CINZAS E BRUMAS
5 PASSADO E PECADO
Após a primeira revelação, John continuou sua narrativa, a voz pesada como chumbo:
- Doze anos após eu me tornar Mestre-Cavaleiro, o rei Tyron Rubrê faleceu. Foi vencido pela idade e por doenças degenerativas. Apesar de nunca ter conseguido dobrar os aristocratas e nobres arrogantes, o sonho dele era quebrar as divisões sociais e raciais de Rôga. Mas quem o sucedeu não partilhava desse ideal.
John cerrou os punhos.
- Luces Rubrê, o príncipe, possuía ideais opostos aos do pai. Assim que assumiu o trono, convocou uma reunião comigo e com as demais lideranças. Seu primeiro decreto foi cruel: após a semana de luto, todas as raças não humanas em Ludí seriam obrigadas a pagar impostos triplicados. A ordem para quem não pudesse pagar era a execução imediata. Eu o indaguei, dizendo que, se fizéssemos isso, as outras raças abandonariam Ludí. O príncipe me olhou com desprezo e disse que era exatamente o que queria; ele sempre sentiu repulsa por qualquer sangue que não fosse o nosso.
A lembrança parecia queimar John por dentro.
- Eu disse que o pai dele se envergonharia. Luces abriu um sorriso carregado de malícia e respondeu que mortos não sentem vergonha. Naquele momento, arranquei o manto com o símbolo do Império e o rasguei diante dele. Declarei que não seria o Mestre-Cavaleiro de um genocida. O rei, furioso, ordenou minha prisão por insubordinação. Tive que enfrentar o próprio exército que comandei e, quase ao custo da vida, escapei da capital. Passei dias vagando até chegar a Nádej.
John virou-se para Tessia e, em um gesto de absoluta rendição, ajoelhou-se e encostou a testa no chão úmido da floresta.
- Eu sinto muito, Tessia.
Assustada e confusa, a jovem recuou um passo.
- O quê? Como assim? Sente pelo quê?
- Eu era o comandante do país quando seus pais foram assassinados — confessou ele, a voz embargada pela culpa. — Nunca tive conhecimento daquele ato específico, mas não vou me eximir da responsabilidade. Se o que deseja é tomar minha vida em nome deles, faça-o. Não irei reagir.
Para John, aquele era o seu verdadeiro pecado: ter sido o mestre de um exército que permitia que a corrupção e a crueldade destruíssem vidas inocentes como a de Tessia. O silêncio que se seguiu foi torturante. Ele esperava pelo grito, pelo ódio ou pelo aço. Em vez disso, ouviu a voz de Tessia, curiosa:
- Esse tempo todo... você não conseguiu nem uma namorada?
John levantou a cabeça bruscamente, o rosto confuso.
- O quê?
- É, sabe... uma esposa, filhos — continuou ela, com as mãos na cintura. — Você era o Mestre-Cavaleiro do reino e conseguiu ficar solteiro? Que história sem graça!
- Pirralha maldita! — John esbravejou, a irritação superando o pesar. — Não vê que estou falando sério?
- Ora, eu também estou! Na próxima vez, conte essa história direito. Tenho certeza de que deixou escapar algum romance ou paquera de propósito.
John balbuciou, perdendo o rumo.
- Mas... mas eu acabei de confessar que a culpa da morte dos seus pais é minha!
Tessia mudou o semblante, tornando-o suave e firme.
- Não, John, não é. Você não ergueu a espada contra eles. Não veio nos cobrar o que não devíamos, nem ameaçou nosso vilarejo. Pelo contrário: você chegou aqui e nos pediu apenas água e comida. Trabalhou, construiu laços e me fez rir. Por que eu iria querer sua vida?
John permaneceu em choque, o silêncio agora era de puro assombro.
- Se você quer assumir algum pecado, que sejam os seus, e não os de outros — concluiu ela. — Mas se for redenção o que deseja...
Ela se aproximou e o envolveu em um abraço sincero.
- Eu te perdoo, John.
As mãos do guerreiro tremeram. Ele não conseguiu dizer nada, apenas acenou com a cabeça enquanto sentia o peso de meses de agonia ser aliviado. Tessia, percebendo a emoção dele, afastou-se rapidamente para quebrar o clima.
- Muito bem, chega de melação. Vamos buscar a lenha, senão vai escurecer.
Eles começaram a se levantar, agora com uma compreensão mútua que ia além das palavras. Porém, ao se abaixar para recolher um galho, John parou. No chão, entre as folhas secas, havia um pedaço de linho azul-cobalto — o tecido característico dos batedores de elite do Império.
O estado de alerta de John voltou instantaneamente. O ar pareceu ficar mais pesado.
- Garota, corra. Volte agora para Nádej — ordenou ele, a voz baixa e urgente.
- O quê? Por quê?
- Apenas faça o que eu digo, Tessia! Volte agora! — gritou ele, desesperado.
Assustada pela intensidade de John, ela obedeceu. Começou a correr em direção à vila, gritando por cima do ombro:
- Está bem! Mas você vai terminar de contar sua história direito depois!
Quando John ficou sozinho, ele se levantou lentamente, sentindo a intenção assassina que emanava das sombras das árvores.
- Eu já sentia esse cheiro de sangue no ar... — rosnou ele. — Revele-se, assassino do Império.
Após um breve silêncio, uma risada gélida ecoou entre as copas das árvores.
- Como desejar... Mestre-Cavaleiro.
Fale com o autor