CINZAS E BRUMAS
53 INSETOS E FERVOR
No posto avançado de Zelena, o General Ron está sentado, esperando pacientemente a chegada da princesa. Ao seu lado, repousa uma pilha de corpos dos soldados vilinianos que guardavam o posto. De dentro de suas casas, os moradores observam com extremo temor o impiedoso general, que permanece estático como uma estátua desde que massacrou a força militar do local.
De repente, a porta de uma das casas se abre com violência. Um jovem garoto sai em disparada com uma faca de cozinha na mão, correndo direto na direção de Ron. Com lágrimas escorrendo pelo rosto, ele grita a plenos pulmões:
— Morra, seu monstro! Eu vou vingar o meu irmão, assassino!
O menino avança e crava a lâmina no rosto do general, mas o ataque simplesmente não fere o draco. O baque seco se assemelha a um graveto batendo contra uma montanha de pura rocha; não surte efeito algum. A lâmina sequer arranha a pele dele.
O olhar de Ron continua fixo em direção à floresta. Nem por um único milissegundo ele altera a sua postura. O garoto, frustrado e desesperado por ser ignorado pelo homem que destruiu sua família, grita com a voz embargada de amargura:
— P-por que você fez isso, droga?! Meu irmão... ele era um bom soldado! Ele apenas estava trabalhando aqui quando você o matou! Você não sente nada, monstro infeliz?!
O draco move os olhos lentamente, desviando o olhar por um instante para encarar o garoto. Então, com uma voz monótona e desprovida do menor traço de culpa ou empatia, ele pergunta:
— Garoto, você sente algo quando pisa em insetos no chão?
O menino congela no lugar. Seus braços perdem a força e ele gagueja, engolindo em seco:
— Ins-insetos...?
Ron continua, com a mesma apatia mortal:
— Sim, insetos. Imagino que a sua resposta seja não. Pois bem, eu compartilho exatamente desse mesmo sentimento. Não importa se eu mato dez ou mil de vocês, seria como se eu estivesse apenas pisando em pequenos insetos no meu caminho. Eu simplesmente não me importo, entende?
Após a resposta cruel e decisiva do general, o garoto cai sentado para trás no chão de terra. Com as pernas tremendo sem parar e o corpo banhado em suor frio, a mente dele registra apenas uma coisa: terror puro.
Nesse momento, uma mulher sai da casa aos tropeços, desesperada, procurando a criança. Ao vê-lo diante do monstro, ela corre, agarra o menino com força e diz, com o rosto encharcado de lágrimas:
— Meu filho, por que você saiu de casa?! Venha agora, vamos voltar!
Ao se levantarem apressadamente para fugir do local, o draco intervém. Sua voz gélida corta o ar:
— Existe apenas uma situação onde se mata insetos por vontade própria, garoto.
A mãe e o filho congelam, paralisados pelo medo instintivo. Ao olharem para trás por cima do ombro, veem um sorriso sádico e desumano estampado no rosto do general. Ele conclui:
— Essa situação é quando um inseto te ferroa. E você, garoto... você me ferroou.
O ar estala com um movimento rápido demais para os olhos acompanharem. Mãe e filho, que há um segundo viam um homem aterrorizante à sua frente, agora veem apenas um céu nublado girando. Seus corpos caem na terra com um baque surdo. O garoto não sente mais temor. Ele não sente mais nada.
O General Ron volta à sua postura impecável de vigia, como se nada tivesse acontecido, e murmura para si mesmo:
— Ahh, tenho que parar de matar esses vermes. Senão, não terei como negociar a posse da princesa. Dei dois dias para eles. Como já se passou um, vou esperar só mais um pouco.
Enquanto isso, em Kidma, John usa uma das imensas salas de treinamento do palácio para testar sua afinidade com a espada Rezarti. Cada movimento rasga o ar com uma explosão de energia e um zumbido estridente. O cavaleiro sente o peso perfeito, o equilíbrio e o refino formidável da arma a cada golpe desferido.
Ele escuta alguém bater à pesada porta de madeira e pede para entrar. É Lórien. Surpreso, o guerreiro para o treinamento, apoia a espada no ombro e fala:
— Oho! Para apenas um dia de descanso, você parece estar muito melhor, Príncipe Lórien.
O elfo entra na sala cruzando os braços, com uma postura mais ereta:
— Honestamente, não estou completamente recuperado, Senhor Dickson. Mas, ao menos, já posso andar sem fazer um grande esforço.
Ele olha fixamente para a lâmina que pertenceu ao seu pai e pergunta a John:
— O que acha dela? Meu pai era incomparável quando segurava um leid, mas nunca foi um grande fã da arte da esgrima.
John empunha a Rezarti com as duas mãos, admirando o brilho azulado do Aetherium na lâmina, e diz:
— É realmente algo incrível, Príncipe Lórien. Eu nunca empunhei algo de tão alta qualidade na vida. Se o seu pai tivesse a aptidão para usá-la, tenho certeza de que seria um guerreiro lendário na arte da espada.
Lórien, visivelmente contente com o elogio à memória do Rei Aran, fala com um pequeno sorriso no rosto:
— Hum, entendo... Agradeço pelas palavras gentis, Senhor Dickson.
John abaixa a espada, o interrompe amigavelmente e diz:
— Por favor, não precisamos mais dessas formalidades. Me chame apenas de John.
Surpreso e satisfeito com a quebra de barreira, o elfo retribui:
— Muito bem, John. Então, tire a parte do "príncipe" também. Me chame apenas de Lórien.
Ambos se olham, sentindo que o respeito mútuo se solidificou definitivamente. Então, John pergunta, focado na missão:
— Pois bem, Lórien. Você disse que seria bom eu me acostumar com a Rezarti antes de ir ao campo de batalha, mas como chegaremos a tempo? A carruagem de Mirabel já partiu há um dia. Eles já devem estar na metade do caminho para Zelena.
O elfo responde com uma calma estratégica e confiante:
— Não se preocupe. Temos como compensar a diferença de tempo e de distância. Apenas esteja certo de que está preparado para o que está por vir.
Lórien fecha a feição. Com o tom de voz grave e carregado de advertência, ele continua:
— O General Ron é um dos Cinco Dracônicos de Mahuma. Provavelmente, o ápice da força militar bruta de Drake. John... eu agradeço profundamente por estar disposto a fazer isso, mas não quero ser o responsável por sua morte. Tem certeza absoluta de que deseja continuar?
O cavaleiro olha para a Rezarti em sua mão direita e depois fecha o punho esquerdo com força. Com a voz inabalável, ele declara:
— Eu conheço o General Ron. Sei muito bem de seu prestígio militar e de suas capacidades destrutivas. Eu quero salvar a Senhorita Mirabel e provar ser digno de te pedir aquele grande favor... Mas não vou mentir: o meu sangue ferve só de pensar em enfrentar alguém assim. Não se preocupe, Lórien. Se eu não conseguir derrotar um general de Drake agora, nunca serei capaz de alcançar o meu objetivo final. É apenas isso.
Sem ter mais o que questionar diante de tamanha determinação e sede de batalha, o elfo acena com a cabeça e diz:
— Muito bem. Vamos, então. Está na hora.
No quarto ao lado, Sike folheia concentrado o antigo livro que pegou no arsenal de Keldrin.
No meio do trajeto pela floresta, Mirabel aguarda o seu cruel destino enquanto é transportada por sua escolta pesada.
E, nas ruínas de Zelena, o General Ron continua esperando, implacável e pacientemente, a decisão final da Rainha List.
Todas as peças já estão posicionadas no tabuleiro, prestes a colidir em um encontro fatídico que fará a terra tremer.
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