Caderno de ideias

47 Bela Adormecida


Aurora sempre fora uma menina excepcional. Linda, doce, inteligente, charmosa, carismática e alegre, a menina era a luz da vida de seus pais e sua irmã mais velha, Celeste.

No Natal, quando Aurora tinha quatro anos, seus pais resolveram levar as filhas ao balé, para assistir a uma apresentação de A Bela Adormecida. Ao saírem do teatro, porém, homens mascarados arrancaram as meninas do lado de seus pais. As duas irmãs foram então colocadas em um carro, que logo em seguida saiu em disparada, cantando pneus.

A princípio, a pequena Aurora pensou que fosse uma surpresa de seus pais, ou uma brincadeira, quando uma das pessoas mascaradas vendou seus olhos. A menina meramente aninhou-se à irmã, obedecendo seu pedido sussurrado de silêncio silêncio.

A garotinha adormeceu sem perceber. Foi acordada um bom tempo depois, erguida por um par de mãos rudes. A venda sobre seus olhos foi retirada, e Aurora olhou em volta. Estava em uma sala quase totalmente escura, com um cheiro horrível de terra, umidade e podridão. Celeste segurou firme sua mão, em um aviso sem palavras para que continuasse em silêncio. Mais uma vez, a garotinha obedeceu.

As duas irmãs foram deixadas ali, sozinhas naquela sala escura e fedorenta. Podiam ouvir rangidos, batidas, vozes abafadas e outros barulhos estranhos. Aurora chorou de medo. Celeste a abraçou e começou a cantar baixinho a canção de ninar que sua mãe cantava todas as noites. Aos poucos, as duas se acalmaram o bastante para cair em um sono inquieto, do qual foram despertadas por uma mudança: luz.

Réstias finas de luz penetravam o que pareciam ser frestas de madeira, bem no alto, revelando que as meninas se encontravam em uma espécie de galpão enorme, porém vazio. Com o passar das horas e o aumento da claridade, mais detalhes foram sendo revelados: o chão de terra batida, imundo e coberto de feno em um dos cantos. As paredes de tábuas podres e carcomidas. As vigas altas, decoradas pelo que parecia uma verdadeira cortina de teias de aranha ... Tudo naquele lugar era velho, sujo e podre.

Dois ou três dias se passaram dessa forma. As duas irmãs recebiam pães duros e água gelada. Quando escurecia, deitavam-se juntas no chão duro, se abraçando e cobrindo-se com o feno para se aquecer. O tempo pareceu congelar em uma espiral de podridão, fome, sede, frio e escuridão. Era difícil saber há quanto tempo estavam naquele pesadelo, ou mesmo se em algum momento aquilo terminaria.

Em uma manhã, as duas irmãs ouviram passos pesados se aproximarem, e Celeste rapidamente escondeu Aurora sob o feno. Um homem entrou momentos depois. Ao ver apenas Celeste, exigiu saber onde estava Aurora. A menina, porém, recusou-se a dizer qualquer coisa. Foi então que o homem se zangou, e a menina de doze anos foi lançada ao chão com um tapa.

De seu esconderijo sob o feno, Aurora viu o homem se ajoelhar sobre sua irmã. Viu Celeste espernear e lutar, e apanhar mais algumas vezes. Ouviu-a implorar, chorar e gritar. Por fim, depois do que pareceu uma verdadeira eternidade, houve silêncio, e o homem mau foi embora.

Hesitante, a pequena Aurora saiu do esconderijo, apenas para encontrar sua irmã encolhida como uma bola, balançando-se para frente e para trás. Seu rosto estava inchado dos golpes e das lágrimas, e a parte da frente de seu vestido rasgada, expondo os botões nascentes dos "travesseiros" que, segundo mamãe, Aurora também teria um dia. Suas pernas estavam sujas, o sangue viscoso constrastando com a pele clara. A garotinha chorou ao ver Celeste machucada, porém a mais velha simplesmente a abraçou, sem dar qualquer explicação. Naquela noite, mesmo em seus sonhos, Aurora ainda ouvia os gritos de sua irmã.

As coisas não melhoraram. Aquele homem horrível continuava voltando, sempre machucando Celeste e fazendo-a gritar. Aurora ouvia aqueles gritos constantemente, mesmo durante as longas horas de silêncio. Um dia, porém, algo mudou. Nenhuma das duas sabia dizer há quanto tempo estavam naquele lugar. O "tarado", como Celeste o chamava, a estava machucando como sempre. De seu esconderijo sob o feno, Aurora podia ouvi-los. De repente, gritos zangados do homem. Batidas. Arranhões. E então, um baque seco. Um silêncio súbito e profundo. Os passos do homem, pesados e apressados, se afastando ...

Bem devagar, Aurora saiu de seu esconderijo e foi até sua irmã. Celeste estava deitada, imóvel, parecendo uma de suas bonecas. Sob sua cabeça, uma poça de liquido pegajoso, ainda ligeiramente morno, se formava. Aurora se aproximou mais, o suficiente para tocá-la e sacudir seu ombro. Celeste, porém, permaneceu imóvel. Só então, quando a realidade se abateu sobre ela, Aurora gritou de pavor.

Os fogos de artifício coloriam o céu noturno e a música soava na praça, celebrando o casamento real. Do alto da torre, em seus novos aposentos, a princesa Aurora a tudo observava. Na cama de casal, Felipe já dormia, belo mesmo em seu sono. Ele era radiante, cobiçado por donzelas de todos os reinos. Aurora sabia que tinha sorte por ter sido ele a despertá-la. Devia estar exultante, esfuziante de alegria, assim como o reino que celebrava o despertar de sua Bela Adormecida.

No entanto, cada acorde alegre da música desconhecida feria seus ouvidos. Cada estouro dos fogos de artifício a fazia pular. Cada sopro da brisa noturna ardia em sua pele. Cada bruxulear do fogo, cada sombra, fazia seu coração disparar de pavor. Aquele era um mundo belo, colorido e alegre. Mas não era o seu mundo.

Os deveres para com o reino, como sua nova rainha, distraíam Aurora desses pensamentos durante o dia. Era somente à noite, depois que todos dormiam, que eles a atormentavam. Tendo dormido por cem anos, o sono era algo que agora passava longe da jovem princesa, e as horas sombrias se estendiam ao seu redor como um manto infinito.

E, claro, havia também os pesadelos. Mesmo quando a exaustão lhe permitia algumas horas de sono, visões de escuridão, frio, fome e podridão a faziam despertar aos berros. Felipe, sempre gentil, trazia-lhe chá e a abraçava até que o terror se dissipasse. Ele era sua rocha, sua luz, seu porto seguro. Em seus braços, os pesadelos não a alcançavam.

A vida seguiu. Noite após noite, o castelo inteiro repousava pacificamente sob o manto noturno. Mas, para a rainha, o tempo não se movia, apenas se estendia — longo, escuro, soturno ... Infinito. Felipe respirava suavemente ao seu lado, alheio aos demônios na mente de sua rainha. Aurora o observava por longos momentos, buscando naquele rosto sereno alguma âncora, mas não encontrou.

A jovem rainha levantou-se devagar. Seus pés descalços tocaram o chão frio enquanto ela atravessava o quarto, guiada por um impulso que não sabia nomear. Ao parar diante do espelho, por um instante, viu somente o que esperava: os grandes olhos azuis, os cabelos dourados, o rosto que o reino aprendera a amar. Então, ela piscou.

A figura no espelho continuou a encará-la. Aurora franziu o cenho, inclinando-se levemente para frente. No reflexo, a criança permanecia imóvel — suja, os olhos grandes demais para o rosto tão magro, as mãos crispadas contra o corpo franzino. Não havia coroa. Não havia luz.

Aurora recuou um passo, horrorizada. O quarto ao seu redor pareceu oscilar. As paredes douradas escureceram por um breve instante, se abrindo em frestas estreitas de madeira podre. O perfume suave das flores, rosas em homenagem a seu pseudônimo, morreu em sua garganta, substituído por um odor espesso de umidade e podridão que a fez engasgar de asco.

— Aurora…

O sussurro veio baixo, quase como a brisa, porém perto demais. A jovem rainha congelou de pavor. Porque a voz infantil não vinha do espelho, ou qualquer outro lugar ao redor. Vinha de dentro.

— Aurora…

Dessa vez, mais fraco. Mais distante. Como um eco preso em um lugar que nunca deixara de existir. No espelho, outra garota apareceu. Mais velha, quase uma adolescente, porém tão magra quanto a garotinha mais nova. Seus longos cabelos louro-arruivados grudavam nas têmporas, num tom acastanhado devido ao sangue seco. Seus olhos leitosos se fixaram nos de Aurora.

— Celeste?

O nome quebrou no ar, frágil, quase irreconhecível. A rainha sacudiu a cabeça, confusa. Nunca ouvira aquele nome antes. Ou será que sim? Seus lábios pareciam conhecê-lo, como se o tivesse repetido milhares de vezes antes.

O mundo pareceu tremer em seu eixo. A lua cheia de repente pareceu brilhante demais, quase cegante. O doce sussurro do vento nas árvores distorceu-se em uma cacofonia de notas metálicas dissonantes.

Ping.

Aurora piscou.

Ping.

O suntuoso quarto desapareceu.

Ping.

O espelho não estava mais lá.

O frio veio primeiro. Depois, o peso. Seus braços não se moveram quando tentou erguê-los. Algo os prendia — firme, implacável. Seu corpo inteiro parecia afundado, amarrado a uma superfície rígida demais para ser uma cama de penas.

Aurora abriu os olhos. A luz era branca. Dura. Sem sombras. Por um momento — breve, desesperado — ela procurou pelas torres, pelas cortinas de seda, por qualquer vestígio do mundo que conhecia. Não encontrou. Apenas paredes nuas. Apenas o cheiro ácido de algo estéril. Apenas o som — constante, inevitável.

Ping.

Ping.

Ping.

Sua respiração falhou. Os dedos se contraíram, fazendo apertar as tiras que lhe prendiam os pulsos. Couro. Gasto. Real. Não eram braços.

Nunca tinham sido.

— Celeste…

Sua voz saiu baixa, seca, perdida. Ela esperou, mas nenhuma resposta veio. Nunca havia resposta.

Aurora fechou os olhos. Com força, a ponto de doer. Como se pudesse, ainda, voltar. Como se, em algum lugar dentro de si, o castelo ainda estivesse de pé, esperando por ela. Como se o sonho pudesse recomeçar.

Mas, mesmo na escuridão atrás de suas pálpebras … Não havia príncipe. Não havia luz. Não havia despertar. Apenas o eco distante de um galpão vazio — e uma menina que, mesmo resgatada, nunca conseguiu sair de lá. Nunca houve cem anos de sono.

Disseram-lhe que havia despertado. Que agora estava segura. Que tudo ficaria bem. Aurora simplesmente fechou os olhos, deixando que as palavras passassem como ondas do mar. Porque, pela primeira vez ... Ela sabia que aquilo era mentira.

— Não se preocupe. — A voz de Felipe soou macia em seus ouvidos, seus braços envolvendo-a enquanto a jovem voltava a adormecer. — Você está segura agora.

Aurora levou alguns segundos para responder. Segura. A palavra ecoou, oca, dentro dela, enquanto a moça lentamente se afastava de seu amado. Porque segurança não era calor, nem luz, nem braços gentis. Segurança era silêncio. Era não ser encontrada. Era não existir. E aquele castelo … Era barulhento demais para isso.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.