Caderno de ideias
46 Sementes da Amizade

- Eu não entendo. — Comentei com Max, meu Incineroar. — Isso é muito estranho, Max. Nossas maçãs continuam sumindo. Será que alguém da vila está nos roubando?
Max semicerrou os olhos em resposta, dando de ombros com uma expressão desconfiada. Sua cauda listrada chicoteava no ar, demonstrando sua frustração.
- É, tem razão, Max. Teríamos visto alguma coisa a essa altura. Isso é muito, muito estranho ...
De repente, Max bateu com a pata em minhas costas, apontando em seguida para um ponto entre as árvores. Suas orelhas se moviam de leve, indicando que sua audição mais sensível captara algo que a minha não conseguia.
- O que foi? Tem alguma coisa ali? — Meu parceiro assentiu. — O que é? Não consigo ver.
Num gesto rápido, Max me pegou pela cintura e me colocou sobre seus ombros largos. Pude ver por entre as folhas dos galhos mais baixos, numa minúscula clareira logo adiante, a figura de uma criaturinha amarela que pegava algumas maçãs. Sob mim, Max sibilou baixinho.
- Você quer pegá-lo, não é, grandão? — Ele assentiu, sua cauda chicoteando como uma cobra no ar. — Está bem, então. Vamos segui-lo.
Para um Pokémon tão grande, Max era surpreendentemente silencioso, gracioso até. Seguimos a pequena criatura até outra clareira, um pouco maior, e paramos na sombra das árvores mais distantes, observando.
A criatura, que eu agora via ser um Pichu, desceu das árvores e cavou um buraco no chão. Vi quando enterrou algo, voltou a cobrir cuidadosamente com terra e subiu de novo nas árvores. Max e eu entramos na clareira e fomos até o buraco. Cavei, e sorri ao ver o que havia ali.
- São sementes, Maxie. — Eu sorri. — Aquele Pichu plantou as sementes das maçãs que comeu.
(...)
Enquanto Max colhia as maçãs nos galhos mais altos, com a agilidade e destreza de que só um felino era capaz, eu me sentei sob a macieira e teci uma pequena cesta com palha. Ao ter certeza de que estava pronta, sorri.
- Certo, Max. — Declarei, ao ouvir meu parceiro saltar e pousar ao meu lado com sua pisada de veludo. — Está pronta. É hora de pendurar nosso presente.
Max me entregou algumas maçãs e levei a cesta até a linha das árvores, pendurando-a em um dos galhos mais baixos e me afastando para voltar a trabalhar no pomar. Quando voltei para conferir, à noitinha, a cesta estava vazia.
(...)
Semanas se passaram. Eu continuava deixando maçãs na cesta todos os dias, e todos os dias a encontrava vazia ao anoitecer. Numa tarde, Max e eu estávamos plantando novas árvores. Era uma tarde de outono, mas não havia brisa e fazia muito calor, anunciando uma tempestade que se aproximava nos dias seguintes.
- Max. — Chamei. — Acho melhor pararmos por enquanto. Vamos esperar até refrescar um pouco.
Meu parceiro assentiu, indicando um espaço bem sombreado entre duas árvores. Nos dirigimos para lá e nos deitamos na grama, eu recostada contra seu pelo macio e espesso. Não sei quanto tempo ficamos ali mas, de repente, uma criaturinha amarela desceu das árvores para se juntar a nós.
- Oi, Pichu. — Eu sorri. — Então, seu maroto, finalmente resolveu aparecer.
O pequeno Pokémon tipo Elétrico se aproximou timidamente, estendendo uma flor se macieira. Sorri novamente. Meu gesto pareceu encorajá-lo e ele subiu em meu ombro, prendendo a flor atrás de minha orelha antes de pular para meu colo.
- Por que vem aqui todos os dias? — Inquiri. — Seu treinador não fica preocupado?
Com essa pergunta, o Pokémon desviou o olhar e suas orelhas pontudas caíram levemente, assim como seus ombros. Era óbvio o que aquilo significava. Infelizmente, acontecia mais do que muitos pensavam, treinadores que ganhavam ovos Pokémon e abandonavam os filhotes logo em seguida por algo mais forte.
- Bem ... — Acariciei de leve seu pelo aveludado. Ele era minúsculo, mesmo pelos padrões de um filhote. — O inverno está chegando. Se quiser, pode vir ficar comigo e Max. Prometo que vou cuidar de você. Contanto ... Que não roube nenhuma maçã. Combinado?
Minha expressão séria se desfez em uma gargalhada. Pichu, vendo isso, relaxou completamente e aderiu. Até mesmo a risada gutural de Max, que mais lembrava um ronronar gutural, se fez ouvir.
(...)
- Certo. — Falei para meus dois companheiros. — Fiquem ai e segurem o cesto para mim. Eu vou subir dessa vez.
O Pichu, que passara a se chamar Thor, e Max assentiram enquanto eu subia na macieira. Fizemos isso várias vezes, até atingirmos uma árvore infestada de Beedrill. E os Pokémon abelha não gostaram nem um pouco de ser perturbados.
Thor pulou para meus braços e disparei o mais rápido que pude pelo pomar, enquanto Max usava suas chamas para manter afastado qualquer Beedrill que chegasse perto demais. Mas ele era muito grande, e a corrida logo começou a cobrar seu preço.
- Rápido, Max. — Instei. — Estamos quase lá. Só mais um pouco.
Max aguentou bravamente, mas não se pode lutar contra sua própria natureza para sempre. Meu parceiro era grande demais, pesado demais, e eventualmente suas pernas cederam.
Caí de joelhos ao lado de meu Incineroar, protegendo-o com meu próprio corpo. O zumbido das Beedrill que se aproximavam ficava cada vez mais alto, quase insuportável. Foi quando Thor deu um passo à frente.
Ele se pôs à nossa frente de braços abertos, queixo erguido e uma expressão determinada. Suas bochechas faiscavam de eletricidade.
Foi o Choque do Trovão mais forte que eu já havia visto. O próprio corpo de Thor pareceu ser envolvido pelos raios, num redemoinho elétrico que girava e estalava.
O crepitar de energia enfim parou, assim como o zumbido das Beedrill. Houve um longo, longo momento de silêncio quase ensurdecerdor. De repente, algo quente e úmido tocou minha bochecha esquerda. Levei um segundo para perceber que foi uma lambida, então abri os olhos devagar. À minha frente, com uma expressão extremamente cheia de si, havia um Pikachu.
- Thor?! — A cauda em forma de raio do rato elétrico balançou, como se em resposta. — Thor, é você mesmo?
Ele assentiu, gorjeando de satisfação quando estendi uma das mãos e acariciei suas orelhas pontudas.
- Obrigada por nos livrar daqueles Beedrill, Thor. — Falei. — Você é meu herói.
(...)
- Thor, vamos acabar com isso! — Ordenei. — Use Cauda de Ferro!
Meu Pikachu saltou no ar, usando sua cauda como trampolim, então girando sobre si mesmo no ar para atingir em cheio o Golem de meu irmão. O enorme Pokémon tipo Rocha caiu, atingindo o chão com um estrondo.
- Nada mal, maninha. — Josh sorriu. — Desse jeito, poderiam até tentar a sorte na Liga.
- Ah, tá. — Eu ri. — Deixe de ser bobo, Josh.
- Não, é sério. Vocês dois são uma dupla e tanto. Não acha, Thor?
Thor assentiu solemente em resposta.
- Viu? Até ele concorda comigo. Vocês deviam se inscrever, mana.
Olhei para meu Pikachu, que assentiu mais uma vez.entusiasmadamente. Seus olhos escuros brilhavam de empolgação.
- Tem certeza disso, Thor? — Inquiri. — É a Liga. Vai ser um nível totalmente diferente dos nossos treinos.
Mais uma vez ele assentiu, suas bochechas já faiscando de eletricidade. Ele estava pronto, e adorando o desafio.
(...)
Era a véspera de nossa última batalha na Liga, e nenhum de nós dois conseguia dormir.
- Está nervoso? — Thor, enrodilhado ao meu lado, assentiu. — É, eu também. Comprei uma coisa para você. Para amanhã.
Meu Pikachu imediatamente ficou de pé, curioso. Peguei a pequena caixa que deixara na mesa de cabeceira ao lado da cama e a abri, revelando seu conteúdo.
- É uma Pedra-Trovão. — Expliquei. — Sabe o que isso faz, não sabe, parceiro?
Mais uma vez ele assentiu, aproximando-se cautelosamente da pedra para cheirá-la. Havia uma expressão peculiar em seus olhos, algo entre felicidade e determinação. Devagar, ele estendeu uma das patas, suas pequenas garras pairando a milímetros da pedra, ainda sem tocá-la.
- Tem certeza de que quer evoluir, Thor? — Inquiri. — Precisa ter certeza, porque não vai ter volta.
- Piiiikaaaa — Ele suspirou pesadamente, um gesto de enfado, revirando os olhos. — Piiiii .... Kachuuuuu.
- Tá, já entendi. — Não pude deixar de rir de sua atitude. — Vá em frente, então.
Thor sorriu e estendeu a pata, as almofadinhas rosadas finalmente encostando na superfície verde da Pedra-Trovão. Quando o brilho da evolução se dissipou, não consegui evitar um gritinho de deleite. Thor havia evoluído para um Raichu de Alola, que agora dava risadinhas de prazer enquanto surfava ao meu redor.
- Thor! — Exclamei. — Você está tão fofo! Nós vamos vencer todos eles amanhã, não vamos, garoto?
Ele assentiu e bateu na palma de minha mão com uma de suas patinhas de veludo, num cumprimento vigoroso e entusiasmado.
- É isso aí, parceiro. Eles não tem chance.
(...)
- Thor!
Mas minha preocupação durou bem pouco. Assim que o ataque Tempestade de Areia amainou, meu Raichu voltou a se erguer. Sua expressão deixava bem claro que não ia desistir.
- Boa! — Comemorei. — Esse é o meu garoto!
Thor abriu aquele sorriso cheio de si que eu já conhecia tão bem, acenou para mim e voltou a se concentrar na batalha. Como já era esperado pela vantagem que obtivemos, saímos vitoriosos.
- Thor! — Gritei. — Eu não acredito, Thor! Nós vencemos! Vencemos a Liga!
Sim, minha amiga. Uma voz masculina, embora suave soou. Nós vencemos.
- Mas o que ...? — Olhei em volta, confusa. — Quem ...?
Olhe para o lado.
Obedeci, porém vi apenas Thor, que surfava ao meu lado e me encarava com seus enormes olhos azuis.
- Thor? — Finalmente percebi que fora ele quem falara. — Mas como?
É fácil. Meu parceiro riu. Sou um tipo Psíquico agora. Posso usar telepatia.
- Sério?! — Ri enquanto ele se aninhava em meus braços. — Isso é muito maneiro!
(...)
Quero que me prometa uma coisa. Thor disse naquela noite, depois de sermos sagrados campeões da Liga de Alola. Prometa que sempre vai ser assim. Eu e você. Prometa que sempre seremos um time.
- Eu prometo., Thor. — Estendi a mão para acariciar atrás de suas orelhas arredondadas, obtendo um gorjeio de prazer em resposta. — Nós sempre, sempre seremos um time.
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