CINZAS E BRUMAS

3 RELAÇÕES E CONFIANÇA


Oito meses haviam se passado desde a chegada de John a Nádej. Nesse tempo, ele conquistou a confiança dos moradores através do suor. Deixou de ser um estranho para se tornar essencial na construção, na pesca, na caça e na coleta. Mais do que um trabalhador, John construiu um laço inquebrável com Tessia — uma relação que, para os vizinhos, assemelhava-se à de um pai e uma filha.


John ajudava o ancião na reforma de sua casa quando Tessia aproximou-se com seu habitual tom atrevido:


- John, preciso de alguém para buscar lenha. Pare de vadiar e venha me ajudar.


John respondeu com o sarcasmo de sempre:


- Está cega, pirralha? Não vê que estou trabalhando?


O ancião, Hank, interveio com um sorriso:


- Vá, John. Deixe que eu me viro aqui. Precisamos da lenha para comemorar o aniversário de dezessete anos da Tessia amanhã.


John soltou um suspiro de rendição.


- Está bem, Hank. Eu a acompanho.


- Hihi, o pau-mandado do vovô... — debochou Tessia, vitoriosa.


- Quer mesmo viver só até os dezesseis? — John retrucou, visivelmente ranzinza.


Os dois partiram em direção à floresta. Após a ventania da noite anterior, a bruma do oceano havia umedecido a madeira da orla, obrigando-os a avançar mais fundo na mata em busca de galhos secos. Enquanto caminhavam, Tessia quebrou o silêncio:


- Então, John... você está aqui há meses e nunca contou como veio parar neste lugar. Não acha que está na hora?


- Não — ele respondeu, ríspido.


Tessia emburrou-se e virou o rosto, mas a amargura durou pouco. Com um tom de voz mais calmo e pesado, ela insistiu:


- Soldados imperiais mataram meus pais. Eu tinha apenas oito anos quando os executaram na minha frente. Não tínhamos como pagar os impostos daquela estação e, para dar o exemplo, mataram o filho do ancião e sua esposa. Se você veio do Império, John... pode ao menos me dizer por que fazem isso?


Um silêncio ensurdecedor tomou conta da floresta. John sentiu o peso daquelas palavras, mas sua voz saiu carregada de uma dor contida:


- Eu... não posso.


Decepcionada, a garota suspirou.


- Entendo...


Logo em seguida, ela desferiu um tapa forte nas costas dele — um gesto que já era sua marca registrada, mas que desta vez quase o fez perder o fôlego.


- Relaxa — disse ela, tentando disfarçar a tristeza. — Todo mundo tem um motivo para calar algo, não é?


Desta vez, John não aceitou a brincadeira. Ele parou e elevou o tom de voz:


- Já lhe disse para parar com essas criancices! Você já é uma moça e precisa agir como tal. Logo os rapazes começarão a procurá-la e isso é perigoso, além de que...


Enquanto John despejava sua lição de moral, Tessia distraiu-se com um movimento nos arbustos. Pensando ser um dos coelhos que gostava de observar, ela afastou-se silenciosamente, deixando o guerreiro falando sozinho.


Após alguns minutos seguindo o rastro, Tessia perdeu o animal de vista. Quando se virou para retornar ao caminho, deu de cara com um enorme Troll. A criatura a encarava fixamente, exalando um hálito pútrido. Paralisada pelo pânico, ela mal conseguiu balbuciar:


- Isso... não deveria estar aqui...


Quando o monstro ergueu o punho maciço para esmagá-la, Tessia fechou os olhos e gritou com todas as suas forças:


- JOHN!


O impacto veio, mas não contra ela. Com um salto explosivo, John surgiu diante da criatura. Com um único soco esmagador, ele destruiu a mandíbula do Troll e torceu seu pescoço com uma força impossível. O monstro desabou, morto antes mesmo de atingir o chão.


Tessia abriu os olhos e encarou John. Não era mais o "velho acabado" que usava as roupas de seu pai; era algo muito mais assustador e poderoso.


John limpou a mão e,

com um olhar sombrio, sentenciou:


- Vamos conversar, garota.