Caderno de ideias
38 Lupina

Ela corre. E corre. Sem parar, fazendo com que os espinhos se cravem nas solas de seus pés descalços, deixando uma trilha de pegadas escarlate. A dor é excruciante, mas ela sabe que não pode se dar ao luxo de parar, mesmo que somente por um momento.
Acima das batidas frenéticas de seu coração disparado, Narissa ainda pode ouvi-los: passos. Passos pesados e uma respiração arfante, pesada, quase animalesca. A besta, cada vez mais próxima.
Narissa, como todos em sua pequena cidade, sabe que jamais deveria ter saído à noite, principalmente durante a lua cheia. Todos conhecem a lenda sobre a besta, a criatura na floresta.
Mas não há escolha. Stephan, seu irmão gêmeo, está fora a trabalho. Com seu pai, ex-lenhador e alcoólatra desde a morte da esposa, dez anos atrás, já sabe há muito que não pode contar. E Josephine, sua doce irmãzinha, está com fome.
É uma época difícil. O inverno é rígido, com o gelo frequentemente bloqueando as estradas estreitas para a pequena cidade isolada no alto das montanhas. Comida e dinheiro começam a escassear. Para aqueles com coragem suficiente, a floresta é a única salvação.
A jovem se força a parar e respirar fundo para recobrar o fôlego, segurando a antiga e fiel pistola de seu pai com toda a força. Nunca foi tão boa nisso quanto Stephan, e nessa noite reza para ser boa o bastante.
Narissa, finalmente superando o medo, desliza silenciosamente para o abrigo das sombras, tendo o cuidado dd manter a pistola oculta para que seu brilho ao luar não a denuncie. É a primeira vez que faz isso sozinha, sem Stephan. Os dois sempre fizeram tudo juntos.
Passos abafados soam na neve. A folhagem congelada estala em protesto ao ser perturbada. A luz da lua cheia, como um holofote, ilumina a silhueta musculosa cada vez mais próxima, tão perto que logo a jovem caçadora inexperiente poderá sentir-lhe o calor da respiração. Seus músculos se retesam como molas, alertas e prontos.
Assim que o jovem caçador passa por seu esconderijo, Narissa estende a mão livre, cravando as garras em seu ombro. Sangue mancha a neve, e o cheiro faz sua cabeça girar. Está faminta, mas sabe que precisa se conter. Josephine a espera.
Lançando a cabeça para trás, na direção da magnífica e brilhante lua cheia, a jovem deixa seu uivo agudo ecoar pelo ar invernal, sinalizando à sua pequena matilha que sua refeição está a caminho.
Fale com o autor