CINZAS E BRUMAS

52 ARMADO E INQUEBRÁVEL


No cárcere, dois guardas aparecem para levar Mirabel. Eles a escoltam para fora do calabouço escuro até os grandes portões do palácio. Lá, a Rainha List os aguarda. Ela ordena que os soldados parem e as deixem conversar a sós. A rainha se aproxima da princesa draco e diz com uma voz grave:


​— Mirabel de Drake, recebemos uma notícia que definirá o seu destino. Um general da sua nação atacou, matou e fez de refém os civis de uma vila nossa, usada como posto avançado de suprimentos e informações.


​A princesa arregala os olhos. Com a culpa transbordando na voz, ela diz:


​— O quê?! Como assim?!


​A rainha continua, implacável:


​— Porém, ele fez uma proposta de acordo. A vida dos meus cidadãos em troca da princesa do reino dele.


​Mirabel fica atônita. Com a voz baixa e trêmula, ela murmura:


​— Então é por isso...? Mais uma vez, é tudo por minha causa...? Mais mortes e feridos apenas por eu ser quem eu sou?


​A matriarca List conclui secamente:


​— Por essa razão, Mirabel de Drake, nós faremos a troca.


​Após a dura afirmação, a rainha abaixa o tom. Com a voz subitamente pesada e exausta, ela confessa:


​— Eu... não duvido que você realmente tenha ajudado Lórien. Mas não posso colocar mais do meu povo em risco. Me desculpe, garota. A única coisa que posso lhe oferecer agora é uma viagem segura até Zelena para ser entregue ao seu país...


​Mirabel, contrariando todas as expectativas, abre um sorriso gentil para a rainha. Com a voz livre de qualquer rancor, ela responde:


​— Eu entendo, senhora. Como realeza em meu próprio reino, eu também não suportaria ver o meu povo sofrer quando tenho a possibilidade de poupá-los. Está tudo bem. Além do mais, graças ao Príncipe Lórien, eu realizei o meu maior desejo: vi a Cidadela, andei por ela, senti o Tok no ar... e já estou muito satisfeita com isso. Se a senhora quiser retribuir o que fiz ao príncipe, apenas devolva o cargo de General a ele. Esse é o meu único pedido.


​A rainha não demonstra nenhuma mudança em sua feição fria, mas as palavras de Mirabel transpassam o seu peito como uma lâmina quente. Onde antes não havia nenhuma empatia pela jovem draco, agora repousa um pesar gigantesco. List acena com a cabeça para os guardas continuarem escoltando a princesa até a carruagem de transporte. Enquanto observa a garota ser levada em direção à morte, a rainha, completamente sozinha, pensa:


​O que você faria no meu lugar, Aran...?


​Do outro lado do palácio, Keldrin guia John e Sike pelos imensos corredores. O mago, curioso, pergunta:


​— Aah... Senhor Keldrin, aonde vamos exatamente?


​O jovem príncipe responde sem parar de andar:


​— Lórien não iria parar de me encher o saco se eu me negasse a ajudar vocês nesse plano suicida. Então, ao menos vou dar uma força com algumas coisinhas que tenho guardadas.


​O grupo para em frente a uma imponente porta de metal maciço. Keldrin estufa o peito e diz:


​— Sintam-se lisonjeados, humanos! Estão prestes a ver o meu arsenal pessoal!


​O elfo destranca a grande porta, revelando uma sala colossal abarrotada de armas e armaduras élficas do mais alto calão — um arsenal militar completo e brilhante.


​Sike, com os olhos cintilando de ganância, fala animado:


​— Hoooohohoo! Que absurdo! Quanta grana não tem aqui?! Isso tudo daria pra pagar todos os meses de aluguel atrasado do bar da Eudora!


​John, genuinamente surpreso com a coleção militar do príncipe, fala enquanto observa as peças de perto:


​— Isso tudo... é realmente impressionante.


​Keldrin, com o nariz empinado, diz:


​— É, não é?! Vocês podem ser simples humanos, mas até que têm bom gosto!


​Ele se vira para os dois e continua:


​— Bom, vamos lá! Podem escolher! Se vocês vão marchar para a morte por conta própria, vou lhes dar ao menos a chance de fazer isso com estilo!


​Sike se irrita com o príncipe e resmunga:


​— Para de tacar praga nos outros, ô orelhudo!


​John começa a caminhar pela sala, analisando cada arma que vê com o olhar clínico de um veterano. Keldrin percebe o cavaleiro indeciso e provoca:


​— Gostou de alguma, senhor ex-mais-forte do Império?


​O cavaleiro responde com a mão no queixo, pensativo:


​— É que... o meu maior problema com armas sempre foi a durabilidade. Infelizmente, até hoje eu nunca achei uma que aguentasse um golpe meu completamente carregado. Isso sempre me fez recorrer aos próprios punhos nas situações mais extremas. Você teria alguma coisa aí que não quebre no primeiro impacto?


​As veias saltam na testa de Keldrin. Visivelmente ofendido, ele esbraveja:


​— Você tá me dizendo que, só de olhar para a minha coleção intocável, pode afirmar que essas armas vão quebrar se você usar? É isso mesmo?!


​John, com sua típica honestidade monótona e inocente, responde:


​— É, é isso aí.


​O jovem príncipe grita, vermelho de raiva:


​— Seu velho arrombado! Tá tirando uma com a minha cara, é?!


​Bufando de ódio, Keldrin vira as costas e marcha pisando duro em direção aos fundos da sala. O cavaleiro, sem entender a fúria repentina do elfo, vira-se para Sike e pergunta:


​— Eu falei alguma coisa de errado?


​Sike dá um tapa na própria testa e responde:


​— Você já é todo errado, cara...


​Logo em seguida, Keldrin volta carregando algo comprido enrolado em um pano escuro. Ele joga o pacote nas mãos de John e desafia:


​— Pegue e veja com seus próprios olhos, senhor fodão! Acha que consegue quebrar essa lâmina?!


​John segura a arma e desenrola o pano grosso. Ao revelar a lâmina, seus olhos brilham instantaneamente. Ele fica perplexo e diz:


​— Essa... lâmina... Ela é completamente diferente de tudo o que eu já segurei na vida.


​O jovem príncipe sorri de forma presunçosa e explica:


​— Logicamente, pois isso não é uma simples lâmina! Essa espada foi forjada como um presente diplomático para o próprio Rei Aran! Uma demonstração de paz da nação dos anões para nós. Feita por um mestre ferreiro anão, essa espada possui fragmentos puros de Aetherium em sua composição. É algo que não se acha em nenhum outro lugar do mundo, ela é única! Como meu pai não se dava bem com espadas, ele aceitou o presente, mas nunca a usou de fato. Tenta quebrar essa aí, John Dickson!


​O cavaleiro ergue a espada majestosa e pergunta, sentindo o equilíbrio perfeito do aço:


​— Ela... possui um nome?


​Keldrin responde com um sorriso de canto:


​— O nome dela... é Rezarti!


​John sorri, profundamente satisfeito:


​— Muito bem...


​Em um piscar de olhos, ele desce a lâmina em uma velocidade absurda, parando o corte a milímetros do chão. O movimento é tão rápido e brutal que ergue um vendaval dentro da sala, cortando o ar com um zumbido estridente. Ele estabiliza a postura e conclui:


​— Rezarti. Por ora, vai servir perfeitamente.


​Ainda em choque com a pressão do vento gerada pelo mero balançar da espada, Keldrin engole em seco e pergunta a Sike:


​— E você, mago? Não vai pegar nada?


​Sike dá de ombros e responde:


​— Não, eu geralmente luto apenas com a minha própria mana mesmo.


​O príncipe aponta irritado para a porta:


​— Hum, muito bem! Saiam do meu arsenal, então!


​Enquanto o grupo caminha para a saída, Sike passa ao lado de uma velha caixa de madeira e vê um livro grosso jogado no meio dela. Movido pela curiosidade, ele o pega e folheia por alguns segundos. Ele pergunta, surpreso, para o príncipe:


​— Keldrin, o que esse livro está fazendo aqui jogado?


​O elfo responde com desinteresse:


​— Isso? Estava nas tralhas velhas do meu pai. Diz alguma coisa sobre luz e não sei mais o quê. Nunca li.


​Sike coloca o livro debaixo do braço:


​— Eu vou levar isso no lugar de alguma arma, tudo bem?


​O príncipe concorda com um aceno, e todos saem da sala rumo aos preparativos finais.


​Faltam apenas dois dias para o prazo de entrega da princesa acabar.