o médico ali entre seus braços. – Eu te amo tanto.

Além do seu problema com médicos, o ruivo também teria de aprender a pedir desculpas. Talvez ele tivesse passado um pouquinho da conta com a história de encontrar o irmão mais novo de Taylor. Contudo o ruivo estava exausto demais para pensar nesses problemas agora. Ele só queria dormir por pelo menos uma noite inteira.

E, com Taylor ali tão pertinho, Damien sentia que iria conseguir.

No resto do dia, Taylor teve que fazer o ruivo tomar o remédio para abaixar um pouco a febre, depois lutar para fazê-lo comer a sopa de legumes com capelete que preparou, e ainda insistir para ele deixar medir-lhe a temperatura e fazer um exame rápido principalmente na orofaringe. Ah, também teve que praticamente obrigá-lo a ir escovar os dentes em algum ponto da tarde e, mais tarde, tomar mais uma dose de antitérmico.

Depois disso, Damien dormiu como um anjo, e Taylor acabou adormecendo na cama junto com ele sem perceber.

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Sam não poderia negar.

Ele não estava esperando muita coisa, mas ficou surpreso com o lugar. O rancho da família Reynard era bastante simpático. Tinha uma vista bonita das montanhas e um gramado verde pálido que se estendia por um longo trecho, cortado por árvores frondosas de folhas amareladas e morros próximos. A casa era antiga, de dois andares, mas provavelmente ganhara uma reforma e estava bonita, a madeira branca brilhando ao sol quando chegaram, perto do meio dia. Havia cavalos pastando, ou correndo dentro de uma área demarcada por uma cerca de madeira onde os animais deviam ser adestrados. As cocheiras ficavam ali perto e, mais adiante, via-se outra pequena moradia que deveria pertencer ao caseiro.

Perto da casa, também se encontrava um quiosque para reunir amigos e compartilhar refeições do lado de fora, aproveitando os ventos frescos nos dias de mais calor.

— Hei... Eu não imaginava que fosse tão bonito. – Sam comentou admirado. – Você deveria ter me contado isso antes, eu teria vindo na primeira vez que me convidou! – O loiro falou para o Davi, fazendo-lhe cócegas depois que saíram do carro.

— Eu falei que era legal! – Davi se defendeu, fugindo das cosquinhas.

John pensou com seus botões que não, Sam não teria vindo antes porque eles recém tinham quase transado (ok, não foi uma quase transa, mas um quase amasso) no galpão no orfanato. Ele não queria ter vindo nem agora. Imagina antes! Mas o homem preferiu guardar o comentário, já que iria apenas magoar Davi caso verbalizasse aquilo.

— Teo, me ajuda a tirar as coisas do carro! – Falou ao filho, que já estava correndo em direção à cerca onde os cavalos estavam. O menino voltou arrastando os pés e resmungando.

— Patrão, como foi a viagem? – Sabastian, o caseiro que cuidava do rancho, se aproximou sorrindo e apertando o chapéu nas mãos.

— Tudo tranquilo. As estradas são calmas nessa época do ano. – John respondeu enquanto abria o porta-malas. – Trouxe mais ração. Esses meninos andam comendo demais.

— Sabe como é... Os potrinhos já desmamaram e estão em fase de crescimento. – Sabastian disse bem humorado. – E aquele moço, quem é?

— Um amigo do Davi. – John respondeu fingindo indiferença. – Davi, apresente o Sam ao Sabastian.

— Sam, esse é o Sab! Sab, esse é o Sam! Ele é meu melhor amigo! – Davi falou animado, puxando o loiro pelas mãos.

Sam quis apertar as bochechas do menino e enchê-lo de beijos, mas ergueu as sobrancelhas ao dar uma boa olhada em Sabastian. Um sorrisinho malicioso encheu seus lábios finos.

— Uau, se eu soubesse sobre você antes, com certeza teria vindo visitar mais cedo. – Provocou com uma piscadela. Davi olhou curioso para Sabastian e se perguntou o que havia de tão interessante nele.

Sabastian ficou absolutamente sem ação e apertou o chapéu com mais força enquanto dava um sorrisinho amarelo.

Já John fuzilou Sam com os olhos. Seu primeiro impulso foi de dizer para Sabastian que ele estava demitido, mas isso era ridículo primeiro porque o homem trabalhava pra sua família há anos, segundo porque o sem vergonha ali era Samson que mal chegara e já estava dando em cima do seu funcionário na cara dura. E na frente de Davi! John deveria ter previsto que isso poderia acontecer já que Sabastian se enquadrava no porte físico que atraía Sam. O loiro disse que não namorava Damien, mas isso não impedia que ele já tivesse ficado com ele ou se sentisse atraído por aquele desocupado.

— Davi, ajuda o Sabastian e o Teo. Eu preciso falar com o seu melhor amigo um minuto. – John disse enquanto puxava Sam com força pelo braço para longe dos ouvidos de todos. – Que diabos, Samson! – Exclamou furioso quando estavam longe o bastante. – Você mal chegou e já está dando esse tipo de exemplo ao Davi?

— Ai, me poupe, John! – Sam exclamou. – Que exemplo você diz? Eu não falei nenhuma indecência e flertar com alguém é a coisa mais natural do mundo. Se uma mulher flertasse com um homem na frente dele, ou vice-versa, aposto que você não veria problema algum! – Balançou os cabelos.

Eles estavam longe das vistas de todos, bem próximos da casa. John o arrastou até lá e o prensou contra a parede.

— Ele é só uma criança. Não precisa ficar vendo esse tipo de coisa! – O homem disse entre os dentes enquanto segurava os pulsos de Sam no alto e aproximava mais seus rostos. – Eu sei que ele é seu tipo, mas se controle!

A frequência cardíaca do loiro foi às alturas e ele ficou quente, com o peito doendo de nervosismo. Mesmo trêmulo, ele disfarçou e sorriu novamente, malicioso como antes.

— E com você, vai querer que eu me controle, John? – Perguntou e passou a língua sob o lábio inferior, mordendo-o na sequência. Uma vozinha no fundo de sua cabeça gritava para não provocá-lo, porque não queria mais nenhum tipo de contato físico com ele. Mas Sam simplesmente não resistia a provocá-lo e deixá-lo ou irritado, ou transtornado.

John devia saber também que trazer Sam era um erro. Um erro porque tudo o que o moreno conseguia pensar era em como ele queria jogá-lo na grama e transar com ele até que perdessem as forças, e ver Sam flertando descaradamente com Sabastian seria uma tortura. John admitia: morria de ciúmes. Ele queria que Sam só o notasse e não tivesse olhos para mais ninguém.

— Não faz isso. – John o advertiu, hipnotizado pelo movimento da língua do loiro lambendo os lábios vermelhos. – Se você não quer que eu perca meu controle... Não faz isso.

Sam parou e, inevitavelmente, acabou corando com a forma desejosa e fogosa com que John o encarava.

— Então me solte. – Mandou, empinando o nariz. – Porque eu não quero nada de você.

John estreitou os olhos e aproximou mais ainda seus rostos, suas bocas quase se roçando. Ele segurou as duas mãos de Sam com apenas um das suas e a outra deslizou pelo corpo do loiro.

— Sério? Você não quer nada comigo? – Retrucou com a voz rouca enquanto acariciava a cintura dele de leve, provocando. – Você não quer que eu te jogue no meu ombro e te leve para o primeiro quarto que eu conseguir alcançar?

Sam soltou um gemidinho baixo e virou o rosto, antes que seus lábios se encontrassem. Sua respiração tornou-se uma luta, pesada e ruidosa ficou. Ele queimou até as orelhas, seu rosto com certeza estava uma miséria, tão evidente era a forma como John o afetava. Sua vontade era de xingá-lo até o tataravô!

— Como se você fosse... Homem o suficiente pra me levar para um quarto e depois não ficar todo arrependido pelos cantos. – Sam falou da mesma forma que rosnaria um cachorrinho acuado. Ele tentava se manter firme, mas, Céus!, ele não era assim tão forte. Sua razão e seu corpo sempre disputavam equilibradamente quando se tratava de John, e muitas vezes o corpo ganhava.

John recuou lentamente, soltando as mãos de Sam e dando alguns passos para trás. Sam tinha razão. Ele era um covarde. Não tinha coragem para enfrentar o pai que já estava no túmulo, a sociedade e as palavras e preconceitos que repetiu durante toda a vida.

— Talvez Sabastian tenha essa coragem. Ou aquele ruivo. Ou aquele outro com quem você estava no barzinho naquele dia. – Os ombros dele caíram. Ele deu as costas para o loiro e começou a se afastar, mas parou no meio do caminho. – Só não faça nada na frente do Davi. Por favor... – Murmurou a última palavra e continuou andando.

Sam passou uma mão pelos cabelos, bagunçando-os e quase os puxando.

— Idiota...! E ainda faz eu ficar me sentindo mal! – Murmurou para si mesmo, frustrado. Depois abafou um gritinho de irritação e então suspirou, se acalmando. Ouviu Davi o chamando e foi atrás do menino.

— Sam, vamos preparar o almoço juntos!? Eu queria aprender a fazer carreteiro! – Davi veio saltitando até o loiro, que o pegou no colo assim que ele o alcançou.

— O quê?! E você acha que eu sei cozinhar alguma coisa?! – Sam riu e fez “beijinho de esquimó” com o menino.

Davi arregalou os olhos.

— Mas como você vai cozinhar pro papai quando vocês casarem?! – Ele perguntou.

Sam quase deixou o menino cair no chão, tamanha sua perplexidade.

— Eu não vou cozinhar pro seu pai! – Exclamou.

— Então vai só casar com ele? – Davi piscou inocentemente. Sam começava a achar que o menino era bem mais espertinho do que deixava transparecer.

— Ai, Deus. Vamos lá tentar preparar esse almoço. – Resmungou, entrando na casa com o pequeno, que riu e o abraçou entusiasmado.

XxxX

O resto do dia correu rápido para Sam. Depois do almoço eles descansaram um pouco e, pelo meio da tarde, foram fazer trilha para chegar até o lago com a cachoeira. Sam quase teve um treco no coração quando a trilha se tornou mais inclinada, em meio ao morro, e todos precisaram parar alguns minutos para o loiro se recuperar. No caso de Davi, quando ele cansava, John o colocava na garupa.

Teo não gostou nem um pouquinho do ritmo mais lento de Sam e colocou uma cobra de mentira no meio da trilha para assustar o loiro. Sam soltou um berro quando viu a cobra. Ele pulou para trás e acabou tropeçando em um galho, enquanto Teo gargalhava da cena. Davi mordeu o braço do irmão como vingança e depois se refugiou na garupa do pai para não receber uns cascudos do mais velho. John repreendeu o filho, e Sam, apesar de falar que estava tudo bem, lançou um olhar azedo para Teo, que retribuiu mostrando a língua.

Quando chegaram ao lago, os meninos começaram a pescar com o pai. Bem, o interesse de Davi na pescaria não durou nem cinco minutos, e logo ele e Sam já estavam entretidos com outras brincadeiras, entre elas correr e molhar os pés pelas margens do lago após se livrarem dos calçados.

— Parem com isso! Estão espantando os peixes! – Teo exclamava em resmungos. – Pai! Manda eles pararem!

A volta foi mais tranquila que a ida, apesar de Sam reclamar mais do que as crianças. Seu jeito de reclamar arrancava risadas de Davi; Teo, por outro lado, parecia querer matar o loiro.

— Aposto que a Marilyn Monroe não precisaria fazer esse tipo de esforço. Haveria centenas de homens bonitos e sarados para carregá-la no colo! – Dramatizava o loiro, se abanando.

Teo revirava os olhos, mas Davi ria dos trejeitos exagerados de Sam.

— Sam, você podia subir na garupa do papai também! – Davi sugeriu em certo momento. – Ele é bonito também, não é?

Sam resolveu trocar de assunto depois disso.

Quando chegaram em casa, John preparou o jantar. Foi uma comida deliciosa, para surpresa de Sam.

— Nunca imaginei que um bronco que nem você teria esses dotes. – Sam comentou como quem não quer nada. John resmungou qualquer coisa, e Davi emendou a contar sobre todas as coisas gostosas que o pai cozinhava, principalmente quando eles se comportavam.

Depois da janta, as crianças até ficaram algum tempo vendo televisão na sala, mas logo John enxotou os meninos para o banho e depois ele próprio foi tomar um. Sam demorou séculos embaixo do chuveiro e depois secando os cabelos, então perdeu o momento em que as crianças foram dormir.

John, depois de colocar os meninos na cama, estava andando de um lado para o outro em frente à lareira ouvindo o falatório sem fim da ex-mulher, que tentava dar desculpas para não receber os meninos por um final de semana. Ela dizia estar ocupada, que trabalhava até tarde e que, no final de semana, sentia-se exausta demais.

— Você não sente falta deles? – O moreno perguntou irritado. Ele estava tão concentrado na conversa que não percebeu a aproximação de Sam. – Não! Não me venha com essa. Se você realmente sentisse falta deles não ficaria inventando desculpas. Há quanto tempo você não os vê? E é você quem tem que se adaptar aos horários deles, não contrário! Eles são seus filhos também, Adele! – Ele parou de falar e bufou quando ela recomeçou com as desculpas. – Eu vou desligar. Não dá pra conversar com você. – Apertou o botão para encerrar a ligação, jogou o celular longe e depois ficando andando mais irritado ainda em frente à lareira.

Só então ele percebeu que Sam estava ali.

— Você quer beber comigo? – John perguntou enquanto ia até uma mesa de canto onde estavam algumas bebidas. Ele se serviu e, sem esperar pela resposta do loiro, encheu um copo para ele também. Depois jogou algumas almofadas no chão e se sentou diante da lareira.

Sam se sentou numa almofada próxima de John e aceitou a taça de vinho que ele lhe serviu. Bebeu um gole, achando-o forte demais. O loiro era mais dado a bebidas suaves, e vinho tinto não era exatamente sua praia.

— Isso é horrível... – Comentou olhando para o copo. Depois ergueu rápido a cabeça. – Digo, não o vinho! Bem... O vinho também. Mas me refiro à mãe deles inventar desculpas para não vê-los...

John suspirou enquanto levantava e serviu outro copo com outro tipo de vinho para Sam. Aquele loiro que sempre falava tudo que vinha à mente... Bem, talvez fosse por isso que John sentisse algo por ele. Algo que ia além do corpo. Mas o homem não queria pensar, ou admitir isso agora.

— Então você ouviu... – Ele comentou enquanto entregava o outro copo para mais novo. – E eu devo ser um pai terrível por ficar feliz, em parte, por ela inventar desculpas. Eu... Eu tenho medo de que um dia eles vão visitá-la e acabem pedindo para morar com ela. A única coisa boa do meu casamento foram os meus filhos. Eu não saberia viver sem eles. – Sussurrou antes de virar todo o conteúdo de copo de uma vez. Sentiu que precisava de uma bebida mais forte para aguentar tudo aquilo.

Sam ficou surpreso por dois motivos. Primeiro por John trocar seu vinho, segundo e principalmente por ele admitir aquilo para si. Seu peito se constringiu, e o loiro estendeu a mão, tocando o antebraço do moreno.

— Crianças são muito sensitivas. Elas já devem sentir o quanto você as quer por perto... O quanto você as ama. – Sam murmurou e um discreto sorriso incentivador desenhou seus lábios. – Você é um ótimo pai, John. Teo e Davi te adoram, você é o herói deles. – O loiro se afastou, bebeu mais um gole de vinho, que estava bem melhor, e depois abanou a mão. – Bem, tirando os momentos em que você age como um ogro e vem com aqueles papos de eu ser um mau exemplo... Não é possível que você queira criar dois filhos preconceituosos como você! – Falou sem segurar a língua. Depois tapou a boca com a mão. – Ops, desculpe, não é o momento. Esqueça. Você é um ótimo pai em 99% das vezes, é sério.

John balançou a cabeça e afundou uma das mãos nos cabelos. Não tentou afastar o toque de Sam. Sentir os dedos do loiro tocando o seu braço o deixava inexplicavelmente calmo, por isso quando ele se afastou, foi como se um frio lhe invadisse. Ele se inclinou, pegou a garrafa de vinho e serviu-se de mais um copo.

— Toda a minha vida eu quis que o meu pai se orgulhasse de mim, mas parecia que nada do que eu fizesse era bom o bastante. Não bastava ter sido o mais novo da região a aprender a montar, ou o único da região com um diploma da faculdade. Casei porque ele dizia que um homem não é um homem sem uma mulher e filhos. – John deu um sorriso amargo. – Meu casamento foi um grande fracasso. Eu nunca senti desejo pela minha esposa. Quando íamos para cama era mecânico. Ela dizia que eu não sabia demonstrar amor, que sou um homem sem sentimentos... Talvez seja verdade. – Ele inspirou o ar um pouco mais fundo. – Eu tenho medo que meus filhos sintam medo de mim, como eu sentia medo do meu pai. E ainda sinto. Tanto é que não consigo me desapegar de tudo que ele martelou na minha cabeça durante toda a minha vida. – Falou cansado. – Desculpe. Você não deve querer ouvir nada disso. Veio para cá só para agradar o Davi.

Sam ficou ainda mais surpreso com o desabafo do moreno. Percebeu que, assim como havia tido um pai difícil, que lhe inspirava medo e vivia de criticá-lo, John também havia passado pro algo similar.

— Eu também sentia muito medo do meu pai... Ele me odiava. Odiava quando eu roubava o batom da minha mãe quando pequeno. Ou quando usava as roupas dela quando eles saíam e eu ficava sozinho em casa. Foi uma fase, eu nunca quis ser mulher, mas ele me deu uma surra com cinta quando me flagrou usando um vestido dela em casa, com os lábios pintados. – Sam chegou a sorrir. – Era um vestido lindo. Amarelo floreado, larguinho e fresco. Eu girava ao redor de mim mesmo quando ele chegou em casa. Minha mãe tentou impedir, mas ela não tinha coragem de se impor. Eu tinha oito anos... Depois daquilo, eu tentei, tentei e tentei mais um pouco fingir ser o que eu não era. Cheguei a beijar algumas garotas no início da adolescência. Eu morria de medo de apanhar de novo... E, céus, como eu era infeliz! Me sentia trancado dentro de mim mesmo, preso num quartinho pequeno sem portas ou janelas. – Sam apertou o copo entre as mãos. – Só consegui me libertar quando meu pai morreu. Talvez eu nunca tivesse conseguido se ele ainda estivesse vivo, ou talvez o tivesse mandado à merda em algum ponto da minha adolescência. Não importa... – Olhou para John. – Sabe o que importa? Que eu decidi viver a minha vida como bem entendo, sendo quem eu sou... Sendo feliz. E eu posso apostar, John, que se você conseguir deixar o medo para trás, nunca mais vai precisar se preocupar que seus filhos sintam esse mesmo medo. Porque eu sei, eu sei, que por mais que você seja um idiota às vezes, você não é como o seu pai! Eu não teria me apaixonado por você se você fosse!

Sam arregalou os olhos ao terminar de falar. Mas que maldita grande boca sem filtro! Sam bebeu o que restava no copo e desviou o olhar do moreno.

— T-Tá tarde, né? Talvez eu devesse ir dormir. – Largou o copo e pensou em se levantar.

John ouvia tudo o que Sam dizia com atenção se sentindo mal por ter causado mais sofrimento. O loiro já havia aguentado muito na infância para que ele viesse na fase adulta e o tratasse da forma como o tratava. Ele já estava ensaiando um pedido mental de desculpas, pensando em dizer que um pai, por mais que demonstrasse rancor e raiva, não podia odiar um filho, mas sua mente ficou completamente em branco quando Sam disse aquela última frase. Ele segurou Sam pelo pulso antes que ele levantasse e o puxou para mais perto.

— Como... – John começou a murmurar com os olhos fixos nos lábios do loiro. – Como você pode me amar depois de tudo que eu falei? – Se inclinou dando um beijo leve no canto dos lábios do loiro. – Sabe aquela história de ser um homem frio? Eu nunca me senti frio perto de você.

Bastava virar um pouco a cabeça e suas bocas se encontrariam. Só um pouco.

“Sabe o que importa? Que eu decidi viver a minha vida como bem entendo, sendo quem eu sou... Sendo feliz”, a voz de Sam ecoou em sua mente fazendo com que John se afastasse de forma brusca.

Sim, o loiro merecia ser feliz e John não se julgava capaz de dar tal felicidade para ele. O moreno não sabia se um dia seria capaz de se libertar como Sam.

— Você tem razão. Está tarde. – Murmurou enquanto levantava e ficava de costas para o loiro. – Vá dormir. Amanhã o Davi deve te tirar cedo da cama para ver alguma coisa pelo rancho.

Sam sentiu a garganta fechar, impedindo-o de falar. Se levantou rápido e praticamente correu da sala. Sentia-se tão estúpido por ter-se declarado daquela forma! Era mesmo um molenga! Bastava John agir menos rude que, mesmo estando brabo e decidido a esquecê-lo antes, já se derretia e falava demais! Seu peito ardeu e o loiro jogou-se na cama do quarto de visitas, abraçando apertado o travesseiro.

Mesmo depois de admitir seus sentimentos de maneira tão aberta, John ainda o afastava e ignorava.

Doía tanto...

Notas finais
E agora? John deu três passos pra trás? Damien deu três pra frente? xD Até a próxima semana pessoal! Beijos! Bia.