Maravilha, penso ironicamente. Perfeito. Simplesmente perfeito.

Nunca quis me casar, virar simplesmente a bonequinha de luxo de algum homem rico. Então, quando papai anunciou meu casamento com o filho mais velho do governador da província de Sui, meu plano estava pronto: esperei que minha família e os criados dormissem, então fugi pela janela na calada da noite. Mas, é claro, com a minha sorte, fugi na noite mais enevoada e escura do ano. E, claro, me perdi em menos de cinco minutos.

Continuo andando, ignorando a situação. meus olhos focados na forma enorme delineada contra o horizonte escuro, com certeza um a das montanhas longínquas que guardam os limites da província. É apenas algum tempo depois, ao me aproximar mais, que percebo meu engano. Um calafrio percorre todo o meu corpo. É difícil aceitar que algo tão colossal possa ser um ser vivo, que possa sequer existir.

Com o que soa como um rangido baixo, ele se aproxima. Agora consigo ver as seis pernas finas e compridas em suas laterais, como as de uma aranha — finas da maneira que só os hundun tipo Metal conseguem ter. Toda a energia vital que emana de seu corpo enorme impele uma verdadeira parede de névoa gelada em minha direção.

Me sinto como uma formiga -pequena e insignificante. Quase desejo estar em uma crisálida mas — sinceramente — a quem estou tentando enganar? Esse hundun só pode ser de categoria Imperador, capaz de fazer a maior e mais poderosa crisálida de Huáxia parecer um mero brinquedo.

- Humanos ... Escória do Universo. — Uma voz profunda, rascante e antiga quebra o silêncio. — Vão embora! Deixem-nos em paz!

Não tenho ideia do que seja a voz, ou de onde venha. É diferente de tudo o que já ouvi. Fico atônita, minha mente estática, até finalmente me dar conta de que é o hundun quem está falando.

- Você ... — minha voz mal é um sussurro. — Você fala?!

- Não normalmente. — Ao me ver recuar de medo, seu tom se abranda. — Mas também não sou somente uma simples besta, pequenina.

- Eu ... Eu ...

Muito delicadamente, um fio gelado quase invisível, toca minha testa. Levo um momento para compreender, mas logo percebo a intenção: o hundun está usando metal primordial para se conectar, como os pilotos e suas concubinas em uma crisálida. Ao invés de lutar, me rendo e deixo minha mente ser sugada.

Num segundo, já não sinto mais frio. Estou em um campo aberto aparentemente infinito, sob a luz morna do sol, com o céu mais azul que já vi pairando sobre mim. Pássaros cantam ao redor e borboletas voam entre as flores. O cenário é, com certeza, paradisíaco.

- Surpresa, pequenina? — O Imperador pergunta atrás de mim. — Um reino mental é aquilo que o fazemos.

Me viro para fitá-lo — e fico boquiaberta. No lugar do hundun disforme, há um rapaz. Não um rapaz comum, mas uma forma masculina de facilmente dois metros, esguio e de feições suaves. Tudo nele — até sua pele — tem o brilho opalescente do qi tipo Metal. É como uma pessoa, uma estátua viva esculpida em prata.

- Você não é piloto. — ele continua suavemente. — Não tem nada a temer de mim.

Relaxo quase sem querer. Seu olhar terno, o leve sorriso em seus lábios, a gentileza em sua voz ... Tudo isso, aliado ao nosso elo mental, me faz ter certeza de que posso confiar nesse Imperador do tipo Metal.

- Pensei que hunduns fossem monstros. Seres do caos, irracionais.

- Bem, não somos. Apenas defendemos nosso lar. É natural, pequena borboleta.

Um breve sorriso ilumina seu rosto com o apelido, e sinto minhas bochechas corarem.

- Não sou uma borboleta. — protesto. — Sou forte.

- Isso lá é verdade. — o Imperador admite, com um murmúrio profundo que só pode ser de aprovação. — Forte o bastante para tomar as rédeas de seu próprio destino, embora frágil como uma borboleta diante de mim. Você é diferente, devo admitir. Intrigante. É algo que jamais pensei que um humano pudesse ser. Mas suponho que a fragilidade seja sua própria forma de força. Não é, pequenina?

Suas palavras me pegam de surpresa, e meus olhos se arregalam. Esse hundun, no qual fomos condicionados a ver um monstro brutal, me conhece. Ele entende. Não só isso, sua mente é mais nobre e sábia do que a de qualquer governante de Huáxia. Pela primeira vez, entendo por que hunduns como ele são classificados como Imperador, e sinto uma onda de reverência.

- Sim. — concordo baixinho. — É isso mesmo, Imperador.

- Não, pequenina. — seu tom é suave e caloroso. — Isso é desnecessário. Pode me chamar de Zhao Wei.

- Zhao Wei. — repito obedientemente. Por algum motivo que não compreendo, me vejo incapaz de encará-lo. — Sou Mei Niang.

- Uma Dama Encantadora, de fato. — Zhao Wei ri. — E agora, pequenina, para onde irá daqui?

- Eu ... Eu não sei.

- Venha comigo. — ele gentilmente ergue meu rosto para que eu o encare. — Seus semelhantes apenas a feriram. Eu posso protegê-la. Estará a salvo comigo.

Hesito, embora saiba que suas palavras são a mais pura verdade. Zhao Wei estende uma das mãos no espaço entre nós, num convite silencioso. Depois de alguns segundos, vejo minha própria mão se erguer, meus dedos envolvendo o metal frio dos dele.

Subitamente, não estou mais no ensolarado reino mental, mas de novo tremendo sob a névoa noturna, sendo erguida pela cintura por finíssimos fios de metal primordial.

- Segure-se firme, pequena encantadora. — Uma corrente finíssima de metal primordial surge sob minhas mãos, quase como uma rédea. — O caminho até o monte Zurong é longo.

- Eu sei. — respondo. — Só não me deixe cair.

- Impossível. — ele ri, enquanto seu metal primordial forma círculos ao redor de meus pulsos. Firmes, mas sem machucar. Proteção, não contenção. — Eu jamais a deixarei cair, Mei Niang.

Relaxo contra sua carapaça lisa, fria e estranhamente macia, sabendo que é verdade. Estou segura como nunca estive na vida.

Zhao Wei me carrega, e sumimos juntos na névoa. Eu podia sentir que nada mais seria como antes. O inimigo não era o que me diziam. E, nos recônditos do meu ser, eu posso sentir algo profundo e inexplicável começando a nascer.