Nascida da luz do sol que brilhou através de uma gota de orvalho, uma joaninha mágica desceu à Terra e fez seu lar em uma velha floresta de carvalhos.

Os séculos se passaram e a floresta foi mudando, árvores frondosas dando lugar a moradia, vidro e concreto. Cada vez menos de sua vida ia restando, ceifada sem piedade pelo egoísmo humano.

Para longe a joaninha tentou fugir, mas foi descoberta e capturada por seres humanos que, ao saber sobre seus poderes mágicos, se recusaram a deixá-la partir.

Então, ali a joaninha ficou. Aprisionada, escrava da ambição, por décadas mantida sozinha no escuro, sob o chão. Esses longos anos sem jamais ver o sol ou provar a liberdade enfim deram início à transformação.

Suas patinhas delicadas em garras afiadas se transformaram. Finos como adagas, seus dentes se alongaram. Seu tamanho aumentou na mesma medida de sua fúria, e sua brilhante carapaça vermelha enegreceu tanto quanto sua alma.

Em uma noite tempestuosa de inverno, a joaninha finalmente escapou de sua prisão. Agora um ser negro, ameaçador, gigântico, capaz de nada exceto vingança. Poder, luz, magia e inocência convertidos em uma terrível maldição.

Uma a uma, as crianças da cidade começaram a desaparecer. Ninguém sabia o motivo e, daqueles que eram levados, nunca mais se vinha a saber. Essa foi a cruel vingança da joaninha, até encontrar alguém que não teve medo de enfrentar sua ira.

Um menininho ela tentou levar, mas uma mocinha corajosa se recusou a colaborar.

- Eu sou a mais velha. — Disse ela, embora tremesse. — Leve a mim e deixe meu irmão em paz!

A atitude da menina fez ressurgir uma centelha de magia, e com seu pedido a joaninha concordou. Mais ainda: como prêmio por sua coragem, com sua família a menina ficou. Juntos, ela e seu irmãozinho comemoraram quando para longe a criatura voou.

Ou, pelo menos, o povo da cidade assim pensava, pois ninguém lá jamais descobriu que, das sombras, a corajosa e altruísta garotinha agora crescia sob a proteção de um anjo da guarda secreto em forma de joaninha.