C.A.S.U. [Em Revisão]

16 Primeira voz: Um abrigo no peito do traidor


Notas iniciais
Yo! Esse capítulo massacrou meu coração. Socorro! O título é uma adaptação de um trecho da música do Cazuza - Faz parte do meu show Agradecimentos: — a Leifa por ter favoritado e comentado ♥ — a Alice e os demais que colocaram nos acompanhamentos ♥ — a Evelin por... tudo e mais um pouco? rs Música: Por enquanto - Cássia Eller ( https://www.youtube.com/watch?v=9Nrt58bAXlM )

“Mudaram as estações, nada mudou,
Mas eu sei que alguma coisa aconteceu
Tá tudo assim, tão diferente.
Mas nada vai conseguir mudar o que ficou
Quando penso em alguém só penso em você
E aí, então, estamos bem
Mesmo com tantos motivos pra deixar tudo como está
Nem desistir, nem tentar.”

A água que escorria do meu corpo ensopava o carpete vermelho da cozinha. Parado na porta, meus olhos varriam o lugar enquanto esperava. Tudo igual, como se não tivesse sido abandonado por anos: a mesa, grande demais para uma só pessoa, com o brilho de um verniz recente, a pia limpa servindo de descanso para uma tigela preta e uma xícara azul, a cortina de maçãs verdes que cobria parte do vidro não mais rachado.

Fui tirado de minha observação pelo retorno dela, porém as perguntas continuaram nascendo e crescendo em diversas conclusões.

— Kushina manteve a casa em boas condições. — Kaoru disse, estendendo uma pilha de toalhas. — Não encontrei roupas que lhe servissem.

Peguei a primeira e comecei a enxugar o cabelo. O frescor provocado pela chuva tinha ido embora, deixando o frio impregnar minha pele. Por sorte, um calor agradável se concentrava no interior da casa, no entanto ele me provocou um longo arrepio e a sensação de que meus músculos se esforçavam para não tremer.

Kaoru circundou meu pescoço, cobrindo meus ombros com outra e pressionou a última contra vários pontos em meu peito até interromper o gesto e me encarar. Seus dedos dobraram sobre a toalha, prendendo junto minha camisa e, com o olhar de dúvida, ela pronunciou num sopro:

— Acho que pode fazer isso sozinho... — Sorriu sem vontade. — Vou preparar algo quente para você. Não quero que fique resfriado por minha causa.

— Isso não me importa.

— A mim, sim — rebateu séria e suave, colocando a tolha sobre a cadeira e pegando uma chaleira. — Além disso, é possível dizer muita coisa enquanto se espera a água ferver.

O intervalo de silêncio foi mínimo. Tão logo Kaoru terminou de acender o fogo, sentou sobre a mesa e fitou a parede. Piscou devagar, chamou-me com os olhos e indicou onde me queria.

Encostei-me à pia, tendo o cuidado de jogar meu cabelo para frente e percebi seu lábio repuxar em resposta a minha atitude.

— O início de uma história é sempre a parte mais difícil... — divagou olhando para o chão, suspirou apertando a madeira e balançou a cabeça. — Não vou conseguir contar na sequência correta.

— Comece pelo quiser.

Ela se concentrou em meu rosto, e um minuto pingou suas gotas sobre a ansiedade que me ameaçava.

— Muitas coisas aconteceram, por isso demorei tanto... Já sentiu como se o que você é hoje fosse baseado nas escolhas dos outros? Que você só andou pelo caminho que colocaram diante dos seus pés?... — Pausou um instante e num tom mais baixo, continuou: — Eu vim para Konoha por ordem da minha mãe. Ela escolheu o lugar que eu iria morar, quem cuidaria de mim. O que tenho hoje é o resultado do que ela desenhou para mim... Eu queria experimentar viver das minhas escolhas.

— E não vivia antes? Desde que chegou aqui, não foi você quem determinou seus passos? Minato e Kushina nunca conseguiram lhe impor coisa alguma.

Ela se encolheu.

— Eu entendo... — amenizei. Não poderia fazê-la calar agora.

A chaleira apitou, e Kaoru deslizou da mesa para atender seu chamado. O aroma de hortência impregnou o ambiente e a fumaça me alcançou com seu calor reconfortante. Fiquei com a mão no ar por um instante observando a boca de Kaoru e o modo que se inflava devagar para expulsar a brisa que tremulava o chá, inteiramente concentrada naquele gesto simples. Talvez fugindo do meu olhar, talvez pensando em como continuar a conversa.

— Não tinha enxergado isso até estar longe de Konoha... — Esticou-me a xícara com o cuidado de encaixá-la em meus dedos. — Muitas coisas ficaram claras quando as vi de fora. Inclusive o tamanho do meu erro. — Encheu a sua e acrescentou o açúcar, devagar e metódica de uma forma que não me lembrava. — Mas creio que você não está interessado nisso, e sim no que andei fazendo durante dois anos... — Retornou ao seu lugar com um movimento suave, quase calculado, ajeitando-se sobre a madeira. — Se é que isso lhe interessa.

Espelhei Kaoru, tomando um pouco do chá no mesmo ritmo, permitindo ao silêncio se espalhar. Ela era uma estátua perfeita segurando a porcelana com as duas mãos e os olhos perdidos nos meus pés. A expressão vazia parecia fruto da distração, mas soprava um segredo indecifrável.

— Sim — pronunciei, chamando sua atenção. O modo que me encarou foi como se eu a tivesse tirado de um abismo. Era um olhar que doía. — Foi isso que me trouxe aqui, e eu vim para ouvi-la, do início ao fim.

A surpresa acendeu em seu rosto, mas logo cedeu espaço a uma densa serenidade e as palavras voltaram a sua boca aos poucos.

— Demorei uns meses em Uzushio, depois segui para Suna. Estava bem diferente. Não lembro quanto tempo fiquei lá... Então Takumi, Ame, Iwa... Nela, eu soube sobre a ameaça de sequestro ao Naruto e busquei o máximo de informações para repassar ao Minato. Por último Kusa, onde fiquei até encontrar o Time Dez...

Ela se calou como se esperasse as perguntas, e eu hesitei selecionando as principais. Tomei mais um gole do chá, dividido entre a importância de cada resposta que obteria. Kaoru daria a que eu quisesse, contudo não sabia qual mais desejava.

— Estranho seu irmão correr perigo e você se contentar em avisar ao Minato — pronunciei, tentando soar despretensioso.

— Eu estava lá.

A afirmativa fez a xícara escorregar por meus dedos igual à sensação que se apoderou de mim ao saber que a tive tão perto naquela época. Num gesto rápido, evitei que se estilhaçasse no chão, entretanto não obtive o mesmo sucesso com meus pensamentos.

— Impossível... — murmurei. — Eu teria percebido. Teria sentido seu chakra mesmo a dezenas de metros de distância.

— Eu o ocultei. Naruto só notou porque estava no modo sennin.

Não indaguei o óbvio, preferi conter o sentimento que crescia em mim.

— Não estava preparada para voltar... — Afundou os dentes no lábio, repuxando-o com força. — Tinha medo... Só de pensar na sua reação, Kushina, Minato... — balançou a cabeça em negativa. — Naruto me chamou de covarde, e eu engoli. Ele quase me arrastou de volta, mas insisti que não era a hora... E não era mesmo, já havia passado.

— Você poderia... — Calei a estupidez que me veio à mente.

— Nada me doeu mais do que vê-lo naquele dia.

As palavras secaram em minha garganta. Um bolo de perguntas se acumulou em minha boca, esperando o menor deslize para saltar dela e abrir a porta para as afirmativas que formigavam em minha língua.

— Entenderei se não quiser mais me ouvir... — Ela murmurou.

— Você pediu segredo ao Naruto.

— Sim.

Eu duvidava se deveria continuar a conversa. Havia obtido a resposta que tanto quis e me aprofundar nas descobertas fatalmente me levaria a um tesouro do qual me arrependeria de ter encontrado, porém a curiosidade pulsava em mim com a esperança de esbarrar em algo que dissesse o contrário.

Suspirei e me servi de outra xícara.

A chuva se tornou a melodia de fundo do passeio pela jornada dela.

Kaoru contava suas histórias com detalhes que me faziam imaginar seus passos pelo mundo e o tom de sua voz permitia notar as emoções que lhe dominaram em cada época de sua aventura: o entusiasmo com a liberdade, o início da solidão, o abraço do remorso... Era como se o vento folheasse as páginas de um livro.

— Nossa, eu estou monopolizando a conversa! — Sorriu com os olhos apertados. — Você deve estar enjoado de me escutar.

— Nem um pouco.

Ela me fitou, dissolvendo o sorriso em expectativa, sua mão alcançou meu cabelo, tirando os fios do meu rosto e repousando nele. Entreabriu os lábios, apertou-os por um segundo e sussurrou devagar:

— Desculpe por tudo de ruim que eu lhe fiz sentir... Poderia pedir desculpas por um monte de outras coisas, mas elas estão dentro deste pedido...

Kaoru não esperou uma resposta como se soubesse que levaria tempo para obtê-la e se afastou devagar levando o toque que busquei no instante seguinte.

Beijei seus dedos das pontas aos nós e a trouxe para meus braços, descansei meu nariz na curva de seu pescoço fechando os olhos para o mundo, sentindo uma onda de calma se espalhar por meu corpo enquanto acariciava seus fios ruivos. Era uma mistura de vazio e preenchimento, leveza e densidade que se derramava em meu interior.

— Senti tanta falta disso... parece que passei uma vida longe de você — pronunciou com a boca colada ao meu peito, depois repousou o queixo nele para me encarar. — Cuidou-se enquanto eu estava fora? — questionou, esperando eu assentir. — Mentiroso. Sua cara não me engana. O que andou fazendo sem mim? Aposto que nada divertido!

Permaneci observando sua expressão dividida entre a melancolia e a ansiedade disfarçada pelo jeito brincalhão. Era notável a busca pela intimidade que foi fragmentada com a distância e os anos.

Kaoru percebeu meu olhar, endireitando-se. De súbito, desfez-se do abraço com um movimento penoso e empurrou a saliva para o fundo da garganta. Encostou-se à mesa fitando o chão e depois se impulsionou para cima dela. Balançou as pernas lentamente, mal as tirando do lugar, parecia pensar no que dizer. Preferiu espalhar o silêncio entre nós.

— Fiz muitas missões — comentei.

— E nas folgas?

— Descansava o máximo que podia.

Ela se encolheu, abaixando a cabeça.

— Minha rotina sempre foi tediosa, sabe disso. Era você quem a quebrava.

Seus olhos me fitaram com uma aflição furiosa, agitados, procuraram o que eu não sabia explicar, minaram de lágrimas que se seguravam para não rolar pela face tristonha.

— Você costumava ficar feliz quando eu falava essas coisas.

— Não posso mais... — respondeu com a voz embargada. — Eu não sou aquela Kaoru e você não é aquele Itachi. Tudo ficou para trás... Destruído quando fui embora, morto pela minha demora, enterrado agora que...

O choro rompeu com força, e ela segurou o soluço pressionando a mão contra a boca. Tentou fugir da minha presença, mas foi presa nos meus braços outra vez.

— Não se precipite. Estamos aqui, não estamos? O que poderia dar errado? — sussurrei em seu ouvido, apertando-a contra mim.

Algumas coisas nasciam para dar errado, irremediável era o seu destino. Outras jamais deveriam ter começado, certo era que se desgastariam com o passar do tempo. Havia ainda as que insistiam em romper com vida. Iniciavam cambaleantes, firmando seus pés nos espinhos, cicatrizavam e seguiam a despeito das pedras no caminho... Seguramente éramos nós.

Notas finais
Gente, gente!!!!!! Socorro!! Que eu estou me desmanchando junto com os dois! Quero ouvir vocês, hein! Bjs!♥