Caderno de ideias
36 Salve a Rainha

Parei na porta, observando. Ela usava um simples vestido cor de açafrão, que ressaltava o quanto estava magra. Parecia delicada, como um pequeno filhote de passarinho.
Ao ouvir meus passos, ela ergueu a cabeça. Seus belos olhos azul-celeste me analisaram por um longo momento, e ela esboçou um sorriso tímido, quase frágil.
- Você está linda. — Declarou enfim, sua voz baixa. — Vermelho lhe cai muito bem.
Deixei que admirasse o vestido de veludo vermelho, decorado com renda e pérolas negras, um símbolo de como nossas situações haviam mudado.
- Venha comigo. — Ordenei simplesmente.
Ela tentou obedecer, mas suas pernas magras tremeram e cederam, mesmo sob seu parco peso.
- O que eles tem feito com você?! — Exclamei, chocada. — Venha, eu lhe ajudo.
Sua mão delicada, com dedos tão finos que me fizeram lembrar galhos de árvores, aceitou o apoio da minha quase com gratidão.
- Para onde está me levando? — Inquiriu. — Para a forca? As masmorras?
- Não, apenas até o terraço. — Meu tom foi gentil, talvez muito mais do que ela merecia. — Quero que veja uma coisa.
Tive que praticamente carregá-la escada acima, passando o braço por sua cintura e suportando quase todo seu peso. Ela era tão magra que mal parecia ter mais de trinta quilos.
Assim que atingimos o terraço, porém, uma súbita onda de energia a tomou e ela soltou-se de mim, indo com passos leves até a amurada.
- Sempre amei este lugar. — Comentou sonhadoramente. — Obrigada por me permitir vê-lo uma última vez. Lhe serei grata por todo o tempo que me resta.
- Do que ... Você está falando?
- Não sou ingênua, minha cara. — A jovem virou-se para mim. Uma súbita rajada de vento chicoteou-lhe os cachos castanho-claros no rosto, e ela os prendeu atrás da orelha. — Sei que o povo escolheu a execução como meu destino. Como ... Pagamento por meus crimes.
- Katerina, eu ... Eu tentei ...
- Eu sei, Danna. — Um sorriso triste se abriu em seus lábios. — É triste, não é? Ver alguém tão jovem morrer. Sabe, o mais irônico é que ... Mamãe e papai teriam feito o mesmo. A única diferença foi que eu tive um ponto fraco: não consegui matar você quando precisei. E, por isso, agora estou aqui, sendo penalizada por levar adiante aquilo que meus pais tanto queriam. Se houvesse outra maneira, talvez ... Mas nunca conheci nenhum outro jeito.
Seu longo cabelo agora esvoaçava na brisa, como fitas cacheadas. Ela estava novamente de costas para mim, contemplando a vista do reino abaixo de nós, e me aproximei um passo. A visão daquele perfil, delicado como o de uma boneca de porcelana, e aqueles olhos azuis perdidos nas montanhas distantes me fez hesitar.
- É uma pena ... — Ela suspirou pesadamente. — Este reino jamais saberá o futuro incrível que eu tinha em mente. Tudo aquilo que planejei ...
- Me conte. — Pedi. — O que você planejou?
- Não vale a pena. É tarde demais agora. — Sua fachada de coragem de repente desmoronou, e lágrimas começaram a rolar por suas bochechas. — Danna ... Estou com medo. Eu não deveria estar, não é? Afinal, vou ver minha família de novo. Finalmente ...
Sua voz já hesitante foi sufocada por soluços enquanto ela escondia o rosto entre as mãos minúsculas, quase infantis.
- Eu sinto muito, Katerina. — Foi só o que consegui dizer.
- Faça você. — Ela quase implorou. — Mate-me com a sua espada e me deixe morrer olhando nos seus olhos, sem ver nojo, medo ou ódio. Mostre a mesma clemência que mostrei a você.
Aqueles olhos, duas poças de medo e lágrimas da cor do céu de verão acima de nós, foram o que me fez decidir. Avancei e abracei Katerina com toda a força que pude, como a uma irmã. Ela se agarrou a mim desesperadamente, enterrando o rosto em meu ombro.
- É isso mesmo que você quer? — Inquiri baixinho. — Que eu a mate?
- Sim. — Ela respondeu sem hesitar. — Mas estou com medo. Não deixe que eles ...
- Não vou deixar. — Com cuidado, afastei um cacho molhado de sua têmpora. — Você me salvou naquela noite. É meu dever fazer o mesmo agora.
- Obrigada, Danna. Muito obrigada. — Ela segurou minha mão esquerda com força entre as suas. — Você é uma verdadeira amiga. Queria que tivéssemos tido mais tempo.
Eu a soltei e ela recuou um passo, abrindo os braços para facilitar minha tarefa. O corte foi rápido e limpo, sem dor desnecessária. Ergui minha espada, agora com a lâmina rubra de sangue, em direção ao céu e bradei a plenos pulmões:
- A rainha está morta! Deus salve a rainha!
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