Caçadores do amanhã
14 Clube do livro
Notas iniciais
As correntes arrastando-se pelo chão e batendo nas paredes emitiam um barulho alto que ecoava na solidão de uma pequena sala escura. O som do ferro, que a princípio parecia alto, passou a ser abafado pelos berros ensurdecedores do aprisionado. O homem tinha os braços e pernas acorrentados e um líquido vermelho escorria livre por sua face.
Um som ritmado de passos pôde ser ouvido no corredor, o que levou o homem a gritar ainda mais alto. A tranca foi aberta e a porta pesada de ferro arrastada lentamente abrindo passagem para uma mulher baixa, ruiva e zangada.
— Samuel, querido... — a ruiva começou a falar com um sotaque puxado — SERÁ QUE DÁ PRA CALAR A BOCA?!
A mulher gritou com os indicadores nas têmporas num claro sinal de enxaqueca. Sam levou os olhos até ela, sério e desafiador. Sua respiração era pesada, mas isso não dava a impressão de que estava com medo, pelo contrário, parecia que a coragem emanava de seu corpo.
— DEAN!!! VOCÊ ESTÁ AÍ?! — ele gritou mais uma vez e ainda mais alto.
— Não adianta! Ele não pode te ouvir — a mulher disse com um sorriso sarcástico — Então, vê se cala a boca. Lembre-se de que eu não posso te matar, mas posso arrancar alguns pedaços! — ameaçou.
— Lembro-me que já tentou isso... — o sangue em seu rosto era a evidência disso — ... e já viu que isso não vai me calar!
— Veremos — ela respondeu com um sorriso malicioso e começou a recitar algumas palavras antigas, como um encantamento.
Sam fechou os olhos com força sabendo o que estava por vir. A imagem ficou escura e o berro de dor do homem foi sumindo até desaparecer, como se estivesse muito longe para ser escutado.
De fato, ele estava longe, muito longe e Thomas sabia disso. Sabia também que não passava de um sonho e que estava prestes a acordar atordoado como todas as outras vezes. Estava prestes a despertar, mas parece que foi puxado de volta e, diferente de todos os outros pesadelos que tivera, ouviu uma voz feminina rouca o chamar. De repente, a escuridão daquele sonho foi tomando outra forma, como se o transportasse para um lugar totalmente diferente.
Aos poucos, a imagem ia se tornando mais clara, apesar de embaçada. Thomas olhou ao seu redor, estava em uma sala de estar com cheiro de incenso. Haviam velas acesas apesar do ambiente estar bem iluminado pelos raios de sol que atravessavam a fina cortina e apanhadores de sonhos pendurados no teto. Facilmente distinguiu a forma de uma pessoa à sua frente. A imagem estava borrada, mas pôde ver que tinha cabelos brancos que contrastavam com a sua pele negra.
"Venha visitar Missouri"
Foi só o que ouviu antes de tudo sumir abruptamente.
—--x---x---
Tom puxou o ar com dificuldade e, ao senti-lo chegar aos pulmões, tossiu desesperadamente sentindo uma ardência na bochecha esquerda.
— Tommy, você está bem? — olhou para o lado encontrando uma prima preocupada.
— Por que você me bateu?! — ele perguntou acariciando a bochecha que tomou uma cor avermelhada.
— Parecia que você estava tendo um pesadelo dos ruins — ela explicou — Então eu resolvi te acordar.
— Com um tapa na cara?
— Ok, se você não gosta, da próxima vez eu posso te dar um chute no saco.
Thomas ignorou o comentário e se sentou na cama passando as mãos no rosto lembrando de tudo o que havia visto em seus sonhos.
— Foi aquele pesadelo de sempre? — Melanie sentou ao seu lado.
— A princípio, mas de repente... "Venha visitar Missouri" — lembrou-se das palavras.
— Missouri? Acha que devemos ir para Missouri?
— Eu não acho que seja isso... — disse pensativo — Nos livros que Garth nos deu, Supernatural, não tinha um capítulo em que eles...
— Ei ei — Mel o interrompeu — Você já terminou de ler, mas eu ainda estou na parte em que eles enfrentam os cavaleiros do apocalipse. Cuidado com os spoilers!
Já fazia alguns dias que eles estavam hospedados no mesmo motel sem casos para trabalhar nem lugares para ir. Sem pistas sobre o paradeiro dos seus pais, eles dedicaram um tempo à leitura dos livros que contavam a história de Sam e Dean. Melanie ainda tinha dúvidas se deveria ou não acreditar em absolutamente tudo o que estava escrito ali, mas certamente gostou dos livros.
Thomas se levantou e foi até a caixa com a coleção pegando um dos primeiros volumes.
— Esse você com certeza já leu — encontrou a página que procurava e leu em voz alta:
"Sam folheava alguma coisa enquanto Dean o assistia trabalhar encostado em Baby. Voltar à terra natal era difícil para ele, ainda mais para a casa em que sua mãe havia sido morta e dado início à tudo aquilo. Mais cedo, investigando sobre a história de sua antiga casa, falaram com um antigo conhecido de seu pai, que revelou uma visita de John à uma quiromante da cidade antes de desaparecer misteriosamente. Bom, para os meninos não foi algo tão misterioso.
— Existem poucos quiromantes e videntes na região — Sam disse e começou a ler alguns nomes engraçados.
— Espera, Missouri Mosly? — Dean o interrompeu achando o nome familiar e abrindo a porta do Impala para pegar algo — No diário do pai, primeira página — ele entregou o caderno de couro para o irmão"
— "Eu fui à Missouri e descobri a verdade"— Mel completou com o diário do avô em mãos — Eu achei que ele estava falando do estado.
— "Sempre achei que ele falava do estado — disse Dean"— Thomas leu.
— Ok, então — Mel ignorou o último comentário — "cidade natal", "onde tudo começou"... Próxima parada: Lawrence, Kansas.
—--x---x---
Após alguns dias de estrada, estavam finalmente chegando ao seu destino. Thomas estava na direção do carro lançando olhares para Melanie de minuto em minuto. A prima estava terminando o último livro de Supernatural e fazendo uma cara concentrada nas páginas.
— Terminou?
— Sssshh! — ela resmungou sem tirar os olhos do livro.
Tom ria sozinho das caras de Mel extremamente focada no livro. Ela inclinou a cabeça pro lado com o cenho franzido e virou a página constatando que era realmente a última.
— QUE BOSTA DE FINAL É ESSE?! — ela exclamou e o primo caiu na gargalhada — Esse não pode ser o último livro! Sério, onde tá a continuação dessa joça?
— Sabia que teria essa reação — ele disse em meio aos risos — Mas é mesmo o último. Com certeza houve uma continuação na história real, mas os livros pararam de ser lançados aí.
— Eu não sei se vou sobreviver à isso — disse batendo a cabeça na janela — Sam misteriosamente fora da caixa e caçando sem o Dean? E o Dean vivendo uma vida normal com a Lisa e Ben sem saber que o irmão está vivo? Quem é essa Lisa, afinal?!
— Talvez Missouri saiba nos contar o que aconteceu depois desse finale.
— Espero que ela tenha isso escrito para eu ler... ou em forma de série pra assistir no Netflix — ela disse olhando para a capa do livro em suas mãos — Você acha que eles eram assim?
A capa tinha "Supernatural" escrito no topo e uma ilustração de dois caras sarados, sem camisa e de cabelos esvoaçantes.
— Pelas fotos, esse cara aí não parece nem um pouco com o meu pai. Duvido que com Dean seja diferente.
— Que pena — Mel suspirou.
— Mesmo se fossem iguais a esses caras aí, hoje eles estariam velhos... Na beira dos 60?
— Sammy parece muito com você, Tommy — brincou com os nomes — Não o cara da capa, mas o Sam mesmo.
— Você acha que nós dois parecidos? Fala sério, Mel, você é idêntica ao Dean!
— Ah, nem tanto — ela fez uma careta.
— Sério? O mesmo gosto por carros e músicas velhas, as mesmas piadas sem graça...
— Ei, primeiro, a palavra certa não é "velho", e sim "clássico"; e eu não o culpo por ter um bom gosto. Segundo, bitch, eu sou hilária.
— Nem um pouco parecidos... — disse irônico.
— E esse tal de Castiel?
— O que tem ele?
— Você também achou que rolou alguma coisa entre ele e o Dean?
— De onde você tirou isso? Isso nunca foi insinuado.
— Você tem que ler as entrelinhas! — ela disse como se fosse óbvio — Assim, tá na cara que Dean não é gay (se fosse, eu não estaria aqui), mas não acha que rolou um clima?
— Você está me dizendo que acha que o seu pai teria um relacionamento amoroso com um anjo do Senhor? — achou a situação engraçada.
— Meu ship — respondeu simplesmente dando de ombros.
— Chegamos — Tom anunciou estacionando.
— Já? — disse descendo do carro — Tem certeza que é aqui?
Ao dizer essa frase a porta de vidro ao seu lado abriu e uma mulher loira pôs a cabeça pra fora.
— Estávamos esperando vocês — a desconhecida disse.
— Desculpa, a gente se conhece? — Tom perguntou educado.
— Estou esperando à dias! Será que dá pra vocês Winchesters pararem de lero lero e entrarem logo? — uma voz rouca gritou de dentro do estabelecimento.
Tom e Mel trocaram olhares. Não haviam contado a ninguém que estavam indo pra lá.
— Desculpa por isso, ela está mesmo falando de vocês à dias, vamos entrando, sim? — disse a loira segurando a porta — Meu nome é Sari, é um prazer conhecer os filhos de Sam e Dean.
— Você conhece nossos pais?
— Eu morava na antiga casa deles quando mais nova — Sari respondeu — Missouri e os rapazes se livraram de um poltergeist, salvando a mim, meu irmão e minha mãe.
Mel e Tom se lembraram da história contada nos primeiros livros de Supernatural que os levou até ali. Sari era a garotinha que eles salvaram naquele capítulo.
— Os meninos partiram, mas Missouri e minha mãe se tornaram grandes amigas. Hoje, eu ajudo ela nas horas vagas — entraram em uma sala enquanto Sari explicava.
Thomas olhou em volta notando que o ambiente era muito familiar e, mais ainda, era a senhora negra de cabelos brancos sentada na poltrona.
— Olá, Thomas, você é bem diferente pessoalmente.
— E você é bem diferente quando não está nos meus sonhos! — disse com os olhos arregalados fazendo-a soltar um riso — Como fez aquilo?
— Eu tenho os meus truques — ela riu ainda mais.
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[Melanie's POV]
Missouri levantou-se da poltrona com a ajuda da bengala e se aproximou tocando a mão do Tommy.
— Ah, Thomas, você cresceu um homem bom, como Sam- disse olhando em seus olhos.
Ela o soltou e fez o mesmo gesto comigo.
— Oh, Melanie, você também é muito parecida com o seu pai, até o jeito meio pateta — fiz uma careta.
Essa velha tá tirando onda com a minha cara?
— Quem você chamou de velha?
Eita, como a maluca sabe que eu chamei ela de velha??
— Menina, eu posso ser velha, mas não sou surda.
— Eu não falei nada — tentei me defender.
— Mas pensou! — ela apontou o indicador me acusando enquanto Tom ria — Vamos, sentem-se — ela convidou.
Missouri voltou a se sentar na poltrona enquanto eu e Tommy sentamos lado a lado no sofá. Havia uma mesa de centro baixa na distância ideal do sofá para...
— Garota, se você colocar os pés na minha mesa, eu faço você limpar com a língua — ameaçou.
— Mas eu não fiz nada! — velha maluca.
— Mas estava pensando em fazer. E não me xingue desse jeito!
Ok, vou começar a controlar meus pensamentos daqui em diante.
— É uma boa ideia mesmo.
Porra, até isso ela ouve!
A vidente me lançou um olhar de reprovação pelo palavrão e eu passei a tentar não pensar em mais nada, o que era um trabalho mais do que difícil. Tô vendo que essa conversa vai longe...
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