C.A.S.U. [Em Revisão]
15 Primeira voz: Corações que transbordam sob a chuva
Notas iniciais
“A alguém como você que se foi: adeus, adeus, adeus
É o que quero dizer, mas por que não posso? Por quê?
Alguém como você, não quero voltar a ver por toda a eternidade
Posso dizer, mas por que não penso? Por quê?”
Meu interior se revolveu enquanto caminhava para a entrada do distrito. Não acreditava que Kaoru se contentaria com nosso diálogo de cinco minutos, contudo não esperava que ela viesse me procurar num espaço de tempo tão curto quanto o de uma respiração. Tentei ignorá-la e finalizar o mínimo trajeto que me livraria de sua presença, porém sua reação me deteve no exato instante em que passei perante ela.
— Eu já estava indo! — justificou-se, ficando de pé.
— Não sou o dono do lugar.
— É quase como se fosse... Desculpe, eu não deveria estar aqui.
O olhar e a voz se uniram num traço débil e contido, transformando a explosão de outrora num arrependimento sem sentido e aumentando a desconfiança quando esquivou seus olhos de minha análise. Contei nos dedos o tempo que ela permaneceu diante de mim sem mostrar desconforto, vendo-a se afastar em seguida a passos lentos que pareciam pesados ao tocar o chão.
Eles cessaram de imediato quando a chamei.
— Ka... — A partícula saltou atrevida de minha boca, puxando meus pensamentos para o motivo de tê-la pronunciado. Dispersei-os rapidamente, voltando ao foco. — O que aconteceu?
Talvez fosse uma preocupação sem motivo, resquício da época em que eu a cercava de cuidados e a tinha como um cristal, contudo a razão perdia força a cada segundo de silêncio que antecedia a resposta de Kaoru e a sensação de que havia algo errado aumentava, calando as dúvidas sobre a possibilidade de minha ótica estar distorcida.
— Nada — respondeu baixo.
— Eu lhe conheço muito bem, sei que está mentindo.
— Faz dois anos que não me vê como pode afirmar isso?!
— Sinto que você ainda é a mesma pessoa... — A sinceridade se adiantou a prudência, e eu me condenei por isto. De igual modo, condenei-me por perceber os olhos agitados de Kaoru e a força com que seus lábios se apertavam.
— Queria poder dizer que é verdade... — Fitou as mãos. — Queria muito...
Uma flecha de dor me atingiu e a máscara de indiferença, que teimava em segurar caso fosse necessário, estilhaçou em incontáveis pedaços. Levantei o gorro, deixando suas sobrancelhas livres, assustando-a quando meu polegar alinhou os fios instintivamente.
— Para mim, continua sendo... Diga o que está acontecendo com você.
— Eu posso lidar sozinha. — A voz saiu fraca, quase incapaz de terminar a frase. — Não se preocupe.
O silêncio se acomodou entre nós fomentando mais perguntas, que se acumulavam em minha mente e inquietavam meu coração. Não deveria ser importante saber o que se passava com ela, não deveria me incomodar seu rosto abatido e a afirmação de que não precisava de mim.
Kaoru elevou o olhar ao céu, e eu o acompanhei notando a fina garoa que começava a cair. Contra a luz era possível ver as gotas descendo em vertical como se fossem partículas de poeira, flutuando até que não pudessem mais ser vistas.
— É melhor você ir para casa, vai ficar resfriado se pegar chuva.
Perdi a capacidade de falar por um instante. Aquela cena espelhava outras do passado, uma repetição que se dava na entonação e no modo que pronunciava as palavras, alinhando-as numa única sentença que parecia conter uma ideia irrefutável, porém era apenas a porta de escape de uma conversa que Kaoru não queria levar adiante.
— Está fugindo.
— Por que eu faria isso?
— É o que sempre faz quando quer esconder algo de mim. Evita minha presença, muda o rumo da conversa, não me encara...
Kaoru cravou os olhos em mim por orgulho, mas eles logo esmoreceram num sentimento que não consegui compreender. Havia nela uma alternância de fragilidade e força que me confundia.
— Não é uma boa hora para conversarmos. O que precisamos dizer pode ser dito outro dia.
— Ou quando você achar que eu esqueci. Mais dois anos? — questionei, estranhando minha ironia. O comportamento dela me afetava pela falta da verdade e por razões que eu preferia manter segredo de mim mesmo. — Não vou esperar sua boa vontade.
— Boa vontade?! Acha que não tenho motivos para protelar a conversa? Que não tive para ficar longe por tanto tempo? Eu não saí de Konoha a passeio!
— E por que saiu?... Tenho o direito de saber.
Ela fechou as mãos com força. Seu pé ensaiou recuar um passo, mas desistiu. Encarou-me séria por um instante e soltou um suspiro profundo.
— Eu fui às ruínas de Uzushio.
— Você nunca me disse que tinha interesse no passado do seu clã — rebati tentando conter a surpresa.
— Nem a você nem a ninguém. — Um novo suspiro deixou seus lábios, e ela se aproximou. — Começou com uma curiosidade boba, depois um pensamento constante e quando vi era uma necessidade. Eu me perguntava como era o lugar onde meus pais viveram suas infâncias, tentava imaginar como seriam nossas vidas se o clã não tivesse sido destruído... Mamãe teria se curado e papai não teria morrido daquela forma, não viveríamos de vila em vila, não temeríamos virar alvo por causa de nossos sobrenomes, não seríamos como animais errantes que se desprenderam de seus bandos... — Fitou a chuva. — Eu queria ver o que tiraram de mim, respirar o ar do meu verdadeiro lar, sonhar com uma realidade que jamais acontecerá... Acho que isso não faz o menor sentido para você. — Cravou seus olhos questionadores nos meus. — Sabe o que é um clã. Itachi? É uma grande família que abriga outras menores. São os laços mais importantes fora de nossa casa. Eu queria ter vivido isso...
— Por que não me contou antes? Eu a apoiaria.
— Por que minha convicção se desmancharia. — Exibiu um sorriso amargo. — Se lhe dissesse, ou a qualquer outra pessoa, mesmo que ouvisse um incentivo, eu me sentiria ingrata por tudo que recebi desde que cheguei aqui. Não só por esse sentimento mas também pelo que sinto por minha família, amigos e... — Completou a frase ao olhar para mim. — Se Naruto me pedisse para ficar, Kushina sugerisse adiar, Minato tentasse entender meus motivos... Todas as hipóteses eram um golpe em minha certeza.
— Isso não justifica ter partido sem dizer uma palavra.
— Eu tentei, mas parece que não saiu como planejado.
— O pedaço de papel... Você me deixou um bilhete?
— Não importa, já deu tudo errado mesmo... Pelo menos agora, sabe por que fui embora daquele jeito.
— Não deixou nos lugares de costume... A quem entregou?
Era impossível ignorar a conclusão e a raiva que se formava com ela. Anos desejando uma resposta que estava ao meu alcance, ocultada pelas mãos de uma pessoa fria o suficiente para me negá-la.
— Diga, Kaoru!
— Não — pronunciou austera. — É passado e não faz sentido remexer nele. Não irá mudar nossa realidade.
— Teria mudado! Entende isso?!
— Eu sei! — gritou e num murmúrio trêmulo repetiu. — Eu sei...
A chuva engrossou, pintando o cenário com sua cor e preenchendo o ambiente com seu som. Permanecemos imóveis, incapazes de exprimir uma sílaba e demonstrar as emoções que transbordavam em nossos olhos como se soubéssemos que tínhamos nos perdido um do outro. E não haveria mais volta.
Fitei as gotas escorrendo por seu rosto. Elas deslizavam da testa até se desprender na ponta do nariz, algumas se acumulavam nos cílios, caindo quando se tornavam pesadas demais, outras chegavam aos seus lábios, inundando-os de um brilho úmido que os destacava sob a luz da lâmpada.
Então, eu perdi a razão. E foi como o primeiro raio de sol depois de um rigoroso inverno. Senti o contraste do calor dela com a chuva gelada, que se misturou ao beijo intensificando o sabor de sua boca. Continuava delicada e voraz, tomando de mim o que queria, assim como suas mãos, explorando meu corpo a seu bel-prazer. As roupas molhadas nos favoreciam com a sensação de que pouco havia entre nós e a aproveitamos com a sede que possuíamos.
Parei um instante para ver seus cabelos grudados no rosto. Eles nunca deveriam ficar escondidos. Eram um rio de fogo que eu gostava de me queimar. Seus olhos me observavam incrédulos, lindos naquele turbilhão de emoções que sussurrou um “eu te amo” com a voz fina de quem poderia chorar a qualquer momento. Kaoru ainda era a mesma mulher: tempestuosa e doce, dona de uma mistura venenosa a qual pensei estar imune, mas descobri continuar a beber com satisfação.
— Eu também.
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