CRASH – UMA BATIDA A MAIS
3 Capítulo 3
Minha cabeça acordou muito melhor no dia seguinte. Muito melhor do que todos os dias que vivi após o acidente. Sonho? Será que tinha sido um sonho? Como saber? Fui ao banheiro, tomei um ótimo banho… Afinal, o meu dia seria muito longo. Aulas de direção com o tio Chris!
Cheguei na copa e minha família já estava se fartando na mesa.
—Bom dia, minha cantora favorita!-“Cantora? Eu?”-Dormiu bem?
—Bom dia, minha família querida!-ri.
—É, ela dormiu bem! Também com um beijo daqueles!-Mai, minha prima, deu o ar da graça.
—Dulce soube que você arrancou elogios do público na boate!-disse minha avozinha toda fofa.
—Exagero desse povo, vovó! Se eu dirigir tão bem do jeito que vocês falaram que fui no palco, me sentirei realizada!
—Você vai se dar bem!-interrompeu Chris. -Depois do café te levarei até a estrada pra gente dar umas voltinhas.
—Já fico nervosa só em pensar!-me sentei a mesa.
—Relaxa, Dul! Relaxa!
Tio Chris cumpriu o combinado me incentivando a dar umas cinco voltinhas pela estrada. Indo e vindo com direito a manobras e etc.
—Parabéns, Dul! Você está indo muito bem!-ele vibrava de felicidade, me deixando mais confiante.
—É? Eu gostei desse carro! É mais legal que o da auto escola, haha.
—E sabe o que é mais legal?-ele perguntou todo relaxado enquanto eu conduzia o carro.
—Fale!
—Nesse carro eu não posso pisar na embreagem pra você, nem frear! Eu não tenho esses pedais do lado do carona, hahaha -concluiu.
—Haha, verdade!
—Você está dirigindo sozinha, meu amor! Parabéns!
Aquilo me deixou tão segura! Pude entender que o problema não era o carro, eu não tinha fobia, nem pânico. O meu problema era nada mais nada menos que Alexander Uckermann.
—Você quer que eu te deixe em casa ou vai comigo até ao estacionamento?-no prédio em que meu tio mora não tem garagens. Temos que andar uns cinco minutos para guardar o carro no subterrâneo.
—Vou até o estacionamento!
No caminho até o destino, minha mente me pregou uma peça. Resolveu fazer um flash back dos melhores momentos da minha noite anterior. Desde o banheiro até o inesquecível beijo. Meu coração intensificava cada batimento.
-Dulce? Dulce?-despertei!-Aonde anda a sua cabecinha, minha filha?-Tio Chris já estava fora do carro com os braços debruçados na janela ao meu lado. -Já chegamos!-ele disse risonho.
—Nem percebi, haha!-soltei o cinto e saí do carro.
Ao fundo eu ouvia as mesmas batidas da música que estava na minha mente.
—Tio, você tá ouvindo?
—O carro tá fazendo barulho, né?! Também reparei!
—É bateria.-eu disse.
—Como você sabe? Acho que é a descarga!-ele disse abrindo o capo,mexendo no motor.
—Estou falando da música, criatuura!
—A tá! Kkkk.. -Chris deu uma gargalhada engraçada.
As batidas eram reais. Não vinham do meu coração, e sim, do terraço de uma das várias casas que rodeavam o estacionamento.
Fui andando em direção ao som que escutava até Chris me segurar pelo braço.
—Mas, tio, eu…
—É hora do almoço e você sabe que sua avó é rigorosa com isso!-aquilo me deixou aborrecida.
Contrariada, segui o caminho de casa. Chutava todas as pedras que encontrava e, em seguida, tropeçava nas mesmas.
—Tá de pileque, filha?-meu tio se divertia às minhas custas.
Como ele estava de bom humor, resolvi puxar a ficha do meu amado. Afinal, defeito ou não, em cidade pequena todo mundo sabe da vida de todo mundo.
—Tio, você conhece Alfonso Herrera?
Os olhos do meu tio se apertaram e ele mudou de humor.
—O que você quer com ele?-perguntou furioso.
—Foi ele quem me colocou pra tocar na banda ontem!-disse me sentindo vitoriosa.
—Não fique próxima dele! Ele é perigoso!-não reconheci meu tio por alguns instantes.
—Mas eu já fiquei próxima dele. Aliás, eu fiquei com ele ontem!-disse apertando os lábios relembrando o hiper beijo do Poncho.
—O quê? Esse cara é um bandidinho de 5ª! Ou pior, de todos os dias!
—O que ele te fez?- o interroguei.
—A mim? KKKKK…-ele riu ironicamente. -Nada! Ele está metido com drogas, tráfico! Coisa da pesada!-fiquei perplexa com a afirmação de Chris.
—Como você sabe?- o encarei.
—Dulce, é melhor conversarmos depois!-ele disse todo irritadinho, o que me deixava mais nervosa.
—Ok! Tô de olho em você!-Christian teria que me explicar direitinho essa história.
Meu herói era um bandido? Pelo menos, era isso que achavam dele. Poncho não tinha cara de bandido e muito menos de traficante.
Como combinado, depois do almoço o chamei para um bate-papo bem sério.
—Pode ir falando tudo o que você sabe!-ele riu de mim, da minha cara. Se soubesse que pra mim era ele o bandido da história, o ladrão do meu sonho perfeito…
—Poncho fundou a banda há cinco anos. Antes se chamava Herrera’s Beat. Era uma analogia aos atos criminosos dele.-dizia todo confiante. -Depois que Charly e Ucker entraram pra banda..
—Ucker? Alexander Ucker?-o olhei espantada.
—Sim! Você o conhece?
—Ele me dá aulas de direção! Ou melhor, me deixou traumatizada!
—Ele me detesta e deve saber que você é minha sobrinha!
—Que antiético! –‘
—Ele é um anta mesmo!
—Haha… Prossiga!
—Ele é um estúpido, canalha, safado, ridículo..-ri.
—Sei muito bem o quanto é prazeroso xingar o Ucker. Mas o assunto aqui é Poncho!
—Ah, é… Depois que Ucker entrou, a banda passou a se chamar The Heartbeats. Aí, ele virou estrelinha, quis fazer carreira solo, saiu da banda e chegaram Eddy e Guido. Aí, os negócios começaram a bombar!
—Eddy? Não tinha nenhum Eddy lá.-pensei.
—Hm.. Ele é o vocalista que você substituiu.
—Como você sabe que Poncho é traficante?
—Ele não é traficante, ele lida com o tráfico. Já foi até preso em flagrante.
—Caramba, será que é por isso que a banda acabou?-indaguei.
—Poncho deve estar fugindo!
—Você sabe onde ele mora? Eu preciso falar com ele!-disse me levantando do sofá da sala.
—Pirou, menina? Quer brincar com o perigo?-ele me puxou de volta.
—Meu coração diz que Poncho não é culpado, que ele não tem nada a ver com isso!
—Cuidado, Dulce, o coração é enganoso…
—O seu pode ser, mas o meu não é!
Era demais pra mim. “Não é possível que o meu príncipe seja um sapo…”
Fiquei lá mais uma vez pensando nele, no que havia acontecido entre nós e no que meu tio havia me contado. Essa era a pior parte.
Passado algum tempo, a campainha tocou. E como eu era a única acordada em casa, fui ver quem era na porta. O olho mágico me fez relembrar um dos motivos que me fazia sempre voltar aquela cidade.
—Dulce, sua sem vergonha!!!-ela estendeu os braços e veio ao meu encontro.
—Fala, broaca!-a abracei forte, não nos víamos há muito tempo.
—Huahuhashsauh- rimos de nossa recepção.
—Chegou a minha humilde cidade e nem avisou, soube pelo seu primo. E ainda por cima virou cantora famosa!
—Cale a boca, Zô!-tapei a boca dela. Zoraida é a minha amiga de infância. Praticamente crescemos juntas. Era com ela que eu brincava, brigava e a menina sempre foi faladeira! -Você não muda mesmo, hahaha! Como você tá?-apertei sua bochecha.
—Sem idéias, :p!-disse sacudindo os ombros e rindo, se fazendo de tonta. -Vim te chamar pra dar uma volta pela cidade, ver umas lojas, lanchar.. que tal?
—Tô precisando me distrair um pouco mesmo!-apoiei minha cabeça na porta.
—Legal, bebê!-ela enganchou meu braço e fomos.
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