Notas iniciais
Cada capítulo é uma história única, sem ligação com a anterior.

Era uma bela noite estrelada. Tudo perfeito para agradar ela: a menininha perfeita.

Não foi fácil achá-la. Somente após de anos de decepções amorosas, amores platônicos e outros tantos não correspondidos, ela apareceu. Tão linda e perfeita. O mais curioso disso tudo foi que, no momento que ela apareceu, eu não estava mais me importando com esse assunto, tinha dado um tempo. Já estava cansado de tanto fiasco. Mas então, de repente ela acontece e tudo começou de novo. Foi ótimo!

Naquela noite, comemoraríamos seis meses. Seria perfeito.

Chegamos e sentamos na nossa mesa reservada. Pedi um vinho tinto suave para nós. Eu rejubilava de alegria: nunca tinha me sentido tão amado e nunca tinha amado tanto. Logo eu! Era demais para mim...

“Preciso te contar uma coisa”, falou ela lá pelo terceiro copo do vinho, enquanto comíamos o jantar. “Não podemos ficar juntos. Já tenho outra pessoa”, disse secamente. Eu num acreditava em meus ouvidos. Não podia ser de verdade, tinha que ser o álcool falando por ela!

Fiquei tonto. Tudo girou, ou foi a Terra que parou naquele instante e todo mundo se moveu por inércia. Apenas sei que eu estava tonto. A comida começou a ser revirar em meu estômago e um frio subiu-me a espinha. “Com licença, vou ao banheiro”, foi tudo que consegui falar naquele momento.

Cambaleei até uma porta mais aos fundos do restaurante. Entrei e tranquei a porta. Fui no primeiro sanitário e comecei a vomitar.

Adeus jantar e vinho.

Fui para a pia. Eu chorava. Pensava em que eu havia errado, em que eu havia deixado de fazer. Dediquei atenção e tempo debalde. Agora havia “outra pessoa”. Era demais para mim! Logo eu.

Olhei para o espelho. Deparei-me com meu reflexo. Diferente do que eu aparentava, meu reflexo estava impecável em sua (minha) melhor roupa (comprada tão especialmente para tal evento). “Ela me trocou”, falei, “depois de tudo o que passamos...”.

“Eu sei”, respondeu o impassível Reflexo.

Eu deveria ter me espantado com isso: reflexos não falam e, muito menos, respondem, a não ser que você fale. Mas eu estava triste (e um pouco bêbado) demais para me importar. Apenas olhei para ele, tão impassível e majestoso dentro de seu Espelho, e baixei a cabeça. “Alguma sugestão para mim?”, perguntei. Nenhuma palavra, apenas um aceno positivo com a cabeça. “O que então?”, perguntei novamente. Reflexo estendeu-me, então, uma arma que tirara da cintura.

“Então é isso? Essa é a resposta para a dor e sofrimento? A cura para todas as enfermidades miocárdias?”. Novamente, nenhuma palavra, apenas uma confirmação com a cabeça. Estendi a mão para recebê-la. A mão de Reflexo era tão fria e dura quanto a arma.

Olhei para a arma pesada em minha mão. Meus olhos marejados tentavam me convencer do meu destino, do destino que eu, e tão somente eu, traria para mim. “Mas ainda nem paguei a conta...”, argumentei depois de algum tempo, a fim de que eu pudesse adiar um pouco mais aquilo. “Não se preocupe, outra pessoa paga”, disse Reflexo.

Era demais para mim. Logo eu!

Olhei novamente para Reflexo. Sempre impassível e austero, mas dessa vez sorria. Um sorriso de escárnio.

Engatilhei a arma, apontei para minha boca. Disparei.

Logo após o disparo, arrombaram a porta e acharam o meu corpo, mas não a arma.

Eu tinha um sorriso de escárnio no rosto, e as outras pessoas que me viam estirado no chão, também.