C.A.S.U. [Em Revisão]

8 Segunda voz: Mergulho no passado - Parte II


Notas iniciais
Yo! Fala meu povo! ♥ Fiquei muito feliz com a receptividade da narrativa da Ka, eu não esperava . Como disse nos comentários que respondi, este capítulo traz a primeira interação entre nosso casal. Como será hein? Ah! Tem pergunta importante nas notas finais, não deixem de ler! ^^ Agradeço a Karoly por ter favoritado a fic, a todos os comentários lindos no último capítulo (Bella, a senhorita me deixou muito feliz por ter aparecido. ^^) e aos novos acompanhamentos. Música: Rie Fu - Life is like a boat https://www.youtube.com/watch?v=hWu5q0XHIj8

2º ato — Aprendizado/Laços que não podem ser evitados

“Ninguém sabe quem eu sou realmente

Eu nunca senti esse vazio antes

E se alguma vez eu precisar que alguém venha

Quem irá me confortar e me manter forte?”

Kushina gostava de todos reunidos nas refeições, que eram barulhentas não só pelos sons dos talheres mas também pelo diálogo.

Eu abria a boca somente para mastigar e ficava assistindo o falatório pensando na quantidade de coisas que eles tinham para falar, porém nunca escapava de umas três perguntas e aqueles olhos me encarando esperando pela resposta. Aquela agitação era muito diferente do que estava familiarizada. Eu e mamãe costumávamos comer em silêncio e trocávamos poucas palavras, ela estava sempre se perdendo em pensamentos em momentos como esse.

— Fiz uma sobremesa diferente! — Kushina anunciou quebrando o meu pensar e colocando-a sobre a mesa. — Naruto disse que você gosta de torta de ameixa — falou sorrindo.

Olhei para ele sem acreditar e pulei da cadeira com tanta raiva que quase a derrubei. Sabia que se fosse para o quarto não demoraria um minuto para ter alguém atrás de mim, por isso saí pela janela sem me importar com o destino.

Eu não conhecia Konoha muito bem e acabei parando numa árvore que parecia isolada. Sentei embaixo dela e fiquei observando as folhas balançando devagar, segurando minha vontade de chamar Hiro. Queria conversar com ele, deitar a cabeça em seu pelo e, só um pouquinho, ter a sensação de estar na floresta com toda aquela umidade coçando meu nariz, ouvindo os ganidos dos sonhos dele e a respiração pesada de Haiiro, esperando pelo bocejo baixo de mamãe e seu “bom dia” arranhado.

— Kushina não teve intenção de ofendê-la, e Naruto comentou porque pensou que isso a alegraria. — Minato falou suavemente, continuando ao perceber que eu não falaria. — Naruto não nos conta sobre as conversas de vocês, se é isso que está pensando. Ele apenas disse que a torta era algo especial que sua mãe fazia e você sentia falta.

— Especial porque era dela, nenhuma é igual.

— Tem razão, mas foi só por isso que a rejeitou? — Ele sentou em minha frente e apoiou o queixo na mão direita. — Ou tem a ver com Kushina? Acha que se relacionar com ela é uma traição à memória de Kaede?

— Não é nada disso, elas nem se parecem!

— Eu imaginava que não... Se fosse isso evitaria apenas ela, porém você evita todos que tentam se aproximar. — Ele se endireitou e me encarou sério. — Tem medo das pessoas?

— Não.

— E por que as impede de chegar perto? Por que não se relaciona com as crianças da sua idade?... — Minato falava devagar como se estivesse analisando minha reação diante de cada palavra sua.

Eu não fazia a mínima questão de ter amigos. Todas as crianças da vila eram estúpidas, um bando de gralhas irritantes que não tinham ideia do que era o mundo e viviam num sonho cor de rosa. Os garotos só sabiam falar de arte ninja e se gabar de suas habilidades e as garotas, quando não falavam sobre eles, conversavam banalidades femininas típicas da idade.

— Não gosto delas. Só têm vento na cabeça.

— E os adultos? Eu, Kushina... Também não gosta de nós?

— Não! Não, eu gosto sim! Um pouco... — Virei o rosto envergonhada.

— Por que se mantém distante? — perguntou sério.

— Pra que eu vou me aproximar? Pra que gostar de alguém se sabe que ele vai morrer um dia e você vai ficar sozinho de novo? É melhor ficar sozinho de uma vez para sempre!

Minato olhou para mim, não com pena, mas com olhar de quem entendia.

— Morrer é o destino de todos, Kaoru. Eu compreendo que a perda dos seus pais tenha lhe machucado profundamente, porém evitar novos laços não é garantia de escapar do sofrimento, pelo contrário, a solidão, sozinha, é capaz de esmagar uma pessoa de dor... Eu também perdi meus pais muito cedo, senti falta deles assim como você sente dos seus, mas com o passar do tempo a dor diminuiu e percebi que precisava me desprender da infelicidade. Se eu não tivesse permitido, não estaria casado com Kushina, muito menos seria pai do Naruto. Entende que algumas coisas em nossas vidas precisam de nossa permissão? Se você não deixá-las chegar perto, elas nunca se aproximarão.

— Isso não significa que vai dar certo pra mim. Não pode ter certeza que minha vida vai ser boa também.

— Tem razão, não posso prever o seu futuro. Mas você pode construí-lo. Cada dia é um tijolo do castelo de seu destino, o formato e a cor vão depender do seu trabalho na construção dele. Você pode moldá-lo e colori-lo como quiser, e mesmo que hoje o tijolo não lhe agrade, amanhã você terá a chance de escolher outro... — Minato se levantou e bateu a roupa tirando a terra. — Eu a deixaria sozinha para pensar, mas não me sentiria confortável em permitir uma menina tão pequena voltar para casa desacompanhada. Vamos?

Eu ia responder que não precisava dele, que Konoha perto do deserto de Suna não dava nem um pingo de medo e meu tamanho pouco importava, mas percebi que Minato estava sendo gentil e logo me lembrei que ele havia saído de casa àquela hora por minha causa. Talvez nem tivesse terminado de comer e mesmo assim usou um pouco de seu tempo para conversar comigo. Ele poderia ter reclamado, dado uma bronca ou só me levado de volta, poderia nem vir, mas veio e tentou entender o que eu sentia.

— Vou levá-la a um lugar amanhã, tenho certeza que irá gostar.

— É uma floresta?

— Digamos que sim, mas não é formada por árvores — respondeu com um ar misterioso e sorriu.

Segurei a vontade de perguntar e continuei andando, tentando adivinhar do que mais uma floresta poderia ser feita que não fosse de plantas.

Chegar em casa foi a pior parte.

Eu não sabia o que dizer a Kushina e fiquei algum tempo a observando lavar a louça do jantar, esperando uma ideia aparecer para me agarrar a ela, mas nada passava por minha cabeça. Suspirei antes de arrastar meus pés até seu lado e puxei seu vestido devagar.

— Ei, Kushina... quero meu pedaço... — murmurei sem coragem de encará-la.

— Sente e espere eu terminar.

Obedeci com medo do que viria e não tirei os olhos da mesa até o prato ser colocado sobre ele. Encarei a torta torcendo para que estivesse gostosa. Eu não tinha muita habilidade em disfarçar, por isso teria que me esforçar para não soltar um “eca” se o gosto fosse ruim. Enfiei a colher na boca e apertei os olhos com força, nada de estranho, comecei a mastigar sentindo os sabores da massa e recheio, eles se misturavam perfeitamente e também eram ótimos separados. Quando olhei para Kushina, a ansiedade estampava seu rosto. Virei de frente para ela e chamei seu nome tentando iniciar uma conversa.

— Está ruim?

Balancei a cabeça negando.

— Obrigada e... desculpa. Não devia ter saído daquele jeito.

— Tudo bem — disse limpando o canto da minha boca. — Kaoru, você pode falar comigo sobre qualquer coisa, inclusive se eu fizer algo errado.

Concordei e recebi um beijo na testa. Não me mexi esperando que continuasse a falar e porque tinha medo de abraçá-la, de me apegar, daquele pequeno gostar se transformar em algo grande e eu não conseguir pensar nela só como alguém que cuidava de mim.

No dia seguinte, Minato me carregou com ele pela aldeia. Andar em sua companhia era o mesmo que ter a atenção de Konoha inteira, e eu me arrependi de ter acreditado em suas palavras alguns minutos depois de sair de casa. Era impossível gostar de um lugar onde um monte de olhos estivesse pregado em mim.

— Eu não poderei ficar com você, por isso designei uma pessoa para lhe auxiliar caso necessário. Sei que não gosta de estranhos, mas confie em mim, ele é alguém bastante agradável.

O garoto parecia bem mais velho do que eu, a pele morena era cortada por uma cicatriz na altura do nariz e o cabelo preso no alto da cabeça se espalhava de um jeito engraçado e bonito.

— Kaoru, este é Umino Iruka e irá lhe acompanhar à biblioteca da vila.

— Biblioteca? Você disse que era uma floresta!

— Uma floresta de livros. — Minato respondeu piscando um olho. — Vá com ele e se divirta — falou pondo a mão no meu ombro como forma de incentivo. — Iruka, cuide bem dela.

— Sim, Yondaime! Vamos, Kaoru?

Pior que estar com um estranho, era ouvi-lo chamando meu nome como se me conhecesse há séculos. Ignorei isso e o segui respondendo o mínimo possível das tentativas de diálogo.

Por fora, a biblioteca possuía a arquitetura padrão da vila, o que impressionava estava dentro: fileiras intermináveis de livros e pergaminhos cobriam as paredes extensas, corredores e mais corredores de literatura que exalava uma mistura de novo e velho.

Eu parei diante de uma das estantes me sentindo pequena, correndo os dedos pelas lombadas de diversas cores e inclinando a cabeça para ler os títulos.

— O que acha? — Iruka perguntou.

— É... Eu posso ler tudo isso?

— Algumas obras não são para sua idade, exceto elas, pode ler qualquer coisa. Se tiver dúvidas, é só perguntar.

Andei de um lado para o outro, cruzei as galerias lendo sinopses e sujando as mãos de poeira, expirei com força quando ela entrou em meu nariz e mesmo depois de quase meia hora não tinha escolhido. Meu guia, ou vigia, sorria vendo minha inquietação e indecisão, segurando o riso quando eu o encarava. Por algum motivo desconhecido, havia simpatizado com ele e isso manteve dentro de minha boca uma resposta malcriada.

— O que está procurando? — Iruka tentou me ajudar.

— Não sei! Não consigo decidir!

— Do que você gosta? — questionou me deixando mais ansiosa. — Deixa para lá! Que tal... ninjutsu? Taijutsu? Genjutsu? — perguntava e mudava de opção a cada negativa. — Assim fica difícil... — Coçou a cabeça e deslizou os dedos pelos livros até puxar um. — História de Konoha?

— Eu quero! — Estiquei as mãos.

Sentei rapidamente e comecei a ler imaginando as cenas das batalhas e os personagens delas. Tantos nomes e mortes escreviam o passado daquela aldeia, clãs ganharam respeito por seus poderes, outros se tornaram temidos pelo mesmo motivo, e a disputa entre dois homens acabou num acordo de paz gerando a semente da vila que era hoje. Imaginei quantas guerras estavam descritas ali, a quantidade de mentiras contadas nas linhas... Se eu torcesse aquelas páginas, quantas seriam as gotas de verdade?

Sem querer sorri ao perceber a água em meus olhos. Fazia tempo que não me lembrava de papai e estar em contato com o universo dele me alegrou e entristeceu ao mesmo tempo. Ele sentiria orgulho se ouvisse meus pensamentos questionadores e com certeza me faria pensar em um monte de outras coisas. Eu gostava do jeito que ele me ensinava tudo que sabia e do entusiasmo ao dividir uma descoberta comigo como se ela também fosse minha. De ouvi-lo exagerar quando dizia que tinha a filha mais inteligente do mundo, de memorizar os nomes das estrelas e falar de boca cheia escondido da mamãe, dele se gabando para ela porque compartilhávamos a mesma cor dos olhos, daquele bobo que não hesitou em se sacrificar.

Esfreguei o rosto usando a poeira como desculpa e voltei à leitura. Iruka fingiu que não notou, e eu, que acreditei em seu fingimento.

Sempre que algum visitante aparecia, eu me enfiava no quarto até que ele fosse embora. Depois da décima vez, Kushina desistiu de me fazer interagir e passou a avisar quando receberíamos visitas, porém nem todas eram agendadas e nem sempre ela estava em casa.

Chamei Naruto recebendo um grunhido de volta.

Ele estava no quarto se atrapalhando em vestir a camisa. Iria se encontrar para brincar com Sasuke, um garoto da mesma idade que era do clã Uchiha. Ofereci ajuda para terminar aquela batalha e assim ficar sozinha em casa quando ouvi as batidas na porta.

— Vai se veste logo! — falei puxando o pano e direcionando o braço dele.

— Eu não tô pronto, abre a porta!

Encarei-o como quem dizia: “é isso mesmo?”, e ele me devolveu um sofrido e manhoso “por favor”. Demorei mais alguns segundos olhando para seu rosto e ouvindo mais batidas, por fim, bufei e me conformei. O tal do Sasuke era só uma criança afinal, não ia arrancar um pedaço de mim. Respirei tentando esquecer o desgosto para que não ficasse estampado em minha cara e abri.

— Droga!

O cabelo era tão preto quanto os olhos redondos e os fios caídos na testa formavam uma franja que lembrava grama e papel recortado. O garoto era maior do que eu, só alguns centímetros, mas isso me obrigava a olhar um pouco para cima se quisesse encarar suas íris escuras.

— Ah... Você é a irmã do Naruto? — O pequeno perguntou sem jeito.

— Sim — respondi sem desviar o olhar do outro.

Não conseguia dizer o tamanho do incômodo que sentia, era como se eu fosse um animal encurralado. Queria me mexer e falar alguma coisa, mostrar que a presença dele não me irritava, mas meu corpo continuava imóvel e meus pensamentos se debatiam de raiva por aquela reação.

— Nee-chan?... — Naruto chamou com cuidado após perceber a situação.

— Sim, Naru.

Ele repetiu o nome meio abobado, olhou para o amigo e com um sorriso pediu segurando minha mão.

— Nee-chan, vem com a gente!

Num estalo, eu me dei conta. Desde quando eu o chamava por apelido? Quando assumi o posto de irmã dele? E o pior, na frente dos outros! Alguma coisa muito errada estava acontecendo.

— Ela é pequena demais para uma irmã mais velha. — Sasuke cochichou para o outro.

— Não seja rude, otouto. — Ele repreendeu suavemente.

— Não. Sabe que gosto de ficar em casa. — Finalmente respondi ao meu... irmão?

— Mas você vai para a bibli-bli...

— Biblioteca — completei.

— É! Você vai todo dia para lá! — falou como uma acusação.

— Porque lá eu não tenho a obrigação de falar com ninguém e ninguém vem falar comigo.

Eu me arrependi daquela frase ao ver os olhos dos pequenos se arregalarem surpresos. Senti que havia falado uma coisa horrível e talvez tivesse mesmo, mas para mim era apenas a verdade. O rosto de Naruto se retorceu numa decepção que socou minha certeza de ter razão.

— Tá... — murmurou de um jeito tão doído que me senti um monstro.

— Vamos logo antes que eu desista — rebati cruzando a porta e ignorando a presença do outro.

Fomos para um gramado que beirava o bosque leste da vila. O lugar era amplo e aberto possuindo apenas dois bancos envelhecidos. Eu e o outro sentamos cada um em uma ponta, e em silêncio observávamos os meninos. Internamente agradeci por ele não falar, não havia assunto que pudéssemos comentar e detestava aqueles que começavam somente pela obrigação de preencher a ausência de som.

Naruto e Sasuke apostavam corrida, rolavam pela grama e se engalfinhavam quase que metodicamente, algumas vezes discutiam coisas idiotas, viravam a cara e logo voltavam ao início.

Aquela repetição me deixava com sono e eu me esforçava para não esquecer que tinha alguém ao meu lado e bocejar como um leão despertando. Em algum momento, passei a reparar no pequeno Uchiha, ele parecia gostar bastante de Naruto, apesar das briguinhas. Lembrei da primeira vez que ouvi seu nome e de como foi dito com raiva naquele dia: “o idiota do Sasuke!” Era certo escutar isso toda semana, e eu demorei a entender que significava amizade.

— Até que ele é bonitinho... Tem uma voz esganiçada que dói os ouvidos, mas é bonitinho.

Os minutos foram passando enquanto eu lutava contra minha vontade de dormir e quando comecei a duvidar se estava acordada vi uma cabeleira loira correndo em minha direção seguida de uma negra que apontava para todos os lados possíveis.

— Olha, Nee-chan, um verme! — Naruto falou quase esfregando um galho em meu rosto ao mesmo tempo em que Sauke ria. — Não é nojento?

— Não. — Minha afirmativa deixou os dois confusos. — É comestível. Tem um gosto meio amargo, mas se colocar sal fica bom.

— Mentira, ninguém come isso! — Sasuke protestou e vendo que eu não desmenti desafiou: — Mostra que é verdade!

Retirei o animal do galho e o engoli sem me dar ao trabalho de mastigar.

— Abre a boca! — Sasuke ordenou. — Levanta a língua! Agora abaixa! — A descrença quase o fazia enfiar os olhos em minha goela.

Eles se entreolharam boquiabertos e o outro me observou com uma expressão estranha. Eu havia percebido que ele prestava atenção, porém ignorei enquanto pude e quando os meninos se afastaram não perdoei.

— Ficou com nojinho? — questionei recebendo silêncio. — Qual o seu problema, se acha bom demais para falar comigo? — O silêncio continuou. — Escuta aqui, seu idiota! — Bati a mão no banco e notei uma leve surpresa em seu rosto. — Não sei por que droga acha que pode ficar me olhando de rabo de olho, mas se continuar vou pintar ele de roxo!

Ele franziu a testa com cara de quem não estava entendendo, porém continuou calado, depois disso não voltou a olhar para mim se concentrando nas estripulias do irmão.

— Você brigou com quem?! — A voz de Kushina estava mais alta e aguda do que eu me lembrava.

— Mamãe... — Naruto começou, porém se calou com um gesto dela.

— Tudo bem, deixa comigo — sussurrei para ele.

Não era culpa de Naruto se Kushina tinha escutado nossa conversa quando eu contava sobre minha briga com o irmão de Sasuke, mas ele lutou por minha defesa até o fim. Claro que, sem experiência, foi derrotado na primeira sílaba.

— Agora somos só nós duas, e você vai me dizer tudo o que aconteceu...

Eu poderia ter feito um resumo, escondido o que certamente a faria falar mais, entretanto contei com o máximo de detalhes que consegui.

— Eu não acredito... O que deu em você?! Acha mesmo que o motivo justificou sua atitude?! — A pergunta saiu estridente, quase um grito. — Vai pedir desculpas a ele!

— Eu não vou, não — rebati deixando-a perturbada. — Você só quer me obrigar a pedir desculpa porque ele é o filho da sua amiga.

— Não. Você fez algo errado e o mínimo para corrigir isso é pedir desculpa — disse com aquele tom de que as coisas ficariam piores.

— Não sei por que se incomoda, se ele tivesse se ofendido teria dado uma resposta.

— Itachi não gosta de brigas, se não respondeu é porque queria evitar uma, e isso não lhe dá o direito de atacá-lo como fez. — Ela me encarou séria. — Não vou mais admitir esse tipo de comportamento. Você pode achar todos idiotas e não falar com ninguém, mas ser grossa com as pessoas, não.

Dei um passo para trás processando aquelas palavras. O semblante de Kushina não mostrava qualquer brecha, duro como uma rocha.

— Não se responsabilize por mim, assim ninguém poderá lhe cobrar sobre o que eu faço — falei com o máximo de frieza que consegui.

— É verdade. Seria fácil e me pouparia um bocado de dor de cabeça.

A coragem de desafiar Kushina se espalhou pelo ar e o medo do final daquela conversa mordeu meus calcanhares.

— Mas eu nunca faria isso... — Agachou diante de mim. — Porque gosto desse pedaço de limão chamado Kaoru e sei que aqui no fundo... — Apontou para o meu peito. — você é um doce. Entendo que seja complicado se relacionar com as pessoas e que algumas possam implicar com você... Lembra-se da história que contei, de minha infância em Konoha? Foi difícil no começo, mas depois que conheci Minato a fundo, as coisas mudaram... Sabia que eu o achava fraco?

— Você não enxergava muito bem, né?

Ela riu.

— Nossas opiniões mudam com o tempo, amanhã você poderá descobrir uma pessoa maravilhosa naquela que não gosta hoje. Se continuar agindo assim, ninguém vai se mostrar para você... As pessoas guardam a melhor parte de si, é uma forma de se proteger e também de reservá-la somente para quem merece. Se você se mostrar confiável, elas irão deixá-la conhecer essa parte, mas se mostrar hostilidade, não verá o que há de mais bonito nelas... Eu enxergo você porque você quis se mostrar para mim. Já pensou nisso?

— Você é transparente, todos nessa casa são... E papai me dizia para confiar em pessoas assim — disse admirando seus olhos. Eu gostava do formato deles e de como eram amorosos. — Não tenho vontade de pedir desculpas, mas não quero que fique triste comigo.

— Já é alguma coisa.

Eu tinha um mapa, uma caixa na mão e uma vontade enorme de jogar tudo para o alto. Perdi a conta dos planos que inventei para dar fim naquilo, até calculei quantas horas gastaria para ir e voltar, os lugares onde poderia me esconder esperando o tempo passar, porém minha consciência, ou medo, dizia que não importava a ideia, Kushina descobriria.

O distrito Uchiha possuía um clima que se destacava do resto da vila, algo pesado, tenso, como se o ar tivesse dificuldade para passar por entre suas ruas.

Parei na entrada recordando as coordenadas, porém aquele lugar parecia um labirinto e rapidamente me confundi no trajeto. Pensei em pedir ajuda, mas todos pareciam ocupados demais e antipáticos na mesma medida. Olhei meu mapa. A letra era razoável, as explicações também, tinha até um esquema de cores inteligente, mas eu havia me perdido e me localizar através dele não estava dando muito certo.

— É claro que isso é um castigo! Como não percebi antes?... É qual a necessidade dos doces? Se eu ganhasse uma caixa cada vez que alguém é grosso comigo estaria rolando pelas ruas.

— Está perdida? — Um garoto com traços Uchiha perguntou curioso. Ele possuía cabelos espetados e olhos amendoados que terminavam de forma incomum, parecidos com os dos gatos. — Você me ouviu?

Duas opções passaram por minha cabeça. A primeira era ignorá-lo, e a vontade era grande, a segunda era dizer a verdade e talvez conseguir ajuda.

— Estou procurando a casa de Itachi.

— Isso é para ele? — Fitou o que eu carregava

— Não intere... — Mordi a língua para não responder como devia afinal sozinha demoraria horas para encontrar meu destino. — É.

— Vou mostrar o caminho — disse com um sorrisinho irritante.

Ele não fez comentários enquanto caminhávamos, porém percebi que me observava. Com o silêncio a meu favor, eu me perdi nos detalhes daquele lugar. Os símbolos pintados nas paredes eram os mesmo nas roupas dos moradores, o leque branco e vermelho do clã Uchiha marcava tudo que pertencia a eles. A maioria das pessoas possuía cabelos pretos, inclusive o garoto ao meu lado, as demais desbotavam em tons de castanho, as cores de pele variavam do branco pálido ao moreno caramelo, porém sem exceção, todos carregavam olhos negros. Não era difícil notar que eles não se misturavam. Até suas roupas se pareciam de alguma forma numa estranha harmonia que me intrigava.

— Chegamos.

A casa de Itachi era maior que todas as outras. O muro começava em uma esquina e terminava na outra, possuía dois andares, um pequeno jardim em frente à porta e era possível ver que havia diversas árvores no quintal, delas um bando de pássaros saiu e alguns solitários voltavam para onde provavelmente eram seus ninhos.

O garoto chamou e quando a porta abriu já havia desaparecido. Por minutos, o outro e eu nos encaramos, ele com uma expressão insossa, eu certamente com cara de quem estava ali por obrigação.

— Toma! — Estendi a caixa permanecendo naquela posição enquanto ele olhava para ela. — É para me desculpar do que disse ontem.

Itachi não se mexeu, muito menos abriu a boca. Contei os segundos para esquecer a irritação e quase explodi ao chegar aos trezentos, por sorte uma bem-vinda intromissão impediu.

— Kaoru, o que tá fazendo aqui? — Sasuke perguntou e ficou olhando confuso dele para mim. — Hum? Esse é o doce preferido do nii-san, como sabe?

Apertei os lábios para segurar o sorriso de raiva e entreguei a caixa ao menino.

— Sasuke, pode pegar, por favor?

— Sim... — respondeu sem entender.

Acenei para ele me despedindo e recebi de volta o mesmo gesto. Tentei caminhar o mais calma possível, mas imaginar Kushina em casa rindo da minha vergonha só aumentava minha raiva. Puxei o mapa e o abri quase rasgando, precisava sair daquele lugar o quanto antes.

— Você não conseguiu usar isso para chegar até aqui e acha que conseguirá para voltar? — A voz se materializou naquele garoto idiota.

Passei por ele sem responder, eu não tinha mais uma gota de paciência.

— Vai se perder... — falou surgindo ao meu lado e andando como se não fosse ignorado.

— Que tipo de idiota você é?

— Do tipo que ajuda garotinhas perdidas — respondeu e depois riu. — Não quer saber o nome de quem a ajudou?

— Quero que você suma!

— Prazer, sou Uchiha Shisui — disse se colocando em meu caminho e estendendo a mão

Olhei para ele tentando entender por que fazia aquilo e o único motivo que me veio à cabeça era que queria me irritar. Respirei pronta para responder o que merecia quando me lembrei da última conversa com Kushina. Voltar ao distrito Uchiha para pedir desculpas não era uma opção.

— Uzumaki Kaoru — falei apertando sua mão.

O esforço para controlar minha irritação deixou minhas palavras pausadas e o gesto tão mecânico que eu parecia ter algum problema para mexer o braço. Esperei-o se sentir satisfeito com aquela palhaçada e desfazer o cumprimento, mas ele continuou como se estivesse me testando.

— Agora que estamos devidamente apresentados podemos voltar a caminhar. Ah, antes que me esqueça! Não me leve a mal por ter assistido, eu sabia que a cena seria imperdível. A expressão do Itachi foi hilária!

— Não sei que graça você viu naquela cara aguada.

Shisui gargalhou como se eu tivesse contado a melhor piada do mundo. Mais um esquisito, pensei observando seus olhos de gato se apertarem com o riso.

— Pronto, está entregue a Konoha — cortou meus pensamentos. — Até!

Ele se foi antes que eu pudesse dizer qualquer coisa, inclusive o agradecimento que passou por minha cabeça.

Fora do território dos donos do sharingan, eu me peguei sentada na praça da entrada olhando o pouco movimento e percebendo o quanto aquele lugar era silencioso. Os Uchiha pareciam um povo fechado e — por que não dizer? — mal-humorados, ainda assim havia algo neles que me chamava atenção, mas nada se comparava a curiosidade de entender o motivo daquele clã ser o único a ter seu próprio distrito e este ficar afastado da vila.

Notas finais
E aí gente? A interação foi como vocês imaginavam? Acho que não, né? Contem para mim! Eu tinha pensando numa coisa fofinha, mas depois veio aquele estalo: "caramba, isso não corresponde a 'realidade' ", então resolvi mudar. Creio que desta forma ficou mais realista considerando a personalidade de ambos. A pergunta importante... vocês querem ser avisados nas notas quando tiver hentai no capítulo ou preferem que fique na surpresa? Ah! A vai rolar uma passagem de tempo. Veremos nossos queridos crescendo e se relacionando mais a partir do próximo. Espero vocês nos comentários para podermos conversar! Bjs, amoras!