Notas iniciais
Espero que gostem ^^

Montrose, Colorado

23 de Janeiro, 11:25 PM

[Melanie's POV]

Acordei sentindo os olhos inchados e uma dor de cabeça horrível. Acho que é isso que acontece quando você faz um banquete de cerveja, vodka e whisky como jantar. Além disso tinha o enorme roxo em minha bochecha esquerda que ardia com um toque mais forte. Resumindo, eu estava uma caca.

Eram onze da noite. Levantei da cama com uma certa relutância e fui direto para o banheiro. Me despi e entrei debaixo do chuveiro só para sentir a água morna batendo em minhas costas, pois adorava aquela sensação que parecia tirar todos os problemas existentes de meus ombros.

Fique apenas alguns minutos e logo saí, porque né, a água do mundo tá acabando — como Doug sempre dizia quando eu ia tomar banho sem nenhum motivo. Segurei as lágrimas com a memória.

Não vou chorar, não vou, não vou! Repeti várias vezes dando tapas leves no rosto enquanto me encarava no espelho. Já estava me sentindo desidratada com os litros que chorei naquela tarde. Enchi os pulmões com ar tentando me livrar das lembranças daquele dia terrível, mas era inevitável. Todas as vezes que fechava os olhos ouvia as palavras dos demônios.

"Nós iremos voltar!"

De repente, lembrei que eu não estava segura. O exorcismo não matou aqueles filhos da mãe, nem saberia como, afinal era extremamente difícil matar criaturas infernais como aquelas. E se eles voltassem? O mesmo truque da armadilha de demônios escondida não funcionaria uma segunda vez... Né?

Lembrei-me daquele que não parava de tagarelar, até levou um esporro da mulher quando quase revelou o plano. Que burro! Esse sim cairia no mesmo truque várias e várias vezes. Lembrava da luta que tivemos e obviamente da enorme marca que ele deixou na minha cara. Dos três aquele era o que eu mais odiava e xingava constantemente em pensamento.

Voltando ao assunto, cheguei à conclusão de que não era bom ficar ali por muito mais tempo, pois eles podiam voltar a qualquer momento — tinha sorte de ainda não o terem feito!

Fui para o meu quarto (que estava uma zona antes mesmo dos demônios e agora então nem se fala!) e enfiei o máximo de roupas que consegui em uma mochila velha. Desci e evitei passar pela cozinha. Joguei a mochila na caminhonete e pus o pé na estrada. Não pude evitar olhar uma última vez para trás fazendo questão de cumprir a promessa de não chorar mais.

Eu não sei aonde estou indo... mas vai ser por um bom tempo.

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Jericho, Califórnia

30 de Janeiro, 6:05 AM

Já era o sétimo dia de estrada quando resolvi parar. Na verdade, eu precisava parar. Já estava sentindo o couro cabeludo coçar com a falta de banho, o suor colava a blusa nas costas, a juba do meu cabelo não via um pente há muito tempo e eu mesma não aguentava mais meu fedor de álcool. Resumindo, se antes eu estava uma caca, agora estava uma merda.

Além disso, precisava dormir. Cheguei na Califórnia com tanta rapidez exatamente por isso: tirei um cochilo ou outro, mas na maior parte das vezes não conseguia pregar os olhos e voltava a dirigir. Se ficasse mais duas horas acordada, eu acho que teria um colapso mental.

Entrei no primeiro motel que encontrei e pude ver meu reflexo na porta de vidro. Para o meu espanto, eu não estava uma merda como pensava, estava uma bosta. Além de tudo aquilo, meus olhos estavam inchados e com olheiras enormes, o roxo da minha bochecha contrastava excessivamente com a minha pele pálida e as roupas amassadas me faziam parecer uma mendiga. Notei um homem sem camisa (acho importante destacar isso) correndo pela calçada ali perto — provavelmente um hábito matinal — e ele até desacelerou o passo para me encarar como se eu fosse uma louca!

Suspirei e entrei no estabelecimento recebendo também um olhar de espanto do recepcionista. Ele me encarava enquanto fazia o check-in, o que estava começando a me incomodar profundamente.

— A minha cara de Rocky depois da luta te incomoda? — perguntei irônica — Se eu não sou bem vinda aqui...

Fui interrompida pelo homem, que esticou a mão entregando-me a chave do quarto.

— Já tivemos hóspedes em situações piores. Imagine só, um rapaz coberto de lama da cabeça aos pés! — riu com a lembrança.

Dei de ombros aceitando a chave. Ainda aproveitei que estava na recepção, peguei um jornal e enfiei a mão num pote que estava no balcão levando comigo um punhado de balas de banana.

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[Homem sem camisa POV]

Estava voltando para casa depois da minha corrida matinal quando vi uma mendiga entrando num motel da cidade. Acho que a encarei por mais tempo do que deveria, pois ela me encarou de volta com um olhar mortal. A culpa foi mesmo minha... Se eu me encontrar com ela amanhã novamente, darei-lhe um trocado!

Enfim, cheguei em casa e fui direto para o chuveiro. Estava tudo em silêncio, como de costume, já que eu morava sozinho desde que minha mãe falecera há três anos.

Fui para a cozinha preparar o café da manhã e olhei no relógio da parede constatando que ainda teria bastante tempo até as aulas começarem. Seria o primeiro dia letivo do ano e eu sou professor de Educação Física na única escola de Ensino Médio da cidade, além disso dou aulas de artes marciais de tarde. Quando minha mãe partira, tive que começar a me sustentar sozinho e, como não fiz faculdade, foi o melhor que consegui como trabalho. Não me sinto azarado, contudo, pois gosto do que faço, apesar de que se as coisas tivesse sido diferentes eu tentaria outra carreira... Direito talvez.

Sentei-me depositando o prato com ovos e a xícara de café na mesa. Abri o jornal enquanto comia. Como o esperado, a manchete da primeira página era sobre os desaparecimentos da Estrada Breckenridge.

Dois jovens, Grant Ward e Eobard Thawne, haviam desaparecido perto da ponte interditada da velha estrada na semana passada. Os carros haviam sido encontrados em dias diferentes, mas nas mesmas condições: fechados, com a chave na ignição e nenhum sinal de luta ou arrombamento.

Como Jericho é uma cidade pequena, os boatos rolam soltos e as histórias de fantasmas mais ainda. Como os dois jovens estudavam no mesmo colégio — no qual eu trabalho — começavam a especular que haveria uma relação com uma tal maldição da instituição. Tudo lorota!

Já estava terminando de comer enquanto rolava os olhos pela última página do jornal. No canto da folha me deparei com a seguinte nota:

"Agradecimentos especiais do prefeito ao jovem Winchester, que salvou o cão de nosso querido e amado representante nesta terça-feira..." E o escrito continuava, enaltecendo mais o dono do cachorro do que qualquer outro elemento da história.

Engasguei e quase morri com café no pulmão. "Cretino" balbuciei no meio da tosse relembrando do ocorrido: eu estava voltando de carro para casa depois do trabalho, quando um cachorro surgiu de vaisaberdaonde no meio da rua. Levei o animal desesperadamente para um veterinário. Não foi nada grave e depois de alguns curativos ele já estava bem, mas decidi ficar até que o dono viesse buscá-lo. Liguei para o número que estava na coleira e esperei algumas horas, até que um homem de paletó finalmente chegou. Conversamos um pouco e ele se queixava do modo com que seu chefe, o verdadeiro dono do cão, havia mandado o assistente (ele) cuidar do bichinho todos os dias, pois o grandioso prefeito não se importava mais com o animal e pegaria mal para sua imagem se descobrissem que ele tinha abandonado o cachorro.

Bufei com ódio me arrependendo de ter votado naquele babaca, um erro que não se repetiria. Levantei-me para arrumar as coisas antes de sair.

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Andover High School

1:30 PM

O último sinal havia tocado indicando o término das aulas do dia. Eu já estava de saída assim como a grande maioria dos alunos, quando a diretora apareceu. Vish, o que essa velha maluca quer comigo? Não a odiava completamente, graças a ela tive uma chance de trabalhar no colégio, mas eu tentava ao máximo manter distância daquela cinquentona.

— Olá, bonitão — cumprimentou a mulher. Já deu pra entender por que eu tentava ficar longe da velha?

— Boa tarde, sra. Rosen — tentei ser educado.

— Essa é a nossa mais nova aluna, Melody Pond — disse apresentando a jovem que a seguia.

— Pode me chamar de Mel — pronunciou-se a garota.

— Thomas — me apresentei.

— Eu estava pensando se você não poderia mostrar a escola para a sta. Pond enquanto eu termino as papeladas da matrícula — falava enquanto se aproximava de mim colocando a mão em minhas costas.

— Claro! — disse rapidamente fugindo do toque e praticamente arrastando a menina pelo corredor.

Acho que ela percebeu que eu fugia da diretora, pois soltou um leve riso. Levei-a para vários lugares do colégio, salas, laboratórios, auditório, etc. Alguns alunos ainda estavam nos corredores naquela hora, algumas meninas acenavam para a gente e eu retribuía com um aceno de cabeça. Eles também encaravam Mel, provavelmente julgando a menina nova. Resolvi fazer o mesmo exercício de analisá-la: cabelos e olhos escuros, era um pouco baixa, usava roupas bem simples e... tinha um belo de um roxo na bochecha, que eu não tinha reparado antes.

— E aqui — disse abrindo as portas da quadra — é a minha "sala de aula".

— Hum, então você é professor de Educação Física. Faz sentido...

— O que faz sentido? — questionei sentando-me no banco de reservas e observando Mel fazendo o mesmo.

— As meninas dando em cima de você, oras — disse simplesmente — elas ficavam te dando tchauzinho e tentando me matar com o poder da mente — ela imitou o olhar fazendo uma careta.

— Não é verdade — fingi que não notei. Percebia sim, que algumas alunas tentavam se aproximar além da conta, embora eu seja um professor.

— Claro que é verdade! — ela pareceu um pouco espantada com a minha suposta ingenuidade — Você é jovem... Uns vinte anos? Bonito, atlético, olhos verdes... Até eu me apaixonaria, se você fizesse o meu tipo! — acho que corei com o comentário.

— De qualquer forma, o colégio proíbe relações amorosas entre professores e alunos.

— Mas não diz nada sobre professores e outros funcionários... Uma certa diretora, talvez — disse com um sorriso brincalhão.

— Ah, nem me fale! — disse passando a mão no rosto meio sem jeito.

— A velha é um tanto atrevida, não? — assenti rindo — Não é a toa que você saiu correndo dela!

Ficamos mais alguns minutos rindo e fazendo comentários maldosos sobre a diretora para depois nos despedirmos. Mel disse que iria à sala da baranga — apelido que demos em homenagem ao Teorema de Carlão, pois "ela diz 'pobrema', ela tem bigode, sem falar na pança" era uma descrição que detalhava muito bem a sra. Rosen — para resolver as papeladas da matrícula e meu estômago clamava por um almoço.

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[Melanie's POV]

Saí da quadra e caminhei em direção à sala da barangóide. Thomas era um sujeito simpático, às vezes tive a impressão de que havia o visto em algum lugar antes... mas não conseguia lembrar onde. Dei de ombros e entrei na sala encontrando-a vazia. "A velha deve estar ocupada assediando algum funcionário em outra parte do colégio" pensei rindo.

Fechei a porta. Era a oportunidade perfeita! Graças à diretora tarada, tive a chance de fuçar nos arquivos do colégio e pegar a ficha dos estudantes desaparecidos. Tinha lido o jornal essa manhã e o mistério veio a calhar, pois não tinha conseguido dormir e era bom me ocupar com algo que não fosse dirigir sem rumo.

Tive essa ideia de me infiltrar como aluna e achei que seria divertido. A única coisa que quase arruinou todo o plano foi o meu nome falso, acabei me atrapalhando toda quando fui dizê-lo (isso que dá ficar dias sem dormir) e acabei soltando "Melody Pond". Bom, espero que a BBC não reclame direitos autorais.

Mandei os arquivos para impressão e, enquanto a impressora fazia seu trabalho, não pude evitar procurar pelo nome Winchester.

Notas finais
OBS1: Jericho é uma cidade fictícia do 1º ep de Spn (sdds) OBS2: Melody Pond (Doctor who); Rocky (Rocky:um lutador) OBS3: Teorema de Carlão é uma música do Pedra Letícia que todos deveriam ouvir pelo menos uma vez na vida: https://www.youtube.com/watch?v=OV1dU_ijvVg (juro que vale a pena kkk) OBS4: Eu reescrevi esse capítulo umas três vezes e ainda não ficou do jeito que eu imaginei... Digam nos cometários como eu poderia melhorar ;)