Caçador

46 Olá, Fox Mulder!


Notas iniciais
Quem adivinhar o que vai ser o caso ganha um spoiler. (brinks, não ganha não ;-)

Pegamos Jene no hotel. Ela reclama praticamente o caminho todo por ter perdido a luta, mas imagino que no fundo esteja aliviada por ter escapado. Ela ainda não é suicida. Ela fica bem surpresa quando falo sobre ser um necromante e quando explico sobre Chuck. É claro que a maluca ali fica curiosa, querendo conhecer Sombra. Sabe, nunca entendi essa paixão que as garotas parecem ter por cachorros.

Temos um breve período de calmaria, sem nada para Caçar. Fico meio de olho nos jornais e na internet, mas não acho nada que seja do nosso departamento. Aproveito esse tempo para treinar Jene mais um pouco. Eu sei que nessa profissão o único jeito de aprender é caçando. Mas não posso deixar de ficar preocupado em pensar nela enfrentando o que normalmente tenta me matar. Então vou dar o melhor treinamento que poder e dar um jeito de acabar com esse sentimento protetor, antes que eu mate ela com isso. Não matar diretamente, mas deixá-la sem prática para se defender caso algum dia precise.

Depois de uma semana sem caçar nada, Joe dá sinais de vida. Ele me manda um recorte de jornal usando Chuck como entregador. Joe sabia sobre Chuck, já que ele estava comigo quando eu cacei aquele Daeva.

Com o primeiro olhar, não consigo ver nada que indique o caso como um dos nossos. Afinal, Joe me mandou uma nota sobre um desparecimento, mas sem nada de estranho. Decido investigar.

O desaparecimento é de uma garota. Deve ter uns vinte e poucos anos, e sumiu na floresta perto da cidade onde mora. Procuro o relatório sobre o desaparecimento no banco de dados da policia. Como eu disse, não sei por que todos acham que o sistema de segurança eletrônico dos EUA é o melhor do mundo. Pelo menos o da policia não é. O do FBI só tentei umas duas vezes, e o da CIA nunca precisei.

Acho uma coisa muito interessante. Ela se formou quatro anos atrás. E mais dois estudantes da turma dela sumiram esse ano, para surgirem novamente exatamente duas semanas depois, na floresta, com marcas “estranhas” no corpo. Solto uma risada rouca ao ler isso. Vai ser interessante.

Dou uma breve olhada em volta, estudando os outros fregueses do restaurante de beira de estrada onde paramos. Poucas pessoas tomando o café da manhã hoje. Jene está atacando algumas panquecas, e Megan terminando uma omelete. Tomo um gole da xícara de café forte. Eu nem sempre bebo Coca. As vezes café também. Sou meio viciado em cafeína.

— Isso vai ser legal. — Falo para as duas, lendo rapidamente os detalhes dos dois desaparecimentos anteriores. — Alguma de vocês já leu ou assistiu Arquivo X? Em especifico o piloto da série?

As duas erguem a mão, como estudantes em classe de aula respondendo a chamada. Reviro os olhos.

— Arquivo X é material padrão também, você sabe disso Lian. Ajuda a verificar algumas coisas, já que alguns casos aconteceram. Bom, tirando os aliens. — Megan comenta. — O que tem o episódio piloto?

Rio ao ouvir o que ela disse sobre os aliens.

— Porque, bom, está acontecendo agora mesmo. Três pessoas já sumiram, todas tendo estudado na mesma turma da faculdade. E duas voltaram a aparecer, mortas, com essas marcas aqui nas costas. — Mostro para elas as fotos. — E as marcas são exatamente como as do Arquivo X. As características também. Tudo bate com a história.

Megan arregala os olhos e abre ligeiramente a boca, olhando para a tela. Então me olha de relance, como se esperasse que fosse uma pegadinha. Jene apenas balança a cabeça.

— Aliens? Você está brincando, não é? Deve ser um brincalhão muito fã da série.

Dou os ombros tomando o resto do café.

— É uma possibilidade. Podem ser várias coisas. Um brincalhão, um demônio, um humano, um fantasma... Qualquer um desses pode estar recriando as características.

— Hummm... O que vai fazer se for um humano? — Jene pergunta.

— Bom, já que vamos estar com a mão na massa, podemos dar um jeito nisso. Agora, se vamos matá-lo ou entregá-lo para a policia eu ainda não decidi.

Megan acena descontraidamente. Ela sabe que eu provavelmente vou deixar o cara amarrado e desacordado na delegacia com provas o bastante para mandá-lo para uma perpétua.

Desligo o notebook e me levanto. Jene e Megan me seguem. Pagamos a conta e saímos. Tenho uma viagem de alguns dias até chegar na cidade onde estão ocorrendo os desaparecimentos. Vai me dar tempo o bastante para preparar uma história plausível para começar a investigar em nome do FBI. Me pergunto quantas pessoas mais pegaram aquele padrão igual ao Arquivo X. A série fez muito sucesso, e já encontrei pessoas achando que o que eu caço é a mesma coisa que Mulder prende. Existe uma grande diferença entre os dois casos. Primeiro: O meu é real. E nós, Caçadores, lidamos com o sobrenatural. Arquivo X era ficção cientifica, girando bastante em volta de extraterrestres e problemas com o governo.

Tenho quase 100% de certeza que Joe mandou o caso apenas para fazer piada. É bem ao estilo dele. Mas eu não recuso um caso. Detesto a monotonia que se abate entre um caso e outro.

Três dias depois chegamos à cidade. É uma cidade pequena, do tipo todo mundo conhece todo mundo. Nem preciso dizer que só levei metade do tempo necessário para chegar até ela.

Deixo Megan e Jene irem procurar um hotel, e fico na delegacia. Pego um distintivo falso e me preparo para começar a enrolar o delegado.

Abro a porta e entro, espiando para ver se tem alguém ali. Três mesinhas com computadores decrépitos em um espaço apenas um pouco maior que um armário de vassouras. O delegado está sentado em uma delas, dormindo.

— Bom dia? — Cumprimento desconfiado. O delegado leva um susto e quase cai da cadeira. — Você deve ser o delegado Steves? Sou o agente Irvin.

Estico a mão para ele. Steves fica observando-a por cima do bigode farto por um momento, como se não soubesse o que fazer. Então aperta minha mão hesitante.

— Não sabia que o FBI ia aparecer. — Ele murmura, dando uma rápida olhada no distintivo que mostro, e dando outra para a minha pouca idade. Então ele fala em voz normal. — Sobre o que seria?

— Os três desaparecidos da turma cento e sete. — Eu respondo, puxando a cadeira de outra mesinha e me sentando de frente a ele.

Steves pestaneja por um momento, então sua expressão se ilumina.

— Ah, você deve estar falando da Suzzie e dos amigos. — Suzzie, se não me engano, é a desaparecida mais recente. Steves olha para sua mesa, então começa a remexer na bagunça até achar uma pasta de papelão amarelada. Ele abre a pasta e retira dois maços de folhas. Então pega mais duas avulsas, me entregando tudo. — Está tudo aí, tudo que conseguimos juntar.

Passo os olhos por elas rapidamente. Nada que eu já não saiba. A pericia não descobriu como os ferimentos do tamanho de buracos de agulhas foram feitos, pois não acharam nenhum tipo de resíduo ou de marca indicando o instrumento de perfuração. Também não achar toxinas ou qualquer tipo de drogas no organismo das vitimas. Sem causa de morte, aparentemente o coração apenas parou de bater.

— Corrija-me se estiver errado. As duas outras vitimas foram achadas na floresta, de madrugada. Em um dos casos foi um caçador. Em outro, o guarda florestal que gosta de fazer rondas antes do sol nascer por completo. Não descobriram rastros, e mesmo usando cachorros não conseguiram determinar de onde as vitimas vieras. Como se tivessem simplesmente aparecido ali do nada. — Faço uma pausa. — Dois dos desaparecidos sumiram de seus quartos, e Suzzei tinha ido ao banheiro do cinema. Ela não voltou, e ninguém sabe dizer o que aconteceu. E todos eles são da turma cento e sete, estou certo?

— Está. Isso tem causado uma grande confusão. Os outros ex-alunos dessa turma estão ficando apreensivos, com medo de serem os próximos. E não estamos nem perto de descobrir quem está fazendo isso. — Então Steves dá uma risadinha. — A não ser que sejam os alienígenas.

— Vejo que assistia Arquivo X. — Eu comento sem entonação na voz. — Bom, você foi de grande ajuda. Eu assumo de agora em diante. Planejo começar a falar com a família das vitimas amanhã. Agradeceria se você pedisse para a comunidade me ajudar. Normalmente as pessoas ficam pouco a vontade falando com um agente do FBI, e se o delegado local der um Incentivo... Planejo levar quem quer que esteja fazendo isso a justiça, e evitar que ocorra novamente. Não posso deixar de cogitar que podem haver mais vitimas, todas da turma cento e sete.

Steves assente um pouco preocupado. Eu me despeço e saio da delegacia resmungando comigo mesmo. Mando uma mensagem de texto para Megan. Ela me responde dando um endereço. Circulo pela cidade até achar o hotel. Procuro o quarto certo, e faço a batida padrão na porta. Depois de alguns segundos Megan destranca e abre a porta.

— O que conseguiu? — Ela pergunta, se afastando para me deixar entrar.

— Não muito. — Eu respondo, dando-lhe um rápido beijo. — Pouco que já não soubesse. Planejo falar com as famílias das vitimas, mas isso vai ser apenas de praxe. Acho que os corpos vão nos dar mais respostas que as famílias.

Megan assente. Jene aparece, vinda do banheiro, e pergunta:

— O que planeja fazer? Quem faz o que?

Penso por um momento.

— Vamos nos dividir. Cada um entrevista uma família. E depois vamos fazer uma visitinha ao cemitério.

Passamos o resto do dia debatendo as possibilidades e planejando os próximos movimentos. Como não fazemos ideia do que estamos caçando, teremos de ter muito cuidado. Tudo normal.