CINZAS E BRUMAS

2 PAZ E SORRISOS


Após o terceiro dia na vila, John encontrou no quarto roupas limpas que lhe serviam. Vestiu-as e deixou a casa do ancião. Pela aldeia, os moradores o observavam com desconfiança e um temor latente. Não demorou para que um deles gritasse à distância:


- Ei, verme imperial! Acha que não reconhecemos sua armadura? Vocês se julgam superiores, mas aqui está você, provando de nossa comida e descansando em nossas camas. Vá embora, canalha!


John, com o olhar vazio e sem esboçar qualquer reação, apenas inclinou a cabeça com pesar. No mesmo instante, uma jovem de aproximadamente dezesseis anos aproximou-se e interpelou o aldeão:


- Pare já com isso! Não vê que é um homem ferido? Tive muito trabalho para enfaixá-lo, sabia?


Houve um lampejo de surpresa no olhar de John. O aldeão, contudo, retrucou:


- Tessia, logo você defendendo essa escória? Já esqueceu que foram eles que mataram seus pais? Não sente vergonha?


A jovem encarou-o com seriedade:

- Eu não esqueci. Mas não foi ele quem os matou.


O homem recuou, resmungando:

- Tss... Crianças...


Após o ocorrido, Tessia virou-se para John e, com um tom provocador, disparou:

- Vamos, velho acabado. Você ainda precisa descansar.


John, irritado de forma quase cômica, rebateu:

- Velho? Pirralha abusada, saiba que tenho apenas trinta e dois anos, escutou? Trinta e dois!


A jovem caiu na risada, e o clima pesado dissipou-se.


- Não precisa se irritar — disse ela, ainda rindo. — Pode ficar com essas roupas, elas lhe caíram bem.


- Por que diz isso? — John perguntou, confuso. — As roupas são suas?


- Meu nome é Tessia, sou neta do ancião — ela se apresentou. — Essas roupas pertenceram ao meu falecido pai.


John estacou, sem jeito.

- Eu... eu não sabia. Peço perdão...


Antes que ele pudesse terminar, Tessia desferiu um tapa amigável em suas costas. John urrou de dor, sentindo os pontos repuxarem.


- Relaxa, grandão — disse ela com uma piscadela. — Como eu disse, serviram bem em você.


- Pirralha maldita... — John resmungou baixinho, contendo a dor.


O ancião aproximou-se, rindo da cena.

- Vejo que já conheceu minha neta. Tessia, trate de cuidar melhor do nosso hóspede.


A jovem bateu uma continência exagerada e inocente para o avô.

- Sim, senhor! Vou cuidar muito bem desta velha carcaça deplorável.


- Só fique longe, por favor... — rebateu John, ainda massageando as costas.


Aquela interação pitoresca parecia prometer dias de paz para o guerreiro.


Enquanto isso, porém, no Reino de Drake, algo que mudaria o destino de Temel estava prestes a eclodir. No salão principal do castelo, o guarda anunciou diante do rei Mahuma III:

- Que entre a prisioneira!


As portas pesadas se abriram. Por elas, passou uma mulher algemada, ladeada por dois guardas armados.

O arauto proclamou:

- Inicia-se agora o julgamento por crime de lesa-pátria contra a princesa Mirabel.


Rei e princesa se encararam friamente. Era o prenúncio de um inverno de cinzas.