A cidade era tão pequena que a conhecia na palma da minha mão. Os lugares, as pessoas mas mesmo assim não me lembrava de Poncho, de Guido e nem mesmo de “The Heartbeats”. Seria amnésia?!

—Aonde você anda com essa cabeça, meu amor?-Zô dava leves batidinhas em minha testa.

—Estou pensando no Poncho!-falei de forma natural.

—No Poncho?-ela se alegrou.- O gatinho, lindo, deuso, maravilhoso, baterista do The Heartbeats?-ri da reação da menina.

—Nossa, acha isso tudo dele, Zô?

—Uhum.. –ela tinha um brilho diferente no olhar, meio avassalador. -Eu amo aquele homem, ou melhor, aqueles homens. Eu sou hiper fã da banda.. Foi tão chato quando Poncho foi preso mas a sorte é que nem denegriu a imagem da banda.-o brilho sumiu.

—Acho que estou falando com a pessoa certa!-fiz a minha cara de investigadora aparecer. Zô já conhecia esse meu lado. Brincar de “Detetive” comigo era perca de tempo.

—Não estou te entendendo! Quando você faz essa cara… Dulce, fala logo o que você quer!

—Eu quero saber tudo, tudo, tudo sobre o Poncho e a banda!-ela riu mas eu permaneci séria.

—Ok, vamos naquela loja ali e eu te conto!

Lá era uma loja de roupas que tinham aqueles famosos bancos de praça como decoração. Zô pegou um cesto, o encheu de roupas, me puxou pra sentarmos no banco, e em seguida, tiramos uma foto de recordação. Manias da Zô que amo!

-Bom, o nome do Poncho é Alfonso Herrera Rodríguez. Ele tem 28 anos e…

—Não tem cara!-a interrompi e ela riu.

—E tem um filho bem pequeno.

—Tem filho? Ele é casado?-me apavorei pelo possível fato de ele ser comprometido.

—Não, ele é viúvo! A esposa dele morreu em um acidente de carro.

—Acidente de carro? CA-RA-CA!-senti um arrepio na espinha.

—Em um engavetamento e ficou presa nas ferragens. A Allyson era linda, tão jovem, nem viu Felipe crescer.

—Felipe é o filho de Poncho?

—É!!!

—E o resto da banda?

—Temos o Edward, que chamamos de Eddy! Ele era o mais novo da banda, muito gatinho também. Solteirasso… Por sinal, eu já fiquei com ele!

—Zôôô, você não perde tempo, kkkkk!

—Claro que não! Depois vem o Charlie Rey. Ah, Dul..Ele é um fofo, precisa ver os filhinhos dele.. São gêmeos estão com um aninho e pouco! A mulher dele, a Any, é meio arrogante mas nada traumatizante.

—E Guido? Ele tem família também?

—Guido Laris é o bem misterioso!-Zô apertou os olhos. -Tem a mesma idade de Poncho e não nasceu aqui… Ele nunca falou sobre família e nem namorou ninguém! Foi quem incentivou a banda a continuar enquanto Poncho estava preso.

—Interessante!

—Dizem que ele queria roubar o lugar do Poncho mas que coisa mais besta, né?-Zô riu.

—Por que você acha isso?

—Pelo mais óbvio, Dul! Guido é baixista, já Poncho baterista..-me deu um tapa na testa. Ri.

—Hum… E ele só vive da banda? Ele mora aonde?

—Bem eu não seii.. Dizem que… -ela apontou para um canto da loja. -Hey, olha ali Guido e Charlie! Vamos lá falar com eles!-se levantou e mais uma vez me puxou pelo braço. “Que mania mais enjoada.”

—Você os conhece por acaso?-perguntei.

—Claro, né?!

—Oi, meniiinos! Tudo bem contigo?-Zô chegou dando beijinhos nas bochechas deles.

—Zoraida! Que linda você está hoje, kkk -disse Charlie.

—Só hoje? Malvado!-pelo visto eles realmente eram conhecidos.

—Todos os dias mas hoje está mais! Hey, Dulce! Tudo bem com você?

—Tuudo! E com você?

—Beleza!

—Beleza Pura, né?!-disse Guido me examinando de baixo pra cima.

—Tudo bem contigo?*careca*

—Melhor agora!-ele beijou meu rosto de forma demorada. “O que esse atrevido quer de mim?”. Apenas sorri.

—Gente, eu não venho no shopping há séculos. Essa é a vantagem de não ter mais que fazer shows, hahaha

—É, né? Mas do que você vai viver agora? Só trabalha com isso!

—Que nada, gatinha! Sou empresário, haha. Tenho os meus negócios!

Toda vez que aquele careca ria eu sentia arrepios, isso era indiscutível. Ele se aproximava e eu sentia uma força estranha no ar.

—Dulce, me acompanha até a loja do lado? Tenho que fazer um cadastro antes de iniciar as compras!

Era só o que me faltava. Esse cara tinha cheirado? Não queria acompanhá-lo, mas Zô insistiu.

Andei até a entrada mas quando parei ele passou um braço por meu ombro me empurrando até o balcão. “Que bruto!”

Quando chegou, apertou a campainha com uma insistência irritante. Era notável que nenhuma das funcionárias queria atendê-lo, até que uma alma caridosa veio em nossa direção. O nome dela era Alma mesmo, eu li no crachá.

—Boa noite! Bem vindos a nossa loja, o que desejam?-ela tinha uma cara irritada mas quem não faria isso com Guido?

—É o ser estranho quem precisa de atendimento! –ri apontando pra ele que fez uma cara séria. -Não eu!

—Pois não, senhor!

—Eu desejo fazer um cartão!-disse todo convencido.

—Ok! Nome?

—Rodrigo Rodríguez Laris- “Rodrigo?! Até que é um nome bonito. Alguma beleza ele tinha que ter, né?!”

—Sua carteira de identidade e CPF, por favor.

—Não está comigo! Posso apenas falar.-ele lançou um olhar insignificante.

—Desculpe, senhor! Só podemos fazer os cadastros com documentos originais.-ela sorriu mas ele foi um grosso.

—Você não sabe quem eu sou?

—Se o senhor trouxer a sua identidade, saberei!-Alma não tremeu na base e soube usar bem sua resposta.

—Eu estava brincando, gatinha. Que isso, não se estresse! Depois eu volto…-ele saiu batendo o pé. Já eu aplaudi baixinho a Alma.

Ao chegar perto da entrada, mais uma vez, ele puxou o braço em meus ombros.”Ô, mala!”

—Que mulher chata, não?!-“Tem certeza que é ela?”

Andamos mais um pouco, nos aproximamos de Zô e Charlie. O cabeludo estava animado.

—Gente, vamos ao bar?!

—Beber, cair…-Zô começou.

—E se mandar! Vem, Zô!- e eu completei.

—Não liguem pra ela! A Dul é sempre brincalhona mesmo! Mas a gente vai ficar aqui!

—Tudo é por nossa conta!

—Nossa?-Guido deu ênfase.

—Minha conta, ^~!-Charlie meio surpreso, concordou.

A noite toda papo vinha e papo ia. Guido dava goladas como me investia. Aquilo me estressava e nada de Zô querer se mandar. A banda já havia acabado, porque estávamos ali?!

Um momento de silêncio tomou conta da mesa e o mesmo fora quebrado pelas sábias sandices que Guido começou a cuspir. “Vai ser fraco assim na França!”

—Rakso, por que me abandonou? Por que papai? Por quê?-ele falava para o copo.

—Pára de beber, Guido!-Charlie tentou tirar o copo das mãos do careca mas não teve sucesso.

—Ah,Rakso! Você vai me pagar, você vai me pagar! Papaiiiii!-e voltou a chorar. “Que cara fraco pra bebida, aff!”

—Guido é melhor irmos.

—Tá cedo, Tcha Tcha Tcharlie. AHSUSHUHSAH..Um, dois, Tcha Tcha Tcharlie. Um, doiiis.. — o careca brincou com o copo que escorregou na mesa derrubando os outros.

—Chega! Você já bebeu demais, Rodrigo!

—Tcha tcha tcha…HUASHUAHSUAUHSUHAHS -Por que você está tão nervosinho, Tcha Tcha Tcha?

—Ele está altinho mesmo!-ri.

—Vou te levar pra casa, a noite já acabou! Desculpe, meninas!

—A gente vai ficar mais um pouquinho!-Zô já ia levantando mas a puxei.

—Desculpe, mesmo!

—Tchau, minha Dulce!-Guido babou na minha bochecha. “Que nojo!”

—Ok, até mais!

Assistimos de camarote as danças de Guido e Charlie pelo shopping. O bêbado e o equilibrista.

Zô riu e coçou a cabeça.

—Você ouviu o que eu ouvi?

—Tcha tcha tchaaarlie!-rimos.

—Não.. Sobre o Rakso?

—Ah, sim! Quem é o Rakso?-comi uma batata que não havia sido afogada.

—Todo mundo na cidade conhece o Rakso! É o pai do Poncho!

—Mas o Guido disse que era o pai dele… Você não tinha me dito que Guido não tinha família?

—Foi o que pensei mas pelo visto a situação é bem pior. Deve ter sido a bebida!

—Caramba!

—É melhor esquecermos isso.-voltamos a curtir o som que rolava por ali. Pelo menos até Zô olhar o banco em que Guido havia sentado.

—Essa não é a carteira dele? – eu a abri e, de cara, vimos uma identidade. -O que ele faz com o RG de Poncho?

—Não, Dul! Esse é o Guido mesmo. Nossa, como são parecidos! -Zô fiscalizava a identidade de cabo a rabo.

—É…

—Aqui está escrito Rodrigo Laris. Mãe: Marichuy Laris e pai desconhecido.-Zô coçou a cabeça e me olhou como se buscasse resposta. Mas eu apenas tinha mais uma dúvida.

—Sabe de uma coisa que ouvi? Ele disse que o nome dele é Rodrigo Rodríguez… –algo me passou pela cabeça ao relembrar da frieza de Guido. -Não pode ser!

—Esse Rodríguez é Rodríguez de Rakso?-Zô me fazia perguntas que eu não tinha como responder.

—Eu tô pensando numa coisa… Acho que já sei porque Poncho foi preso!-bati na mesa e mais uma vez os copos rolaram.

—Como assim?-mas Zô nem se importou em catá-los.

—Guido é meio irmão de Poncho!-era isso! Só podia ser isso!

—Não fale asneiras, Dul.-Zô fingiu me ignorar mas no fundo ela tinha a mesma suspeita.

—Só tem uma pessoa que pode me ajudar com isso.-disse olhando pra carteira de Guido.

—Eu não vou me meter nessa história podre!-Zô sempre medrosa.

Quando éramos pequenas, não jogávamos bola pra não quebrar vidraças. Não roubávamos goiabas pra não correr do seu Antônio. O velhinho chegava e ela ficava parada sorrindo pra ele, enquanto todo mundo corria.

—Zô, você tinha uma queda pelo seu Antônio?!-ri.

—Ahn?! –ela não me entendeu, como sempre.

—Esquece! -peguei a carteira de Guido e joguei na minha bolsa. -Só quero que essa história podre tenha um final correto. Amanhã vou tirar tudo a limpo!

Cheguei em casa e fiz a coisa que mais gostei de fazer naquele dia. Pensei em Poncho.

Eu me joguei na cama e escrevi em meu caderninho de sandices. Eu ainda o uso muito, ^_^.

“Nossos caminhos se encontraram

Quando eu queria tropeçar

Minha luz havia se apagado

Mas você me ensinou a brilhar

A viver, a amar e reconhecer

Que se vale a pena aprender

A ser feliz!”

—Ponchooo!-suspirei e adormeci.