— Não, não, não ! — Hanna passa a andar para todos os lados, inspirando com força e tentando ao máximo expirar com delicadeza.

Iara se aproxima de Hanna — que agora estava sentada ao chão com suas mãos puxando os cabelos — e a aconchega em um abraço.

— Vamos sair daqui, confie em mim. Eu sou pequena, mas eu prometo te defender. — Ela a aperta e escuta um som de alívio sair.

Uma voz sombria soou aos ouvidos de todos. Uma voz feminina. Como se a morte e a escuridão negassem a masculinidade. A alma de Will parecia se rasgar, sua pele ardia como chamas de um inferno infinito, gritos e sussurros de socorro navegavam em sua mente, então ele sente uma tontura e sentou-se no chão. Do outro lado, Rick segura Iara — que estava se contorcendo como se não houvesse ossos em seu corpo — e quando a mesma passa a sussurrar frases, ele chama Hanna e Peter para ajudá-lo e, ao se aproximarem, todos são jogados para trás com apenas um sopro de Iara.

— Pela porta da morte jamais passará e um choro de luto terá que soltar. Seu demônio interior precisa se libertar, caso contrário presa sempre estará. Sua morte não será em vão, você é jovem, mas sua jornada é velha. Na hora certa saberás o que fazer, és escolhida por mim e estes são meus avisos, obedeça-os e todos os quatros permanecerão vivos. — A voz de Iara havia mudado. Era grave e nítida. Sombria e tenebrosa.

Iara perde sua consciência e cai direto ao chão, todos os outros jogam-se até ela, tentando despertá-la. Hanna levanta sua cabeça e a põem em cima de suas coxas, por um momento, ela passa a acariciar o rosto de Iara como uma irmã e esquece tudo ao redor. Ela olha para o lado e vê Rick e Will conversando e fica atenta para ouvir.

— Você ouviu, todos ouvimos. “Todos os quatros permanecerão vivos” quer dizer que alguém já está morto, será que você não entende ou se faz de burro? — O tom de nervosismo era perceptível na voz de Rick.

— Eu sei, mas não tem o porquê de estarmos preocupados, daremos nosso jeito. Conseguimos sair da cela e conseguiremos sair daqui. — Will tenta acalmá-lo.

***

Iara já estava acordada e Hanna preferiu se levantar para não atrasar a caminhada. Elas se juntam a Rick e Will, logo depois jogam uma pedra em Peter que estava dormindo atirado no chão. Os cinco se recompõem e voltam a andar. Peter puxa Hanna para o canto sem ninguém notar.

— O que ela disse sobre tudo que aconteceu ? — Pergunta

— Eu deixei algumas indiretas e a única coisa que ela se lembra é de ter ouvido uma voz estranha e de ter acordado com a cabeça em minhas coxas. — Hanna responde tentando avistar Iara junto a Will e Rick. — Estamos lidando com uma menina de onze anos Peter, tenha calma.

— Hanna, quando eu tinha onze anos minha diversão era assistir desenho e tomar leite condensado puro, não incorporar demônios no meio do inferno. — Ironiza

— Cala boca, Peter — Ela ri e volta a se juntar a todos.

A cada passo, Fideliuns parecia não ter fim. Os gritos de desespero, pessoas sendo jogadas ao lago de creatos. Tudo era como um pesadelo trazido para a realidade. Cada luz era uma esperança e cada escuridão era um medo. Algo mais forte que a morte é o medo e todos sabiam bem o que isso queria dizer.

Explorando o lugar onde estavam Will notou um buraco escuro, como se não houvesse fim, próximo onde todos estavam. Em volta desse buraco havia marcas de sangue. Ele se aproxima para analisar o local e uma voz mandando-o pular surge em sua mente — a mesma voz que o mandou olhar para frente e o fez deparar-se com um corvo morto — “Pule” reforçou a voz. “Pule. Agora.” soou com mais firmeza. As suas pernas chegaram para frente contra sua vontade, ele olha para trás e enxerga os outros observando outras partes do lugar e então resolve pular. Will derrapa em um local pouco iluminado, era possível ver poucos os detalhes. As paredes sujas de lodo, o chão com um volume de água que não passava do seu calcanhar, algumas baratas e ratos corriam de um lado para o outro conforme ele andava.

“Você sabe o que fazer” a mesma voz soa tentando acalmá-lo e o fazer lembrar-se de algo que já existia em sua mente.

Luminnous Havelloum — Sussurrou em um tom baixo quase impossível dele mesmo se ouvir. Suas mãos passaram a se clarear como duas lanternas. Ele as estendeu e identificou o local. Era um túnel, mas não um túnel simples, era como um labirinto. Um labirinto cheio de viradas e contornos.

Então Will voltou a explorar, até que em uma das viradas, se depara com inúmeros corpos jogados no chão das mais diversas idades e sexos. Ele estende suas mãos para verificar as paredes e saber onde estava até que uma rocha surge, fechando a saída e o deixando preso. Ele dá um passo até a parede da frente e vê uma frase escrita em vermelho sangue. “Uns creem, outros não. Para saber, deve esperar e uma das formas de aguardar é a morte, sabes o que é ? Erre a resposta e se juntará aos demais jogados no chão.”

“No dia do juízo final, os mortos voltarão à vida...” a voz soa na cabeça de Will e ele repete a pergunta para si mesmo diversas vezes até que tudo faça sentido.

— Os mortos voltarão à vida, é claro, brilhante. — sussurra.

Will firma seus olhos na parede.

— Ressurreição. Alguns creem e outros não. Para saber se é real, é necessário esperar. — Ele observa as letras, da frase, mudar e então se posiciona para ler.

“Ótimo, prossiga sua jornada, Planetero.” A parede se levanta e ele faz um esforço para ultrapassar os corpos que ali estavam. Aperta o passo para se movimentar mais rápido e sair do local.

Will já está correndo. Ele tropeça e cai dentro de um lago de água gosmenta. Ele prende a respiração e nota que há um tubarão imenso em sua frente. “Quieto” a mesma voz surge em sua mente. O tubarão vai para cima de Will e ele nada para o lado, deixando o animal furioso. “Quieto” ordena a voz. O tubarão novamente vai até Will e ele se joga para o outro lado fazendo a barbatana do animal causar um leve arranhão em sua perna. O seu fôlego já não está mais forte, então ele solta o ar aos poucas. O animal se aproxima e chega perto, abrindo a boca e mostrando suas presas afiadas capaz de causar um corte tão facilmente. O animal o engole e Will fecha os olhos esperando sua morte e quando os abre, está encharcado de água e um som de choro surge. Ele se levanta e segue a voz. Ele ilumina o lugar com suas mãos e conduz o seu passo com o máximo de leveza para não causar extremo barulho. O choro se aproxima e ao chegar ao contorno Will encontra uma menina minúscula, pouco mais nova que Iara.

— O que aconteceu ? Desde quando você está aqui ? — Questiona.

— Morte e sangue serão jogados em sua história, gritos de dor e perdas de amor serão a marca de todo seu desastre. Quere encontrar a saída ? Você já sabe onde é, basta se esforça. — A garotinha não havia voz de criança e sim de um homem adulto que rasgava a alma ao pronunciar cada sílaba.

Então a menina olhou para cima e larvas saíam de seus olhos e de sua boca fazendo-a dissolver feito pólvora e explodir, deixando uma fumaça. Will tenta enfrentar a fumaça e dá um pulo para frente tampando o nariz e fechando os olhos. Ele cai de joelhos no chão e escuta a voz de Hanna.

— O achei gente, ele está aqui. — Ela gritava, chamando a atenção de todos os outros.

Ele olha para trás e nota que tudo havia sumido e ele havia voltado à beira do buraco onde estava antes de resolver pular.

Todos chegam ao redor e ele passa os olhos em todos, puxa o ar e retoma o fôlego.

— Eu sei como sair.