Caderno de ideias
35 A Rainha da Neve

Era uma vez, há muitos e muitos anos, em um reino já esquecido nas brumas do tempo, uma princesa que nasceu com o misterioso poder de controlar o gelo e a neve. Sua pele era pálida e perfeita como porcelana, seus cabelos negros como a noite e seus olhos da cor dos cristais de gelo, o que lhe valeu o nome de Crystal.
A princesinha cresceu, e com ela seus poderes, que ficavam mais fortes e imprevisíveis a cada ano que passava. Apesar de ser bela e gentil, o reino via Crystal como um monstro, uma terrível feiticeira a ser temida.
Em seu décimo oitavo aniversário, houve uma terrível nevasca. Se foi ou não culpa de seus poderes fora de controle era impossível dizer, mas os cidadãos a culparam de qualquer maneira, e decidiram invadir o palácio para matá-la antes que a "bruxa" assumisse o trono.
A tempestade que a condenou, porém, foi também sua salvação, pois graças a seu manto protetor Crystal conseguiu fugir do palácio sem ser vista, procurando refúgio nas montanhas ao Norte do reino, tão distantes e ermas que nenhum ser humano jamais se aventurava a visitá-las. Lá, naquele deserto branco, a jovem princesa encontrou paz.
Dias se transformaram em semanas, então em meses e finalmente em anos. Mas, é claro, Crystal era humana e a solidão enfim a venceu, fazendo com que deixasse seu refúgio. O mundo lá embaixo, porém, estava muito diferente do que ela se lembrava.
Foi em meio a essa confusão, alguns dias depois, que Crystal descobriu o motivo de tão brusca mudança: cem anos haviam se passado desde que se exilara. A jovem, graças à sua magia, não envelhecera nem um segundo.
O rei atual não tardou a ouvir os rumores sobre a bela e misteriosa ninfa da neve que ficara residência na densa floresta de coníferas aos pés das montanhas, perto de uma pequena vila.
As pessoas do lugarejo temiam aquela criatura mas o rei, sendo um guerreiro arrogante, decidiu provar a todos que aquilo era apenas "superstição camponesa", um produto de mentes fracas e sem instrução.
Em uma noite de lua cheia, o monarca montou em seu cavalo e penetrou na floresta sozinho. A jovem, que através daquele século de solidão descobrira ter também o dom de prever o futuro, o esperava em uma clareira não muito distante. Ela era belíssima, e o rei ficou encantado. Ao ouvir sobre seus poderes, determinou-se a tê-la. Noite após noite, o arrogante rei voltou à floresta, até enfim ganhar o coração da jovem solitária e fazê-la sua rainha.
Não muito depois, o novo casal teve uma filha, a quem deram o nome de Rosa. Tudo parecia estar indo bem: a princesinha crescia saudável, o reino prosperava como nunca e Crystal, com seus poderes precógnitos, era o braço direito do marido, sua principal conselheira. Todo o reino amava e respeitava a sabedoria de sua jovem rainha.
O rei, porém, não estava satisfeito. Seu orgulho não podia aguentar ter sua autoridade suplantada pela esposa. Decidiu, então, matar a rainha, para ser o único e verdadeiro governante do reino novamente. Seu plano, é claro, falhou, e o monarca caiu em descrédito devido a sua perfídia.
Como vingança por seu plano frustrado, o cruel homem ordenou a seu conselheiro mais fiel que levasse a pequena Rosa para um destino que o próprio rei desconhecia. Com isso, esperava driblar os poderes precógnitos da rainha. O estratagema funcionou, deixando Crystal fora de si.
Louca de dor e desespero, todo o seu amor pelo marido se transformou em ódio. Seu coração congelou, transformando sua bondade na mais pura frieza. A jovem então usou seus poderes para cobrir o reino em um cruel inverno perene e assumir o trono. Seu reinado gelado, porém, teve curta duração.
Um poderoso feiticeiro que vivia no reino, chamado Janus, ultrajado com a tirania da rainha, a desafiou para um duelo. A magia de Crystal era forte e sua fúria ardente, mas empunhadas com inexperiência. O resultado foi sua expulsão de volta para as montanhas, ferida e humilhada.
Crystal sobreviveu, mas seus graves ferimentos a deixaram cega. Tomada pela amargura, a jovem jurou nunca mais deixar seu santuário gelado. Ela se isolou em um palácio de gelo, no topo da montanha mais alta, e fez de sua vida uma busca incessante pela pequena Rosa.
Mesmo agora, séculos depois, se você sentir uma súbita rajada gelada, talvez seja a Rainha da Neve procurando por sua filha perdida.
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