Caderno de ideias
39 Dual

Não fui eu. Foi a Tabby!
Meu marido e eu ouvimos essas palavras praticamente desde que nossa filha aprendeu a falar. Megan, ou Meggie, como a apelidamos, sempre foi uma criança bem peculiar.
Ben e eu tentamos ter filhos por três anos depois de nos casarmos, sem sucesso. Quando desistimos, arrasados com a perda de nosso sonho, finalmente algo deu certo e engravidei. Os primeiros três meses foram pura felicidade, mas os seis meses seguintes foram os piores da minha vida, com dores e enjoos que sinceramente me fizeram pensar que iria morrer. Finalmente, nossa garotinha nasceu, perfeita e saudável.
Desde o começo, Megan e sua doçura dominaram nossos corações completamente. Ela era uma criança calma, que raramente chorava ou fazia manha. Havia momentos, porém, em que algo parecia mudar, e nada era capaz de acalmar seus berros. Nesses momentos, meu marido a embalava, ou a colocava no carro para dar um passeio. Eu não conseguia nem sequer segurá-la. Durante esses berreiros, a bebê me parecia estranha, errada. Como se não fosse minha filha.
O tempo passou, e as coisas estranhas continuaram a acontecer. Eu, às vezes, acordava à noite com o choro de Megan, apenas para encontrá-la dormindo profundamente em seu berço. Seus brinquedos sumiam e apareciam inesperadamente em lugares aleatórios. E, em algumas ocasiões, eu ainda sentia a mesma repulsa inexplicável por minha própria filha.
Poucas semanas antes de seu primeiro aniversário, nossa menina falou sua primeira palavra: Tabby. Esse nome logo se tornaria uma constante. Meggie e Tabby brincavam juntas o tempo todo. Preocupados, Ben e eu levamos nossa filha a um psicólogo infantil, que nos tranquilizou e garantiu que amigos imaginários eram perfeitamente normais naquela idade.
Megan foi crescendo, sempre uma menina alegre e bem comportada. Era também inteligente, bastante precoce para a idade. Seus cabelos loiros cacheados, grandes olhos azuis e rostinho sardento em forma de coração faziam estranhos nos pararem na rua para elogiá-la. Uma bonequinha, diziam. Um perfeito anjinho.
No dia do sexto aniversário de Megan, meu marido chegou atrasado, trazendo um grande embrulho colorido, que nossa filha imediatamente abriu, derretendo-se em risadinhas de deleite ao ver a boneca, uma réplica perfeita em tamanho real de seu rostinho adorável.
- Olha só. — Ben riu. — Essa boneca não se parece com alguém, Meggie?
- Tabby! — Nossa menina respondeu de pronto, abraçando sua mais nova amiga. — É a Tabby, papai!
Daquele dia em diante, as duas se tornaram inseparáveis. Meggie e Tabby, nós ríamos. Até os nomes combinavam, como gêmeas, e Megan simplesmente amava quando as duas se vestiam igual.
- Olha, mamãe! — Minha filha ria em deleite ao entrar na sala de estar uma tarde. — Somos gêmeas bailarinas!
Megan e sua boneca usavam tutus cor de rosa. Ela havia começado a fazer aulas de balé, e não demorou para que Tabby também "quisesse participar". Tentamos dissuadi-la, mas Meg foi irredutível. Somente a pedido da professora minha filha finalmente cedeu, concordando em ensinar sua "irmã" em casa.
Naquela tarde em específico, as duas usavam tutus cor de rosa, sapatilhas e coques idênticos. Enquanto Megan dançava com sua boneca pela sala de estar, eu podia jurar que aqueles olhos de vidro azul olhavam direto para mim.
As coisas só pioraram depois disso. Megan insistia em levar a maldita boneca para todo o lado, falando com ela como se fosse de verdade. Mesmo à mesa, nossa filha insistia que Tabby tivesse seu próprio lugar.
- Deixe, amor. — Meu marido ria. — Meggie ainda é muito novinha. Isso é só uma fase, vai passar logo.
Mas não passou. Nossa filha, sempre tão afetuosa e bem comportada, se tornou cada vez mais arredia. Não conversava comigo ou me abraçava como antes, demonstrando uma óbvia preferência pelo pai.
- Tabby não gosta de você, mamãe. — Ela me disse um dia, com olhos tristes e seu rostinho de coração extremamente sério. — Ela diz que você é má porque não acredita na gente.
Depois disso, Megan começou a mentir. Sempre que perdia, quebrava ou fazia algo que não devia, chorava e punha a culpa em Tabby. Ben e eu tentamos acabar com isso mas, quanto mais a puníamos, mais rebelde ela se tornava. E ainda havia aquela maldita boneca, sempre me encarando com seus olhos sem vida.
- Relaxe, amor. — Meu marido sempre dizia, rindo ao me abraçar. — É só uma boneca. Não pode te machucar. Só te matar de susto.
- Engraçadinho.
Eu ria, mas no fundo não tinha tanta certeza. Aonde quer que eu estivesse, fosse fazendo o jantar, assistindo TV ou cuidando do jardim, lá estava Tabby, sempre me encarando. Havia certa malícia em seus olhos, algo quase indetectável, mas que estava lá. Eu sabia. Sentia.
Uma noite, Megan e eu estávamos sozinhas em casa. Minha filha estava esparramada no tapete com seus lápis de cor, desenhando alegremente um retrato de nossa família. Havia, porém, uma afição: quase invisível ao fundo, uma garotinha observava nós três com um ar tristonho.
- Quem é essa, Megs?
- É a Tabby. — Megan respondeu como se fosse a coisa mais óbvia do mundo. — Ela está triste porque uma coisa muito ruim aconteceu com ela. Mas não sei o que foi.
- É mesmo? E como você sabe disso, meu bem?
- Porque ela me contou, mamãe.
Essa conversa perturbadora não me saiu mais da cabeça. Tabby continuou a me "perseguir", e Ben a rir de minha paranóia.
Uma noite, fui despertada tarde da noite pela sensação do corpinho de Megan se aninhando contra o meu, o que era uma raridade cada vez maior naqueles tempos.
- O que foi, minha bonequinha? — Inquiri, enrolando os dedos naqueles cachinhos loiros sedosos e macios. — Teve um pesadelo? Quer dormir aqui com a mamãe?
Megan não respondeu e, estranhando seu silêncio, abri os olhos. Dois orbes azuis sem vida me encararam de volta. Não consegui conter um grito.
- Megan, isso não se faz! — Meu marido, furioso, ralhou minutos depois. — Não pode assustar sua mãe desse jeito!
- Mas não fui eu, papai! — Megan protestou com toda a inocência, sua voz tremendo. — A Tabby disse que queria dormir com a mamãe hoje porque estava com saudades.
- Já chega! — Ben quase rosnou, o que era algo bastante inusitado. Ele raramente perdia a calma. — Já para a cama, Megan. Amanhã decidimos o seu castigo.
Nossa menina ainda tentou protestar, mas foi logo calada. As coisas só pioraram ainda mais a partir daí. Se antes Megan e sua boneca eram inseparáveis, agora era comum Tabby aparecer e estar onde quer que eu estivesse, sempre me dando um enorme susto.
- Não fui eu, mamãe, eu juro! — Megan sempre protestava. — Foi a Tabby! Ela quer uma mamãe também.
Claro que isso apenas lhe rendia mais castigos. E isso, é claro, a deixava com mais raiva. Era um ciclo vicioso. Mais de uma vez a ouvi em seu quarto, ralhando com Tabby por metê-la em encrencas e ser uma menina má.
Coisas passaram a quebrar e sumir com maior frequência. Megan, às vezes, aparecia com pequenos hematomas ou arranhões que dizia terem sido feitos por Tabby. Um dia, não aguentei mais. Aproveitando que Megan estava na escola, peguei a maldita boneca, levei para o porão e decidi dar um fim a tudo aquilo.
Primeiro, limpei e acendi a velha caldeira. Depois, desmontei aquela boneca maldita, jogando-a no fogo pedaço a pedaço. Tivemos trabalho dobrado com Megan naquela noite, que chorou e nos fez procurar Tabby pela casa toda antes de enfim dormir.
Na manhã seguinte, quando acordei, Ben já havia saído para o trabalho. Em seu lugar estava nossa linda filha com seu pijama felpudo da Hello Kitty, toda sorrisos, sardas e covinhas. Ao me ver acordada, rolou para os meus braços e me abraçou apertado.
- Bom dia, mamãe!
- Bom dia. — Eu ri. — O que houve, bonequinha?
- Nada. — Megan se aninhou mais contra meu peito. — Me desculpa, mamãe. Prometo que vou ser uma boa menina agora.
- Você já é. — Distribuí beijos por seu adorável rostinho sardento. — Minha boa menininha. Agora, vá se vestir enquanto faço algo gostoso pro café da manhã.
- Pode ser waffles com chocolate?
- Pode. — Eu ri. — Qualquer coisa pra minha bonequinha. Agora vai. Te encontro lá embaixo.
Megann assentiu e correu para seu quarto. Senti uma onda de orgulho de minha menina esperta e independente.
Ao descer para fazer o café da manhã, encontrei um desenho sobre a mesa da cozinha, retratando uma mulher e uma garotinha de mãos dadas dentro de um enorme coração.
A cena me fez sorrir por um momento, até que reparei em um detalhe fora de lugar: a assinatura não era Megan, e sim Tabatha.
Caí de joelhos, sem acreditar. Quando minha linda filha desceu para o café da manhã, radiante em uma camiseta verde-água e um macacão jeans azul com estampa de coelhinhos brancos, finalmente me dei conta de que, às vezes, o passado não nos deixa.
Lá estava ela, a criança que eu abortara tantos anos antes, sorrindo para mim através dos olhos azuis de minha linda Megan.
Fale com o autor