C.A.S.U. [Em Revisão]
14 Segunda voz: Mergulho no passado - Parte Final
Notas iniciais
6ª Ato – Sacramentado
“Eu tentei mostrar que sou forte
Apenas para conseguir o tempo todo
O sentimento de querer ser mimada por alguém
Ficou apenas uma tentativa mal feita de não demonstrar.
O formato do amor é igual ao do seu coração
Não importa quem você seja
Então, diga que meu coração é igual ao seu.”
Nós contabilizávamos inúmeros silêncios, porém nenhum havia esmagado meu coração como aquele. Era frio, insípido, cortante e aflitivo como a lâmina do vento de uma indesejável e inevitável mudança. Derrubava a firmeza a que eu me apegara feito uma onda engolindo um castelo de areia. Preenchia e me paralisava com o medo da réplica desdenhosa que havia imaginado.
A camisa preta era o ponto de equilíbrio ao qual me apegava para não esmorecer. Fitá-la era correr para o vazio que precisava, o vazio salvador de fingir ignorar meus sentimentos. O trunfo que segurava com todas as forças para conquistar a vitória. O último ato do melodrama da minha vida.
— Não posso.
A voz sólida e pungente reverberou em minha mente, arrancando os frágeis fios de estabilidade. Demorei a crer no que ouvi, procurando o motivo daquelas palavras e ao encontrar, a raiva me tomou com mais força: Itachi era tão egoísta que era incapaz de me libertar.
— Até quando vai brincar comigo?! — Levantei a cabeça, encarando-o.
— Eu nunca brinquei com você... — disse devagar. — Por que diz isso?
— Mentiroso! Foi só isso o que você fez o tempo todo! — gritei. — E eu acreditei nas coisas que falou... — Mirei o solo temendo ser traída por lágrimas.
Doía perceber o quão estúpida fui, que respirei a ilusão e mesmo agora ao tentar rompê-la, parte de mim não queria deixá-la ir. Agarrando-se àquele primeiro amor como se fosse algo único que jamais se repetiria.
Uma brisa soprou como um aviso de que eu deveria partir antes que fosse tarde. Cerrei os punhos e virei o corpo, paralisando ao sentir seus dedos no canto de minha boca, puxando os fios de cabelos que estavam presos nela.
— Não me toque! — Segurei sua mão com força.
— Eu não menti. O que lhe disse era o que eu sentia — pronunciou calmo.
— O que você sente?! Eu não entendo! Você falou coisas que me fizeram pensar... Depois agiu como se nada daquilo fosse verdade...
— Eu agi? — A pergunta soou tão inocente que me machucou ainda mais. — Quando?
— Sempre... — respondi e, decidida a aprofundar de vez a ferida, continuei: — Você pode dizer seus sentimentos para alguém mil vezes, mas de nada vai adiantar se não a fizer sentir... Suas palavras indicavam que queria ficar perto de mim, mas suas atitudes não mostraram isso... Então, eu cansei... porque dói... — O esgotamento provocado pela conversa me apertou violentamente e eu vi que continuá-la só me deixaria pior.
Ele dobrou os dedos sobre os meus e levou-os até sua face, fitando-me o tempo inteiro até deitá-la sobre minha palma, fechar os olhos e permanecer assim enquanto eu assistia a cena sem conseguir me mexer. Tencionei puxar a mão, no entanto a força para tal esfarelou diante de sua expressão serena. Encarei-o com aflição como se esperasse o golpe final e deixei escapar um suspiro assustado quando senti o toque em meu rosto.
— É tão quente... — murmurou com a palma colada a ele, arrastando-me para a noite que brilhava em suas íris. — O quão perto, eu preciso ficar?
A voz não veio. Minha garganta parecia ter secado e os pensamentos se espalhado feito penugens de um dente-de-leão ao vento. O desejo de responder se debateu em meu íntimo até transbordar numa angústia muda que me imobilizava e esmagava em igual proporção.
Itachi escorregou seu polegar até tocar minha boca, mantendo os olhos fixos no trajeto que percorria e provocando uma mistura de emoções que acelerou meu coração. Aproximou-se devagar até encostar o nariz no meu, deslizando-o por ele e roçando nossos lábios com suavidade, antes de pressionar os meus num beijo calmo.
Senti-me amolecer e precisei segurar sua camisa para garantir que me manteria de pé caso minhas pernas falhassem. Inspirei profundamente sua pele, descobrindo um cheiro bom que lembrava calor, pôr-do-sol e domingo de manhã, daqueles que se acorda sorrindo só porque amanheceu e se espreguiça na cama até rolar e alcançar quem ama. Por fim, quando Itachi separou nossos lábios, não consegui encará-lo. Abracei-o, deitando a cabeça em seu ombro. Era confortável. Como se aquele lugar fosse feito para mim.
— Perto assim... — finalmente respondi.
"Sem se importar com o que acontecia você me amou
Com sua amabilidade suave, muito suave em todo momento
Continua me protegendo
Ainda que seja forte ou débil com um cálido afeto."
— Esse sorriso tem nome? — Kushina perguntou sentando ao meu lado.
— Tem. Chama-se sorriso. — Fechei meu caderno. — Ah, o que deu em você? Sabe que não gosto de ninguém por perto quando escrevo.
— Deve gostar menos ainda quando esconde algo, né?
— Não sei do que está falando. — Pulei do sofá. — Vou andar por aí. Comerei na rua, não se preocupe.
Eu não sabia definir minha relação com Itachi e a mantinha em segredo pela incerteza. Depois do beijo, ele saiu em missão e ainda não havia voltado. Isso me deixava ansiosa e com a estranha sensação de quebra, como se a distância fosse capaz de mudar o que havia acontecido. Durante a ausência dele contei os dias, preenchi as horas e empurrei os minutos, descobrindo que nada me acalmava. O quão estúpido era achar que Konoha ficava vazia sem ele? Desejar ver o cabelo esvoaçando em seu rosto e o jeito delicado de tirar dele, a franja? Ou me concentrar no círculo sutil que separava suas íris das pupilas?
Mordi o palito que carregava o último dango, balançando-o para cima e para baixo, de um lado para outro, fitando o bolinho verde na tentativa de encontrar algo interessante enquanto arrastava meus pés pelas ruas pouco movimentadas, vendo-o se desprender e voar pelo ar.
Abocanhei-o num pulo, sentindo meus dentes esmagarem minha língua e as lágrimas correrem para a beirada de meus olhos esperando a vez de cair. Choraminguei um palavrão alto demais, ignorando o olhar duro de uma mulher que passeava com seu filho e pus a língua para fora tentando medir o tamanho do estrago. Xinguei de novo por não conseguir ver e novamente quando rocei a parte machucada no canino. Insisti um pouco mais, certa de que teria êxito e parei ao notar uma sombra a minha frente.
— Tudo bem?... — Itachi questionou incerto. — Deixe-me ver.
Neguei com a cabeça encarando o pedido em seu rosto até ceder a ele.
— Está feio... — sentenciou ainda analisando. — Seus dentes conseguem fazer um grande estrago.
Itachi finalizou o exame e me olhou como se nada tivesse acontecido, enchendo minha cabeça de conclusões ruins que se formaram devido ao seu silêncio repentino. Pensei em diversos assuntos que pudessem quebrá-lo, porém a vontade de ouvir algo que viesse dele me fez desistir.
Num consenso mudo caminhamos pela vila até cruzar o rio e se embrenhar pela área verde próxima a ele. Nós parecíamos ter a mesma necessidade de isolamento e esta se intensificava quando estávamos juntos. Infelizmente, não compartilhávamos da igual necessidade de falar, o que me deixava com um monte de palavras acumuladas na garganta.
Naquela noite, eu decidi espelhar o mutismo dele embora minha ansiedade gritasse o contrário. Talvez assim pudesse compreendê-lo mais, além disso, precisava encontrar um remédio para a ânsia de ouvir sua voz.
Sentamos encostados a uma árvore e a falta de conversa me fez viajar pelo céu. As estrelas brilhavam como pontos de diamantes num véu negro, cravejando-o com sua beleza e intensidade. Deixei meu lugar para deitar na grama, escapando da frondosa copa que se colocava entre mim e a parte do céu que refletia minhas lembranças. Apontei para as constelações, relembrando seus nomes, reconhecendo-as por seus formatos e quantidade de estrelas, perdendo-me naquela brincadeira com gosto de saudade e sorrindo uma felicidade amarga.
— Papai me ensinou o nome de muitas delas... Aquela é a Mintaka. Foi a primeira que aprendi, por isso é especial para mim — disse a Itachi, que se colocou ao meu lado e as fitou enquanto me ouvia pronunciar suas designações. — Nós ficávamos olhando para elas por horas, e papai sempre contava alguma história extraordinária. Ele sabia tudo... — Minha voz cedeu ao nó na garganta, e eu apertei os olhos com força tentando afastar os pensamentos que prometiam me fazer desmoronar.
— Dói muito?
— Todos os dias, como se nunca fosse parar de doer...
O vento assobiou baixo e fez as folhas chiarem com sua passagem repentina e vigorosa, apressando as nuvens para anunciar a chuva que levaria algumas horas para chegar, então ele cessou do mesmo jeito que começou, deixando tudo numa calmaria profunda e densa que pressionava os que se arriscavam a explorar a mata durante a noite.
Senti a respiração em meu rosto e me assustei ao ver Itachi perto demais. Seus olhos estavam fechados e a testa repousava sobre a minha. A expressão serena e indecifrável.
— O que está fazendo?...
— Sentindo.
Meu estômago se encolheu e um desespero sem sentido se debateu dentro de mim rasgando meu íntimo com suas unhas. As imagens daquele futuro perfuraram meu coração, e eu deitei a cabeça dele em meu ombro afagando seu cabelo.
— Espero que o dia em que você sentirá essa dor demore bastante a chegar — sussurrei, abraçando-o com força.
Era quase meia-noite quando chegamos a minha casa com nossos passos lentos de quem não desejava que o dia acabasse. Eu quis dizer “tchau” e sair correndo igual às outras vezes, no entanto a vontade de ver o que Itachi faria foi maior.
— Obrigado por me mostrar as estrelas.
— Não precisa agradecer. Podemos vê-las sempre que quiser.
Nossos olhares se prenderam e a ansiedade aumentou junto à quantidade de minutos que passamos em silêncio. Sem perceber, recuei um passo, preparando meus pés para a corrida. Itachi colocou meu rosto entre suas mãos e beijou minha testa, demorando-se naquele gesto, depois sem me dar tempo de pensar nele, selou seus lábios aos meus, pressionando-os mais que antes. Separou-nos por alguns segundos, fitando-me com uma intensidade que me deixou confusa e nos uniu novamente.
— Tenho que ir — murmurou num tom doce.
— Tá... — respondi sorrindo.
— Então esse é o motivo do seu sorriso... — A voz de Kushina me paralisou por completo. — Não vai dizer que vi errado, né?
— Não... é que... — Forcei uma resposta em vão.
Itachi abriu a boca para arriscar a sua, no entanto Minato foi mais rápido:
— Kushina, vamos dormir! Você já conseguiu provar o que queria. Deixe as crianças em paz — falou sonolento, coçando o olho e carregando um Naruto bastante atento ao que acontecia.
— Estou indo! — gritou para ele, em seguida sussurrou para nós de um jeito esquisito: — Comportem-se!
Pisquei várias vezes tentando compreender e me virei para Itachi, notando seu olhar perdido na grama.
— Entendeu o que ela quis dizer? — questionei. Ele me encarou com os olhos levemente arregalados. — O que é?! Me conta! — Agarrei seus braços. — Vai, me conta! — Quanto mais eu os apertava, mais Itachi se enrijecia.
Ele remexeu os lábios formando sílabas mudas, suspirou e exprimiu baixinho:
— Por favor, não me obrigue.
— É tão ruim assim?
— É vergonhoso.
Pensar em algo constrangedor do ponto de vista de Itachi aumentou minha curiosidade feito fogo após receber uma boa dose de líquido inflamável. Quase esqueci seu pedido e o sacudi até arrancar a resposta, porém a leve aflição que vislumbrei em sua expressão me fez desistir. Minutos depois descobri o motivo e agradeci aos céus por minha decisão enquanto afundava no mar da vergonha.
Um ano correu o calendário feito um cometa cruzando o espaço.
O distrito era muito diferente agora. Havia alguns acenos simpáticos, uns poucos sorrisos e nenhuma expressão de “o que você faz por aqui”? A atmosfera parecia mais quente e as ruas aconchegantes com suas típicas brisas que abraçavam quem andava por elas.
Não demorei a decorar aquele lugar e seus detalhes. Eu visitava o território Uchiha com regularidade devido à impaciência de esperar Itachi, que via sua pontualidade ímpar sempre perder para minha ansiedade, e para calar a vontade de vê-lo nos dias em que nada tínhamos combinado. No começo ficava sem jeito e preferia chamar por Sasuke, porém a desconfiança por meu interesse em seu irmão cresceu rápido e se transformou em ciúme quando um loirinho fofoqueiro deu com a língua nos dentes. Levou um tempo para o pequeno parar de pensar que eu iria roubar seu irmão, mas ele ainda me encarava com aquela expressão de “estou de olho em você”.
Depois do estranhamento com o mini Uchiha, procurei métodos mais eficientes de me anunciar, encontrando na janela a saída perfeita. Itachi a fechava raramente, o que permitia a visão de tudo o que acontecia em seu quarto e uma maneira prática de encontrá-lo sem intermediários.
Corri os muros pintados com leques me aproximando da casa dele, pronta para contornar a entrada e seguir até o telhado que me servia como ponto de espionagem quando meus passos desaceleraram ao ver Aya, e traíram a vontade de ignorá-la ao notar a forma que Fugaku a tratava.
A conversa agradável parecia a extensão de algum assunto iniciado dentro da residência. Com um sorriso brando no rosto, ele falava descontraído com uma intimidade que dedicava somente a quem lhe era próximo. Era possível perceber a estima que emanava dele para ela, inclusive o traço de orgulho em sua expressão.
Meu coração se roeu e tentou negar as evidências. Engoli o orgulho rasgado tomando o caminho de volta, porém a tentativa de desaparecer sem deixar rastros foi frustrada pelo olhar duro e fixo de Fugaku, que devolvi na mesma medida, escondendo as emoções e esperando uma reação ríspida.
— Itachi não está — limitou-se sem me permitir decifrar o tom de sua voz.
Assenti devagar descendo do muro e me dirigindo a saída num andar calmo de músculos retesados e arrogância fingida, maltratando os dentes com toda a força que meu maxilar era capaz de produzir. Disfarcei um par de vezes diante de alguns conhecidos com um sorriso fraco e superficial, levando-o até o jardim de entrada onde me joguei em um dos bancos e a máscara em outro. O fôlego durou poucos minutos sendo tragado pelo som odioso da fala de Aya.
— O capitão é meu mestre e apesar de eu ter me tornado jounin conversamos com frequência — disse sentando ao meu lado. — No clã Uchiha, os casamentos arranjados são comuns, assim mantemos a pureza de nosso sangue e impedimos que os laços enfraqueçam. Fugaku e Mikoto se casaram desse modo. O antigo líder a escolheu para ser mulher de seu filho. — Ela se virou para mim. — Você nunca entrará naquela casa pela porta da frente. Será sempre a aventura escondida, o segredo sujo que se confidencia apenas ao melhor amigo... Garotos da idade de Itachi procuram satisfazer os chamados de seus hormônios, divertindo-se com os tipos disponíveis. Quanto mais fácil, mais excitante porque diversão grátis e rápida é tudo o que precisam. Adicione a isso a paixonite de uma garota estúpida para inflar o ego e está pronta a mistura perfeita e irrecusável para um adolescente ansioso por exercer sua virilidade. Faça um favor a si mesma e pare de esmolar sentimentos. Conserve o resto de dignidade que lhe sobrou.
A indiferença do discurso se igualava a frieza de seus olhos e contrastava com algo que se esfarelava dentro de mim, polvilhando as minhas verdades com incertezas. Eu sabia que precisava lutar contra elas e me defender do que ouvira, mesmo que fosse somente pelo simples revidar.
— Ótimo conselho... — exprimi aumentando sua presunção. — Repita-o até aprendê-lo.
O ensaio de satisfação no rosto dela se desmanchou num semblante endurecido, típico dos que se sentiam afrontados, e a madeira abaixo de seus dedos protestou contra o talho sofrido.
— Nossa conversa acaba aqui. — Levantei.
— Perdeu a chance de sair sem se machucar.
Encarei-a confusa, percebendo seu foco mudar. Acompanhei seu olhar até avistar Akane e sentir um silêncio esmagador pairar pelo ar, assobiando uma melodia tenebrosa de arrepiar a espinha.
— Pergunto-me o que vocês têm em comum para resultar numa conversa tão longa. — Akane afiou a voz. — Não deve ser Itachi nem os costumes de nosso clã, muito menos quem tem ou não direito de frequentar a casa do capitão... Realmente não consigo encontrar um assunto que possa ser discutido pelas duas. — Sua face expressava uma ordem e ao mesmo tempo um desafio enquanto a de Aya tentava se manter impassível apesar da hesitação que a empoeirava.
O enfrentamento se prolongou por segundos disfarçados de horas tendo seu ápice nos passos imperiosos de Akane em nossa direção, fazendo Aya levantar de imediato. Uma onda de tensão me atingiu quando a proximidade entre as duas diminuiu e as íris brilharam num carmesim profundo.
A casa de Kagami cheirava a arroz fresco e ecoava a música que ele cantarolava baixo em meio aos “mmm” e o barulho das panelas sendo remexidas. Levei alguns segundos para me acostumar com a visão dele vestindo um avental preto sobre a blusa de mangas arregaçadas e a bermuda que eu podia jurar pertencer a Shisui.
— Não esperava visitas... — justificou-se assim que me viu. — Mas é claro que você é bem-vinda! — completou com sua gentileza ímpar.
— Tio, importa-se de cozinhar sozinho hoje? — Akane questionou pondo uma sacola de compras na mesa.
Ele negou, e ela gesticulou para que eu a acompanhasse. Até aquele momento não havia pensando no motivo do convite, tinha limitado meus pensamentos a fugir das emoções ruins que invadiram minha tranquilidade.
Ocupamos o espaço da varanda em frente à árvore que esticava os galhos acariciando o telhado com suas folhas. O assoalho envernizado denunciava o cuidado que atribuí ao dono da residência e brigava com os gravetos derrubados pelo vento. Havia um amontoado de pétalas laranja na grama, que tremia como se estivesse prestes a se tornar parte de um redemoinho. Algumas escaparam até meus pés e outras se misturaram aos fios de cabelo de Akane formando um bonito contraste.
— Não deixe que aquilo lhe afete. São mentiras com o único objetivo de desestabilizá-la — soltou, obrigando-me a olhá-la. — Itachi não permite a qualquer um entrar em seu espaço pessoal, toda a cordialidade usada por ele é um escudo para repelir os indesejados de forma sutil. Arrisco dizer que quanto mais educado é com uma pessoa, mais a ignora. É impossível chegar perto do bloco de gelo sem seu consentimento.
— Sei disso... — devolvi baixo.
— Você conquistou o que Aya queria, por isso ela lhe atacou daquela forma. Não caia no jogo dela.
Eu não tinha o que dizer. Estava ocupada demais lutando contra o que ouvi e vi, tentando impedir que aquelas imagens e frases colassem no meu cérebro, perdendo uma batalha atrás da outra.
— Será mesmo que tudo é mentira? Ainda que uma ou outra coisa tenha sido exagerada, não há nenhuma verdade nas entrelinhas? — murmurei com pesar. — Eu posso ter conquistado o que Aya queria, mas jamais terei o que ela possui. Percebi isso hoje.
— O que você tem lhe fará alcançar o que ela possui, porém o contrário não acontecerá.
— Não importa — menti.
— Um relacionamento termina por diversos motivos e a não aceitação dos pais só se torna um deles quando permitimos — pronunciou com firmeza. — Além disso, você está sendo precipitada em seu julgamento.
— O jeito que Fugaku me olha não deixa dúvidas... — suspirei. — Não quero falar sobre isso. Estou mais interessada na razão para você ter se tornado tão solicita de uma hora para outra. Qual é a sua? Por que se meteu na minha conversa? Por que está bancando a boazinha, cheia de conselhos e simpatia?
Akane arqueou as sobrancelhas e piscou devagar um par de vezes, depois relaxou o semblante e respondeu com ar pensativo:
— Quando uma pessoa passa pelos mesmos problemas que você é quase inevitável sentir junto com ela...
— Do que está falando?!
Ela virou o rosto e fitou um pássaro negro que cruzava o céu. A calma que emanava abrigava um fundo pesado que se derramou em sua fala.
— Alguns anos atrás, eu me deixei levar pelas palavras de Aya. Elas se enraizaram em mim e me cegaram. Demorei muito tempo para enxergar a verdade.
— E o que fez quando enxergou?
— Devolvi a ela tudo o que me deu... Sempre devolva às pessoas as emoções que lhe causaram.
Tencionei questioná-la como, no entanto Shisui apareceu exclamando sobre ter que dividir o almoço com uma intrusa,e o diálogo mudou de rumo.
— Eu a convidei. — Akane pontuou.
— Aposto que ela lhe convenceu fazendo cara de faminta.
— Vá à merda, idiota! — rebati.
— Mas que criatura abusada, veio aqui só para comer e me destrata desse jeito! — Fingiu reprovação.
— Tome um banho, a comida logo ficará pronta. — Akane pronunciou, recebendo um sinal de afirmação.
Shisui se abaixou e a beijou na testa. Os olhos de ambos se fecharam em sincronia quando o toque se concretizou e assim permaneceram por um breve tempo. A cena rápida passou por minha visão em câmera lenta, tamanha a quantidade de detalhes que exibiu.
— Nem pense em beliscar enquanto isso, pirralha! — Ele se dirigiu a mim e se foi antes que eu pudesse revidar.
Evitei encarar Akane, pregando meu olhar na árvore e tentando forçar o interesse no desenho da madeira enquanto meus pensamentos borbulhavam de deduções.
— É exatamente o que está pensando.
Entreabri os lábios ao ouvir e os fechei ao me dar conta da reação. Apertei a barra da bermuda, expulsando a chuva de perguntas que encharcava meu cérebro, fingindo desinteresse.
— É,... por acaso, isso não foi o motivo do problema com a Aya, né?
— Não.
— Menos mal... Seria muito esquisito. — Calei-me por um instante. — Quando eu procurei Shisui para me ajudar a treinar já?...
— Sim.
— Hum... Eu deveria ter percebido. Você parecia muito raivosa por nada.
— Como? — Sua voz subiu um tom. — Acha que senti ciúmes?
— É você quem está dizendo.
Ela não se pronunciou sobre o fato, deixando-me sozinha com o pretexto de que iria até a cozinha verificar se Kagami precisava de ajuda.
Impressionei-me com o quanto os Uchiha podiam ser agitados, nada comparado com os almoços na casa de Kushina, mas bem diferente da imagem que eu possuía do clã dos rabugentos.
Eles falaram sobre um monte de bobagens normais em um almoço de família, riram e implicaram um com o outro, principalmente com Shisui e sua inabilidade culinária. Havia uma velha promessa de ele mudar esta realidade, porém a preguiça falava mais alto, transformando-o num exímio cozinheiro de frituras e ramen instantâneo.
— Um homem que não sabe cozinhar não serve para casar. — Akane disparou com serenidade.
— Ei, isso é exagero! E as outras qualidades não importam? — Shisui se defendeu.
— Cozinhar é básico. Todo mundo tem que saber. — Kagami corroborou.
— Obrigado, pai!
— Eu concordo, é questão de sobrevivência — opinei.
— Até você?! — Shisui suspirou derrotado. — Todos estão contra mim...
Nós estávamos quase na sobremesa quando o chamado de Itachi do lado de fora ecoou dentro de mim, tomando minha capacidade de reagir. Foi estranho vê-lo ali por minha causa e a sensação aumentou ao caminharmos pelo distrito.
— Está tudo bem? — Ele perguntou de novo, e eu assenti apesar de saber que era idiotice mentir. — Você disse que estaria ocupada hoje de manhã, por isso fui treinar com Shisui. Deveria tê-la avisado.
— Não foi sua culpa, eu ter terminado cedo. Não precisa me avisar sobre tudo o que faz.
Senti ele me observar com uma concentração fora do comum, parecia esquadrinhar minha alma em busca da resposta que eu lhe negava, despindo-a de sua armadura e alcançando a fragilidade que não queria demonstrar, deixando-me a mercê do que seus olhos desejavam arrancar de mim.
Uma frase prometeu deixar sua boca, contudo desistiu diante do encontro com Fugaku. Pai e filho se encararam por um breve instante, e Itachi entrelaçou nossas mãos sem desviar o olhar dele. Os dedos pressionaram os meus com força e a umidade em sua palma se evidenciou quando o mínimo espaço que a separava da minha foi suprimido.
Fugaku assistiu mudo, atentando-se aos detalhes daquele gesto, depois se concentrou em nossos rostos numa análise fria.
— Volte antes do jantar.
— Sim, pai.
Eu assenti, por instinto, ao notar a atenção do líder Uchiha sobre mim e respirei aliviada quando saí da presença dele. O tremor ainda perturbava meu corpo e meus batimentos teimavam em não desacelerar, porém o desconforto deu lugar à satisfação ao perceber que minha mão permanecia enroscada a de Itachi.
Arrastei meus pés na areia reparando a bioluminescência nela. À frente o oceano se exibia como um manto negro, fazendo do brilho da lua um espetáculo a parte. Na floresta, os vaga-lumes dançavam celebrando a beleza do rio que desaguava no mar e mesmo com o encontro das águas permanecia doce. Algumas rochas do outro lado dele tinham o triplo do meu tamanho e apontavam minha insignificância diante daquele cenário. Suspirei fitando as estrelas, encontrando o ponto no qual as coisas começaram a dar errado. Certamente fora naquela manhã em que eu mal havia dormido por causa da ansiedade, era nossa primeira missão juntos.
Entrei no quarto de Itachi e o encontrei dormindo. Faltavam horas para nossa saída, no entanto eu já estava pronta. Aproximei-me devagar tocando seu ombro de leve e sussurrei com o máximo de suavidade:
— Ita, acorde...
Num segundo, o lençol voou em direção ao guarda-roupa, e eu me vi no chão encarando o sharingan no olhar frenético do homem acima de mim, que imobilizava meus punhos com uma de suas mãos enquanto a outra buscava uma kunai escondida.
— Bom dia... — pronunciei incerta.
— Que diabos está fazendo aqui?! — questionou, levantando-se de súbito.
— Temos uma missão, lembra-se?
— É cedo demais!
— Eu sei... Estou ansiosa — pronunciei manhosa.
Ele cerrou os olhos e expirou com força, sentando na cama e abaixando a cabeça. Expirou novamente e me encarou de um jeito perigoso.
— Não faça de novo — falou pausadamente. — Eu estava no meio de um pesadelo, poderia tê-la machucado.
— Era muito ruim? — Agachei-me em frente a ele, abrindo espaço para ver seu rosto.
— Esquece.
— Não precisa esconder, pode me contar qualquer coisa.
Itachi me encarou como se ponderasse sobre a possibilidade de falar. Aos poucos, a tensão deixou seu rosto, e ele pediu desculpas por ter me assustado, em seguida desviou o assunto para a missão.
A tensão que emanava de Itachi era enorme. Iniciou-se ao sairmos de Konoha e continuou durante nosso trajeto até Kumo, perdurando durante a missão até se estilhaçar perante seu temor convertido em realidade.
Um golpe. O único que recebi e o suficiente para colocar minha vida em risco. Um momento de distração que só não teve um desfecho pior devido a sorte de encontrar um médico ninja habilidoso. Ele reverteu o efeito do jutsu antes que iniciasse a desintegração de minha caixa torácica, salvando meu coração de ser perfurado até a última batida.
A dor de sentir meus ossos se fragmentando foi rapidamente esquecida graças à conversa com Itachi. Eu não fazia ideia que podíamos discutir daquele jeito.
— Nunca perca o foco da luta, não importa se alguém estiver morrendo ao seu lado! Nunca deixe o inimigo atingir você! Não permita que ele perceba seus pensamentos, não seja óbvia em suas atitudes!
— Vá pro inferno, eu não sou um soldado! — explodi. Havia escutado calada por minutos enquanto ele despejava seu sermão carregado de raiva, mas alcancei meu limite. — Eu erro e faço escolhas ruins como todo mundo! Não sou perfeita e nem você é! Quer agir como a merda de um capitão?! Ótimo! Mas eu não vou agir como sua subordinada! Eu assumo o meu descuido, mas não me arrependo de ter seguido minha emoção!
— Não se arrepende?! Poderia ter morrido por causa disso! — vociferou. Parecia que toda a sua calma havia se esvaído. — Tem alguma noção de como me senti?! Eu não suporto a ideia de vê-la machucada!
— É exatamente como me sinto em relação a você! Pare de agir como se fosse o único que tivesse direito de se preocupar, como se proteger fosse o seu dever particular! Eu me preocupo e protejo quem amo e com você não é diferente! — gritei de volta, sobressaltando-o. — Vou me arriscar e me machucar quantas vezes for necessário, vou vigiá-lo e me certificar que está bem e quando precisar estarei ao seu lado... porque esse é o único lugar que aceito estar.
A resposta o desestabilizou, contudo não trouxe um efeito positivo. Passamos a noite numa pensão simples dividindo o mesmo quarto, por opção dele, e um silêncio que doía os ouvidos. Foi uma madrugada de troca de olhares até o primeiro raio de sol nos cegar e Itachi determinar a hora da partida.
Eu não ouvi sua voz durante os dez primeiros quilômetros que corremos. Itachi não se pronunciou sobre o ritmo ou rota, apenas seguiu a frente numa velocidade confortável para mim e indicou através do trajeto iniciado que avançaríamos até a fronteira na parte sudeste do País do Pântano.
— Faremos uma parada no País das Fontes Termais.
— Não há necessidade — retruquei, logo percebendo que ele não havia me dado a opção de discordar. — Isso é uma ordem?
— Sim.
— Pois você acabou de ganhar um grande problema!
Nós discutimos de novo. Itachi falou menos dessa vez, com sentenças curtas e secas. Eu cuspi tudo sem pensar nas consequências.
Fitei-o marcar a areia com suas pegadas desorientadas, perguntando-me se ele havia notado que desenhara o símbolo do infinito com elas. Por minha teimosia, nós pernoitaríamos ao relento e Itachi parecia esperar a minha boa vontade de dormir. Uma onda chegou devagar molhando seus pés, e ele fechou os olhos apreciando a sensação, abrindo-os logo depois, surpreso por uma segunda alcançar a metade de suas pernas.
— Está com raiva? — disse ao me aproximar.
— Não.
— Eu exagerei... e lhe dei uma dor de cabeça ao me recusar a dormir na pensão. Desculpe.
— Tudo bem.
— Então é isso, estamos felizes de novo? — questionei depois de esperar algum tempo. — Não tem nada a dizer sobre nossa briga? “Tudo bem” é muito vago, esconde um monte de coisas.
Itachi lançou um longo olhar para o oceano e quando eu já havia desistido de esperar pela resposta, presenteou-me:
— Eu errei ao me dirigir a você como capitão, era óbvio que isso não daria certo! Agi pelo hábito, sem pensar se era a melhor forma e isso enfraqueceu nossa comunicação. Mas o que de fato a arruinou foi minha postura distante.
— Pensei que estávamos falando sobre nosso relacionamento, mas você respondeu sobre a missão.
Ele apertou os lábios discretamente, os olhos procuraram algo entre os arbustos enquanto a mão direita se fechou devagar.
— Ninjas correm riscos em missões, é comum e inevitável, mas eu não consegui encarar dessa forma. Era inadmissível juntar em pensamento, perigo e você... Não estou tentando justificar meus erros. Fui estúpido no momento em que você estava frágil, eu não tinha o direito... Desculpe.
— Não confia em minhas habilidades?
— Confio, conheço-as e sei que vai abusar de sua resistência física acima do normal.
— Nisso você tem razão! — Fiz uma careta. — Mas precisa se acostumar a me ver fora do seu potinho de proteção.
— Não é tão fácil...
Eu o teria recriminado se não tivesse notado a sinceridade pesada em sua resposta. Soava uma confissão custosa de ser feita, porém necessária, moldava suas feições com traços de embaraço e desgosto, e mostrava um Itachi que preferia se manter na sombra do prodígio.
— Acho que chega de discussões, né? Já brigamos pelo mês inteiro. — Abri um sorriso, e ele o refletiu discreto.
Encaixei-me no seu abraço, aproveitando a paz que só existia ali. O beijo veio em seguida. Com sabor de saudade, suave e quente numa mistura perfeita, estendendo-se na mão sobre meu quadril, carinhosa e firme, demonstrando que o único caminho a ser tomado era o do corpo dele. Arrepiando-me com os dedos enroscados em meu cabelo, puxando os fios na intensidade que me desprendia do resto do mundo.
— Quero você — segredei inebriada.
O desejo se acumulava a mais tempo do que me lembrava, povoando fantasias e exigindo de mim o esforço inútil de afastá-lo enquanto lutava para não torná-lo explícito nos menores gestos. A certeza era irrefutável, gritava em minhas veias como se questionasse o que eu esperava. O receio, inegável. Eu pouco sabia sobre o que estava prestes a fazer.
A surpresa no rosto de Itachi foi menor do que imaginava, também durou menos. Não foi preciso um minuto para que ele reagisse a minha fala. Um novo beijo brincou com meus lábios e a língua dele tomou para si meus suspiros.
Tornamos a areia nossa cama e o céu nosso lençol. Senti a vergonha me inundar quando ele contemplou minha nudez, o olhar sereno brilhava como as estrelas, cheio de nuances que não pude compreender. O vento gelado fez eu me retrair, mas logo deixei de percebê-lo para mergulhar no contato do peito Itachi em meus seios.
Mordi seu ombro com força quando a dor veio e sua reação pareceu a de alguém que quase engasgara de susto. Procurei um modo de esconder meu rosto, tentando pensar numa desculpa que não precisei. Ele se retirou aflito, um bolo de perguntas deixou sua garganta de repente, deixando-me confusa sobre qual deveria responder primeiro.
— Você também está nervoso...
Itachi não se pronunciou, porém as batidas de seu coração falaram por ele, pareciam querer rasgar a pele assim como as minhas.
Perdemos a noção das horas em nosso compasso desajeitado, aprendendo a nos encaixar e explorando o corpo um do outro das formas que saciavam nossas vontades, secando a última gota de insegurança nas sensações que nadavam em nossos músculos e desconcertavam nossos sentidos...
As garras do remorso brincavam com meu peito, perfurando diversas vezes a mesma ferida, arranhando sua borda e inflamando a certeza de que eu merecia tudo aquilo, o choro preso na garganta forçava a saída, e eu sentia doer a cada tentativa de engoli-lo, apesar disso, não conseguia deixar o jardim. Os minutos se empurravam e o vento soprava novas direções com frequência como um sinal de que eu deveria seguir alguma, no entanto a única atitude que conseguia tomar era a de permanecer naquele banco lamentando e aceitando todas as pedras que a vida resolveu colocar em minhas costas.
Puxei o gorro para baixo ao perceber que alguém se aproximava, não precisava de plateia, muito menos ser reconhecida. Por isso vesti preto e afanei a touca de Naruto: para circular livremente por Konoha sem olhares questionadores ou surpresos, para caminhar pelo distrito Uchiha feito um fantasma arrastando suas correntes, remoendo as lembranças e o amor que destruí, mas acima disso, porque a cor simbolizava o meu estado de espírito.
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