C.A.S.U. [Em Revisão]
9 Segunda voz: Mergulho no passado - Parte III
Notas iniciais
3º ato — Redenção / Sentimos impossíveis de serem reprimidos
“Antes de me dar conta, já estava pensando em você
Pensei que era muito vergonhoso e odiei de verdade tê-lo feito.
É porque tenho medo de expressar meus sentimentos
E ainda que os apague de minha cabeça
Não posso fazer nada com meu coração."
Seis meses se passaram e várias coisas boas aconteceram, talvez não tantas, porém algumas realmente mudaram tudo. A principal foi que me acostumei a minha nova vida, mais que isso, sentia que estava inserida de verdade naquela família. Não foi do dia para a noite nem de uma semana para a outra, também não marquei a data no calendário, apenas senti que uma parte de algo estava bem. E ela me ajudou a ter paciência com um pedaço que se tornava gradativamente pior.
A academia ninja era interessante. Tinha suas facilidades, — como as matérias básicas que eram básicas demais — as dificuldades, que prometiam acabar comigo a cada novidade e eu só resistia graças a minha natureza teimosa, e o mais detestável do conjunto: os alunos.
Toda vez que pensava em xingar ou bater em alguém me forçava a lembrar de Kushina, era o único jeito de conseguir ignorar aquele bando de idiotas que se gabavam de suas mínimas habilidades. Com o tempo, ficou clara minha ausência de vontade de dizer uma palavra a qualquer um exceto o professor.
O isolamento possuía maravilhosas vantagens, paz era a melhor delas. Eu podia escrever, pesquisar, tentar desenhar algo que conseguisse superar os desenhos do Naruto, dormir... Porém não fazia outra coisa senão estudar. Gostaria de dizer que Kushina e Minato exigiam um boletim azul como o céu de verão e por isso precisava me afogar em pergaminhos para atendê-los, mas era praticamente o contrário. Eu não queria nem pensar em aparecer com menos de um nove naquele maldito papel que tinha o poder de mudar vidas.
Foi nessa época de desespero escolar que esbarrei novamente com ele.
Era uma manhã de primavera colorida. Eu estava cansada de massacrar meu cérebro com explicações sobre jutsus e decidi caminhar pela floresta. O verde e o cheiro aos poucos amenizaram a dor de cabeça que me acompanhava e quando percebi, ela havia desaparecido. Não muito tempo depois, notei um espaço aberto em meio às árvores e segui para ele.
Vi as kunais cruzarem o ar rapidamente, atingindo inúmeros alvos espalhados pelo local e o garoto Uchiha conferi-los com igual rapidez. Ele me lançou um breve olhar de esguelha e voltou ao que fazia posicionando as kunais entre os dedos. Concentrou-se por um instante, saltou e durante a queda arremessou-as de uma vez com uma precisão que parecia impossível. Simples como respirar. Era formidável! E correspondia a tudo que ouvi falar sobre ele.
Quando algo grudava na minha cabeça, fazia morada, e não foi diferente com o Uchiha. A habilidade dele me inquietava e fascinava. Como alguém tão jovem podia ser tão talentoso? Claro que esforço e dedicação eram os pilares do sucesso, mas não conseguia acreditar que ele havia chegado naquele nível.
— Se eu observasse o treinamento dele poderia aprender algo... Sempre fui boa observando... — deixei meus pensamentos escorregarem pela boca.
Remoí a ideia durante metade do intervalo colocando um ponto final naquela dúvida besta ao perceber que estava tratando a decisão como algo que mudaria minha vida. Com ela tomada, resolvi esticar as pernas antes que virassem raízes. Zanzei pela área livre da academia sem dar muita importância ao barulho que aquelas gralhas faziam, pensando se Itachi voltaria para treinar no local que o encontrei e de que jeito eu conseguiria “esbarrar” com ele novamente.
Subitamente o cochicho de uma voz estridente se destacou no tumulto.
— Foi o que me disseram. A esposa do Yondaime ficou com pena porque os pais a abandonaram e pediu a ele para trazer ela para Konoha.
Havia um grupinho ao redor do dono daquele ruído asqueroso. O rato loiro falava como se a verdade estivesse guardada em seu bolso e o resto ouvia concordando e alimentando a fofoca. O círculo se desfez conforme me aproximei e o espanto aumentou quando o mandei repetir. Sem hesitar, ele atirou aquelas palavras imundas no meu rosto. Por um minuto não tive reação, apenas olhei para aquele bando de monstros que se diziam crianças, mas eram capazes de destruir os sentimentos dos outros sem motivo. Parte de mim estava magoada demais para responder, a outra queimava em raiva.
Eu deixei a última vencer.
Abaixei a cabeça fingindo chorar, cobrindo os olhos o suficiente para manter minha encenação, imitei um murmúrio agudo e forcei o soluço. Aguentei piadinhas sobre “pedras que choram” e eu não ser “tão durona quanto parecia”, esperei a brecha com mais paciência do que pensava ter e ao encontrá-la dei um soco com toda a minha força.
Eu bati e apanhei, contei uns quatro hematomas, mas fiz ao menos dois, ganhei uma falha na sobrancelha e revidei um rasgo na boca, recebi um convite de suspensão por uma semana que infelizmente não se estendeu ao meu colega. Nada se comparou ao olhar de Kushina.
— O que você queria que eu fizesse?! Fingisse que não tinha escutado?!
— Não precisava ter feito aquilo. — Ela rebateu numa tranquilidade cortante.
— Não? E simplesmente deixar a memória dos meus pais ser manchada por um babaca nojento?! Eles não merecem isso! Você sabe! — esbravejei sem me preocupar com o tom acusatório. — Como pode ficar tão calma quando alguém fala mal dos seus amigos?!
Ela me olhou de um jeito indistinguível, respirou com resignação e soltou em voz baixa:
— Eu não os conheci.
— Quê?!
— Não conheci seu pai ou sua mãe nem nunca ouvi falar deles antes de Kaede mandar Haiiro me entregar uma carta. — Kushina se calou por um instante me observando. — Contava sobre a doença, a busca pela cura, o sacrifício de Eiri para que vocês duas pudessem sobreviver. Pedia para que eu cuidasse de você e fosse paciente com sua falta de habilidade para conviver com outras pessoas. Sua mãe teve o cuidado de me avisar sobre o que poderia esperar e acertou todas as previsões. — Ela deu um sorriso fraco e continuou. — Eu escrevi a resposta e entreguei a Haiiro no mesmo dia, ainda acho que Kaede o enviou para ter certeza se podia confiar em mim, então algum tempo depois, você apareceu.
Eu não tive palavras, e as perguntas que apareceram se desmancharam diante do rosto de Kushina. Permaneci parada juntando os pedaços de um passado que desconhecia, tentando compreender a atitude de mamãe e, principalmente, quem era a mulher que me acolheu.
— Você... — sussurrei vendo minha intenção de resposta ser bloqueada pelas emoções. — Por quê?... Eu...
Queria dizer algo que fizesse sentido, expressar o quanto era grata, pedir desculpas, abraçá-la, saber mais sobre a carta... Queria tantas coisas que nenhuma consegui. No entanto, percebi, naquela conversa, um significado que ficaria marcado em mim. E eu voltei a lembrar dele várias e várias vezes enquanto as semanas deslizaram suavemente por meus olhos.
Tornei-me uma aluna mais aplicada dedicando um bom pedaço do meu tempo à arte ninja. As extensas horas de estudo mostravam sua valia a cada prova, prática ou teórica, e a dificuldade anterior gradativamente se parecia menos com um grande pedregulho e mais com um punhado de poeira. Parte de minha evolução se devia a observação das habilidades alheias que, apesar de me ajudar, cansava de diversas maneiras.
Itachi era enjoadamente metódico. Repetia os padrões e até atos simples como respirar, segurar o ar por três segundos e soltar quando se concentrava num alvo, ou piscar demoradamente diante do resultado de um movimento raciocinando sobre ele. Tudo era absurdamente igual todos os dias. Claro que isto conferia perfeição ao que fazia, entretanto era extremamente chato de assistir.
— Será que ele dorme sempre na mesma posição? Come na mesma tigela, usa o mesmo hashi?... — questionei-me cansada de observá-lo por meia hora sem perceber nada novo. — Deve ter um ritual sagrado para cada coisa que faz na vida. Previsível e tedioso que nem um livro de uma página só.
Ele me olhou com uma expressão que não dizia muita coisa, mas deixava claro que não era boa, e eu abri o sorriso mais amarelo e falso de minha curta existência. Porcaria! Ele tinha super audição? Eu não havia falado tão alto! Ao menos achava que não.
Voltei-me ao meu caderno rabiscando linhas sem lógica enquanto me perguntava onde ela estava. Não havia necessidade de estar ali vigiando Itachi nem fazia diferença, há tempos eu tinha memorizado seus movimentos e absorvido o que era útil, porém por alguma razão continuava a observar seu treinamento. Ainda que não trocássemos uma palavra e ele mal me dirigisse o olhar, mesmo tendo a certeza de que não era uma presença desejável; eu voltava àquele lugar para vê-lo. Talvez pelo silêncio que podia compartilhar com ele, a tranquilidade que emanava ou o segredo que seus olhos carregavam.
Havia neles algo que implorava para ser decifrado. Um traço singular de uma mistura que merecia ser analisada, igualmente forte e suave, cruel e gentil. Uma união de faces que instigava e convidava como se esperasse alguém corajoso o suficiente para ser o pioneiro a se aventurar naquela escuridão feita de íris e pupila. Em raros momentos, eu conseguia a chance de me concentrar neles. Eram curtos segundos de enfrentamento que terminavam em frustração. Itachi parecia saber o que eu fazia, pois bastava notar minha atenção sobre eles que desviava o olhar. Com isto, minhas conclusões nunca passavam de fragmentos embaralhados porque, incrivelmente, descobria uma característica diferente a cada encontro com seus olhos.
Seu rosto não me ajudava. Itachi possuía um talento natural para a inexpressividade, não importava o que fizesse, lá estava ele com a mesma cara de papel em branco. As únicas variações eram a respiração ofegante de cansaço e o mínimo levantar de sobrancelha ao constatar minha presença. Com o tempo, a última desapareceu tornando ainda mais complicado entendê-lo.
Ele não era uma criança comum. Seu corpo conhecia apenas o idioma shinobi, parecia inapto a qualquer outra coisa. Por vezes, pensava que nele havia um vazio que não poderia ser preenchido. Itachi treinava mais que o necessário e continuava apesar de alcançar a perfeição. Era angustiante. E evidente que perdera a infância em algum ponto de sua escalada no mundo ninja. Junto a ela, os traços infantis o abandonaram ao passo que o semblante adquiriu o peso característico do amadurecimento forçado. Era triste. E me corroia como um pressentimento ruim, afligia e debochava de minha incapacidade de tomar uma atitude. Eu nada podia fazer além de assisti-lo se afogar num oceano que certamente lhe roubava a alegria.
Acreditei que o fato de ele nunca ter me enxotado significava uma certa amizade, porém a ilusão durou o mesmo tempo que a cegueira de meus próprios sentimentos. Por que diabos, eu estava sempre ao redor dele? A resposta era tão clara, tão fácil que me recusei a aceitar o fato de não ter notado antes. Céus, o que eu vi naquela criatura? O mundo era repleto de garotos bonitos — e simpáticos — que poderiam distrair meus olhos e prender minha atenção. Dezenas de sorrisos admiráveis e rostos dignos de anjos que esbanjavam carisma, verdadeiras pinturas vivas que deixavam até uma senhora de idade boquiaberta... E eu enfeitiçada pela carranca do menino de ouro dos Uchiha. Era castigo!
Eu lutei contra o que sentia assim que me dei conta. Deixei meu hábito de encontrá-lo, — não sem me perder em questionamentos sobre o motivo de Itachi nunca ter mudado o local de treinamento, algo simples que o faria se livrar de mim com a rapidez de um estalar de dedos — evitei as ruas próximas ao distrito e tentei ao máximo não ficar perto de Sasuke quando buscava meu irmão na academia. Obviamente, eu me achava o ser mais idiota do mundo por meu comportamento, porém este me proporcionava um enorme alívio... que acabava quando me rendia à vontade de vê-lo.
Voltei à floresta admitindo a derrota novamente e sentei encostada àquela mesma árvore que parecia ter o contorno de minhas costas em seu tronco. Fechei os olhos pedindo que Itachi viesse e não viesse, debati-me em angústia, segurei a estúpida vontade de chorar e, por fim, aceitei o sentimento. Não havia volta ou solução, só me restava aprender a conviver com ele. Quando abri, meu desejo estava diante de mim com um pingo de curiosidade no olhar. Por sorte, fiquei estática em vez de engasgar.
O encarei tentando imaginar seus pensamentos e o silêncio tornou a situação mais complicada. Um estranho tempo depois, Itachi apontou para o próprio rosto. Devo ter feito cara de idiota porque ele repetiu o gesto como se tentasse explicar o que queria dizer. Continuei a fitá-lo franzindo o cenho numa terrível tentativa de entender até que ele finalmente abriu a boca.
— Seu rosto está ferido.
— Ah? — Passei a mão no lado que ele indicou e percebi o sangue trazido por meus dedos. — Ah... Algum galho ou sei lá. Às vezes me distraio e não sinto doer.
— Pode infeccionar.
— Já passei por coisas piores. — Dei de ombros.
A conversa morreu, e eu notei o quanto foi esquisita. Não fazia ideia da última vez que ele tinha falado comigo, mas sem dúvida não passou de um resmungo com menos de cinco palavras. Despedi-me por educação notando um questionamento em sua expressão e decidi não me importar com isto. Havia uma tempestade de confusão em minha cabeça e uma nova gota causaria a inundação que não estava disposta a enfrentar naquele momento.
Papai dizia que comer ajudava a pensar, e eu nunca esqueci a lição, no entanto o udon não moveu as engrenagens do meu cérebro da forma que imaginei, pelo contrário, elas pareciam mais lentas, girando num ritmo sonolento e disperso.
Apoiei a cabeça na mão esquerda e embarquei nas imagens que meus pensamentos mostravam, algumas sobre o passado, outras sem sentido, típicas do início de um sonho. Ao fundo uma voz conhecida chamou meu nome suavemente num sussurro que se repetiu ganhando volume e nitidez.
— Ka-o-ru.
Encolhi-me com o susto e o encarei me arrependendo imediatamente.
— Vá perturbar outro, não estou com paciência para aturar você.
— Bela forma de agradecer quem lhe salvou de se afogar na comida. Você ainda é tão mal-educada... — Shisui disse num falso desgosto.
— Ser intrometido também é falta de educação. Estamos empatados. Agora sai. — Reforcei a ordem gesticulando. — Xô!
— Não sou um pombo, Kaoru — rebateu com um pingo de desagrado. — E o lugar é aberto a quem paga, portanto eu sentarei e comerei durante o tempo que desejar. Se quiser, saia você. — Ocupou o lugar ao meu lado com ar de vitória.
Resmunguei um “idiota” que foi ignorado e me conformei com a presença dele.
Shisui estava bem mais alto, era impossível não notar. O cabelo continuava a bagunça de sempre, os olhos felinos pareciam mais afiados e o rosto carregava pouquíssimos vestígios do semblante de menino. Ele ainda emanava aquela aura agradável que dissipava a raiva provocada por suas réplicas irônicas e fazia com que eu abandonasse a postura defensiva.
— Como vai na Academia? — questionou de repente.
— Já foi pior...
— Como naquele dia que você socou seu colega de classe? — soltou me deixando surpresa e se antecipou a minha pergunta. — Você é da família do Hokage e as notícias correm rápido.
— Eu tive meus motivos.
— Imagino que sim — disse num tom compreensivo. — Então exceto os problemas na academia, tudo vai bem?... Com Kushina? Minato? Naruto? Itachi? Tem aprendido bastante com ele?
Assenti tentando entender onde queria chegar e Shisui sorriu como se tivesse pegado um coelho numa armadilha.
— Ei, o que quis dizer com isso?!
— Itachi comentou sobre você assisti-lo treinando. Foi apenas um comentário, nem bom nem ruim — falou despreocupadamente.
Eu queria enterrar minha cabeça no chão e cobrir com cascalho. Era tanta vergonha que mentalmente implorava para ele mudar o rumo da conversa e temia que não fizesse isso. Felizmente, o diálogo que prometia me colocar numa situação complicada foi interrompido pela chegada de uma garota que aparentemente o conhecia.
Ela era linda. Como as princesas das histórias que minha mãe contava. A pele morena clara possuía a quantidade perfeita de melanina e o aspecto da seda, o cabelo negro brilhante e impecável descansava sobre suas costas cobrindo-as até a metade. Seu olhar forte de quem nunca duvidava harmonizava com o semblante sério de feições finas que destacava os lábios desenhados pelas mãos da natureza em seu dia de maior inspiração. Não havia a mínima cicatriz, nada que maculasse a beleza de sua face. E como se tamanha perfeição não fosse o suficiente, ela se vestia com o primor e a elegância de alguém que pertencia à nobreza.
— É sua nova missão? — questionou séria e ao mesmo tempo com uma entonação desagradável. — Ser babá da protegida do Hokage?
Eu odiava intensamente aquele tipo de piadinha e teria saltado do banco para respondê-la com todas as letras se Shisui não tivesse me impedido.
— Aya, minha vida não lhe diz respeito. Faça-me o favor de seguir seu caminho e me privar de sua presença.
— Tenha um pouco de orgulho e pare de se misturar com os fracos. Seu apreço a gente medíocre é repugnante — disse cuspindo arrogância. — Acaso pretende colecionar inúteis ao seu redor? Um exemplar não é suficiente?
Num segundo, Shisui ficou diante de Aya. Os olhos dele estavam vazios, mergulhados numa raiva que assustava, porém não intimidava a garota que parecia satisfeita por tirar sua tranquilidade. A tensão perdurou até que um sussurro encerrou o silencioso confronto e provocou a partida da Uchiha.
Shisui respirou profundamente fitando o nada e o estranho clima permaneceu por minutos. Sua inquietação contida me afetava e a reação anterior enchia minha mente de perguntas, não mais do que o sussurro que não consegui compreender.
— Fique longe de Aya. Se ela lhe provocar, ignore, se dirigir a palavra a você, aja como se não tivesse escutado — pronunciou num tom pesado. — Ouviu bem?
— Posso me defender sozinha e não tenho medo de palavras. Você deveria ter me deixado responder.
— Para ser humilhada por ela? Não! Na minha frente, Aya nunca fará isso com ninguém!
Ele se calou novamente. Era um silêncio de lembranças, daquelas que arrancam do presente em segundos, mas levam muitos minutos para devolver. Isto aumentou minha curiosidade quanto à relação entre eles e o que levou àquela antipatia declarada.
— Vocês sempre foram assim um com o outro? — arrisquei sem muita esperança de obter resposta.
— Não — soltou devagar, retornando da abstração. — Eu ignorava a soberba de Aya e não me importava com o que ela dizia.
— Até?...
— Até ela usar seu veneno contra uma pessoa que é importante para mim.
Não insisti. Remexer as memórias tristes dos outros para satisfazer um interesse fútil não era correto. Entretanto, a vontade de saber a quem Shisui se referia se instalou em mim e antes que eu formulasse “ingênuas” perguntas para cavar o que queria, concentrei esforços em terminar a comida.
— O pior de tudo é que só percebi quando o mal estava feito. — Mostrou um sorriso amargo. — Mesmo conhecendo-a desde criança, não notei sua fragilidade e não pude evitar o efeito das palavras de Aya sobre ela... E eu ainda não sei o que fazer para ajudá-la.
— Mostre que se importa, que está ao lado dela.
— Talvez isso não seja o suficiente.
— Talvez seja a única coisa que ela precisa. A gente sempre acha que sabe o que o outro quer e muitas vezes não deixa ele dizer. Às vezes só basta saber que alguém está ali para a gente — disse ficando nervosa ao notar que ele me olhava fixamente. — Não seja idiota de achar que não a ajuda só porque a reação dela é diferente do que você espera. Se tem dúvida, fale com ela, pergunte se poder fazer algo, mas não ande por aí com essa cara de bocó! E afinal de quem estamos falando?!
— Eu sabia que você não era de todo o mal. — Ele sorriu me deixando confusa. — Não use a grosseria como defesa, ela ofusca quem você é de verdade.
A frase de Shisui me desarmou e fez refletir na mesma medida. Incomodou, remexeu, irritou, perfurou a bolha de presunção na qual eu me abrigara e não queria sair; sacudiu parte da consciência propositalmente adormecida por mim. Com o tempo admiti que as palavras que menos desejava ouvir foram as que mais me fizeram crescer. Escutá-las num primeiro momento sempre era ruim, porém depois da pancada inicial — e a negação, raiva, vontade de revidar — era possível ver através delas e compreender as mensagens que transmitiam.
Embora tivesse aceitado meus sentimentos por Itachi, eu ainda tentava me livrar do hábito, ou vício, de vê-lo com uma regularidade que não poderia ser considerada normal. Sentia-me orgulhosa quando conseguia passar vários dias longe dele e os contava como se fossem troféus de minhas bem sucedidas batalhas, mas como em toda guerra, algumas vezes o inimigo ganhava. Naquele fim de tarde, em especial, meu inimigo se comportava estranhamente.
Itachi não descansava. Eu havia contado uma hora e nela, ele não interrompeu o treinamento. Tive a impressão de que estava ali muito tempo antes de eu chegar, pois ofegava absurdamente banhado em seu próprio suor. Seus movimentos eram um pouco mais lentos do que o costume, provavelmente ocasionados pelo cansaço, o rosto exibia olheiras acentuadamente escuras e os olhos, raiva por trás da persistência. Não ousei interrompê-lo ou dirigir a palavra apesar de temer que colapsasse. Esperei-o terminar contando os intermináveis minutos, tentando me manter calma para a possibilidade de ele precisar de cuidados e buscando compreender, mesmo que minimamente, o que acontecia.
Demorei um pouco para me aproximar quando Itachi finalmente parou. Controlar a vontade de correr até ele foi angustiante. Metade de mim gritava para ignorar a cautela, a outra me segurava e alertava que eu deveria ser prudente em minhas atitudes. Andei como se estivesse aprendendo, analisando todas as reações dele, verificando a cada passo se recebia autorização para me aproximar, segurando o coração como se fosse um filhote assustado. Ele não se moveu um centímetro por minha causa, permaneceu fitando o solo enquanto sua respiração caminhava para a normalidade. Juntei o resto de coragem que sobrou e me agachei ao seu lado esperando que as piores hipóteses inventadas por minha mente se tornassem realidade. Retirei da bolsa o cantil e a pequena tolha que sempre carregava comigo e estendi a ele.
— Pega — disse o mais suave que consegui.
Itachi me encarou por instantes que gelaram meu sangue e embaralharam meus pensamentos. De repente, eu não sabia agir, falar, raciocinar. Estava presa em sua imagem de cabelos úmidos e desgrenhados, lábios semiabertos e olhar hipnótico.
Internamente supliquei que ele desse um basta naquilo, não importasse o modo.
Minhas mãos quase caíram quando Itachi pegou os objetos, era um alívio vazio que conduzia a um novo medo. Não esperei ser tomada por ele. Levantei e comecei a reunir as kunais e shurikens, usando aquele ato para aquietar a agitação que me consumia. As reflexões sopravam em meu cérebro como o bater de asas de um beija-flor e por mais força que fizesse para impedi-las de seguirem seu fluxo e formar conclusões, não consegui interromper uma sequer. A verdade era que eu desejava relembrar aquela cena e suas sensações mesmo sem saber lidar com elas, queria formular possibilidades que jamais passariam disso e sonhar acordada com elas. Infelizmente, o sonho nem teve chance de começar.
— Ele... foi embora?... — Apertei os olhos, descrente. — Mas... que merda! Não acredito nisso! — Olhei ao redor. Nada. — Bem feito, Kaoru, vê se aprende e larga de ser idiota! Isso é o que dá ajudar os outros... Tá certo que eu não esperava muito dele, mas isso foi muito errado! Quem ele pensa que é?! Garoto imbecil, insensível, mal-educado... — Minha voz morreu ao vê-lo surgir diante de mim.
Itachi não pareceu surpreso com os xingamentos. Imaginei o quanto tinha ouvido e as perspectivas eram de ruins a péssimas. Pela incerteza, achei melhor pedir desculpas, porém ele se adiantou na fala.
— Fui ao rio enchê-lo. — Entregou-me o cantil. — Devolverei a tolha depois. Obrigado por ambos e por ter reunido meus pertences.
Ele tomou suas armas, e as minhas desculpas sufocaram a garganta com o ardor da vergonha pela injustiça.
— Itachi! — chamei aflita ao perceber que estava partindo. — Desculpa. Pensei que tivesse ido...
Não me permiti completar. Não poderia dizer “e me deixado sozinha”. Seria o ápice da rendição, a derradeira pista de um mistério praticamente elucidado e o risco de sair magoada por uma resposta que não suportaria ouvir. Não havia vínculo entre nós, no máximo uma poeira de camaradagem que provavelmente foi levada pelo vento depois do que falei.
Eu o vi partir carregando a réplica que deveria ter me dado e a expressão livre de emoções, deixando para mim um punhado de novas dúvidas e certezas dolorosas.
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