Cabana à beira da estrada e outras estorinhas.
1 Cabana à beira da estrada.
Fazia mais de três horas desde que eu saíra do cemitério, depois de ter enterrado minha mulher e filhinha. A noite seguia longa e escura, além disso, meus olhos inchados de tanto chorar e a chuva torrencial que caia naquele instante não me ajudavam em nada a dirigir meu carro.
Era uma estrada longa e retilínea. Eu tinha esperanças de encontrar um posto, para reabastecer meu carro (que por sinal já estava na reserva) e para me abrigar daquele dilúvio. Infelizmente, não achei nenhum posto e meu carro ficou sem gasolina.
Eu estava desamparado. Sem gasolina e sem abrigo seguro para a chuva. Resolvi então me arriscar e saí do carro para procurar alguma casa na qual o morador pudesse, gentilmente, me oferecer abrigo e um telefonema para poder chamar o reboque.Saí do carro. Andei algumas centenas de metros, já sem esperança de encontrar uma alma viva para me socorrer. Notei então, nesse momento, uma luz pálida brilhando através da chuva e da escuridão. Animei-me com a esperança de encontrar ajuda.
Caminhei mais uns tantos metros, e cheguei então à fonte da luz: era uma pequena lâmpada do lado de fora de uma pequena cabana de madeira.Bati na porta. Ninguém respondeu. Voltei a bater. Ninguém respondeu. Na terceira vez, já fui entrando, pois a porta estava aberta e eu não aguentava mais ficar debaixo de tanta água.
À primeira vista, a cabana pareceu bem decente: era realmente aconchegante e bem mobiliada. Fui logo procurando o dono do lugar para explicar minha situação. Mas não havia ninguém lá dentro a não ser eu mesmo. Continuei minha incursão pela casinha. Era de toda forma, modesta, mas de muito bom gosto: sem televisão nem telefone, infelizmente, porém com uma linda lareira na sala de estar.
Quando vi que o banheiro tinha água quente, logo me animei para tomar um banho relaxante. Tirei minhas roupas e as coloquei perto da lareira para que secassem o máximo possível. Tomei meu banho. Quando saí do banheiro, notei uma trouxa de roupas limpas e secas e um prato de sopa fumegante em cima da mesa de jantar. Estranho eu não ter notado eles antes, mas culpo isso ao meu enorme cansaço e abalo emocional pelo qual eu passara recentemente. Vesti as roupas e tomei a sopa.Eu me sentia, deveras, muito melhor. Resolvi então descansar um pouco e esperar o dono do lugar voltar para explicar tudo. Fui até a lareira. Minhas roupas ainda estavam úmidas. Peguei então um livro que estava em cima da mesinha de centro: "Metamorfose", de Kafka. Comecei a ler, mas rapidamente adormeci.
Não sei quanto tempo fiquei desacordado, mas quando o barulho me assustou e me fez acordar com um pulo, havia neblina e ainda chovia na noite. O estrondo que eu ouvira tinha vindo da porta. Fui ver o que havia causado o barulho. Cheguei lá e deparei-me com algo, ou alguma coisa, ou alguém... ainda não sei ao certo... só sei que até hoje essa lembrança me trás arrepios e extremo desconforto. Era um ser um pouco translúcido. Não consegui ver o seu rosto, pois o enorme capuz de sua túnica cobria-o a face totalmente. Também parecia flutuar. A sua mão direita era ossuda e terrivelmente tétrica; já a esquerda, que me chamou mais atenção, tinha garras: cinco garras afiadíssimas que pareciam gotejar algo (talvez água da chuva, mas o líquido parecia um pouco mais viscoso).
Ainda petrificado de medo, juntei os cacos dos resquícios de minha coragem e pus-me a correr. Como a porta estava bloqueada pela entidade etérea, minha saída só seria possível se eu pulasse pela janela de fronte à lareira. E foi o que fiz. Na queda de meu pulo, machuquei minhas mão e o joelho com os cacos do vidro estilhaçado. Não senti dor, a adrenalina me dava forças e resistência. Uma vez fora da cabana, comecei a correr em direção ao meu carro. Eu olhava frequente mente para trás, para ver se estava sendo seguido.
Felizmente, eu corria só.
Nesse momento, porém, lembrei que minhas chaves haviam ficado dentro do bolso de minha calça. Atordoado e sem pensar direito (e movido por um excesso de adrenalina), coloquei-me a correr em direção à cabana. Corri na direção dela, mas não via mais a luzinha que me chamara a atenção inicialmente. Continuei a correr. Mas não via nada.
A neblina me cercava, não deixando eu enxergar um palmo a frente de meu nariz. Comecei a correr em todas as direções, com esperança de achar a cabana e pegar minhas chaves. Tal esforço foi em vão. Cansado e com medo, caí de joelhos e comecei a chorar entre minhas mãos.
Quando atrevi-me a olhar para frente, vi novamente o ser. Não me atrevi mais a correr, pois eu já estava cansado e meu joelho machucado doía pacas. O etéreo aproveitando-se de minha situação, levantou-me pelo meu colarinho e ergueu-me do chão. Sua mão direita apesar de mortalmente óssea, tinha uma força descomunal e inumana, já que eu fora erguido sem muito esforço aparente. Vi com os cantos de meus olhos, suas grandes garras canhotas se levantarem e irem de encontro ao meu rosto.
Pude sentir a dor lancinante das garras atravessando meus ossos, olhos, carne e cérebro. Pude sentir o meu sangue quente escorrer até meu pescoço. Pude ver o sorriso malévolo e os olhos vazios que me fitavam. Pude me lembrar de toda minha vida e de seus bons e maus momentos. Tudo isso antes de, enfim, morrer.
Pela segunda vez na noite (ou seria a primeira?), acordei assustado com um pulo. Eu suava e ofegava.
Notei que eu estava dentro do meu carro.
Notei que meu tanque estava cheio.
Notei que minhas roupas estavam secas, e que ainda havia sangue escorrendo das cicatrizes em meu rosto.
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