C.A.S.U. [Em Revisão]
11 Segunda voz: Mergulho no passado - Parte IV
Notas iniciais
4º ato – Determinação / As decisões que apontam novos rumos
“Pensar em você é como uma névoa de calor.
Sem conseguir dizer, eu fico a deriva
De repente percebo que estava aqui
Com um sentimento que não estou preparada para abraçar.”
Afastar-me era o que mais desejava e depois do último equívoco, que levou embora o resto da minha coragem, finalmente consegui. Então porque não me fazia o bem que imaginava?
Eu tentava não pensar nele e conseguia enquanto me concentrava nisso, porém ao menor descuido, os pensamentos escorregavam por meu controle e tomavam conta da minha cabeça. Imaginava o que estaria fazendo, se sentia minha falta e se um dia a pouca convivência que tivemos passaria disso.
Algumas vezes, a gente se esbarrava, quase sempre por culpa de Shisui, que não agia como uma pessoa normal e me ignorava nas ruas, o que obrigava Itachi a, pelo menos, acenar com a cabeça num cumprimento dado puramente por educação. Eram péssimos momentos que me faziam reviver aqueles que tínhamos sozinhos, cheios de nada, olhares incompreensíveis e conversas que não existiam.
Havia dias em que minhas tristezas se misturavam, tornando impossível fingir que poderia engoli-las. Num desses, eu me embrenhei pela floresta de Konoha até chegar aos limites da vila e, depois de pensar nas consequências, ignorei o aviso que havia recebido.
Hiro me derrubou com facilidade, estava absurdamente mais pesado e maior, encheu-me de baba e emitiu ganidos sofridos antes de lamuriar:
— Eu sabia que você não ia obedecer ao papai por muito tempo, mas você demorou muito! — falou batendo as patas dianteiras no chão como se ele fosse uma almofada e sacudindo a cauda de um lado para outro. — Um ano, cinco meses e vinte e sete dias! Faz isso tudo que não nos vemos! — disse deixando a agitação de lado somente após bons minutos de carinho na orelha.
Sentamos na grama e observamos a natureza da mesma forma que fazíamos antigamente. Contei sobre minha vida nos últimos meses, os sentimentos e as angústias, os desafios e a saudade que nunca passava. Nós relembramos a vez que ele tentou me ensinar a caçar, as disputas de salto na cachoeira, as viagens e as picuinhas entre nossos pais, que Haiiro quase sempre começava, mas papai as alimentava como se discutir com o velho lobo fosse uma de suas diversões preferidas. Foram horas de nostalgia que me fizeram sorrir, porém machucaram na mesma proporção.
— Kaoru. — Ele sussurrou com seriedade. — A oeste, cerca de quinze metros de distância, alguém está nos vigiando. O cheiro está misturado ao das árvores, a pessoa deve estar em uma delas.
— Como é o cheiro?
— Suave, mas tem um traço forte ao fundo. — Virou a cabeça deixando a boca próxima ao meu ouvido. — Vou levantar e me sacudir, você vai aproveitar e atacar.
Ele se ergueu devagar, contou até dois e sacudiu o corpo. Por cima de seu pelo atirei todas as kunais e shurikens que carregava comigo fazendo com que se espalhassem o máximo possível. Tive a impressão de ver uma sombra se dissolver um pouco antes de Hiro correr em direção ao local e encontrar apenas as armas fincadas nos troncos.
— Eu deveria ter sido mais rápida — murmurei enquanto verificava se havia algum vestígio.
— O cheiro dele se espalhou em várias direções... — Hiro disse pensativo farejando o rastro deixado. — Não gosto disso, pode ser uma pessoa perigosa.
— Quando o percebeu?
— Há uns dez minutos. Pensei que fosse só alguém passando, mas depois senti que não havia se movido e achei estranho... — falou ainda tentando descobrir o rumo que o espião tinha tomado e anunciou numa autoridade que achei melhor não contestar. — Vou levar você para casa.
Chegar trouxe a pior parte do dia: a despedida. Nós não sabíamos como dizer “até logo” ou coisa parecida, qualquer palavra significava algo que não queríamos. Foram vários ensaios e abraços, acenos e passos que se distanciaram para depois voltarem ao mesmo ponto e repetir o ciclo.
Sem a esperada repreensão de Haiiro, encontrar-me Hiro deixou de ser algo proibido. No começo estranhei não receber uma bronca de doer os ouvidos nem um balde de palavras geladas sobre minha imaturidade e atrevimento, também desconfiei de meu amigo não ter ouvido um sermão ou advertência para me ignorar caso o chamasse novamente, mas logo deixei de pensar nisso e concluí que provavelmente o humor do velho tinha melhorado.
Estávamos no auge do verão de Konoha quando Minato, no final de seu terceiro sorvete de morango, comentou sobre a data do Chuunin Shiken. A frase num tom descontraído caiu no meu colo do mesmo modo que as gotas roxas sujaram de uva minha yukata azul e, diante da falha tentativa de evitar um estrago maior, formaram um círculo desigual que lembrava um polvo.
— Não precisa ficar nervosa. Você pode fazer o exame ano que vem. — Kushina disse suavemente, estendendo um pano para mim.
— Quero fazer esse — respondi baixo. — O outro vai demorar muito tempo. Não quero me graduar velha.
— Não seja boba, Kaoru. Não há idade para isso. — Ela rebateu no mesmo tom de antes.
— Mas, é o que eu sinto. Tem que ser esse.
Kushina me encarou por um momento que durou até Minato interromper.
— Se é assim, participe, mas não esqueça que deve se esforçar por seu objetivo tanto quanto o deseja.
Faltavam meses e muitos detalhes a serem acertados, porém isto não importava, precisava passar naquele exame de qualquer jeito.
Eu treinei até perceber que minha evolução havia chegado a uma linha que não conseguia ultrapassar. Não enxergava a falha que me impedia de alcançar um novo patamar como se estivesse cega para ela, por isso ignorei os caprichos do orgulho, que salivava para me fazer refém, e busquei ajuda.
Pouco me lembrava do distrito além dos símbolos em todo o canto, porém assim que pisei nele, as recordações invadiram minha mente com imagens vivas e precisas. O único problema era que eu estava à procura do que não sabia a direção certa para encontrar e desta vez não podia contar com o mapa de Kushina. Sem opções, perambulei à caça de um Uchiha simpático que pudesse me ajudar, como se esta tarefa fosse mais fácil do que encontrar meu destino sem pistas.
Quinze minutos andando me renderam tédio e a certeza de que aquele clã era o mais mal-humorado de Konoha. Alguns passos depois, vi uma senhora varrendo a entrada de um estabelecimento e lembrei que papai sempre dizia que eu encantava os idosos. Resolvi testar a sorte esperando que aquela frase não fosse uma piada dele.
— Ah... Boa tarde — falei, torcendo por uma resposta amigável.
Ela me olhou surpresa, parando o que fazia.
— Você é a menina do clã Uzumaki que vive com a família do Hokage, né? O cabelo se parece muito com o da Kushina.
Assenti sem me importar com a comparação, já havia me acostumado com ela.
— A senhora sabe onde o Shisui mora?
— Sim... — deixou no ar, desviando os olhos como se tivesse visto algo importante. — Oh, a prima dele está ali! Ela pode levá-la — falou sem me dar chance de retrucar e gritou acenando. — Akane!
A garota atendeu prontamente, e logo fui empurrada para ela sem conseguir dar um pio.
— Essa mocinha está procurando a casa do seu primo, leve-a até lá para mim, certo?
— Sim, Uruchi-san — respondeu educadamente enquanto me esquadrinhava.
Akane possuía uma expressão serena que escondia algo como uma sombra, cabelo castanho avelã que brilhava ao sol como fios de cobre e uma voz tão linda que dava vontade de ouvir qualquer palavra que dissesse.
— Shisui não me disse que tinha uma prima... — soltei inocentemente. Estava curiosa quanto a ela.
— Ele também não me disse que vocês eram amigos — rebateu num tom estranho.
— Nós não somos — respondi, arrependendo-me em seguida.
— Se não, qual o motivo para ir a casa dele?
Por um momento, analisei se uma resposta pioraria a situação e sem certeza resolvi dá-la.
— Pedir um favor.
Percebi o rosto de Akane relaxar um pouco e seu caminhar se tornar mais suave e rápido. Quando dei por mim ela abriu a porta de uma casa e anunciou sua chegada.
— Tio, estou entrando! Trouxe visita!
Um homem de cabelos espetados surgiu e pousou os olhos em Akane rapidamente, antes de olhar para mim.
— Ela não sabia o caminho até aqui, e Uruchi-san pediu que eu a trouxesse. Onde está Shisui?
— No quarto.
— Vou falar com ele. — Akane respondeu sumindo no interior da residência.
Eu permaneci na entrada observando a movimentação e tentando me situar no meio dela.
— Kaoru-chan, gosta de chá de hortelã?
Ouvir meu nome, seguido daquele sufixo, partir da boca de outra pessoa que não Minato e Kushina era absurdamente estranho, e eu só impedi meu rosto de expressar isso porque aquele homem emanava uma gentileza tão grande que só de pensar em ser grosseira com ele, já me sentia alguém horrível.
— Kagami — disse ao me entregar a xícara. — Não ia perguntar meu nome? — Repuxou o lábio num sorriso singelo e lindo. — Sinta-se à vontade. Akane não vai demorar com Shisui sabendo que você está aqui.
Como um bom anfitrião, Kagami não permitiu que minha primeira visita se tornasse uma lembrança desconfortável e me guiou por uma conversa tranquila na qual pouco falei, porém ouvi com fascínio. Sua mansidão impregnava sua voz e fazia dela uma melodia que suavizava o ambiente, misturando-se ao ar e se dissipando através dele, capaz de alcançar e abraçar tudo ao redor.
Envolvida por ela, mal percebi que Akane havia saído e Shisui esperava em pé com uma xícara na mão.
— Há quanto tempo está aí?! — questionei assustada.
— Tempo suficiente para ver você viajar na conversa do meu pai. Estava bastante interessada, nem piscava.
— Cala a boca, idiota! — Tapei a minha imediatamente e fitei Kagami de soslaio.
— Meu filho é muito brincalhão, sei que às vezes isso pode ser irritante. Vou deixá-la sozinha com ele, mas só se me prometer que o deixará inteiro — disse piscando um olho, levando consigo a porcelana e a calidez de sua presença.
— Por favor, você pode parar de olhar para o meu pai com essa cara de boba. Estou ficando constrangido. — Shisui disparou. — Diga, o que quer de mim?
— Preciso de ajuda — comecei, analisando seu semblante. — Estou treinando para o Chuunin Shiken, mas estacionei em meu progresso e mesmo me esforçando não consigo descobrir o que faço de errado. Sei que a visão de quem está fora de uma situação é diferente da visão de quem está dentro dela, por isso pensei que talvez você enxergasse... — expliquei, percebendo ele assentir levemente. — Só preciso de um dia seu.
— Concordo com o que disse, mas poderia pedir ao seu professor. Ou ao Minato, vocês moram juntos e, bem, ele é o Yondaime.
— Meu professor tem seu aluno preferido, já o Minato, você mesmo disse: ele é o Yondaime. Está ocupado com um monte de coisas e... eu tenho vergonha dele — admiti num sussurro.
— De mim, não?
— Você sempre se intromete na minha vida, por que eu teria? — rebati esquecendo que minha posição não combinava com altivez. — Podem ser só algumas horas... Não vou perturbá-lo depois disso.
Ele apoiou o rosto sobre a mão direita e me encarou com uma expressão pensativa. Sustentei o olhar tentando descobrir minha resposta e percebi o quão difícil era vislumbrá-la naquele negro oceano pacífico. Finalmente, Shisui piscou vagarosamente e pronunciou:
— Sim.
Não estava acostumada a ficar sozinha com ele tanto tempo, ainda mais sabendo que seria analisada. Shisui chegou a sugerir que observaria de olhos fechados caso me sentisse muito desconfortável, e eu tratei de empurrar o incômodo para o esquecimento a fim de evitar as ironias e poupar seu tempo.
O dia se desenrolou em outros formando uma quinzena que, entrecortada por nossas missões e afazeres, desaguou em meses igualmente divertidos e exaustivos.
Shisui era um professor rígido que extraía de mim o máximo de dedicação e concentração, aliás, esta era sua reclamação principal. Ele repetia incansavelmente que eu não deveria deixar as emoções me tirarem o foco da luta e, mesmo diante da pior perspectiva, deveria manter o equilíbrio. Também me chamou atenção quanto ao fato do nervosismo prejudicar meu controle de chakra e atrapalhar minhas decisões. Ressaltou minha ansiedade como um ponto fraco que precisava ser eliminado, motivo que me levou a tardes de meditação nos mais diversos ambientes com interrupções que testavam minha capacidade de permanecer tranquila e ser alvo de ataques repentinos, que muitas vezes pensei servirem somente como tentativas de me provocar um infarto. Isto não era tão ruim quanto ser pressionada a tirar uma estratégia dos bolsos no meio das lutas. Eu mal conseguia escapar dos golpes, entretanto precisava espremer meu cérebro a fim de obter uma gota que me ajudasse a contra-atacá-lo e logo “pausa”, “intervalo” ou qualquer outra palavra com significado parecido se tornaram minhas preferidas.
— Não vai reclamar hoje?
— Desisti — respondi me jogando na grama, apreciando a sombra da árvore e mentalmente agradecendo por ela. — Não adianta. Prefiro economizar minha saliva porque sei que fará falta depois.
O vento soprou alguns graus mais frios provocando um desagradável arrepio ao se chocar contra minha pele suada e trouxe uma folha que grudou em minha testa como se não houvesse lugar melhor para ficar. Mexi a mão para tirá-la, mas o cansaço murmurou um “deixa para lá” que parecia ser a voz da verdade, e eu o obedeci como uma boa menina.
— Estou me sentindo culpado, olhando para você assim... — Shisui pronunciou dramático e soltou um suspiro. — Ainda bem que já passou!
Encarei aquele idiota por alguns segundos, desistindo de falar e até mesmo pensar numa resposta.
Os silêncios não eram incômodos com Shisui. Porque não eram aqueles silêncios que gritavam a falta de algo, e sim os que indicavam um descanso entre uma conversa e a seguinte. E ela sempre vinha. Às vezes, séria, outras cheia de bobagens infantis ou começando sem motivo e terminando sem sentido.
— Shisui... por que me ajudou naquela vez?... Você não me conhecia, não tinha obrigação...
— Quando vi aquela criatura de cabelo vermelho e cara de bocó perdida no meio do distrito Uchiha sem ter a mínima noção de onde estava se metendo, fiz o que passou pela cabeça.
— Hum... Foi por pena... — murmurei para mim mesma.
— Pena é uma palavra cruel que as pessoas usam para distorcer o significado de compaixão — replicou serenamente. — Mas simpatia é uma coisa inexplicável... Eu até hoje não sei o motivo de ter simpatizado com uma pessoa chata como você. Realmente é um mistério — finalizou fingindo pensar no assunto.
— Juro que se a vontade de me mexer não fosse igual a zero, eu lhe daria um soco...
— Você realmente está acabada! Além de não tentar me acertar ainda perdeu a batalha contra a folha — replicou retirando-a.
— Serei eternamente grata por este gesto de bondade, senhor. Serei ainda mais se disser que amanhã não nos veremos... Por favor, Shisui, eu tenho que viver.
— Já pensou em desistir de ser ninja e se tornar atriz? Eu assistiria a um filme seu, na primeira fila. — Encarou-me esperando uma resposta mal-criada, entretanto recebeu minha expressão fingida de sofrimento. — Como queira, rainha do drama.
— Você é uma boa pessoa, nunca me esquecerei disso... — devolvi com a voz arrastada, aninhando-me nos braços confortáveis do sono.
A noite que antecedeu a etapa final do Chuunin Shiken foi de ansiedade. Perdi a conta de quantas vezes acordei antes de desistir de dormir. Enfiei minha cabeça embaixo d`água esperando acalmá-la, mas meu estômago se revirou num enjoo chato e pegajoso demonstrando que meu corpo inteiro havia tirado o dia para me sabotar.
Kushina preparou um desjejum especial que eu teria deixado intacto se ela não tivesse me obrigado a comer. Senti-me com quatro anos rejeitando goya, sentada em frente a minha mãe com a promessa de que eu não sairia do lugar até engolir metade daquela coisa horrorosa.
Ouvi tantos conselhos e “boa sorte” quanto possível, até cansar e partir de uma vez para o lugar onde o exame seria realizado. Um bocado de gente na rua me cumprimentou e disse coisas que, por prestar atenção em praticamente nada, saí distribuindo “obrigadas”.
Os adversários e a ordem das lutas foram decididos através de sorteio. A minha seria a quarta a acontecer e embora não quisesse ser a primeira a lutar, também não fiquei satisfeita em ter que esperar.
Fitei a arquibancada lotada procurando rostos conhecidos e encontrei Kushina pela cor dos cabelos. Ao seu lado, Naruto quase sumia no meio do formigueiro de gente. Levantando um pouco mais o olhar, vi Minato sentado entre os Kage de outras vilas, e uma nevasca soprou dentro de mim ao lembrar que ele assistiria. Eu temia decepcionar as pessoas que me apoiavam, desperdiçar os meses de esforço e sair daquela arena com uma derrota nas mãos. Falhar era um medo enorme e angustiante que não me soltava. Sacudi a cabeça para espantar o pensamento e continuei minha busca. Faltava meia hora para a primeira luta e conforme os minutos minguavam, minha certeza aumentava: ele não chegaria. Não seria possível executar a missão e retornar a Konoha a tempo de assistir ao exame. Ainda assim, eu mantinha uma pequena esperança.
— Não precisa mais procurar por mim. — Shisui disse ao se materializar ao meu lado.
— Obrigada, eu já estava entrando em desespero — ironizei.
Ele sorriu, e eu acabei fazendo o mesmo automaticamente. Era inegável a habilidade que aquela criatura possuía de suavizar a tensão.
— Preparada?
— Um mais ou menos serve como resposta? — indaguei recebendo um solene, porém suave, “não”. — Estou nervosa, não quero fracassar. Você me ajudou tanto, e o mínimo que posso fazer é vencer...
Ele colocou as mãos em meus ombros e me encarou.
— Você não me deve essa vitória, deve a si mesma porque se esforçou para obtê-la. Concentre-se e se acalme. Sei que vai conseguir.
As palavras de Shisui amenizaram parte da ansiedade e para dissipar a outra, resolvi observar as lutas que antecediam a minha. Aos poucos, deixei de me preocupar e passei a analisar meus possíveis adversários. Pontos fracos, fortes, estilo, comportamento... Qualquer coisa que pudesse me ajudar caso viesse a enfrentá-los. As duas primeiras terminaram rapidamente devido ao notável desequilíbrio entre a força dos participantes, no entanto a terceira prometia um grande combate.
Inuzuka Hana pisou na arena com uma serenidade invejável. Diante dela o ninja da Névoa exibiu um sorriso que continha deboche e arrogância. Eles se aproximaram a pedido de Genma e trocaram cumprimentos, depois tomaram suas posições à espera do sinal para o início da batalha.
Passados vinte minutos, o resultado foi anunciado.
Por ignorância ou displicência, o ninja depositou a certeza de sua vitória em sua técnica de ocultação na neblina. Com isto, Hana apenas esperou pacientemente enquanto ele executava alguns movimentos e inflava sua confiança até encontrar a brecha e o momento perfeito para esmagá-lo com seu jutsu Presa Giratória da Presa.
— Não sei se ele é burro ou ela é muito boa... — exprimi pensativa. Aquela luta fora um bom exemplo de que um erro pode ser o suficiente para levar à derrota.
— Um pouco dos dois — disse um garoto de cabelos loiros e olhos castanhos portando a bandana de Suna. — Geralmente, os arrogantes tropeçam em seus próprios pés. Eles ficam tão concentrados em sua presunção que não conseguem observar além de si mesmos — continuou sem tirar os olhos da arena. — Agora é a sua. Boa sorte! — desejou amigavelmente.
Tomei meu rumo pensando no motivo para o estranho ter falado comigo, detestava esse tipo de intromissão principalmente num momento tão inoportuno. Com minha mente longe da ansiedade, e perto daquele incômodo que me corroia, encarei minha adversária com uma ponta de irritação.
Se ela se intimidou ou apenas estava em um nível diferente do meu, não soube dizer. Usei a vantagem que minha velocidade me dava e terminei a luta antes que ela pudesse me causar algum cansaço.
Ao final dos doze confrontos, foi realizado um novo sorteio com o nome dos vencedores e aquele que pertencia ao meu novo oponente era Sora Hikari. Ironicamente, era o garoto intrometido que me desejou boa sorte. Não bastasse isso, a batalha encerraria o exame.
— Que bom sermos adversários, não acha? — Hikari indagou com um leve sorriso.
Fitei-o o suficiente para concluir minha antipatia por seu jeito amistoso e virei as costas sem responder.
Esperar era uma tarefa ingrata por mais que eu estivesse me distraindo com as disputas e aliada a decisão de não conversar com outras pessoas nem procurar minha família para não afetar minha concentração, fez o tempo se arrastar como se tivesse bolas de chumbo em seus pés. Quando Genma finalmente disse “comecem”, meu coração disparou de ansiedade.
O primeiro movimento foi meu. Um soco que Hikari permitiu que acertasse seu rosto para me devolver outro no diafragma e me obrigar a saltar para trás e recuperar o fôlego. Seus olhos me analisaram com calma por um minuto que se findou numa investida veloz com três socos, um chute e quatro shurikens que quase rasgaram minha perna esquerda.
Apesar de ter me defendido dos golpes, a situação não me agradava, era óbvia sua tentativa de me encurralar, e permanecer na defensiva era exatamente o que ele queria. Provavelmente Hikari seria capaz de se permitir tomar um ataque para contra-atacar. Se eu fosse previsível, ele usaria isso a seu favor, se me apavorasse buscando uma alternativa poderia deixar a guarda baixa, e isto certamente seria aproveitado
Não podia negar que ele havia raciocinado muito bem.
Atirei uma kunai que foi desviada pela dele e continuei correndo em sua direção. Faltando poucos metros para o choque concentrei chakra na ponta dos dedos, mantendo-os unidos e a velocidade constante. Mirei seu rosto novamente e quando ele tentou segurar meu soco, interrompi o golpe desviando meu corpo para o lado e acertando o ápice de seu nariz com minha palma esquerda. Hikari ainda conseguiu me acertar um soco no ouvido antes de desaparecer.
Quando o localizei, notei o sangue escorrendo por suas narinas. Ele pressionou o local, devolvendo-me um olhar duro que prometia e avisava que a luta ficaria mais complicada. Uma faísca brilhou em sua mão direita, e o som inconfundível me alertou que ele controlava o trovão.
Hikari atirou duas shurikens que logo descobri estarem carregadas de eletricidade. A energia correu delas para a kunai que usei para desviá-las, alcançando meu braço direito e o deixando dormente. Recuei analisando a situação, porém fui obrigada a focar numa tarja explosiva que se multiplicou numa corrente de outras cinco. Quando a última explodiu, notei que a fumaça deixada pelas explosões cintilava em diversos pontos como vaga-lumes e se interligaram formando um caminho que terminava num fragmento que se prendia a minha coxa.
Ele precisava de condutores para a eletricidade, por isso lançou as shurikens e as tarjas, para que elas guiassem a corrente até meu corpo.
Envolvi a mão com chakra e golpeei a partícula para desprendê-la, sem sucesso, enquanto as outras se mantinham suspensas no ar como insetos voadores. Senti uma agitação em meu braço dormente, um estranho formigamento que aumentava conforme a proximidade dele com a fagulha presa a mim.
Hikari manteria o combate a distância, — ainda suportava a hemorragia ocasionada por meu ataque e, provavelmente, o resquício do atordoamento provocado por ele — assim teria maior segurança e menor esforço físico ao atacar.
Ele lançou um grupo de kunais, das quais desviei aproveitando cada movimento para me aproximar dele, em seguida, mais um que se multiplicou carregando várias tarjas explosivas. Por centímetros, escapei das detonações, porém não pude evitar seus fragmentos. Contei sete em meu corpo, e continuei correndo em direção a Hikari. Nossos olhos se cruzaram por lentos instantes que me deram a certeza de que ele buscaria a vitória, não importasse o esforço necessário para obtê-la.
Senti a corrente passar de um ponto a outro, daquele ao terceiro, depois ao quarto e ao quinto. A intensidade não era alta, mas o suficiente para espalhar o formigamento que prejudicava meu deslocamento diminuindo minha velocidade. Um minuto depois, senti a energia chegar ao sexto e minha mão direita se tornar incapaz de reunir chakra.
Tentar fazer selos custaria tempo e tinha uma probabilidade grande de terminar em fracasso. Lançar chakra em forma pura sem manipulá-lo num jutsu também, porém era minha melhor alternativa.
Hikari fez sua eletricidade chegar ao sétimo ponto assim que viu a concentração de chakra em minha mão e ela oscilou perigosamente, fazendo-me duvidar se teria força o suficiente para atingi-lo. Ao mesmo tempo em que senti a dor provocada pela descarga elétrica, lancei a energia contra ele. O vento o tocou como uma brisa e, dentro da aflição provocada pela eletricidade, eu vislumbrei minha derrota.
Subitamente a brisa se tornou uma rajada intensa que o arrastou por quase um metro. Hikari fincou os pés no chão para evitar um deslocamento maior, porém foi inútil e seu esforço rendeu o retorno da hemorragia junto à diminuição da intensidade de sua energia sobre mim. Aproveitando a guarda baixa concentrei minha força num soco que, devido a pouca velocidade e impulso, foi detido pela palma da mão dele que emitiu ruidosas faíscas.
Ameacei uma cabeçada em seu nariz e ao perceber seu recuo instintivo, dei-lhe um golpe fraco com o punho direito que atingiu o estômago. Recebi um soco que me jogou em direção ao chão, porém na queda consegui me amparar e acertar um chute que o derrubou. Imediatamente levantei e assumi uma postura defensiva esperando um contra-ataque, porém Hikari permaneceu de joelhos observando as gotas vermelhas caírem na terra. Ele segurou uma kunai e a impregnou de eletricidade, voltou seus olhos a mim e a atirou.
Não foi difícil desviar sua trajetória, a energia de Hikari que corria em mim atrapalhando meu chakra era praticamente nula. O sangramento roubava seu vigor físico e fazia com que a produção de chakra se tornasse menos eficiente. Fiz os selos de meu jutsu de correntes de ar e finalizei a luta quando meu oponente se colocou de pé.
Quando Genma confirmou que Hikari não tinha condições de lutar, eu me deixei cair no chão. Pisquei algumas vezes raciocinando o resultado e deitei. Fitei o céu azul de poucas nuvens que andavam por ele, ouvi o barulho das pessoas e senti meu coração bater fortemente enquanto refletia sobre a vitória. Tinha gosto de superação, liberdade misturada com felicidade, tinha aquele calor nos olhos e no peito, de conquistar o que tanto me esforcei, tinha o pensamento de quem não estava ao meu lado, mas sentiria orgulho onde estivesse.
Deixei a arena correndo para encontrar Naruto e Kushina, embrenhei-me pelo estádio labiríntico e só depois me dei conta que era melhor ter atravessado a arquibancada. Não me importei com o “erro”, não interessavam os dez minutos que levariam a mais para abraçá-los porque nada seria capaz de roubar aquele sentimento de mim.
Ao chegar ao acesso a arquibancada, procurei o lugar onde estavam e não achei, provavelmente o deixaram para vir ao meu encontro. Decidi subir na mureta a fim de ver melhor, e ser vista, porém ao me aproximar dela, percebi a figura de um ANBU.
Eu possuía uma relativa implicância com os ninjas da ANBU devido ao fato de eles usarem máscaras e todo o segredo que os envolviam. Ainda que fossem subordinados de confiança de Minato, eles não me inspiravam nem um pouco dela. Como sombras que se moviam na escuridão, podia-se esperar qualquer coisa deles.
Encarei-o sem entender a razão de estar ali. A máscara que exibia o desenho de um semblante animal aparentava relativa cordialidade, o que me deixava mais intrigada e tensa. O indivíduo segurou-a com uma das mãos e levou a outra à parte de trás de sua cabeça, por fim revelando o rosto que o disfarce escondia.
— Vim parabenizá-la pela vitória. — Itachi pronunciou sem emoção, parecia ter dito somente para cumprir um protocolo de educação.
Naquele instante eu me arrependi de ter desejado ouvir algo que viesse dele, pois ingenuamente não adicionei a minha imaginação sua habitual frieza, somente fantasiei palavras e gestos impossíveis de se tornarem realidade.
— Obrigada — respondi num sussurro fraco, desviando o olhar. Podia sentir que expressava além do que deveria.
— Eu vi desde o início. Você lutou bem.
Um pequeno traço em sua voz me chamou atenção. Era difícil distingui-lo, porém destoava da entonação anterior. Fitei seus olhos procurando a confirmação do que havia notado e meu coração acelerou ao perceber que não era mentira. Estava lá, um pouco nublada e complicada de ver, no entanto entre o brilho de suas íris e a leve expressão de seu rosto, existia uma tímida sinceridade que tentava se mostrar.
— Acha mesmo?! Eu fiquei tão nervosa que pensei que fosse vomitar! Como se as lutas não fossem o suficiente para deixar qualquer um ansioso, ainda tem centenas de olhos observando cada movimento seu e o pior é que parte desses olhos simplesmente pertence aos Kage! É muita pressão de uma vez só! Quando eu vi que tinha acabado, agradeci por... Estou falando demais, né? — perguntei coçando a nuca para disfarçar a vergonha.
— Não. — Ele rebateu de imediato e depois de um pequeno silêncio continuou. — Algumas pessoas são mais comunicativas do que outras. Isso não é um problema.
— Eu... — comecei sem saber o que dizer. Suspirei para colocar as ideias em ordem e prossegui. — Falar pouco também não é um problema... Desculpe por pensar mal de você. Eu sou boa em implicar... e xingar. Deve pensar que não tenho educação... Mas eu tenho sim! E... estou falando demais de novo! Acontece quando fico nervosa ou feliz, piora quando fico os dois. — Fechei a boca antes que pudesse me meter numa situação embaraçosa. Coloquei uma mecha de cabelo atrás da orelha fitando meus sapatos e ajeitei a voz com medo de falhar. — Obrigada, de novo. Foi importante ouvir aquilo de vo... — Mordi a língua. — De um ninja como você!
Sem mais a dizer, Itachi anunciou sua partida com um aceno desajeitado e rígido. Eu repeti o gesto e permaneci petrificada até ficar sozinha. Expulsei quase todo o ar dos meus pulmões em alívio e passada a irritação por quase me entregar, sorri como uma criança que tinha ganhado um presente há muito desejado.
Ainda no mesmo dia, invoquei os lobos para uma conversa embora não estivesse com muita vontade de encarar meu guardião.
— Eu os chamei porque passei no Chunnin Shiken e como as missões ficarão mais difíceis, queria saber se posso contar com a ajuda de vocês.
— Sabia que passaria! — Hiro disse animado. — Claro que pode contar comigo! Nós vamos arrepiar em todas as missões!
Haiiro fez uma expressão de reprovação para o filho e me encarou seriamente.
— Tem outra coisa — continuei. — Como eu e Kushina concordamos, vou morar sozinha a partir de agora.
— Finalmente você vai largar a saia daquela mulher! — Haiiro disse rispidamente. — Não precisa confirmar se pode contar com minha ajuda, você a terá sempre que precisar. — Levantou e antes de sumir envolto em fumaça murmurou um seco “parabéns”.
Estranhei a forma que ele falou de Kushina, porém não tive tempo para refletir devido a euforia de um certo lobo.
— Essa é a minha garota! Aposto que arrebentou a cara de todo mundo! — falou dando patadas no ar. — Pena que não pude assistir, teria gritado muito por você!
— Do mesmo jeito que está fazendo agora? Vai me deixar surda!
— Ei, quando vai se mudar? Vai ter um tapete para mim na sua casa, né?!
— Não sei, vou ajeitar as coisas devagar. E o tapete estará disponível enquanto você couber na casa.
— Ah, mude-se logo, não posso conter meu crescimento! Por falar nele, estou com saudade do Naruto.
— Você quis dizer: da comida da Kushina, né?! — questionei o óbvio. — Vamos, ela não vai se importar. Mas não seja descarado como das outras vezes nem faça cara de pidão!
— Eu não faço! Ela que é sensível e percebe os pequenos sinais de minha fome.
Revirei os olhos com a primorosa defesa de Hiro. Ele era um ótimo ator e conseguia comover até uma montanha de neve. Diante da bondosa senhora Uzumaki bastava um ganido baixo aliado ao olhar sofrido para fazer aparecer uma bacia de comida.
O assunto do jantar foi o exame, e Naruto contou com detalhes — exagerados — sobre minhas lutas para Hiro arrancando dele uivos de vibração. No meio da confusão de conversas paralelas, e uma disputa pela atenção do único ser não humano do cômodo, percebi o olhar de Kushina sobre mim e pensei que uma parte dela talvez estivesse triste.
“Mesmo fingindo não me importar, meus olhos lhe acompanhavam
Quando pensei sobre isso, percebi que já gostava.
Quanto eu escondia sobre mim quando eu ia lhe encontrar?
Por ter medo de ser odiada e quando percebi, já estava amando.”
O receio de conversar com Itachi foi sumindo aos poucos. De palavra a frase, de uma ao dobro e dobrando novamente até não existir limites, médias ou mínimos. Obviamente, o inverso não aconteceu da mesma forma, no entanto senti que nele não havia tensão ou indiferença quando eu estava por perto e isto era o suficiente para mim.
Voltamos a dividir um bom tempo juntos. A maior parte dele quando Itachi treinava e outros pedaços em várias situações que envolviam encontros nas ruas, que acabavam em algum estabelecimento que vendia qualquer coisa doce, na Academia, ao buscarmos nossos irmãos, e uma porção de esbarrões acidentais, típicos de acontecer entre pessoas que moravam na mesma vila. Com o tempo, nossa convivência se tornou um dos temas preferidos dos desocupados de Konoha.
Eu detestava a maneira que apontavam algo que não existia como se o simples fato de dividir o mesmo espaço indicasse um relacionamento. Alguns até mesmo possuíam certeza e diziam que nós o escondíamos devido aos mais absurdos motivos. Era irritante, odioso, repugnante... e me fazia triste porque eu queria que os boatos fossem verdade.
Itachi era gentil comigo, e só, não significava que me via como alguém especial. Além disso, nós éramos diferentes demais para que surgisse alguma relação. Existia um universo de distância entre nossas personalidades e “incompatíveis” era uma palavra que as definia muito bem.
Durante um bom tempo refleti se valeria à pena confessar meus sentimentos, como diria, se estava preparada para ouvir um “não” e se perderia a amizade dele. Isso me deixava introvertida porque não tinha com quem conversar sobre o assunto, exceto Naruto e Hiro, que entendiam menos do que eu, e junto à melancolia faziam de mim uma pessoa facilmente irritável.
Suportar os boatos e ignorá-los — por mais raiva que sentisse — era possível, no entanto engoli-la diante de alguém que se achava no direito de me questionar sobre o que acontecia entre mim e Itachi, não.
Tentei contar até dez, tentei pensar em Kushina e nosso acordo de eu “não arranjar confusão”, tentei morder a língua para não soltar as palavras que estavam presas nela. Porém, a última poeira de paciência foi soprada por um: “se não possui um relacionamento com ele, pare de agir como se tivesse! Isso afasta as garotas que gostam dele de verdade.”
Inspirei, expirei e revidei.
— Não ajo como se estivéssemos juntos. Não uso minha amizade com Itachi para me manter perto dele e não afasto ninguém pelo simples fato que nem você nem as outras que babam por ele como idiotas estão próximas, pelo contrário, são garotinhas estúpidas e desesperadas que tentam de todas as formas fazer com que ele perceba que vocês existem. Mais uma coisa: se vier me dizer o que eu tenho ou não que fazer, vou montar um mosaico com a sua cara!
Aquilo não foi o suficiente para esvaziar a raiva. Horas depois, eu ainda remoia o assunto e o arrependimento de não ter cumprido a ameaça naquele momento. A grama sofria com minhas mãos inquietas que puxavam folha a folha como se isso pudesse me acalmar. Ao ver que havia desmatado o verde que me rodeava suspirei profundamente, um pouco mais calma e logo a solidão deixou minha companhia.
Itachi sentou ao meu lado devagar como se estivesse avaliando minha reação e se dispôs a ouvir, com aquela paciência que parecia existir só nele, eu cuspir as palavras até não ter mais o que dizer.
Uma ideia passou por minha cabeça e por mais que tremesse por dentro e sentisse como se meu coração fosse explodir, eu fiz. Puxei sua camisa pela gola e colei meus lábios aos dele, mantendo os olhos abertos para observar sua reação. Itachi era a perfeita estátua da indiferença. Tão frio e rígido que se eu beijasse uma pedra de mármore, obteria dela maior emoção.
Eu me afastei ao mesmo tempo em que o empurrei, nenhuma de minhas piores imaginações conseguiu chegar aos pés daquela realidade. Levantei sem olhá-lo e parti caminhando lentamente para segurar o enorme desejo de correr. Não queria ser mais patética do que fui há um minuto.
A vergonha que senti tentou se transformar em lágrimas, e a imagem em minha mente contribuiu para que elas escapassem de meus olhos. Estava claro: Itachi se afastaria. Não sem antes dizer algumas palavras gentis e com primorosa educação pronunciar com todas as letras e devidos acentos que não sentia o mesmo.
Levei minha angústia para casa, sufocando com ela até não aguentar e tomar coragem para me abrir. Naruto arregalou os olhos, curioso, quando me ouviu dizer que precisava conversar sobre algo muito importante e esperou, com mais ansiedade do que paciência, a frase sair da minha boca.
— Eu... — Respirei fundo e soltei de uma vez. — Eu beijei o Itachi.
— Quê?! — perguntou quase num grito.
— Nós estávamos no...
— Não!
— Naruto!
— Não, não, não, não, não! — Tapou os ouvidos e fugiu gritando sua sequência interminável de “nãos”.
— Você é um irmão horrível! Não vai entrar nesse quarto enquanto não me escutar! Ouviu?! — Bati a porta tão forte que a parede estremeceu. — Idiota!
Naruto e eu, vez ou outra, trocávamos lamentações sobre nossos amores não correspondidos e os progressos que tínhamos com os mesmos, ou melhor, nossa coleção de fracassos, por isso pensei que ele ouviria outro dos meus.
A maçaneta girou, e eu peguei o travesseiro, pronta para tacar na cabeça daquele ingrato, quando Kushina apareceu.
— Imagino que tenha expulsado Naruto por um bom motivo... — Ela pronunciou calmamente. Não havia tom de sermão, apenas curiosidade.
— Desculpe, foi errado. Vou falar com ele para voltar e não farei de novo — respondi abaixando a cabeça.
— Kaoru, existe alguma coisa sobre a qual precise conversar? Pode falar comigo, querida.
Encostei à cama e olhei para o chão enquanto Kushina sentou ao meu lado como se já soubesse que eu falaria. Minhas mãos mastigaram o lençol um pouco antes de eu sentar, respirar fundo, dar uma última olhada para ela e contar a história do começo ao fim entre hesitação e silêncios repentinos para avaliar sua reação.
— Tudo que pensei em dizer a ele parecia tão idiota, tão infantil... Quando passou por minha cabeça beijá-lo,... apenas fiz.
— Deve ter sido uma surpresa, por isso ele não reagiu.
— Não. — Balancei a cabeça em negativa. — Quando uma pessoa gosta de outra, ela corresponde. Se recebe um abraço, abraça de volta, se recebe um carinho, devolve... Itachi ficou parado, mudo.
— Pelo que me contou, você não deu chance para ele falar. — Kushina carinhosamente tentava encontrar algo para me consolar.
— Eu sei o que Itachi vai dizer e não quero ouvir.
— Kaoru, é inevitável que vocês tenham essa conversa. Adiá-la só vai piorar.
Eu me encolhi ao pensar que não poderia impedir aquelas palavras de me alcançarem.
— Não gosto disso crescendo no meu peito, não gosto de pensar nele o tempo todo e saber que só eu sinto isso...
Kushina me puxou suavemente para o seu colo e me abraçou. Senti a garganta queimar e as lágrimas forçarem sua saída.
— Vai passar, minha querida, de um jeito ou de outro. Vocês ficando juntos, ou você esquecendo ele. Tenha certeza que vai passar. E não importa o que aconteça, eu estarei aqui para ajudá-la a enfrentar — sussurrou acariciando meu cabelo enquanto afundei meu rosto em seu pescoço.
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