Caderno de ideias
40 Sangreal

Era uma vez, há muitos séculos, uma jovem chamada Alba, que vivia em um reino distante, no coração de uma íngreme cordilheira montanhosa. O reino era pequeno, porém rico e próspero. Lá, imperava a paz e a bondade pois, isolados do mundo exterior, seus habitantes ainda não haviam sido corrompidos
Um dia, um estrangeiro foi encontrado na floresta. Era um homem forte, de meia idade, mas ainda com o porte vigoroso de um soldado. O forasteiro foi imediatamente acolhido e tratado pelo povo bondoso do reino. Seus modos misteriosos, assim como seus olhoa rapinos, cinza e pálidos como vidro, logo se tornaram assunto geral.
Alba, que havia recebido de seus ancestrais o dom da profecia, tentou alertar seus compatriotas sobre aquele homem arredio e um tanto arrogante mas, em sua inocência, ninguém lhe deu atenção.
Pouco a pouco, o misterioso forasteiro espalhava seu veneno: intrigas, luxúria, ganância, violência. Logo, o reino antes pacífico estava mergulhado em corrupção.
Um dia, Alba teve uma visão. Viu a escuridão se alastrando em tentáculos pelo reino e, em meio a tudo isso, um pequeno ponto de luz que crescia cada vez mais, banindo as sombras com seu fulgor. Poucas semanas depois, o rei e a rainha anunciaram as boas novas: a família real enfim teria um herdeiro. A rainha estava grávida.
Nove meses depois, nasceram os gêmeos, um menino e uma menina. Houve uma enorme celebração, para a qual todo o reino foi convidado. O pequeno príncipe herdeiro foi batizado como Gabriel, e a princesinha recebeu o nome de Angeline. O rei e a rainha, sabendo da profecia de Alba, estavam radiantes, pois tinham certeza de que seu precioso filho cresceria para ser o valoroso guerreiro que enfim restauraria o reino à sua antiga glória.
Os gêmeos cresceram, suas personalidades tão diferentes quanto suas aparências eram iguais. Gabriel era um garoto bravio, aventureiro, arisco e um tanto arrogante, que amava treinar com sua pequena espada de madeira e acompanhar seu pai em caçadas. Angeline, por sua vez, era uma menina tímida, amorosa e gentil, frágil como uma borboleta, que raramente deixava seu quarto. Passava os dias na companhia de Lua, sua lebre de estimação, dada a ela por seu pai, aprendendo a bordar com suas mãozinhas minúsculas.
Sempre fraca e doente, a princesinha parecia que jamais iria além de seus já completados tenros seis anos de idade. Um dia, teve uma febre tão alta que sequer foi capaz de abrir os olhos. Os melhores curandeiros do reino foram chamados, mas nenhum foi capaz de ajudar. Por fim, desesperada para salvar sua amada garotinha, a rainha decidiu recorrer a uma velha feiticeira, há muito exilada para a solidão da floresta de coníferas que circundava o reino.
Naquela noite escura e sem luar, a rainha se esgueirou para fora do castelo e galopou até a morada da feiticeira, uma cabana construída em uma clareira isolada.
- É claro que posso salvá-la. — A mulher disse após ouvir o pedido da rainha. — Pelo preço certo.
- Sim. — A rainha concordou imediatamente. — Ouro, jóias, terras, títulos ... Peça o que quiser, e será seu.
Para sua surpresa, a feiticeira soltou uma sonora gargalhada.
- Acostumei-me à simplicidade, minha rainha, após tantos anos de exílio. Riquezas, terras e títulos não significam nada para mim. — Ela disse, sua voz surpreedentemente gentil. — No momento, não há nada que possa me dar. Mas, um dia, quando necessário, lhe pedirei um favor. Este é meu preço. Você o aceita?
- Sim. Aceito. — A rainha concordou de pronto, seus olhos brilhando de lágrimas. — Apenas salve minha filha.
- Assim será feito, minha rainha. Conforme sua vontade.
O que a rainha não sabia, porém, é que as intenções da feiticeira estavam bem longe de qualquer bondade. Ressentida por seu banimento, ela desejava vingança.
Na manhã seguinte, Angeline estava de pé, cheia de energia e saúde como nunca antes na vida. Suas bochechas tinham o brilho rosado do amanhecer, e seu rosto reluzia.
A mudança foi tão gradual que, anos depois, ninguém soube determinar sua origem. A menininha frágil e doentia se fora. Angeline tornou-se uma garota forte, robusta e cheia de saúde, cuja maior paixão era a dança. Ela passou a dançar tão bem que, aos dez anos, já era considerada a melhor dançarina do reino. Havia, porém, um lado negro na adorável princesinha, algo que seus pais se esforçavam para esconder do mundo: ela era como uma boneca, fria e sem vida. Jamais ria, raramente falava por iniciativa própria e se mantinha distante de todos, exceto seu irmão gêmeo.
Quando finalmente se deu conta da mudança em sua garotinha, a rainha, banhada em lágrimas, esgueirou-se mais uma vez até a cabana da feiticeira na calada da noite. A maldita, ao vê-la, sorriu cinicamente.
- Eu lhe disse, minha rainha, que a salvação teria seu preço. — Declarou simplesmente. — Uma troca. Concedi saúde à sua filha ... Em troca de sua alma.
- Devolva-a! — A rainha gritou. — Devolva, maldita! Quero minha filha de volta!
- Isso é impossível, majestade. Se eu desfizer o feitiço, a doença voltará, e sua preciosa filha estará morta em poucas horas. — Ao ver a dor nas feições da rainha, porém, a feiticeira abrandou-se. — Há um meio, porém. Seu irmão poderá salvá-la.
A rainha concordou sem hesitar. A feiticeira, então, lançou outra magia, uma que uniu os espíritos dos gêmeos enquanto vivessem. O mal que a um viesse, ao outro também aconteceria. Ao ser informado da verdade por sua mãe, Gabriel desistiu voluntariamente das lutas e caçadas, passando a dedicar-se a assuntos políticos para evitar que sua irmã se ferisse.
Os anos se passaram. Apesar de conservar ainda alguma frieza, Angeline voltara a ser uma garota bondosa e cheia de vida. Era também mediadora dos assuntos da corte, assumindo o lugar de seu irmão em segredo quando necessário para acalmar os ânimos. Dessa maneira, entre a força de um e a argúcia de outra, os gêmeos ajudavam seu pai a manter a paz no reino.
Em seu décimo oitavo aniversário, quando Gabriel estava prestes a ser coroado o novo rei, o estrangeiro de olhos cinzentos, que passara todos aqueles anos tramando seu golpe final, atacou com seu exército de demônios. Graças aos valentes soldados, porém, sob a liderança de seu novo rei, as criaturas foram completamente rechaçadas.
Furioso, o estrangeiro, que também era um mago, lançou uma terrível maldição: que o reino ficasse envolto em trevas para sempre, sem jamais ter meios dr recuperar sua luz.
Naquela mesma noite, Angeline desapareceu. Gabriel, desesperado de aflição, passou a procurar sua irmã em todos os cantos do reino, sem sucesso. Era como se a princesa tivesse virado fumaça, desaparecido no ar.
Poucas semanas depois, surgiram os boatos: no topo da mais alta montanha que cercava o reino, onde as árvores cobertas de neve formavam um labirinto congelado, havia uma fera. Seus rugidos ecoavam pelo ar frio, e os poucos que se aventuraram a investigar tão singular aparição jamais retornaram.
Através do elo mágico que possuíam, Gabriel sentiu que a misteriosa criatura estava ligada à sua irmã desaparecida e, com o pai reassumindo o trono, desconsiderou todos os perigos e resolveu investigar. O que encontrou, após dias de árdua viagem, excedia seus mais selvagens pesadelos.
A criatura era gigantesca, facilmente três ou quatro metros de altura, e muitos mais de extensão, com um musculoso corpo reptiliano que luzia como um sonho ou miragem, feito de cristais de gelo. Suas garras eram brancas como a neve, graciosamente curvadas como foices. Seu pescoço era longo e elegante como o de um cisne, ornado por afiados espinhos que iam da nuca ao começo de sua longa e forte cauda. Suas asas eram azul-cerúleo como o céu do anoitecer, com dois metros de envergadura, aparência do mais suave veludo e ornadas de cristais de gelo pequeninos que brilhavam como estrelas no céu noturno. Seu focinho tinha a curiosa e elegante forma de um coração, com mandíbulas das quais saíam as mais reluzentes e afiadas presas de marfim. Acima disso, dois intensos olhos cor de violeta brilhavam com uma expressão de astúcia onisciente, quase humana.
Gabriel nunca, nem em lendas, havia ouvido falar de criatura tão magnífica, e por um longo momento o príncipe não se moveu, mal ousou respirar, contemplando a beleza letal da fera. Poderia tê-lo observado indefinidamente, não tivesse naquele momento sentido a presença de sua irmã e ouvido-a gritar seu nome.
Olhando em volta, notou o rústico abrigo de pedra que parecia estar sendo guardado pelo dragão. Era lá que sentia a presença de Angeline. Preferindo evitar o combate com a poderosa besta, o astuto príncipe esgueirou-se cautelosamente até o local. Lá, azulada pelo frio, desfalecida e trêmula, encontrou sua querida irmã.
Sem perder um segundo, Gabriel tomou Angeline nos braços, pretendendo esgueirar-se até seu cavalo e galopar para longe daquele lugar maldito. O dragão, porém, os viu e, soltando um rugido tão alto quanto o uivo de uma centena de tempestades de neve, investiu em ataque.
Deixando sua irmã sob o abrigo das árvores, Gabriel sacou sua espada, a tempo de defender-se do assalto das garras afiadas da criatura. Sua cauda poderosa chicoteou o chão em seguida, causando tamanha erupção de neve que a visibilidade caiu a quase zero, possibilitando que a fera o derrubasse com mais um golpe de sua cauda.
O rugido do dragão mais uma vez rasgou o ar congelado. Gabriel tateou a neve, agradecendo aos céus quando suas mãos entorpecidas encontraram o cabo de sua espada. Ignorando a dor em seu braço direito, ferido na queda, levantou-se empunhando a arma letal. Ele avançou, golpeando contra as escamas de gelo, mas sua fiel lâmina se partiu em mil pedaços. Em retaliação, um golpe da besta o jogou longe, num impacto que fez o mundo se dissolver em vertiginosas manchas negras.
Gabriel respirou fundo para se recuperar, e então se pôs de pé. Misteriosos e profundos olhos cor de violeta o fitavam. O dragão rosnou baixo, como se em advertência.
Observando a fera, o jovem príncipe notou uma pequena depressão na base da garganta do animal. Sem sua espada, sacou das dobras do manto uma pequena adaga de prata, presente de Angeline muitos anos antes para protegê-lo em suas caçadas.
Então, o jovem correu. Não para fugir, mas para saltar e enterrar a adaga naquele possível ponto fraco recém-descoberto. Funcionou, e o dragão caiu derrotado com um estrondo que sacudiu a terra.
Sem pensar em mais nada, o príncipe correu para as árvores, para junto de sua irmã. Para sua surpresa, porém, ela não estava em lugar algum.
- Angeline? — O rapaz chamou. — Angie, onde você está?
Não houve resposta, apenas o riso cruel do mago estrangeiro de olhos cinzentos.
- Seu maldito! — O príncipe gritou para a paisagem nevada. — Onde está minha irmã? O que você fez com ela?
- Ora, ora, principezinho. — O estrangeiro zombou. — Se não encontrou sua preciosa irmã, foi por não ver além das aparências.
Ao olhar para trás, Gabriel viu sua irmã estirada na neve, no mesmo lugar onde antes estivera o dragão, suas mãos delicadas tentando em vão estancar o sangue que fluía do horrendo ferimento em sua garganta.
O príncipe não hesitou, correndo imediatamente até ela, caindo de joelhos ao seu lado e aninhando-a nos braços. A princesa amaldiçoada sorriu debilmente.
- Fomos enganados, meu irmão. — Sua voz era apenas um leve sussurro. — Não foi ... Sua culpa.
Angeline ergueu uma das mãos, aninhando a bochecha do irmão em sua palma. Gabriel virou o rosto para beijar-lhe a mão reverentemente. Um momento depois, a mão delicada perdeu a pouca força que lhe restava.
O jovem príncipe aninhou o corpo da irmã gêmea com mais força nos braços, jogando a cabeça para trás em um uivo cru e visceral de agonia, ao qual se misturou a gargalhada do mago de olhos cinzentos.
Caído ao lado da irmã, Gabriel ainda a segurava com firmeza. Sentia a fraqueza, o poder da conexão entre eles a puxá-lo.
O mal que a um vier, ao outro também ocorrerá.
Deitados juntos na neve, o sangue real do reino manchava o branco imaculado.
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