CINZAS E BRUMAS

4 BECOS E VIELAS


Após a ação fulminante de John, Tessia grita em êxtase:


- Is- Isso foi incrível! Como um humano consegue fazer algo assim? Espera... você é humano? Por acaso é um Orc disfarçado? Ou algum tipo de monstro dos Vales de Sence?


Diante da enxurrada de perguntas, John retruca, elevando o tom:


- Pare de gritar, pirralha! O velho Hank não lhe deu educação?


Após alguns instantes de gritaria de ambos os lados, os ânimos se acalmaram. John soltou um longo suspiro e sentou-se sobre uma raiz exposta.


- Ah... Sente-se, garota. Vou lhe contar o que quer saber.


Tessia hesitou, olhando para o lado.


- Ah, claro... Sentar bem ao lado do cadáver do monstro que você acabou de explodir a cabeça? Muito bem, por que não, né?


- Sente-se logo e não amole — ordenou John.


Quando ela finalmente se acomodou ao lado dele e do monstro abatido, o tom de John mudou. Ele ficou sério, o olhar perdido nas copas das árvores.


- Eu cresci nas redondezas de Rôga, mais especificamente nas favelas que circundam a capital. Não tive pai nem mãe; até onde me lembro, sempre estive sozinho. Aos dez anos, vivia à base de esmolas e de furtar carteiras de desavisados. Um dia, bati a carteira da pessoa errada: um nobre a caminho de uma reunião no palácio. Quando ele percebeu o furto, alertou os guardas. Como eu já era conhecido como um ladrãozinho insignificante, me pegaram em instantes.


John pausou a história para respirar, olhando de relance para Tessia. Ela tinha os olhos marejados.


- Me... me desculpe, John, por ter sido tão dura com você — sussurrou ela.


John, desconfortável com a piedade, bufou:


- Cale-se, sua insolente!


Ele então retomou o fio da história:


- Enfim, estranhamente, eu sempre tive uma força anormal. Nunca me preocupei com o porquê, mas no momento em que um dos guardas me agarrou pelo braço, eu quebrei a mão dele e a armadura junto. Ele entrou em desespero e eu aproveitei para fugir. Quando o Mestre-Cavaleiro soube que uma criança havia estraçalhado o metal de um de seus soldados, o interesse dele despertou profundamente.


John olhou para as próprias mãos antes de continuar:


- Escondi-me nos becos e vielas da região por dias, até que o próprio Mestre apareceu. Eu devia parecer uma fera selvagem diante dele, mas ele apenas me perguntou se eu não estava cansado de roubar e comer sobras. Convidou-me para ser seu aprendiz no exército real. Eu aceitei. Aos onze anos, ingressei como o mais novo recruta. Aos treze, tornei-me escudeiro. Aos dezesseis, fui o cavaleiro mais jovem a ser condecorado no reino.


O silêncio na floresta parecia pesar.


- Aos dezenove, meu mestre morreu. Aos vinte, ascendi ao posto de Mestre-Cavaleiro, o comandante mais jovem de toda Ludí. Servi ao Império naquela posição por doze anos.


Tessia interrompeu, atônita:


- Espera... quer dizer que até um ano atrás, quando chegou em Nádej, você era o líder de todo o exército do país?


John fixou o olhar no horizonte, onde o mar se encontrava com a bruma.


- Não... Eu não ocupava mais esse posto.


Após um breve silêncio, sob uma brisa leve que balançava as copas das árvores, ele revelou a verdade:


- Eu traí o Império.